Opinião
pública e democracia na América Latina
No texto A opinião pública não existe, Pierre
Bourdieu afirma que as pesquisas de opinião possuem uma
fragilidade evidente pelo fato de “acumularem opiniões
que absolutamente não possuem a mesma força real”, o que
leva as mesmas a produzirem “artefatos sem sentido”. Ele
argumenta também que, ao colocar-se “a mesma questão a
todo mundo”, reforça-se a “hipótese de que há um
consenso sobre os problemas, ou seja, que há um acordo
sobre as questões que merecem ser colocadas” (Bourdieu,
1983, p. 173). Tomando
essa perspectiva de Bourdieu como ponto de partida, este
artigo tem a intenção de discutir uma pesquisa de opinião
realizada em 2004 a pedido do PENUD (Programa de las
Naciones Unidas para el Desarrollo), órgão da ONU
(Organizações das Nações Unidas).
Na respectiva pesquisa foram ouvidas 19 mil pessoas de 18 países
da América Latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia,
Costa Rica, Chile, Equador, El Salvador, Guatemala,
Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República
Dominicana, Uruguai, Venezuela). O que foi assinalado pela
imprensa ao comentar os resultados da referida enquete foi o
seguinte: a maioria dos indivíduos na América Latina
estaria disposta a apoiar uma ditadura eficiente no combate
aos problemas econômicos (Folha de S. Paulo, 2004, p., A
14). Não há dúvida de que essa pesquisa produziu,
conforme apontado por Bourdieu anteriormente, um artefato
sem qualquer sentido. Na
América Latina, palco de diversos governos ditatoriais, ao
longo do século XX, é, no mínimo, um despropósito que
uma pesquisa de opinião tenha a seguinte pergunta-chave
como norte: “Você apoiaria um governo autoritário se ele
pudesse resolver os problemas econômicos?” (PNUD, 2004,
2004a) Em primeiro lugar o Instituto que elaborou
as questões partiu do pressuposto de que há um consenso
entre os entrevistados acerca de quais seriam os problemas
econômicos principais na AL? Em segundo, pode se dizer, sem
sombras de dúvidas, que essa pergunta é tendenciosa por
supor de algum modo que uma situação ditatorial poderia
resolver tais problemas. É uma questão que reafirma, de
antemão, a possibilidade de os governos ditatoriais agirem
sobre as dificuldades econômicas. Em terceiro lugar, essa
questão posta aos entrevistados deixa implícito que em
determinados momentos, no continente latino-americano, os
problemas econômicos foram resolvidos pelas ditaduras
estabelecidas.
As ditaduras implementadas no continente não foram, em
momento algum, eficientes no trato dos principais problemas
que assolam a América Latina. As desigualdades sociais, a
concentração de renda e a exclusão social e política
foram potencializadas pelos governos ditatoriais. O
crescimento econômico que alguns desses últimos alcançaram
(o chamado milagre econômico brasileiro, por exemplo) levou
a um processo de concentração de rendas tão gritante que
tem refletido negativamente até a atualidade sobre os
diversos países latino-americanos.
O modelo concentracionista implementado pelas políticas
ditatoriais que tiveram como objetivo principal paralisar a
ação política reivindicadora e contestadora esteve
pautado num crescimento econômico a tal ponto concentrador
da renda que definiu um padrão de organização social
essencialmente desigual, o que se tem mostrado extremamente
nefasto tanto no presente quanto no futuro. O crescimento
econômico, tão propalado pelos governantes como meio de
resolver a miséria, a pobreza, tem sido, na atualidade,
apontado por alguns órgãos internacionais como incapaz de
solucionar os problemas referentes à miserabilidade devido
ao quadro de desigualdade social prevalecente na América
Latina.
Distribuição de renda no Brasil em %
|
Os 20% mais pobres se apropriam de:
|
Os 10% mais ricos se apropriam de:
|
|
2% da renda nacional
|
46,7% da renda nacional
|
Fonte: Tabela adaptada e publicada em: NEM crescimento
acaba com a miséria no Brasil, diz BIRD. Folha de S. Paulo,
São Paulo, 24 abr.2004. CA, p. 7. Fonte: Banco Mundial
Assinale-se que esse processo altamente concentracionista da
renda não foi promovido somente no período da ditadura
militar (1964-1985). A desigualdade social tem raízes
anteriores a esse período; todavia, durante a vigência do
autoritarismo subtraiu-se paulatinamente a possibilidade de
desenvolvimento de ações políticas questionadoras do padrão
de desigualdade que se perenizava. Somente esse dado já seria
suficiente para que um instituto de pesquisa não norteasse
uma pesquisa de opinião sobre uma pergunta absolutamente
desconexa da realidade histórico-social da América Latina.
