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Sobre o Autor
Ivan Godoy,
jornalista, nasceu no Rio de Janeiro em 1952, mas vive em
Brasília desde 1980, onde é editor da Rádio Senado. Trabalhou
anteriormente em emissoras de rádio, jornais e agências de
notícias, assim como na Unesco e no Comitê Internacional da
Cruz Vermelha.
Especialista em questões internacionais, realizou reportagens
em mais de quarenta países da América, Europa, África do
Norte e Oriente Médio. Vale destacar a cobertura do conflito
sandinistas-contras (Nicarágua) e das guerras Irã-Iraque, da
Bósnia e Peru-Equador.
É autor de Glasnost e perestroika – a era Gorbatchov, Bulgária
– autogestão e socialismo e O socialismo na terra de
Marx – RDA hoje, publicados pela Editora Alfa-Omega.
Pedidos
EDITORA ALFA-OMEGA LTDA.
Rua Lisboa, 489 - CEP 05413-000 - São Paulo - SP
Tel. (0xx11) 3062-6400 - Fax (0xx11) 3083-0746
Sumário:
Sobre
o Autor, 7
Introdução
Por que a Argélia?, 9
Capítulo 1
Argel, a branca, 11
Capítulo 2
Escargots e fenícios, 15
Capítulo 3
A riqueza do deserto, 19
Capítulo 4
Os reis da Numídia, 23
Capítulo 5
A mulher argelina, 27
Capítulo 6
A África romana, 37
Capítulo 7
As pontes de Constantine, 41
Capítulo 8
Nas ruelas da Casbah, 49
Capítulo 9
Os princípios do Islã, 55
Capítulo 10
Corsários e turcos, 59
Capítulo 11
A religião na Argélia, 63
Capítulo 12
A invasão francesa, 67
Capítulo 13
Saúde e tuaregues, 73
Capítulo 14
Sob o jugo da França, 77
Capítulo 15
Cavalos e tâmaras, 85
Capítulo 16
A guerra de independência, 89
Capítulo 17
Oran, a cidade dos leões, 95
Capítulo 18
A construção de um país, 99
Capítulo 19
A Meca da revolução, 105
Capítulo 20
Enfrentando o terrorismo, 113
Capítulo 21
O dia em que a Argélia parou, 125
Capítulo 22
O primeiro romance do mundo, 133
Capítulo 23
A nova economia, 141
Capítulo 24
Um cinema de combate, 147
Capítulo 25
Brasil e Argélia 153
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Argélia:
Tradição e Modernidade
Ivan Godoy
Este
livro faz uma radiografia do passado, presente e expectativas
futuras da Argélia
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Entrevista
com o autor
Pergunta:
Seu livro é uma reportagem, um ensaio ou um diário de
viagem?
Ivan
Godoy: Tem um pouco de cada gênero. É o produto de
muita pesquisa e de duas viagens à Argélia, que unidas
a dez visitas a outros países árabes -- sempre como
jornalista -- me deram as condições para entender um
pouco a mentalidade, a cultura e a sociedade desses
povos. Falei com muita gente, autoridades, políticos e
intelectuais, tanto do governo quanto da oposição,
acadêmicos e principalmente pessoas comuns, para poder
sentir o que pensam os argelinos do seu país e do
mundo. Visitei muitos lugares, de grandes cidades até
lugarejos em pleno Saara. Aliás, sobrevoei o deserto
numpequeno avião, o que me deu aquela sensação de
como os seres humanos somos pequenos diante da
imensidão da natureza. |
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Também
li muito sobre o país: livros, revistas, jornais, sites
na internet. Tudo foi facilitado pelo fato de os
argelinos serem bilíngües e boa parte dos jornais e
revistas serem publicados em francês. Assim, não tive
intermediários nos meus contatos, pude falar
diretamente com as pessoas sem tradutor, ler os jornais,
ouvir o rádio, assistir TV, o que deu uma idéia
bastante real do país. O resultado final é um livro
que não pretende ser acadêmico, mas transmite bastante
informação, de uma maneira direta, com uma linguagem
jornalística. Em resumo: não é chato, segundo quem
já o leu, até porque não fala apenas de política e
economia, mas mostra uma visão geral do país e do
povo, incluindo costumes, culinária, criação do
cavalo árabe, produção de tâmaras e uma atenção
especial ao esforço argelino para aumentar o nível
educacional da população etc.
