Por ANTONIO PISO 

Antonio Piso (RJ, 9 dezembro 1962), formado pela Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ (especialização em análise quantitativa), gerente de comércio exterior na empresa ComexTrading Ltda., de Niterói, foi professor de Economia no MBA da Universidade Castelo Branco, RJ. O autor não é membro de nenhum partido político, mas votou no partido vencedor nas eleições presidenciais de 2002 e partilha inteiramente dos seus objetivos de se alcançar no Brasil um processo de desenvolvimento com inclusão social e com correção das mais gritantes desigualdades que ainda caracterizam a sociedade nacional

 

O Brasil e o seu governo: um retrato sem retoques

 

1. O Estado a que chegamos…

Vou ser conciso, direto e brutal: o Estado brasileiro representa, hoje, o principal obstáculo a um processo sustentável e satisfatório de desenvolvimento econômico. Este é um fato (e uma verdade), ainda que muitos possam considerá-lo como mera opinião pessoal, mas minha afirmação poderia ser facilmente corroborada por um sem número de dados objetivos do ponto de vista tributário, orçamentário, financeiro, regulatório, em aspectos macro e micro, como alocação “sub-ótima” de recursos pelos agentes etc.

Não pretendo entrar em polêmicas inúteis com eventuais defensores do Estado (deste Estado ou de qualquer Estado), mas diria apenas, para início de debate, que o atual governo não é responsável por esta situação lamentável, que apenas constitui a culminação de um processo atávico e perverso de acumulação “primitiva” (no sentido de rude, mesmo) de disfunções estatais que foram lentamente sendo “depositadas” em camadas burocráticas geológicas e que hoje comprometem gravemente as possibilidades de crescimento sustentável. Mas o governo atual tem, sim, a responsabilidade pela continuidade de uma certa visão do mundo que tende a sustentar e prolongar esse estado de coisas. Voltaremos a isso.

Sendo reiteradamente direto e mesmo brutal, eu diria também que o governo (este e os seus predecessores) é o principal responsável pelo fato de a economia não funcionar de modo satisfatório. Esta é uma responsabilidade indeclinável, mas ela deve ser igualmente partilhada pelas três esferas da administração, uma vez que os políticos federais, estaduais e municipais, assim como funcionários de alto escalão dos três poderes devem ser – sinto muito, mas eu também me incluo na categoria – solidariamente responsabilizados por essas disfunções históricas do Estado brasileiro.

Não pretendo fazer longas digressões, tentando explicar como cheguei a essas duas constatações. Vou limitar-me a reafirmar que o peso do Estado brasileiro – o Estado a que chegamos, como diria o barão de Itararé – representa, sem qualquer dúvida, um peso morto sobre os ombros dos agentes econômicos e sobre o conjunto da sociedade (com poucos elementos de satisfação, segundo a opinião corrente). Tal como ele (não) funciona atualmente, o Estado brasileiro continuará, infelizmente, a obstaculizar o processo de desenvolvimento do país pelo futuro previsível. Esta é a parte ruim da história.

A parte ainda pior é que, mais uma vez infelizmente, não há perspectivas de que essa situação possa ser revertida no curto ou no médio prazo. Ou seja, temos apenas a certeza, pelo futuro previsível, de que a única certeza no nosso horizonte é a perspectiva de esforços privados não correspondidos no plano estatal, lágrimas implícitas por parte dos agentes econômicos e gemidos sem fim por parte do público em geral. Se isto pode servir de consolo, eu diria que um começo de solução a este problema trágico – já que é o nosso futuro e o de nossos filhos e netos que está em causa – não será encontrado fora do Estado, ainda que isto deva ser feito aos trancos e barrancos, quase a fórceps.

Não será feito fora do Estado e muito menos sem o Estado ou contra o Estado, porque, mais uma vez infelizmente, o Estado, também pelo futuro previsível, tornou-se o centro indeclinável e incontornável da economia e da política no Brasil. Aos que consideram este tipo de constatação uma manifestação incurável de neoliberalismo explícito e de anti-estatismo de princípio, eu diria simplesmente o seguinte: não estou preocupado com ideologias, mas apenas com constatações empíricas. A esse respeito, podemos lembrar que poucos países desenvolvidos – e certamente não os mais dinâmicos – têm no Estado o centro de gravidade absoluto da vida econômica e política nacional, como ocorre hoje no Brasil, onde ele é o referencial incontornável de qualquer ajuste, medida, iniciativa, suspiro e gemido da vida nacional.