Ao elaborar uma questão pressupondo a possibilidade de uma
ditadura eficiente, o Instituto Latinobarômetro que realizou
a pesquisa escamoteia o fato de que as ditaduras tiveram um
papel central no estabelecimento de um padrão de organização
social e de domínio produtor de índices alarmantes de
desigualdade social. E o fez de modo tão acabado que nem
mesmo o crescimento econômico conseguirá diminuir
significativamente o índice de miserabilidade. Um dos
desastres das políticas ditatoriais foi sedimentar, ao mesmo
tempo, a concentração da renda e a paralisação de um
desenvolvimento político pautado no embate entre os diversos
interesses sociais.
Os longos períodos ditatoriais lutaram diuturnamente para
incutir na mentalidade de todos que a democracia seria algo
desnecessário e/ou até mesmo prejudicial aos males econômicos.
Justificaram assim a perseguição, a tortura, a prisão e o
massacre de todos aqueles que tentavam questionar os rumos
tomados pelas nações controladas pelos militares juntamente
com inúmeros civis que constituíam o grupo de poder
ditatorial nos mais diversos momentos.
Pode-se dizer, então, que a construção da pergunta-chave
que norteou a pesquisa de opinião acima mencionada teve como
base os mesmos elementos alardeados pelos ditadores no passado
recente, os quais estavam ancorados na idéia de que a subtração
das condições democráticas não era dotada de qualquer
gravidade em razão de que estariam os condutores dos
processos políticos autoritários voltados para a construção
de países que se tornariam grandes potências. No caso específico
do Brasil, o período Médici (1969-1973) alardeava a realização
do objetivo maior dos governos militares: a construção do
Brasil-potência.
Uma pesquisa de opinião que acaba por difundir a idéia de
que a maioria na América Latina estaria disposta a apoiar
governos não-democráticos induz a crença de que neste
continente prevalece uma mentalidade antidemocrática, por
excelência. Ao invés de ressaltar as diversas lutas, embates
e tentativas de sedimentação de uma paisagem social voltada
para a potencialização de atos, comportamentos,
personalidades e atitudes democráticos, uma pesquisa de opinião
como essa presta um desserviço à causa da democracia. Esta
última entendida como a possibilidade de que os diversos
agentes adentrem a esfera política e tenham condições de
balizar as ações das classes dirigentes.
Por que esta pergunta - “você apoiaria um governo autoritário
se ele pudesse resolver os problemas econômicos?” - e não
uma outra, deu o norte a esta pesquisa de opinião encomendada
pelo Penud/Onu? Segundo
Pierre Bourdieu, “as problemáticas que são propostas pelas
pesquisas de opinião se subordinam a interesses políticos, e
isto dirige de maneira muito acentuada o significado das
respostas e, ao mesmo tempo, o significado dado à publicação
dos resultados. Em seu estado atual, a pesquisa de opinião é
um instrumento de ação política, sua função mais
importante consiste talvez em impor a ilusão de que existe
uma opinião pública que é a soma puramente aditiva de opiniões
individuais, em impor a idéia de que existe algo que seria
uma coisa assim como a média das opiniões ou a opinião média.
A ‘opinião pública’que se manifesta nas primeiras páginas
dos jornais sob a forma de percentagens (...) é um artefato
puro e simples cuja função é dissimular que o estado da
opinião em um dado momento do tempo é um sistema de forças,
de tensões e que não há nada mais inadequado para
representar o estado da opinião do que uma percentagem. (...)
O efeito fundamental de uma pesquisa de opinião é:
constituir a idéia de que existe uma opinião pública unânime,
portanto, legitimar uma política e reforçar as relações de
força que a fundamentam ou a tornam possível” (Bourdieu,
1983, p.174-5).
