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Por JOSÉ
CARLOS VIRTUOSO Bacharel
em Comunicação Social/Jornalismo pela UFSC - Universidade
Federal de Santa Catarina, em 1986; acadêmico do Programa de
Mestrado em Ciências Ambientais da UNESC – Universidade do
Extremo Sul Catarinense; professor dos cursos de Engenharia
Ambiental e Tecnologia em Telecomunicações (Unesc/SATC) e
assessor de Comunicação da Unesc.
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Desenvolvimento,
Gestão Ambiental e Sustentabilidade: Compreendendo o Novo Paradigma
A utilização
racional dos recursos naturais, a partir da consciência
comprometida com a responsabilidade ambiental é um dos maiores
desafios da humanidade na atualidade. Neste contexto, um novo
paradigma está posto, o de buscar alternativas de produção que
minimizem os danos ao ambiente e permitam a renovação de seus
recursos. Surge nova
tendência que ajuda a criar um panorama que vem tendo efeito dominó,
a partir da concepção de instrumentos técnicos, políticos e
legais. A gestão ambiental surge como ferramenta que pode
contribuir com a transformação de cenário. Isto implica na mudança
comportamental com tomada de decisão e o desenvolvimento de
mecanismos, a fim de garantir a sustentabilidade nos processos
produtivos e, sobretudo, reservar às gerações futuras um ambiente
planetário que lhes propicie qualidade de vida e perspectiva de
futuro. A consciência individual é o ponto de partida às
transformações que garantirão um ambiente mais equilibrado e
harmonioso a todos.
Palavras-chave: Meio
ambiente, responsabilidade ambiental, gestão ambiental e
sustentabilidade.
1
Introdução
Ainda
é muito cedo para ambientalistas e cidadãos comuns, preocupadas
com os problemas ambientais em nível global, terem a convicção de
que definitivamente a humanidade está começando um período de
maior consciência no tocante ao uso dos recursos naturais. A idéia
de que o homem é o senhor da natureza e para com ela tudo pode, calçado
no antropocentrismo, está levando o planeta ao caos. Nossa casa,
como afirma Boff (1999), é um sistema de sistemas e superorganismo
de complexo equilíbrio, constituído ao longo de milhões e milhões
de anos. Por conta de um processo industrialista predador, em
desenvolvimento a partir dos dois últimos séculos, tal equilíbrio
está sendo colocado em xeque, de modo que a complexa cadeia está
prestes a romper-se. Desde o início do processo de industrialização,
no século XVIII, a população mundial cresceu oito vezes,
ampliando de forma significativa o consumo dos recursos naturais.
Somente o processo produtivo, com base na exploração da natureza,
cresceu mais de cem vezes, num salto que fez agravar a situação de
ameaça planetária, trazendo à tona a emergência da necessidade
de uma forma alternativa de relação do homem com a sua casa, a
terra. Nas palavras de Boff:
“Parca
é a consciência coletiva que pesa sobre o nosso belo planeta. Os
que poderiam conscientizar a humanidade desfrutam gaiamente a viagem
em seu Titanic de ilusões. Mal sabem que podemos ir ao encontro de
um iceberg ecológico que nos fará afundar celeremente.”
A
falta de um uma política global efetiva que aponte para um novo
caminho é um fato trágico. A ONU (Organização das Nações
Unidas) poderia ser o órgão a estabelecer ou criar instâncias de
gerenciamento para os problemas ambientais do planeta, mas não vem
exercendo esse papel. E ela, a ONU, detentora de 40 projetos
voltados aos grandes problemas globais como os climas, o
desflorestamento, a contaminação do ar, dos solos e das águas, as
epidemias, os problemas dos jovens, dos idosos, as migrações,
entre outros. Mas, regida pelo velho paradigma das nações que se
fortaleceram sob a égide do imperialismo, não avança no sentido
de buscar solução concreta às contradições que assolam a terra.
O exemplo mais flagrante desta situação é o desrespeito
demonstrado por algumas nações com o descumprimento das resoluções
de Kyoto, como os Estados Unidos da América, que não pretendem
mudar suas sistemáticas de desenvolvimento econômico, em
detrimento de uma política econômica sustentável.