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Pergunta:
Por quê você decidiu escrever sobre a
Argélia?
Ivan
Godoy: Em primeiro lugar, sempre me
incomodei pelo fato de muita gente dar opiniões
superficiais sobre o mundo árabe, baseadas em
preconceitos e lugares-comuns. As pessoas no
ocidente geralmente não sabem que apenas 20%
dos islâmicos são árabes. A maior nação
islâmica é a Indonésia, com mais de 200
milhões de habitantes e que não é árabe.
Outros exemplos são o Paquistão, a própria
Índia, com uma importante minoria muçulmana e
o Irã. Eu estava interessado em mostrar a
realidade de um país islâmico moderno e laico,
pois considero que existe uma visão errada de
que estas nações constituem um bloco
monolítico de regimes teocráticos e/ou
ditaduras retrógradas. Há diferenças
marcantes dentro do mundo islâmico, numa
gradação que vai desde o desaparecido regime
fanático dos talibãs, no Afeganistão, até a
Argélia atual. Ou seja, se há ditaduras e
monarquias absolutistas, também há democracias
ou pelo menos processos de evolução que
apontam para a democracia.
Pergunta:
Mas autores ocidentais falam de uma
incompatibilidade entre Islã e democracia. Que
você acha dessa tese?
Ivan
Godoy: O problema não é a religião, mas a
visão fundamentalista da religião. Se houvesse
um regime teocrático católico, por exemplo,
que aplicasse a Bíblia ao pé da letra, sem
levar em conta a época em que ela foi revelada
ou escrita, as mulheres não poderiam colocar os
pés fora do lar. Na minha opinião, um país
islâmico laico, em que o poder não esteja nas
mãos da hierarquia religiosa, pode
perfeitamente ter uma evolução para a
democracia. E aí surge outra questão: talvez
essa democracia não seja exatamente igual à
democracia como ela existe na Alemanha, na
Suécia ou nos Estados Unidos, mas um regime
democrático adaptado à realidade daquele
país. Também devo dizer que considero que
mudanças políticas impostas de fora e pela
força, como ocorre no Iraque, estão destinadas
ao fracasso. Cada país deve ter o direito a
evoluir de acordo com o seu próprio ritmo e
suas próprias realidades.
Pergunta:
Você qualificaria a Argélia de democracia?
Ivan
Godoy: Conheço bastante bem o mundo árabe.
Devo dizer que, no contexto desses países, a
Argélia está à vanguarda. Há uma diversidade
de partidos políticos, das mais variadas
tendências, representados no Congresso
bicameral. Nas eleições presidenciais
ocorridas neste ano (2004), houve seis
candidatos, desde um fundamentalista islâmico
até uma mulher, trotskista e atéia. O
presidente Abdelaziz Bouteflika foi reeleito
(será o seu segundo mandato) e as eleições
foram consideradas limpas pelos observadores
internacionais e por governos ocidentais,
inclusive pelo dos Estados Unidos. A imprensa
escrita goza de bastante liberdade, com vários
jornais de oposição, que criticam abertamente
o presidente e o governo. Já as emissoras de
rádio e tv são estatais, com uma visão
governista. Quanto aos sindicatos, pude
presenciar uma greve geral de dois dias que
paralisou o país, sem mortes nem repressão. E
o movimento era nitidamente de cunho político,
pedindo modificações na política econômica
governamental.
Pergunta:
E a situação da mulher?
Ivan
Godoy: Também neste aspecto o país está
na primeira linha, dentro do mundo árabe. No
aspecto político, as argelinas podem votar e
ser votadas. Há deputadas, senadoras,
ministras, juízas e oficiais das Forças
Armadas e da Polícia. Parte das mulheres usa um
lenço ou véu na cabeça, mas outras se vestem
à ocidental. Vestimentas semelhantes à burka
afegã não vi em lugar algum. Quanto à
atividade econômica, as mulheres podem gerir
seus próprios negócios. A Constituição
estabelece a igualdade entre homens e mulheres.
