Por DANIEL AARÃO REIS 

Professor de História Contemporânea (UFF)

 

Os motociclistas, uma viagem e a revolução

 

Gael García Bernal e Rodrigo De la Serna como Che e Alberto Granado. Travessia no sentido mais existencial do termoPode-se começar com o cenário: nuestra América. A América do Sul, para sermos mais precisos, o percurso iniciando-se lá nos extremos patagônicos, rumo ao norte e às selvas amazônicas do Peru, as estradas precárias, através das modestas cidades latino-americanas dos anos cinqüenta do século passado.

A América, este nome que nos foi subtraído pelos mistérios do destino, a natureza bela, grandiosa,  altas montanhas, largos rios, densas e verdes florestas, os misturados povos, as gentes simples, falantes e encantadoras, sempre encontrando na dança e no canto, no riso e na ironia, compensações e alternativas para as dificuldades e frustrações  que espreitam suas vidas. 

Neste cenário vão se mover dois personagens. Pela precedência cronológica,  Alberto Granado, 29 anos, irônico,  levemente irresponsável, sedutor, compreensivo, autor da idéia da grande viagem. O pretexto é comemorar os seus trinta anos que se aproximam. O propósito é o de toda a aventura: provar o gosto do risco e do conhecimento.  Seria o personagem principal não fora o amigo mais jovem que resolveu levar consigo, ou, melhor dizendo, não fora o futuro do amigo mais jovem, o Fuser, que os pais chamam de  Ernesto Guevara, 24 anos, também apaixonado pelo arriscado  e pelo imprevisível.

Mal o filme começa, lá vão eles amontoados entre fardos e montados na  teimosa La Poderosa, valente motocicleta, por caminhos desconhecidos, auto-confiantes e bonitos, como acontece com os que se lançam em busca de aventura e experiência.

Alberto e Ernesto, desde cedo, e sem que a amizade entre eles seja por isso arranhada, evidenciam diferentes estilos e concepções de vida.

Alberto é maroto e compreensivo, Ernesto, rigoroso e intransigente. O primeiro é flexível, o segundo, rígido. Um é fluído, o outro, sólido. Rio e pedra, vento e rocha.

E vão provando o gosto doce e amargo da vida e dos inesperados encontros com os estrangeiros. Para Alberto a viagem é, quase sempre, festa. Os contratempos, diversão. As diferenças, tenta compreender. Quando a verdade é desagradável e dura,  disfarça, pisca um olho malicioso, finge que não vê, e fala o que é doce para os ouvidos, e foge. Nas brechas, ele sempre as entrevê, pratica as sacanagens possíveis.

Guevara o acompanha de bom grado, chega a beber uma vez, e até ensaia uns passos de dança,  mas o corpo tenso e retesado não ajuda, e o  que vê e sente o faz sombrio e taciturno. A miséria envolvente, apontando em cada canto, a  dos desempregados, que hoje muitos se comprazem em chamar de excluídos, embora sempre tenham estado muito bem incluídos no sistema, fazendo parte dele, mas com escassos rendimentos e nenhuma segurança, e a fome rondando sempre os dias e as noites, intermináveis. E a dor atroz  dos doentes desamparados, deixando-se morrer pelos caminhos, com aparente sangue frio, a calma e a resignação dos que se acostumaram a sofrer desde muito cedo, sem nenhuma esperança.

A viagem, aberta ao imprevisível, tem, porém, um objetivo, afinal alcançado: um leprosário no fundo da selva peruana, um encontro com os deserdados e esquecidos da sorte. Ali os dois amigos prestam o serviço , no sentido cristão e maoísta do termo, um eco longínquo da grande aventura dos populistas russos no século XIX, pagar a dívida social, integrar-se ao povo, para, redimindo-se, redimi-lo. Cada um a seu modo, nobres e generosos, eficazes, não apenas controlando as doenças, mas consolando os doentes, e combatendo os arraigados preconceitos, mesmo entre os médicos e enfermeiras, solidários, gratuitos, voluntários, conscientes. 

Mas as diferenças entre os dois amigos voltariam a aparecer dramaticamente no momento   chave da travessia a nado do caudaloso rio. Ninguém antes o fizera.  Alberto Granado não ousa. Na margem, aos gritos, suplica, pragueja, implora e adverte: Fuser, não o faça. Mas o amigo, tomado pela culpa, superando a asma e a correnteza, em ação épica e simbólica, ritual de passagem, se supera, estrebucha, periga, mas vence, consegue, chega à outra margem, vitorioso e destemido, para delírio dos doentes que torcem por ele. Fuser chega ao povo, e já está agora convertido ( o futuro nos prova) no Che Guevara.

Alberto Granado e Ernesto Che Guevara. O encontro da experiência com a ingenuidade, da flexibilidade com a intransigência. A imaginação e a determinação. Às vezes, Guevara é  Dom Quixote (impressão, mais uma vez, confirmada pelo futuro que se conhece), e Granado, Sancho Pança. Mas, numa outra abordagem, aparecem como alternativas de revolução,  transfigurados em metáforas, o rio da amizade bifucardo em diferentes cursos d’água, que poderão ainda se encontrar, segundo as circunstâncias, mas são essencialmente diferentes. Guevara, anjo vingador, vanguarda iluminada, as transformações violentas, a ditadura revolucionária, a arma e o fogo, purificadores, as revoluções do século que passou. Granado, a compreensão e a persuasão, o verbo indeciso e complexo, impuro, as mudanças moleculares, a democracia que se auto-reforma,  as improváveis revoluções do século que apenas se inicia.

 

 

 

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