Os
problemas ambientais, talvez os mais sérios vividos pela humanidade
– porque neles também estão embutidos a fome e situação de
miserabilidade de milhões de indivíduos do mundo -, entretanto,
parecem estar suscitando fortes sinais de resistência aos velhos
paradigmas, com o surgimento de um corrente como indicadora de uma
nova consciência. Há maior preocupação com as questões
ambientais, sobretudo a partir de focos significativos de cidadania,
tendo como importantes atores as ONGs (Organizações Não
Governamentais) ligadas ao ambientalismo e demais segmentos sociais,
que fazem pressão pela criação de mecanismos legais com o
objetivo de promover efetivamente a proteção ambiental. Já é de
conhecimento de muitas pessoas que, à medida que se reduz a
capacidade de renovação dos recursos naturais, em que se polui o
ar, em que se contamina a água dos rios, em que se destrói
florestas e a biodiversidade, caminha-se para a exaustão da vida.
Nas palavras de Bueno (1998:31):
“Se
os cidadãos, individualmente, forem confrontados com a necessidade
da manutenção da biodiversidade para a manutenção da qualidade
de vida de seus descendentes, sem pensar exclusivamente em seus
benefícios pessoais imediatos, os benefícios de longo prazo começarão
a ser visualizadas, percebidos enfim, pelos humanos, e a conservação
deixará de ser uma luta real de uma minoria e retórica da maioria
para ser integrada às atividades sociais de todos como um fato
normal e necessário à vida”.
2
Meio Ambiente e realidade global
A
preocupação efetiva com o meio ambiente, no âmbito global, até a
década de 1970, restringia-se ao mero cumprimento das normas de
poluição determinadas pelos órgãos reguladores. Os complexos
industriais limitavam-se ao cumprimento destas e à precaução
quanto aos acidentes locais, numa postura reativa. Durante tempos, a
incompatibilidade das atividades econômicas com políticas de proteção
ambiental foi um aspecto destacado. Isto, segundo Maimon (apud
Petroni, Aguiar, 2001:3), tinha como resultante certo o aumento dos
custos e o conseqüente repasse ao preço dos produtos. Partindo
desta visão tradicional de empresa como instituição apenas econômica,
a responsabilidade ficava restrita à maximização dos lucros,
utilizando-se a estratégia da minimização dos cursos. Quase nada
além disso. A cultura reinante no mundo empresarial não
contemplava valores sociais e políticos na tomada de decisões dos
administradores, da mesma forma que se buscava nas leis e
regulamentações originadas pelo poder público apenas dar suporte
para que as empresas garantissem suas metas econômicas ou, então,
que os dispositivos legais não se constituíssem em barreiras para
que estas fossem alcançadas.
DONAIRE
(apud PETRONI, AGUIAR, 2001, p.4) afirma que com a consolidação da
bioética global, no final da década de 1980, surge uma nova
realidade socioambiental, redundando na mudança comportamental de
postura do mundo empresarial. Fica para trás a velha forma de
perceber o ambiente e de reação aos seus problemas.
Gradativamente, começa-se a encarar a nova postura de
responsabilidade ambiental como algo imprescindível à sobrevivência,
em que a instituição empresarial passa a assumir um
comprometimento sócio-político. Neste contexto, muitos conceitos
utilizados nas décadas passadas, de 60 e 70, foram reformulados,
originando novas regulamentações e legislações emanadas do poder
público. Com isso, nos dias atuais, muitas das decisões de âmbito
empresarial precisam levar em conta os aspectos socioambientais.
Concomitantemente, outros setores sociais constituíram-se em novos
agentes dentro deste processo, defendendo preocupações
relacionadas à ecologia, à defesa do consumidor, de grupos minoritários,
de qualidade dos produtos, entre outros aspectos. Essa articulação
cidadã acaba sendo a força estimuladora para que também as
organizações incorporem em seus procedimentos administrativos e
operacionais os mesmo valores que apontam para os caminhos de
sustentabilidade.
