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Por
TIAGO SOARES 26
anos. Graduado em Jornalismo pela Unesp. Escreve no Planeta
Porto Alegre e outros sites
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Frankestein
no divã
Documentário
canadense investiga as profundezas das grandes corporações com
lupa psiquiátrica. O diagnóstico é perturbador: psicopatia
Em
1886, o condado de Santa Clara, nos EUA, enfrentou nos tribunais a
Southern Pacific Railroad, poderosa companhia de estradas de ferro.
No veredicto, sem maiores explicações, o juiz responsável pelo
caso declarou, em sua argumentação, que “a corporação ré é
um individuo que goza das premissas da 14a Emenda da
Constituição dos Estados Unidos, que proíbe ao Estado que este
negue, a qualquer pessoa sob sua jurisdição, igual proteção
perante a lei”. Isso significa que, a partir daquele momento, era
estabelecida uma jurisprudência através da qual, perante as leis
norte americanas, corporações poderiam considerar-se como indivíduos.
Apesar
do peculiar raciocínio por trás do veredicto do caso de Santa
Clara, corporações, é claro, não podem ser consideradas como
“pessoas”. Tecnicamente, elas nada mais são do que um
instrumento legal através do qual determinado negócio é
transformado numa estrutura cujo funcionamento transcende as limitações
individuais de seus responsáveis de carne e osso. Por conta disso,
apesar das posições individuais de seus fundadores, e mesmo após
a morte destes, uma corporação segue em sua existência, operando
como um “organismo” autônomo em busca de um objetivo bastante
específico – o lucro.
Mesmo
assim, ainda que o bom senso determine uma linha bastante clara
entre pessoas reais e corporações, ambas seguem merecendo, perante
a Constituição dos EUA, o mesmo tipo de tratamento. Mas, e se
corporações fossem mesmo indivíduos? Que tipo de gente seriam?
Em busca da resposta para essa questão, o escritor Joel
Bakan e os cineastas Mark Achbar e Jennifer Abbott resolveram
adentrar os subterrâneos do mundo e da cultura corporativa,
analisando os motivos e conseqüências das ações das companhias
transnacionais através de um método de estudo que, distanciando-se
da análise sócio-política, aproxima-se
da psicanálise. O trabalho dos três, que resultou no documentário
“A Corporação” (The Corporation), aponta para uma conclusão
perturbadora.
Lucros
sem culpa
O
documentário, baseado no livro “The Corporation – The
Pathological Pursuit of Profit and Power”*, de Joel Bakan (que
também assina o roteiro do filme), é uma profunda -- e divertida
-- análise do mundo corporativo. A partir do estudo de
crimes cometidos por transnacionais, e de dezenas de entrevistas com
gente direta ou indiretamente ligada ao mundo corporativo, como
ativistas de esquerda e de direita, acadêmicos, jornalistas,
executivos, e espiões industriais, os autores fazem uma radiografia
das corporações como “seres” autônomos, que funcionam de
acordo com um conjunto específico e determinado de regras e motivações,
bastante distintas daquelas partilhadas entre os homens comuns. Um
“comportamento” que, de tão voltado à busca pela realização
pessoal em detrimento de qualquer dano causado a terceiros,
resvalaria, segundo alguns dos entrevistados, na psicopatia.
Ágil
em sua estrutura, uma bem pensada colagem de cenas de filmes B,
vídeos institucionais antigos, imagens documentais e entrevistas
nas quais, contra um fundo negro, representantes das mais variadas
correntes políticas, como Noam Chomsky, Milton Friedman, Sir Mark
Moody-Stuart
(ex-dirigente mundial da Shell) e
Vandana Shiva têm seu discurso contextualizado em relação ao
“comportamento” institucional das grandes corporações, o filme
faz uma análise dos vetores “psicológicos” responsáveis por
regular o relacionamento das grandes companhias com o indivíduo –
social, cultural e politicamente.
Criadas
com o objetivo único de tornar mais eficiente o acúmulo do
capital, corporações seguem uma dinâmica própria, que transcende
as vontades individuais de seus acionistas e executivos. Mas, mais
do que criar estruturas de produção viciadas, a lógica do lucro é
responsável também pelo modo como é construída
a cultura corporativa e suas noções de responsabilidade social e
política. “Pedir a uma corporação que seja socialmente responsável
faz tanto sentido quanto pedir a um edifício que o seja”,
dispara, em depoimento, Milton Friedman, economista vencedor do prêmio
Nobel. Ou, como lembrado em outra entrevista, desta vez pelo
historiador Howard Zinn, “corporações sempre foram amigas de políticas
totalitárias”.
Por
amorais, as grandes transnacionais têm no lucro o único mediador
de suas responsabilidades e ações em relação ao público. A não
ser que interfira de alguma maneira em sua capacidade de acumular
capital, corporações não se sentem responsáveis por danos políticos,
sociais, ambientais ou culturais que possam causar. Uma atitude que,
em casos extremos, pode levar grandes companhias à autodestruição.
“Como um mercador que, de tão ganancioso, vende a corda com a
qual ele próprio vai ser enforcado”, afirma, no documentário, o
jornalista e documentarista Michael Moore.
Chamando
o blefe
Produto
de intensa e ampla pesquisa, “A Corporação” procura, mais que
trazer o debate sobre poder corporativo à agenda do dia, criar
mobilização. “Nós queremos mostrar às pessoas que elas ainda
podem mudar as coisas”, disse, em entrevista à agência de
notícias IPS, o roteirista Joel Bakan. O caráter de guerrilha, que
permeia todo o filme, é estendido também à estratégia de divulgação.
Sem grandes investimentos em publicidade, os realizadores do
filme apostam na propaganda boca-a-boca para conquistar
espectadores. No que depender da recepção ao documentário em
festivais ao redor do mundo, a publicidade positiva parece
certa. Vencedor do prêmio de melhor documentário nos festivais de
Sundance e Amsterdam, o filme tem tido recepção calorosa de público
e crítica ao redor do mundo. No Brasil, foi exibido no festival É
Tudo Verdade, além de estar programado para o festival de cinema de
Brasília, em junho.
Obra
essencial da nova safra de documentários críticos do modelo de
produção desumanizado, como "Tiros em Columbine" e
"Supersize Me" (ainda inédito no Brasil), “A Corporação”
pretende mostrar, com seu mergulho nos sombrios e amorais subterrâneos
da “psique” corporativa, que a sociedade não é impotente ante
o monstro que criou. Afinal, como lembra a ativista Vandana Shiva,
“Em todo o período da história... eventualmente, se você chamar
o blefe, as mesas acabam virando”.
___________
*
Algo como “A Corporação – A Busca Patológica por Lucros e
Poder”
A
Corporação (The Corporation) – Canadá, 2003
Dir:
Mark Achbar e Jennifer Abbott
Roteiro:
Joel Bakan
Ainda
sem data de lançamento no Brasil
Site
oficial: http://www.thecorporation.tv/
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