Esclareço, mais uma vez, não se trata aqui de uma opinião ou impressão subjetiva, mas de um fato sociológico contra o qual podemos nos revoltar, lamentar, protestar, mas também com o qual temos de nos conformar e, em seguida, temos de nos confrontar. É o que pretendo fazer nesta e nas demais seções deste ensaio.

Se o Brasil quiser se desenvolver, com distribuição de riqueza, progresso tecnológico e justiça social, o Estado tem de – isto é imperativo – deixar de ser o centro absoluto da vida nacional. Um ogre que absorve dois quintos do produto bruto sem reverter serviços proporcionais para a sociedade é claramente disfuncional para fins de desenvolvimento sócio-econômico. Isto tampouco é uma opinião: é uma constatação elementar que surge límpida do exame dos indicadores econômicos e sociais do último quarto de século (período no qual paramos de crescer, mas as raízes da “involução” tinham sido desenhadas bem antes).

Aos que, mais uma vez, seria tentados a ver nessas afirmações demonstrações explícitas de neoliberalismo, eu apenas pediria que deixassem de tapar o sol com a peneira e olhassem a realidade dos fatos. A perda de vigor econômico no Brasil foi concomitante com a passagem de uma carga fiscal de aproximadamente 10% para 37% do PIB (e crescendo) e o contínuo decréscimo da relação capital-produto no processo brasileiro de desenvolvimento, sem que os elementos de disfuncionalidade se resumam, todavia, ao aspecto fiscal da história ou à perda de vigor dos investimentos. Não: o solapamento e a inviabilização do processo de desenvolvimento são o resultado de dezenas de ações desenvolvimentistas, distributivistas e regulatórias acumuladas ao longo de anos, senão décadas, um esforço contínuo, constante e crescente de fabricação do ogre. Ele agora está aí: é o Estado a que chegamos (e não adianta reclamar da boca para fora: todos nós fomos, somos e continuaremos a ser responsáveis solidários por esse gigantesco empreendimento de construção da desconstrução econômica).

Àqueles, também, que repetem sem cansar a velha cantilena da “ausência de um projeto de Nação” e que continuam a condenar um imaginário “modelo perverso de desenvolvimento”, clamando em conseqüência, na augusta generalidade das idéias vazias, pela necessidade de um outro (tão indefinível quanto fantasmagórico) “modelo de desenvolvimento” – como ainda aconteceu, por exemplo, na Resolução do Diretório Nacional do partido da mudança, em 18.04.2004 –, eu apenas diria que eles precisam, por uma vez, dedicar-se seriamente ao dever de casa. Sim, pois que, pelo menos desde a minha infância (mas deve ter ocorrido antes também), aí pelos anos 1950, eu ouço falar dessa tal necessidade, com intelectuais e políticos se sucedendo nessa tarefa de Sísifo puramente intelectual, e nenhum deles, uma única inteligência nacional, foi capaz, até agora, de sequer desenhar os contornos desse “projeto nacional de desenvolvimento”.

Como isso foi possível? Deve ser por algum obstáculo mental coletivo, pois não é possível que tantas cabeças juntas não tenham conseguido oferecer um contorno sequer desse tal “projeto”. O presidente do partido da mudança, em sua viagem à China em abril de 2004 – um país que desenhou um magnífico projeto de desenvolvimento em 1949 e que, trinta anos depois, resolveu inverter a marcha –, acaba de proclamar, mais uma vez, que o Brasil “carece de um projeto de desenvolvimento. Nós estamos definindo-o de maneira autônoma e soberana, e (sic?) seja respeitado na comunidade internacional”. Ele é mais um candidato a oferecer o tal projeto, que fica sempre na fase de anúncio, sem que sejamos apresentados ao dito cujo, em carne e osso, aliás, como se fosse algum Santo Graal desenvolvimentista, que fica escondido em alguma caverna das montanhas, necessitando bravos e intrépidos cavaleiros para resgatá-lo de algum limbo indefinível, só acessível aos iniciados da douta religião desenvolvimentista.