MAIMON
(apud PETRONI, AGUIAR, 2001, p.3) afirma que a responsabilidade
ambiental é desigual por setor de atividade e por tamanho da
organização. Segundo ele, os fatores que determinam a qualidade
ambiental são a pressão dos órgãos de controle e da comunidade
local, a origem do capital (nacional/privado, multinacional ou público)
e o grau de inserção da empresa no mercado internacional.
3
Comércio internacional, controle ambiental e controvérsias
De
alguma maneira, a mudança de comportamento do empresariado de
alguns setores no tocante à preocupação com processos produtivos
ecologicamente corretos possui relação com as políticas
internacionais de comércio. MAIMON (PETRONI, AGUIAR, 2001, p.3)
revela, em sua pesquisa, que as empresas brasileiras de maior inserção
internacional são as que apresentam maior responsabilidade
ambiental. As empresas exportadoras sofrem grandes discriminações
por meio de barreiras não-tarifárias e ecológicas, sendo
obrigadas a estabelecer melhor relação com o meio ambiente.
As
restrições comerciais em nome da causa ecológica, entretanto, são
alvo de questionamento por ALMEIDA (1998). A autora sustenta que as
reais razões para a adoção de restrições comerciais
invariavelmente são postas ambiguamente. A causa ambiental, o
argumento principal utilizado, parece ceder espaço, na prática, à
preocupação econômica. Cumprir as exigências normativas
ambientais implica em investimento maior e preço final, conseqüentemente,
maior e desfavorável à competitividade. Paradoxalmente, essa mesma
política, conforme argumenta ela, pode apresentar resultado contrário.
Ao invés de perder competitividade, por tratar-se de um produto
elaborado a partir de processo “mais limpo”, agrega-se ao mesmo
um valor de marketing positivo, de marketing ecológico. Esta
realidade já oferece visibilidade em vários países,
principalmente naqueles com melhor renda per capita.
A
eficácia ecológica e econômica das restrições comerciais também
pode ser considerada como um ponto controvertido, segundo Almeida
sob outro aspecto. Os problemas ambientais possuem sua peculiaridade
em cada país – seus custos de controle, como também a capacidade
de absorção do dano pelo meio em questão pode variar. Desta
forma, não há como se estabelecer políticas homogêneas para
distintos parceiros. Nas palavras de ALMEIDA (1998):
A
eficácia ecológica das restrições comerciais é questionável
pelo simples fato de que nada garante que o parceiro comercial,
atingido por tal medida, não vá redirecionar, dentro de certos
limites, seu esforço exportador em direção a mercados
alternativos, resolvendo, num curto prazo, seu problema econômico e
postergando a adoção de regulamentações ambientais mais
rigorosas.
Por
outro lado, CAVALCANTI et al (2002) destaca que o ambiente da
globalização econômica está impondo limites à sobrevivência
das empresas, independentemente de suas dimensões, por conta da
questão ambiental. Estes limites trazem à tona a necessidade de as
empresas reavaliarem seus sistemas produtivos, indo além destes, em
si, e considerando todo o ciclo de vida de seus produtos ou serviços.
Com isso, está posta uma nova ordem, em que o problema não está
apenas nos processos de produção, mas também na contabilização
de possíveis impactos dos produtos ao ambiente – da concepção
ao descarte.
Os
preços dos produtos passam a refletir, dessa forma, os custos
ambientais de sua produção, uso, reciclagem e disposição. A ação
de resíduos sobre o meio ambiente, como componente de custos
ambiental, é um tema em pauta nas discussões de organismos
internacionais, quando da análise dos custos de produção do
processo industrial. (Cavalcanti,
et al. 2002, p.19)
Por
força das leis de controle ambiental, ou pela influência ou pressão
da corrente global, as empresas começam a aderir a um novo
comportamento. Atualmente, uma empresa já pensa em seu passivo
ambiental e na forma de como resolvê-lo, fator que pode comprometer
seu patrimônio e ser determinante na inviabilidade de sua permanência
no mercado na ausência de uma política, na ausência de ações
preventivas. Este quadro atual sinaliza para uma demanda considerável
pela busca de novas alternativas tecnológicas ecologicamente mais
ajustadas na produção.
