Manuel Bandeira (1886-1968)

 

 

 

OS NOMES

 

Duas vezes se morre:

Primeiro na carne, depois no nome.

A carne desaparece, o nome persiste mas

Esvaziando-se de seu casto conteúdo

– Tantos gestos, palavras, silêncios –

Até que um dia sentimos,

Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)

Que o nome querido já não nos soa como os outros.

 

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.

Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.

Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca.

Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer “Meu Deus, velei-me”.

 

Adelaide não foi para mim Adelaide somente.

Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopéia.

Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.

Os epitáfios também se apagam, bem sei.

Mas lentamente, porém, do que as reminiscências

Na carne, menos inviolável do que a pedra dos túmulos.

 

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O BICHO

 

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

 

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

 

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

 

O bicho, meu Deus, era um homem.

 

Rio, 27 de dezembro de 1947.

Manuel Bandeira. Estrela da Vida Inteira.

Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993

(20ª ed.), pp. 201-202 e 222

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Valéria Nogueira Eik

 

SAUDADE

 

 

Sinto saudade do que poderia ter sido

e não foi.

Saudade do que idealizei

e não aconteceu.

Saudade do que sonhei

sem ter adormecido.

Saudade de alguém que vinha

e não chegou.

Saudade do que minha mão quase alcançou

sem ter conseguido segurar.

Saudade do beijo que já foi,

saudade do toque que já senti,

saudade do olhar que não tornarei a rever.

Porque poderia ter sido

mas, não foi.

 

Virginia M. Machado

 

 

 

Das nuvens e outras visões

 

De onde vejo o mundo,

As nuvens

são guardiãs da terra.

Às vezes estão sorrindo

e dançando.

Às vezes chovem.

 

De onde vejo,

As ondas do mar

lembram

O tempo infindo

aos homens visitantes,

Os admirados.

 

De onde vejo o mundo,

o mar é verbo transitivo,

Conjugável no movimento

de nossas vidas.

Tolos, nem reparamos.

 

De onde vejo,

As gaivotas vêm à beira mar

nos dizer

Que não somos donos

do lugar.

 

De onde vejo o mundo,

as montanhas são grandes seios,

Se excitam ao toque do céu,

se aquecem ao sol

E se enlouquecem com os temporais,

pra lembrar

Aos homens que a terra

é mãe.

 

De onde vejo o mundo,

os homens

são meninos

Querendo brincar

de Humanidade.

Brincam e brigam

o tempo todo,

Só pra definirem

as regras do jogo.

 

De onde vejo,

As crianças

são sábias

que deformamos

Pra não sermos

dominados pela beleza

de crescer.

 

De onde vejo o mundo,

os dias amanhecem sempre

Pra termos outra chance

de felicidade

E de compartilharmos

essa alegria.

De onde vejo,

há esperança

De se perceber mais

o que não tem palavras,

De nos perdermos mais

de nós mesmos,

Pra sermos encontrados

pela vida...

 

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