Como nota final a esta seção, ainda dirigida ao leitor que considera que estou sendo um neoliberal impenitente, eu apenas pediria que não tentasse concordar comigo no diagnóstico, nem nas recomendações que formularei. Eu pediria simplesmente que ele forneça uma explicação alternativa, credível, a esta exposição sobre a disfuncionalidade fundamental do Estado brasileiro para fins de desenvolvimento da Nação. Atenção, porém: se a explicação para o desastre for do tipo “é porque o Estado não fez isto e mais aquilo”, eu aí retorquiria o seguinte: não vale ser tautológico e reincidente no crime. Mas, se você preferir seguir um eminente economista como Celso Furtado que, quando perguntado sobre as razões que impediam o Brasil de crescer, respondeu que era devido a “uma combinação de juros altíssimos com uma concentração de renda brutal”, eu voltaria a responder: mas você está concordando comigo em que o Estado é o principal obstáculo ao crescimento pois que juros elevados e concentração de renda foram e são diretamente produzidos pelo Estado, historicamente e mais ainda nos dias que correm.

2. O governo que temos

No que se refere ao governo, fica difícil deixar de constatar que ele não apenas se exime do esforço de restabelecimento da saúde econômica do país, como ele também parece concorrer para o seu debilitamento. Não me refiro apenas ao assalto sistemático conduzido contra os cofres do Estado pelas elites irresponsáveis e pelos prebendalistas de sempre. Essas elites, que ocupam o poder desde a independência, não poderiam se sustentar nessa obra de exação sem a complacência, a conivência, quando não a ativa participação de frações importantes da classe média (isto é, pessoas como as que escrevem e lêem este tipo de ensaio). Lembro, portanto, que de classe média somos todos nós (inclusive os que agora ocupam o poder), que nem por isso integramos aquele 1% da fração mais rica da oligarquia plutocrática do País.

Pois bem: este governo supostamente saído das bases e não comprometido com as tais elites espoliativas, foi eleito com o compromisso de mudar tudo isso que está (estava?) aí. Sei que muito disso é pura retórica, mas de fato havia um compromisso fundamental com a “mudança”, em princípio em favor dos mais pobres e desvalidos. Alguns poderão agora dizer: “sim, estamos no governo, mas ainda não ocupamos o poder”, na desculpa mais esfarrapada que se pode ter desde os idos de um outro projeto nacional, aquele que supostamente precedeu o ciclo militar. Trata-se, obviamente, de puro contorsionismo conceitual, pois quem ocupa o governo dispõe, quer queira quer não, de considerável fatia do poder, não total por certo, mas suficiente para começar a mudar esse estado de coisas, isto é, o Estado a que chegamos.

Para responder a este tipo de alegação, pode-se oferecer uma outra estratégia: “bastaria” ao governo dar início a um processo de desmantelamento do “poder” das elites e de construção de um “contra-poder” que serviria à “causa do povo”. Bonito, não é mesmo? Pena que tudo isso não serve para nada, sendo apenas embuste intelectual. Ou melhor: se parece com aqueles discursos, meio poéticos, meio políticos, que fazíamos no início dos anos 1960, quando os sonhos utópicos em torno do socialismo e do poder popular ainda tinham acolhimento numa geração que lutava por uma alternativa que parecia ao alcance da mão (estava ali mesmo, numa ilha do Caribe). Pena que isso acabou e esse tipo de discurso não resolve mais o problema da disfuncionalidade do Estado e do debilitamento da economia. Muito menos, aliás, à causa do povo.

Vamos, pois, descer da estratosfera e fazer uma constatação muito simples. Vou ter de, novamente, ser conciso, direto e brutal, pedindo antecipadamente perdão às almas sensíveis: este governo, tanto quanto outros governos anteriores, é disfuncional, desconjuntado, contraditório e adiposo. Estou sendo bondoso, claro, pois poderia também acrescentar que ele é inepto em virtude de seus muitos conselheiros escolhidos por razões outras que a capacidade funcional: alguns parecem ser incapazes de dirigir sequer um botequim, quanto mais um ministério, mas vou eximir-me de entrar no terreno das ofensas pessoais e gratuitas. Volto às constatações de fato.

