POR ABRAHAM B. YEHOSHUA

Escritor israelense, veterano ativista do PAZ AGORA, foi um dos signatários da Declaração Conjunta Israelense-Palestina e negociador da Iniciativa de Genebra.

 

Identidade Nacional em Israel

[ por ABRAHAM B. YEHOSHUA, publicado no "La Vanguardia" em 20/06/2004 ]

- traduzido pela Lista PAZ AGORA/BR

Recentemente, tive a oportunidade de acompanhar dois acontecimentos aparentemente contraditórios entre si, mas que analisados em profundidade se percebe que derivam de uma mesma raiz. No dia em que se recordava os caídos nas guerras de Israel se pôde ver nas telas da TV judeus ultra-ortodoxos, estudantes de yeshivot, que abertamente se negavam a ficar parados em silêncio durante os dois minutos em que soou a sirene em memória dos tombados.

Sua negativa a honrar a memória dos soldados caídos não é um sinal de desprezo pelos mortos, mas uma maneira simbólica de expressar uma postura firme e rotunda: não é o Estado nacional judeu quem dita como hão de ser nossas cerimônias e ritos, mas a Torá, unicamente a Torá. E como guardar silêncio durante o toque de uma sirene não é uma forma recolhida dos textos religiosos, não vamos respeita-la. Continuamos andando enquanto toca a sirene para mostrar com toda clareza que nós acatamos apenas e exclusivamente o que dita a Torá e não por nenhum Estado criados pelos homens.

Por outro lado, vários dias depois, numerosos colonos religiosos se manifestavam em uma das colinas da Samária (Cisjordânia Setentrional) e tentavam impedir que o exército israelense derrubasse um edifício desabitado e construído como posto militar. Com entusiasmo e grande devoção, os colonos hasteavam a bandeira do Estado de Israel e se aferravam à terra, para mostrar sua profunda identificação com o que acreditam que é a essência de sua identidade nacional: a terra.

Aparentemente, parecem fatos contraditórios. Por um lado, um rechaço descarado a participar num ato nacional fundamental de recordação coletiva dos caídos, e por outros um fervoroso nacionalismo, relacionado com a questão clássica em qualquer movimento nacionalista: o caráter sagrado e supremo da terra. E então se pergunta: tanto uns quanto outros são religiosos, tanto uns quanto outros acreditam na Torá. Como é possível que, partindo da mesma Torá, dos mesmos textos talmúdicos e mishnaicos, das mesmas orações e preceitos religiosos, se chega a posturas tão opostas e, ademais, não em torno de um assunto político, mas sobre as questões mais importantes e básicas do país?

Mas quando se analisa com mais profundidade, descobre-se que existe uma clara relação entre a postura dos ultra-ortodoxos anti-nacionalistas e a dos religiosos nacionalistas, que parecem ser o ápice do nacionalismo. Ambas surgem do mesmo princípio: Israel existe na Torá, mas uns e outros interpretam a Torá de forma diferente, segundo seus interesses. Em outras palavras, o nacionalismo para eles não tem sentido se não se rege pelas leis da Torá. E quem determina o que é o importante e fundamental na Torá? Nós e nossos rabinos. E se nós outorgamos um valor sagrado à Judéia (Cisjordânia Meridional), Samária e Gaza, sair dali não é simplesmente um erro político, mas uma transgressão religiosa, como o é para um ultra-ortodoxo manter-se parado e em silêncio enquanto toca a sirene.

Ao longo da História tem havido muitos conflitos entre a identidade nacional e a identidade religiosa, mas nunca um francês, um inglês, um turco ou um japonês disse alguma vez que para ser francês, há que ser católico; para ser inglês, tem que ser protestante; para ser turco, tem que ser muçulmano, para ser japonês, tem que ser budista. E isso pela simples razão de que o francês, o inglês, o turco e o japonês sabiam e sabem que existem católicos, protestantes, muçulmanos e budistas que pertencem a outras nações. E portanto sua religião, por mais importante e apreciada que seja para eles, não pode sintetizar nem definir o que significa e em que os compromete sua identidade nacional.

Sem dúvida, como a religião judia (a Torá) se dirige e materializa unicamente no povo judeu, existe a possibilidade de que o conceito de religião e de povo se confundam. E por isso, o princípio de que "Não há Israel sem Torá"  se converte para um judeu religioso numa norma de conduta, na qual a religião a priori está por cima de qualquer acordo nacional que se possa opor a seus princípios.