Cabe afirmar, então, que, independentemente da intenção
inicial da pesquisa que é trazer à tona os problemas das
democracias latino-americanas para que se possa vislumbrar a
possibilidade de saná-los, os dados levantados com base na
pergunta-chave que coloca a possibilidade de uma ditadura
supostamente voltada para a solução das dificuldades econômicas
ganham um significado político que vai na contramão do
objetivo do PNUD/ONU que é destacar as condições que
levaram à descrença na democracia. E isso ocorre porque os
dados criam um consenso de que seria bem aceita, no
continente, a quebra de conquistas, principalmente no campo
dos direitos sociais. Os resultados da pesquisa podem ser
utilizados para alardear a suposta existência de um amplo
segmento da população, dos diversos países, disposto a
abrir mão de seus direitos. Os dados podem certamente
legitimar a política de subtração de direitos posta em
andamento em várias partes do mundo e não só na América
Latina. Ocorreria, assim, o que Bourdieu denominou de reforçamento
das relações de força em que os resultados de uma dada
pesquisa de opinião acabariam sendo postos a favor da
reafirmação da prática política em andamento.
Observem-se os seguintes dados divulgados pelo jornal Folha
de S. Paulo em 21 de abril de 2004:
|
58,1%
|
Concordam que o presidente possa ir além das leis
|
|
56,3%
|
Crêem que o desenvolvimento econômico seja mais
importante que a democracia
|
|
54,7%
|
Apoiariam um governo autoritário se resolvesse os
problemas econômicos
|
|
43,9%
|
Não crêem que a democracia solucione os problemas do país
|
|
40%
|
Crêem que possa haver democracia sem partidos
|
|
38,25%
|
Crêem que possa haver democracia sem Congresso Nacional
|
|
37,2%
|
Concordam que o presidente ponha ordem pela força
|
|
37,2%
|
Concordam que o presidente controle os meios de comunicação
|
|
36%
|
Concordam que o presidente deixe de lado partidos e
congresso
|
|
25,1%
|
Não crêem que a democracia seja indispensável para o
desenvolvimento
|
Dados publicados em: MAIORIA
na AL apoiaria ditadura ‘eficiente”. Folha de S. Paulo,
São Paulo, 21 abr. 2004. Caderno A p.14. Transcrição na íntegra
dos dados recolhidos pelo respectivo jornal do relatório
divulgado pelo PNUD/ONU intitulado A democracia na América
Latina. Dados disponíveis em: www.pnud.org.br/index
Ao destacar-se que 58,1% dos entrevistados latino-americanos
consideram que o presidente possa ir além das leis, seguido
dos dados que apontam que a maioria valoriza o desenvolvimento
econômico em detrimento da democracia, reforça-se a idéia
de que são legítimas diversas medidas implementadas pelos
governantes através de procedimentos políticos destruidores
da democracia, como, por exemplo, as práticas clientelistas,
adesistas, personalistas, etc., que servem como subsídios
para a manutenção de um padrão de domínio e de organização
social potencializador da descrença na própria democracia.
Faz-se necessário ressaltar que após a publicação do relatório
foi divulgada, pelo PNUD, uma errata informando que na página
137, tabela 46, havia um erro. Retificou-se, então esse
percentual de 58,1% para 42,82.
Ao apontar que uma parte expressiva da população não vê
com bons olhos os partidos e o congresso, a pesquisa,
involuntariamente, acaba dando destaque a elementos que
reafirmam que as práticas autoritárias (como, por exemplo,
as medidas provisórias no Brasil) são vistas com simpatia
por uma significativa fatia dos habitantes da América Latina.
Os valores dos que habitam essa última seriam supostamente
reiteradores de práticas autoritárias, personalistas e
populistas. É evidente que por trás desses dados existem
tensões múltiplas que não são visíveis. Ou seja, há um
sistema de força, no mundo atual, que trabalha
incansavelmente para que a causa da democracia seja
identificada como uma banalidade, algo sem muita importância,
principalmente, nos países pobres. A pesquisa acaba por dar
reforço àquilo que alguns organismos internacionais (FMI,
BIRD, por exemplo) têm expressado através de suas sugestões
de gerenciamento das nações pobres. Sugestões essas que
quando colocadas em prática são altamente destrutivas porque
são baseadas na convicção de que a democracia é um luxo
dispensável para os países do terceiro mundo. Assim como
consideram luxo as universidades públicas e os direitos
sociais em geral.