O governo é disfuncional porque ele não tem (salvo na economia) diretrizes claras de... governo. Ele não tem diretrizes claras porque... simplesmente elas não existem. E elas não existem porque não foram elaboradas. E elas não foram elaboradas porque não houve tempo (sendo generoso).

Vamos por partes: o governo, saído da “pré-história” das utopias irrealizáveis de um grupo motivado (e socialmente apoiado), foi recuperado por uma equipe que se defrontou com o “fim da história” das realidades concretas de governo (de qualquer governo), situação na qual as invectivas e slogans já não funcionam mais. Nesta nova situação, a gestão econômica segundo a teoria do barão de Münchausen – aquela que se parece com o moto perpétuo econômico, ou seja, o feito de elevar-se do pântano puxando a si mesmo, e ao seu cavalo, pelos próprios cabelos –, ela não se sustenta um só segundo, daí a razão de a gestão econômica ter retornado ao terreno cruel da reversão de expectativas. O chão é sólido, como descobriu o barão, mas não dá mais para ficar sonhando.

Não é preciso, tampouco, dar muitas razões para justificar a afirmação de que o governo é desconjuntado: isto salta aos olhos de todos e qualquer um. A formação da maioria congressual, por exemplo, teve de fazer-se ao preço da adjunção de elementos heterogêneos num mesmo prato de salada, daí essa impressão (mas pode ser só uma impressão) de que o governo é um Frankenstein de cérebro minúsculo. Dá para consertar, mas talvez se tenha de usar serrote e martelo, não apenas bisturi e raio laser.

O governo é contraditório porque esta característica é da sua natureza essencial, um pecado original, digamos assim. O principal partido que está em sua base já era assim antes e parece que a subida ao poder não lhe subiu ainda à cabeça, e ele continua a ostentar uma espécie de esquizofrenia primordial, com seitas se digladiando por objetivos políticos contraditórios, quando não frontalmente opostos entre si. Como não sou do partido, nem pretendo ser, não tenciono opinar neste particular. Por isso, deixo o diagnóstico (e eventual solução) aos próprios quadros e responsáveis do partido. Apenas diria o seguinte, do ponto de vista de um cidadão esclarecido que também é um servo do Estado: essa confusão entre partido e governo não prenuncia nada de bom para o futuro da democracia no Brasil. Seus efeitos podem ser deletérios, e não apenas para o Brasil: para o partido também, que acrescentaria mais uma esquizofrenia às suas conhecidas disfunções orgânicas.

Finalmente, que o governo seja adiposo, não precisa ser nenhum Dr. Atkins para reconhecê-lo. Também salta aos olhos. Se essa adiposidade se manifestasse apenas na pipoca do cinema, não haveria problemas. A questão é que ela afeta o funcionamento da máquina (que já não é exatamente uma máquina), e tem um peso na economia do país real. Minha única recomendação aqui seria: internação imediata, dieta rigorosa e controle severo da geladeira. Não adianta chorar: se quiser voltar a andar direito, vai ter de emagrecer várias arrobas e se ajustar ao terno justo do alfaiate (que por acaso é um médico).

Triste realidade esta da economia e do governo, não é mesmo? Mas, eu tinha avisado que este seria um retrato sem retoques...

3. É a economia, companheiro!

Sempre é a economia, companheiro. Isso está bem claro, mas neste governo em particular, mais do que em qualquer outro, a economia passou a ocupar uma posição de centralidade mudancista como nunca tinha sido o caso em qualquer governo do passado. Isto se deve ao fato de que a economia também fazia parte do projeto de poder, ou talvez do projeto de governo (com promessas de rupturas e de mudanças totais), embora eu seja mais cético nesse aspecto. Não surpreende, assim, que a economia tenha de fato surpreendido a todos e a cada um, a começar pelos próprios membros do partido da mudança, que ficaram surpresos com a amplitude da continuidade (alguns, na verdade, ficaram indignados, mas esses são minoria e não têm nada de melhor a propor no lugar das boas e velhas fórmulas de crescimento com estabilidade e responsabilidade fiscal).