No entanto, é no âmbito familiar em que a
situação da mulher é ainda inferior. O
Código de Família tem influência do direito
islâmico e dá privilégios ao homem. No caso
da herança, por exemplo, a viúva tem que
dividi-la com os cunhados. O homem tem direito a
ter até quatro esposas e as mulheres, apenas um
marido. É verdade que não chegam a 1% da
população masculina os casos de homens casados
com mais de uma mulher, sendo por tanto um
costume em vias de extinção, até por motivos
econômicos. Mas de acordo com a ministra
encarregada da condição feminina, já está
sendo preparada uma revisão do Código de
Família, para retirar dele os artigos mais
negativos para as mulheres. O fato é que o
governo se preocupa em melhorar a situação da
mulher, mas esse é um processo que significa o
combate a tradições que vêm de séculos. Já
houve avanços significativos, mas ainda é
preciso novos passos. Devemos lembrar, nesse
sentido, que a mulher argelina teve uma
participação decisiva na Guerra de
Independência (1954-1962) e por isso sente-se
mais à vontade para exigir seus direitos
Pergunta:
O subtítulo "tradição e
modernidade" tem a ver com essa tensão
entre os costumes seculares e a necessária
modernização?
Ivan
Godoy: Exatamente. Os argelinos têm muito
orgulho de suas tradições árabes e berberes,
mas sabem que nem todas são positivas ou
correspondem à época atual, como vemos no caso
da condição feminina. Assim, vemos uma
disposição de modernizar o país, aproveitando
o melhor de suas tradições e costumes, mas
deixando para trás os que significam atraso e
intolerância. É um processo que provoca
tensão, com avanços e retrocessos, mas que
está em andamento.
Pergunta:
A história da Argélia está presente no livro?
Ivan
Godoy: Não só está como é essencial para
a compreensão do desenvolvimento atual do
país. A Argélia sempre foi uma encruzilhada de
civilizações. Por lá passaram os romanos --
se podemos chamar de passagem uma permanência
de 500 anos --, os fenícios, os vândalos, os
bizantinos, os turcos otomanos e os franceses.
Mas o núcleo da nação argelina é formado por
árabes e berberes. Procurei abordar a
influência de cada uma dessas civilizações,
inclusive falando de argelinos de séculos
passados que chegaram a influenciar o mundo,
como Santo Agostinho, o grande teólogo que
tanto influenciou a Igreja Católica, e o
escritor Apuleio, autor do mais antigo romance
que chegou completo aos tempos atuais:
Metamorfose ou O Asno de Ouro. Eles pertencem ao
período romano. Já na Argélia muçulmana,
devemos destacar o Emir Abdelkader, estadista,
chefe militar que enfrentou os invasores
franceses e autor de alguns dos melhores textos
sobre a religião islâmica. Após ser preso
pelos franceses e enviado para o exílio em
Damasco, conseguiu salvar a vida de milhares de
cristãos sírios, num gesto reconhecido pelo
próprio imperador da França, Napoleão III,
pela rainha Vitória e outros estadistas da
época, entre eles o nosso imperador Dom Pedro
II., que o visitou na capital da Síria.
Logicamente também dedico um capítulo à
Guerra da Argélia, uma das grandes epopéias do
século XX, quando um milhão e meio de
argelinos morreram para conquistar a
independência do país, após 132 anos de
domínio colonial francês. E falo igualmente do
apoio argelino à luta de outros povos africanos
contra o colonialismo, abordando inclusive a
presença de Ernesto "Che" Guevara na
Argélia.
Pergunta:
Quais são os principais problemas da Argélia
atual?