No
Brasil, a incorporação desta variável ambiental alcança o setor
empresarial a partir da década passada, a partir da consolidação
da legislação da área. Processo desencadeado pela atuação dos
órgãos ambientais controladores e pressões locais e
internacionais. À exceção das empresas brasileiras de maior inserção
internacional ou mesmo a multinacionais instaladas em solo
brasileiro, por pressão de investidores e consumidores nos países
de origem, o setor empresarial nacional se restringe a atender à
legislação ambiental de controle da poluição da água, do ar e
dos resíduos sólidos.
4
Normas ambientais e ISO-14000
A
exigência da sociedade em relação à qualidade ambiental dos
produtos oferecidos no mercado tem estimulado uma gama cada vez
maior de empresas a aderir voluntariamente a normas ambientais.
Tratando-se de uma tendência já quase consolidada nos países
desenvolvidos, a preocupação com a natureza e, conseqüentemente,
a adoção de sistemas “limpos” ou menos poluentes são
elementos que ajudam a dar uma nova configuração no meio
industrial brasileiro.
Buscando
maior credibilidade, neste sentido, as empresas têm procurado
demonstrar comprometimento, aderindo à série ISO 14000, que dispõe
de diretrizes para a gestão ambiental. A série ISO14000, conforme
LIMA-E-SILVA (1999), surge com o advento da Eco-92, para atender a
uma demanda por uma norma internacional, capaz de padronizar os
procedimentos em nível mundial. A partir daquela conferência
mundial do meio ambiente, realizada no Rio de Janeiro, criou-se um
grupo designado de Technical Commitee no. 207 do International
Organization for Stardardization, designado para elaborar uma série
de normas relativas à gestão ambiental que receberam o código
14000, com o intuito de serem reconhecidas como a série ISO-14000
(ISO, 1996)
Com
a ISO-14000 as organizações empresariais têm parâmetros para
criar sua sistemática de gestão voltada aos aspectos ambientais.
Uma das principais diretrizes aponta à alta direção de cada
empresa para que estabeleça uma política de compromisso com
objetivos e metas ambientais – da otimização de aproveitamento
de matérias, com redução de desperdícios, à redução de poluição
gerada e a difusão de informações sobre preservação ambiental
junto ao corpo funcional e comunidade local, entre outras.
Em
resumo, a norma ISO-1400 tenta fazer aquilo que toda organização,
principalmente as empresas de propriedade privada, deveriam fazer
sem precisar de norma alguma, que é trabalhar de forma organizada,
ser responsável com seus clientes, com a comunidade do entorno de
suas atividades, obedecer às leis e se preocupar com o bem estar da
sociedade na qual funciona e da qual obrem seus benefícios.
(Lima-e-Silva, 2002:18)
Até
este momento, a ISO-14000 tem dado mostras de ser um bom instrumento
para o marketing. Lima-e-Silva destaca, que ela pode
transcender este aspecto, em que pese considerar seu texto freqüentemente
vago e genérico por conta do grande contingente de sujeitos
envolvidos em sua elaboração num consenso internacional. Este
vazio pode significar a possibilidade ou o espaço aberto às más
intenções. Entretanto, há muito mais aspectos positivos, dentre
eles o fato de que na norma está embutido um programa de
treinamento que permite aos funcionários de uma empresa a compreensão
e o enfrentamento dos problemas ambientais.
Isto desde que sua direção tenha esta política
concretamente. Este potencial educador intrínseco à ISO-14000 não
deve ser desconsiderado.