Em todo caso, foram meses e meses de tormentosos debates sobre os rumos da economia, que até que não se comportou mal, em relação às perspectivas sombrias que eram feitas no tempo das eleições gloriosas. Depois ocorreu um festival de “achismos” e opiniões desencontradas sobre esses rumos, uma pletora de sugestões de mudança que devem ter toldado o cenário da gestão governamental nessa área, feita de tranqüila assunção da continuidade “neoliberal”, que nada mais é, na verdade, do que o simples reconhecimento de que em economia não há coelhos a tirar da cartola.

Agora que a demanda por magia e que os reclamos por ruptura encostaram no crescimento zero (como o PIB, aliás), é possível ver com mais clareza o horizonte futuro do desempenho econômico deste governo. E o que se vê não prenuncia nada de bom para o governo e o país: mesmo que a economia cresça a 3,5 ou 4% em 2004, isto terá efeitos mínimos sobre o desemprego, que permanecerá virtualmente intocado globalmente (com algumas acomodações setoriais). Talvez alguma recuperação venha pelo lado da construção civil e do nefando agro-negócio, mas não se deve esperar nenhuma maravilha em termos de espetáculo de crescimento.

Baixo crescimento, alto desemprego, constrangimentos fiscais, continuidade da fragilidade financeira externa, alto endividamento interno, estas serão as marcas do governo em 2004, em 2005 e possivelmente em 2006 também. Existem alternativas? Provavelmente sim, pois em economia sempre existem alternativas. Apenas que nem a oposição de esquerda, nem a de direita, nem os desenvolvimentistas centristas que se abrigam no antigo partido do poder conseguem propor um “mix” adequado de políticas alternativas que seja dotado de maior eficiência relativa na oferta de crescimento sem custos colaterais e com garantia de estabilidade macroeconômica. Quem disser que tem a fórmula mágica está blefando ou simplesmente mentindo.

Estamos, portanto, condenados ao déjà vu dos últimos cinco anos (isto é, desde a desvalorização e a adoção do sistema de metas de inflação), mas nem por isso se deve ficar amarrado na falta de perspectivas. A saída (parcial) desse imbróglio reside na abertura irresoluta aos investimentos diretos estrangeiros, algo mais proclamado do que realizado nos últimos meses. A política econômica externa afirma a receptividade brasileira aos investimentos estrangeiros, mas a política externa stricto sensu se compraz, ao mesmo tempo, em evitar acordos comerciais que impliquem algum compromisso no terreno dos investimentos estrangeiros, dizendo que “está lutando para preservar espaços nacionais para políticas setoriais de desenvolvimento” (quais, ela não diz exatamente quais são, ou se estão de acordo com a visão do pessoal encarregado da política econômica stricto sensu).

Para se lograr um pouco mais de crescimento seria preciso adotar uma postura realmente acolhedora aos investimentos estrangeiros, ao mesmo tempo em que uma disposição regulatória igualmente positiva na frente interna. Existe um potencial enorme de investimentos internos a serem feitos, que dependem de uma política aberta e disposta a considerar os interesses dos investidores privados, antes dos interesses do próprio Estado. Esses investimentos internos também compreendem algumas dezenas de bilhões de dólares de residentes nacionais que estão dormindo em contas off-shore.

A outra via para a retomada do crescimento é o estímulo aos investimentos internos via desgravação tributária e regulação positiva da economia, isto é, favorável ao investidor, não ao Estado. Sabemos que o Estado afirma e reafirma que não pode dispensar nenhuma fonte de receita, dado o engessamento constitucional, as transferências obrigatórias, os esqueletos do passado e diversos outros constrangimentos fiscais, inclusive o compromisso com o superávit primário.