Ivan
Godoy: Um deles é econômico: os altos
índices de desemprego, um fenômeno que em
geral ocorre na África do Norte, agravado pelas
privatizações de empresas estatais ocorridas a
partir da década de 90. Devo esclarecer que
não se cogita privatizar a Sonatrach,
gigantesca estatal do petróleo e do gás, de
uma altíssima eficiência e que é a principal
fonte de divisas para o país. O outro problema
é a ação terrorista de grupos
fundamentalistas islâmicos, que teve seu ponto
culminante nos anos 90 e agora foi reduzida ao
mínimo, mas ainda incomoda nas áreas rurais e
nas estradas. Procuro não apenas explicar o que
levou ao surgimento desses grupos radicais, mas
também abordo a psicologia do terrorista
islâmico, sua visão do mundo, o que motiva sua
ação contra um país laico e progressista como
a Argélia.
Pergunta:
Qual é, em sua opinião, o público-alvo do seu
livro?
Ivan
Godoy: Em primeiro lugar, pessoas que querem
ter uma visão isenta e sem preconceitos de um
país árabe moderno. Quem gosta de história e
especialmente quer conhecer a importância da
Revolução Argelina no século XX também terá
muito a ganhar com o livro. Igualmente quem quer
conhecer costumes exóticos e saber mais o que
é o Islamismo encontrará informações de
utilidade. Ou seja, o público é amplo, pois Argélia
-- Tradição e Modernidade é uma obra
bastante diversificada. Assim, tive o cuidado de
colocar meu e-mail a disposição dos leitores
para esclarecer eventuais dúvidas e recomendar
outros livros e sites que lhes permitam
aprofundar mais nos temas de seu particular
interesse. E já venho recebendo comentários e
indagações de pessoas que leram o livro. |
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Porque
a Argélia?
Ainda
criança, pude ler o livro Tartarin de Tarascon,
de Alphonse Daudet. Romance satírico e
clássico da literatura francesa do século XIX,
conta as aventuras na Argélia – então
colônia da França – de Tartarin, uma figura
cômica que foi até o Norte da África para
provar aos amigos sua disposição de caçar
leões. É uma obra de fácil leitura e que na
época me agradou pelo seu lado exótico. Mais
tarde, pude compreender que o livro mostrava uma
visão preconceituosa e xenófoba da cultura
árabe.
O
tempo passou e comecei a conhecer outra
Argélia, a que perdeu um milhão e meio de
filhos para obter a independência, a que ajudou
outros países da África a se libertarem do
colonialismo, a que deu abrigo aos democratas
brasileiros, perseguidos pelo regime militar. E
também a que está resistindo com sucesso à
pior ofensiva terrorista da história, reduzindo
ao mínimo a ação dos grupos inspirados na Al
Qaeda de Osama Bin Laden.
Mesmo
com essas dificuldades políticas, catástrofes
naturais como os terremotos de 1980 e de 2003 e
diversos problemas sociais, os argelinos
conseguiram construir um país moderno, com os
jornais e sindicatos mais livres do mundo
árabe, avanços importantes nos direitos da
mulher, uma ativa vida política e uma economia
poderosa, baseada no petróleo e no gás.
A
guerra no Iraque, o conflito Israel-Palestina, a
ação do terrorismo fundamentalista, tudo isso
tem aumentado o interesse pelos países árabes
e, em geral, pelo mundo islâmico. Mas essa
curiosidade vem acompanhada de preconceitos,
provocados pela falta de informação, pondo num
mesmo saco nações como o Afeganistão e a
Argélia.
Este
livro procura desfazer equívocos e dar uma
visão panorâmica da realidade argelina,
inclusive da situação da mulher, da prática
da religião islâmica, da importância do
deserto, das atrações turísticas e das
transformações que a economia vem
experimentando, tornando-se mais aberta e
competitiva.
Ao
mesmo tempo, aborda a rica história e cultura
da Argélia, uma verdadeira encruzilhada de
civilizações, por onde passaram fenícios,
romanos, vândalos, bizantinos e otomanos, e que
conseguiu manter-se fiel às suas raízes
árabes e berberes, apesar dos 132 anos de
colonialismo francês.
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Fonte: EDITORA ALFA-OMEGA LTDA
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