Outro
quesito passível de ser considerado como defeito da norma, o de
fazer com que todas as ações no âmbito da prevenção ambiental
sejam realizadas a partir motivações mercadológicas, acaba
tornando-se um ponto positivo. Ou seja, promover um processo de
produção de forma sustentável pode render dividendos a quem o
fizer. Não só o aumento de eficiência, mas também a partir da análise
dos rejeitos ambientais de determinada atividade podem surgir
perspectivas de fontes de receita. Um exemplo desta situação é o
aproveitamento da cinza fina no Complexo Termelétrico Jorge
Lacerda, em Capivari de Baixo, sul de Santa Catarina, da empresa
Tractebel, pertencente ao grupo belga Suez, que é usado pela indústria
cimenteira na produção de cimento. A adesão a um sistema de
normas como a ISO-14000 por uma empresa pode ter um efeito positivo
importante sobre diversos aspectos para esta, como para seus
trabalhadores e, num âmbito mais amplo, em todo o seu entorno.
Sobretudo, como a percepção ambiental que esses trabalhadores
passam a ter, disseminando as idéias do novo paradigma e
sensibilizando mentes.
O
número de empresas certificadas pela norma ISO-14000 cresce de
forma rápida na atualidade, numa demonstração que esta ferramenta
de controle ambiental está tendo boa aceitação. Este fenômeno não
é diferente no Brasil, embora o número de empresas certificadas
ainda seja muito pequeno. Até o final dos anos 90, apenas 88
empresas brasileiras constavam desta relação de certificação,
segundo Peglau apud Lima-e-Silva (1999:19)
5
Caminhos para a sustentabilidade
Não
obstante ao fato de que a humanidade já esteja sinalizando sua
busca por caminhos que a levem à sustentabilidade, este processo
ainda não apresenta indicadores prontos, estando esta caminhada
longe de chegar ao seu final. Desde as conferências mundiais sobre
o meio ambiente de Estocolmo-72, Rio-92 e, mais recentemente,
Johannesburg, neste ano de 2002, várias possibilidades têm sido
discutidas, com alguns avanços e também retrocessos, por conta de
alguns países desenvolvidos, que resistem em não mudar seus
conceitos, preferindo manter sistemas
Persiste
a falta de compreensão de que nosso planeta funciona como um
sistema onde todos os elementos estão entrelaçados, interdependem,
influenciam e são influenciados, como também nossa capacidade de
continuar criando máquinas transformadoras desse mesmo planeta,
consumindo indiscriminadamente recursos naturais e devolvendo ao
meio rejeitos. Já em
meio a uma série de conseqüências originadas desta prática –
aquecimento global, chuvas ácidas, destruição da camada de ozônio,
etc... – buscamos reduzir a margem de contradições que compõem
nosso quadro planetário, tentando entender o conceito de
desenvolvimento sustentável, no qual, segundo LEIS (1999), deixa-se
de assumir o ser humano como medida de todas as coisas,
substituindo-o pela relação deste com a natureza. Este é o
sentido traduzido de maneira implícita no conceito de
desenvolvimento sustentável como “aquele que atende às
necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações
futuras atenderem a suas próprias necessidades”. (G.H. et al
apud LEIS, 1999, p.151).
A
sustentabilidade, no meu entendimento, passa pela tomada de consciência
e de responsabilidade entre gerações para com a natureza. Isso
pressupõe uma reflexão sobre a valoração da modernidade e seu
real benefício. A quem e de que forma servem os avanços tecnológicos?
Leis recorre ao pensador inglês Burke, que fez uma crítica à
Revolução Francesa como uma inversão da própria natureza das
coisas, a partir da qual é possível compreender-se melhor a
complexa relação do ambientalismo com a modernidade. Conforme o
autor, o conservadorismo de Burke rejeita as inovações em nome da
continuidade constitucional e tradição social.
Ele
diz (embora não com essas palavras) que não é consistente afirmar
que as inovações tragam melhoras. Não é verdade dizer que se a
sociedade não fosse como é, ela poderia ser melhor ou pior.
Portanto, se nada garante o resultado do progresso, os riscos não
compensam e o princípio de prudência deveria reger o comportamento
político. (Burke apud Leis, 1999:151)
Importa
compreender a sustentabilidade social do desenvolvimento como um
processo ligado à qualidade de vida das populações, concepção
que pode ser associada ao conceito de desenvolvimento humano
difundido pela ONU (Organização das Nações Unidas) e constante
dos vários relatórios do organismo nos últimos anos.