Os números se lidos apressadamente sugerem que a própria
população latino-americana não estaria interessada na
democracia e, portanto, as medidas que estão sendo colocadas
em prática visando subtrair direitos sociais, principalmente,
seriam supostamente bem aceitas por uma parcela importante da
população. Dessa maneira, a pesquisa de opinião acaba por
cumprir o seu papel que é, nesse caso específico, o de
legitimar as ações políticas postas em práticas. Bourdieu
chama atenção para o fato de que a problemática dominante
nas pesquisas de opinião “que interessa essencialmente às
pessoas que detêm o poder e querem ser informadas sobre os
meios de organizar a sua ação política, é dominada de
forma bastante desigual pelas diferentes classes sociais” (Bourdieu,
1983, p.179). Os organizadores de pesquisas de opinião como
essas – os quais formulam questões que facilitam aos
antidemocratas a exaltação de práticas ditatoriais - acabam
não contribuindo para a qualificação das práticas democráticas.
Tais resultados divulgados pela mídia não contribuem para um
debate público que potencializaria um entendimento mais
adequado acerca da democracia.
Se o objetivo da ONU, conforme aponta o relatório, é
destacar a necessidade de que as nações latino-americanas se
empenhem na construção de práticas políticas democráticas
responsáveis por ações que mudem significativamente a vida
das pessoas mais pobres do continente, essa pesquisa de opinião
encomendada pelo PNUD não é de grande serventia. Isso porque
ela parte de generalizações que vão assumindo a feição de
artefatos justificadores de práticas não-democráticas.
O relatório destaca questões importantes que vão inclusive
na contramão das sugestões daqueles organismos
internacionais que exigem a efetivação de um Estado mínimo.
“Com Estados débeis, mínimos, só se pode aspirar à
conservação de democracias meramente eleitorais” (Relatório
da ONU apud POLÍTICA tem de recobrar relevância no
continente, Folha de S. Paulo, 2004, p.14). Todavia, os dados
divulgados acabam, antes de mais nada, por desqualificar a própria
democracia.
Isso ocorre porque “a primeira condição para responder
adequadamente a uma pergunta política é, portanto, ser capaz
de constituí-la enquanto política. A segunda, tendo-a
constituído como política, é ser capaz de aplicar a ela
categorias propriamente políticas que podem ser mais ou menos
adequadas, mais ou menos refinadas, etc.
Tais são as condições específicas da produção de
opiniões, que a pesquisa de opinião supõe estarem universal
e uniformemente preenchidas com o seu primeiro postulado
segundo o qual todo mundo pode produzir uma opinião” (Bourdieu,
1983, p.177).
Se o desprestígio da democracia é um problema relacionado
ao modo como a política vem sendo conduzida na América
Latina, isso evidencia que não se deveria, através de números
reforçar aquelas perspectivas desqualificadoras das instituições,
dos procedimentos, das ações e atitudes democráticas. No
entanto, ao elaborar uma pergunta que acena para a
possibilidade de haver uma ditadura supostamente eficiente na
solução dos problemas econômicos, tem-se o reforçamento da
descrença nas potencialidades democráticas do continente. A
contribuição com o debate, sobre a democracia na América
Latina, não poderá vir de generalizações obtidas através
de dados levantados por pesquisas de opinião que põem em
relevo uma suposta sedimentação de valores antidemocráticos.
Seria muito mais interessante destacar, além dos valores, os
modos de governar que têm perpetuado tais valores. Mas isso não
é possível fazer somente através de dados quantitativos.
Referências
Bibliográficas
BOURDIEU,
P. A opinião pública
não existe. In Questões de Sociologia.
São Paulo: Marco Zero, 1983. p. 173-182.
MAIORIA
na AL apoiaria ditadura ‘eficiente’. Folha de S. Paulo.
São Paulo, 21 abr. 2004. C. A, p.14.
POLÍTICA
tem de recobrar relevância no continente, defende estudo apud
Folha de S. Paulo, São Paulo, 21 abr.2004. CA, p.14.
AL
PREFERE expansão a regime democrático. Disponível em: in www.pnud.org.br/index.php?lay.
Acesso em 29 maio 2004.
PNUD
lança Democracia na América Latina. Disponível em: www.pnud.or.br/index.php?lay.
Acesso em 29 maio 2004a.