Mas a Torá pode ser interpretada de muitas formas, e não existe uma autoridade religiosa – como o Papa para os católicos – que estabeleça sua interpretação canônica. Cada um pode encontrar nela a interpretação que mais convenha à sua visão de mundo e a seus interesses econômicos, políticos e sociais. Portanto, não é de estranhar que estejamos condenados a estar metidos para sempre numa constante e forte tormenta de conflitos e enfrentamentos entre religião e nacionalidade, e com uma intensidade que não se dá em outros povos.

Imediatamente antes da destruição do Segundo Templo, o rabino Yochanan Ben Zacai saiu de uma Jerusalém dividida pelas disputas entre os fanáticos religiosos com suas visões proféticas sobre a rendição de Roma e entre os sadoceus nacionalistas que tratavam de evitar a rebelião, e com isso o que fizeram realmente foi fugir do problema. Depois em Iavne se estabeleceriam as bases da Torá da Diáspora, quer dizer, se criaria o mecanismo que permitiria que o judeu mantivesse sua identidade através de sua sinagoga errante por todo o mundo e, desta forma, escapar da realidade judia em sua totalidade, justo dessa realidade onde se produz o conflito entre religião e nacionalidade. Mas essa forma de sobrevivência da identidade conduziu ao final à catástrofe, e de Iavne e seus rabinos chegamos ao inferno do Holocausto.

E por isso, nesta ocasião não deve acontecer o mesmo: a Jerusalém, como nação e povo deve prevalecer sobre a Jerusalém como religião.

Quando vejo um judeu ortodoxo caminhando de forma descarada ante uma câmara de TV, enquanto soa a sirene em memória dos caídos, e ao lado pessoas paradas e em silêncio manifestam sua dor recordando aqueles que deram a vida por eles, compreendo o quão forte e arraigada está nele arraigada a Torá de Israel, ao ponto de suportar por ela o ódio e o desprezo de quem o olha e recusa participar em um ato de grande importância para a nação e o povo judeu, e tudo isso por querer ser fiel a uma concepção religiosa do mundo segundo sua própria interpretação.

E quanto vejo como empurram centenas de colonos religiosos para que saiam de umas rochas e tudo porque não querem sair de um prédio desabitado em uma colina, tenho claro que o que os leva a fazer isso não é nem um impulso racional nem um sentimento nacional, mas uma motivação puramente religiosa. No tema da evacuação dos assentamentos, a Torá de Israel lutará não só para cumprir um preceito e um princípio religiosos, mas por um lugar, por uns interesses econômicos e políticos e por uma visão determinada da Historia, e o irá fazer com toda a força de sua fé.

Muitos povos passaram por graves conflitos internos através dos quais se formou e consolidou sua identidade. O conflito que nos aguarda não é entre um plano de retirada unilateral e a idéia do Grande Israel, nem sobre se o terrorismo se reduzirá mantendo a ocupação ou, ao contrário, desconectando-se dos palestinos. O autêntico conflito é em realidade sobre a essência da identidade nacional e sua clara superioridade sobre a religiosa.

Israel existe como identidade nacional e o Estado de Israel fará aquilo que determine a maioria de seus cidadãos. Portanto, em vez de meter-se num ataúde e sair fugindo de Jerusalém como fez o rabino Yochanan Ben Zacai para começar a buscar, através da assimilação e a vida como minoria, a Iavne espiritual em Londres, Paris, Nova York ou Los Ángeles, o que se tem a fazer é ficar na Jerusalém concebida como entidade nacional e lutar com todos os meios que possui o Estado contra toda negação a acatar o aprovado pela maioria dos cidadãos.

Com todo meu coração, quero crer nas declarações dos líderes dos colonos quando afirmam que nunca um colono levantará a mão contra um soldado israelense. Mas não estou seguro de que no dia em que tenha que cumprir o decidido pelo Estado sejam capazes de controlar a todos seus homens. Quanto maior seja o temor da maioria frente à minoria oposta ao Estado, mais difícil e complexa será a batalha.

Assim, para que a evacuação seja menos traumática e dolorosa, tanto para uns quanto para outros, é necessário agir com determinação e decisão como se estivesse tratando de uma operação cirúrgica. E junto com as adequadas indenizações aos colonos e o respeito a sua dor, há que se armar de todos os mecanismos que oferece o Estado para manter-nos fortes na defesa de nossa identidade como nação e povo.

No processo de desconexão dos palestinos, não estamos lutando só para trazer a calma à região e possibilitar uma convivência pacífica, mas também para fundamentar a identidade nacional israelense.


Fonte: Lista PAZ AGORA/BR - http://groups.yahoo.com/group/pazagorabr
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