Neste bojo, é igualmente importante trazer à tona, de forma
explicita, os fundamentos éticos em torno deste processo. E, como
defende Leis, não é, portanto, a abundância de bens e sim o seu
benefício o que define um bom desenvolvimento humano. Para
exemplificar esta importante dimensão, pode-se dizer que um
crescimento econômico descontrolado, voltado puramente à satisfação
de consumo, compromete a qualidade de vida das pessoas, mesmo que
este comprometimento só possa ser avaliado com o passar dos anos,
na medida em que se degrada o ambiente, conseqüência negativa que
recairá sobre as próprias pessoas.
Não
seria para estar satisfeitos se um dia contemplássemos um mundo
onde não restasse nada da vida natural; (...) Se a terra tem que
perder essa grande porção de beleza por causa do crescimento
ilimitado da riqueza e da população, para suportar uma população
mais ampla e também menos feliz, então sinceramente espero que os
partidários do estado progressivo se conformem com ser estacionários,
muito antes que a própria realidade os obrigue a isso pela força.
(Mill apud Leis, 1999:164)
6
A história do seu Paulino
A
história do seu Paulino não consta em nenhuma bibliografia deste
trabalho, mas é verídica e apropriada como subsídio às reflexões
aqui propostas. Sua família pertence à comunidade de 40 famílias
da extinta localidade de São Pedro, no município de Siderópolis,
onde, em breve estará funcionando a barragem do Rio São Bento.
Dezenas de pessoas viviam sua realidade pacata, nas proximidades da
encosta da Serra Geral, até que se decidiu pela construção de uma
barragem para suprir a falta de água em Criciúma e região. Fruto
do manuseio equivocado dos recursos naturais, a partir da poluição
dos recursos hídricos pela mineração de carvão. O sofrimento
daquela gente humilde, que está sofrendo as agruras provocadas pelo
homem inconsciente, é difícil de dimensionar. Paulino resolveu
permanecer nas imediações da barragem, onde cultivava milho e
outras culturas e trabalhava com o comércio de pedras. Ele está
ilhado, a filha menor sofre de depressão desde que os vizinhos saíram
todos. Quem vai restituir a paz de espírito tolhida daquela gente?
Seu Paulino, com a voz embargada, dizia em entrevista à Rádio
Eldorado de Criciúma (na manhã de 4 de dezembro de 2002), ao
jornalista Ricardo Fabris: “Já gastei uma fortuna e a minha
menina não se cura da depressão. Como vai ficar a nossa vida?”.
Observando-se
à distância, o problema das desapropriações é apenas detalhe.
Os desapropriados são indenizados, para a construção de uma obra
em nome da coletividade. Ganha toda a região, que terá
abastecimento garantido durante 20 anos. E depois? Qual será a
outra comunidade a sofrer o mesmo pesadelo da de São Pedro?
Continuaremos fazendo sempre da mesma forma? Os rios continuarão
recebendo metais pesados, provenientes da mineração de carvão?
Continuarão mortos? Quantos outros paulinos continuarão apelando
às emissoras de rádio, no silêncio e, talvez, incompreensão dos
ouvintes? Situações do gênero são o grande desafio da sociedade,
no qual a cooperação e a solidariedade se fazem necessárias como
instrumentos para a mudança de cenário, em busca da
sustentabilidade.
7
Considerações finais
Os
problemas ambientais, neste início de terceiro milênio,
felizmente, já são o tema central das discussões em vários foros
pelo mundo a fora. Como promover o desenvolvimento sem destruir a
natureza, ou o que dela resta? Há muitos sinais de que a humanidade
caminha para um melhor momento, em que conviverá com o meio
ambiente de forma mais equilibrada, colocando-se apenas como parte
dele e não como seu senhor supremo. Promover gestão ambiental,
criar normas de controle, implantar selo verde, nada disso dará
resultado se não houver uma mudança de comportamento a partir de
cada indivíduo. No meu entendimento, a sustentabilidade tem início
na subjetividade do ser, quando o sentimento individualista,
inerente ao ser humano, for superado pelo coletivo. Não há formas
de garantir processos sustentáveis, se os agentes destes não
representarem seus papéis nesta engrenagem.
A
tecnologia, grande arma da modernidade, deve servir ao homem nas
suas necessidades essenciais e não para alimentar apenas a
sociedade do consumo, para promover guerras, desigualdades sociais e
desrespeito às soberanias dos países.
A
transformação do mundo passa pela mudança de paradigma no âmbito
econômico, cultural e espiritual. Um novo homem precisa renascer,
mais ético, solidário e cidadão, capaz de reconhecer na natureza
a sua casa, o seu chão. Como Boff (1999) propõe, o cuidado com a
Terra representa o global, o cuidado com o próprio nicho ecológico
o local. O homem possui estas duas dimensões: nos pés, o chão, e
na cabeça aberta para o infinito, o global.
Construir um equilíbrio a partir da lógica do coração,
eis o seu grande desafio. Para isso, cada um de nós precisa
ressurgir, reconhecer-se como parte do ecossistema local e da
comunidade biótica. Assumir-se como apenas um grão de areia na
imensidão do oceano. Somente a partir desta redescoberta é que
estaremos prontos para fazer da terra, nossa casa, um lar onde a
qualidade de vida é reconquistada pelo poder da consciência
global.
Concluo
este trabalho evocando as palavras de São Francisco de Assis (Itália,1181–
1226), eleito nos Estados Unidos como o personagem do milênio
passado, do qual ecoam até hoje valores que nos remetem à nossa
essência, como peças de um grande sistema que funciona com a
inter-relação e inter-dependência destas:
“Dolce
è sentire, come nel mio cuore. Ora umilmente, sta nascendo amore. Dolce
è capire che non son più solo, ma che son parte di una immensa
vita. Che generosa, risplende intorno a me Dono di Lui del Suo
immenso amore. Ci há dato il cielo e le chiare stelle. Fratello
sole e sorella luna. La madre terra com frutti prati e fiori.
Il fuoco il vento, l’aria e l’acqua pura. Fonte di vita per le
sue creature. Dono di Lui del Suo immenso amore. Dono di Lui del Suo
immenso amore.”. *
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Referências
ALMEIDA,
Josimar Ribeiro; MELLO, Claudia dos S.; CAVALCANTI, Yara. Gestão
Ambiental: Planejamento, avaliação, implantação, operação e
verificação. Rio de Janeiro: Thex Editora, 2000. 259p.
ALMEIDA,
Luciana Togeiro de. Política Ambiental: Uma análise econômica.
Campinas, SP: Papirus; São Paulo: Editora Unesp, 1998. 192p.
BUENO,
Cecília. Conservação de Biodiversidade nos Parques Urbanos: O
Caso do Parque Nacional da Tijuca. Dissertação de Mestrado em Gestão
Ambiental, UNESA, RJ, 1998. 153p.
BOFF,
Leonardo. Saber cuidar: Ética do humano – compaixão pela terra.
Petrópolis: Vozes, 1999.199p.
LEIS,
Hector Ricardo. A modernidade insustentável: as críticas do
ambientalismo à sociedade contemporânea. Petrópolis: Vozes;
Florianópolis: UFSC, 1999. 261p.
PETRONI,
L. M.; AGUIAR, A. Câmaras Ambientais: parcerias entre empresas e a
CETESB? - Apresentado no VI Encontro Nacional de Gestão Empresarial
e Meio Ambiente, São Paulo: nov. 2001. Disponível em: http://www.aguiar.eng.br
. Acesso em 2 de nov. 2002.
LIMA-E-SILVA,
P. P. Uma luz no fim do túnel. Revista Arché, No. 25, 25p.,
Universidade Candido Mendes, Rio de Janeiro, Fev. 2000. Disponível
em http:// www.dnec.ucam.edu.br/-html/ambiente.asp
. Acesso em 28 de out. 2002.
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