Não acredite: isto é mentira e não é um fato. Todo Estado, mesmo o mais endividado, sempre tem gorduras para queimar e pode, se desejar, eliminar impostos redundantes, tributos cumulativos, taxas arbitrárias e outros encargos que só servem para transferir o ônus dos ajustes para os agentes econômicos e os contribuintes de modo geral. Se há consenso político de que a carga tributária do Brasil é excessiva para o seu PIB e os (magros) serviços que o Estado provê – e entendo que ninguém de bom senso ousaria afirmar o contrário – então seria possível dar início a um processo de redução gradual e progressiva das alíquotas principais dos impostos indiretos e uma desoneração ainda mais radical das operações de comércio exterior (as exportações, obviamente, mas também as importações, pois que elas representam insumos para atividades produtivas internas). Não quero falar aqui da revolução tributária que representaria a opção (que pode ser precedida de estudos e simulações) por um imposto único de transações financeiras (mas que fosse verdadeiramente exclusivo, salvo poucas taxas sobre os “vícios”, como bebidas e fumo).

Outro elemento importante do restabelecimento da saúde econômica do País seria a melhoria das condições de empregabilidade. Como para as medidas gerais que afetam a microeconomia, o aperfeiçoamento do quadro regulatório nesta área passa pela flexibilização e desregulação das condições de emprego, já que o excesso de condicionalidades e de tributação constituem poderosos desincentivos à contratação de novos trabalhadores e ao empreendimento de novos negócios. Da mesma forma, uma adesão radical a princípios de livre contratação, sem essa ficção do salário mínimo e seu festival de “penduricalhos” irrelevantes e custosos (vale-isso, vale-aquilo, com toda a corrupção associada a isso), constituiria um poderoso indutor à contratação da mão-de-obra que hoje vegeta na informalidade, sem contribuir para a Previdência. Admito que para isso seria preciso muita coragem, pois que tais reformas se chocam direta e frontalmente com o establishment sindical no Brasil, vale dizer, com os representantes oficiais e oficiosos da aristocracia operária (alguns, de fato aristocratas…).

Mas, nem investimentos diretos estrangeiros, nem flexibilização do mercado laboral poderão, sozinhos, recolocar o Brasil numa trajetória sustentável de crescimento se o Estado continuar a ser o despoupador líquido que ele é hoje do ponto de vista do sistema produtivo. Para isso, seria importante empreender desde já uma reforma ainda mais radical da Previdência, com aumento das contribuições e diminuição dos benefícios. Aqui também entra um elemento moral e ele se refere aos privilégios abusivos ainda consagrados nos diversos regimes especiais do funcionalismo público, em especial certas categorias de altos funcionários (alguns de estatura moral muito baixa para verdadeiramente montar uma contra-ofensiva sustentada na sociedade).

Existiriam ainda muitos outros elementos de caráter econômico, sobretudo na agenda de reformas microeconômicas, que seria preciso implementar de modo a melhorar o ambiente de negócios no País e atrair investimentos de todo o tipo. Não é, contudo, necessário entrar em detalhes, que figuram aliás em muitos pronunciamentos do ministro da Fazenda e do próprio presidente. A indecisão em implementar essa agenda apenas confirma o que se disse ao início deste texto: o Estado tornou-se o mais formidável obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas no país Brasil. Seria preciso liberar a economia desses grilhões e, como demonstrei, a maior parte das amarras é formada de grilhões mentais, que prendem o partido dominante à herança maldita de seu próprio passado de confusões ideológicas e de magias econômicas. Enquanto ele não se libertar desse espectro reacionário, o futuro da nação Brasil estará hipotecada.

4. A lei?: ora a lei…

A política no Brasil sempre foi esquizofrênica, e aparentemente vai continuar assim: o partido no poder abocanha os principais cargos e os divide depois com os demais banqueteiros oficiais. Triste espetáculo o das barganhas congressuais em torno de cargos, prebendas e, pior de tudo, manobras regimentais para abafar investigações em torno de situações portadoras de constrangimentos morais. Não se esperava isto do partido da reforma, sobretudo de certas pessoas que sempre colocaram o interesse nacional acima das conveniências do momento.

Sendo realista, eu diria que a situação nessa frente não corre o risco de melhorar. Aliás, vamos ser claros: não há absolutamente nenhum perigo de que as práticas congressuais e os pequenos e grandes conluios que se estabelecem todos os dias entre, de um lado, velhas e novas oligarquias estabelecidas nos partidos e no parlamento e, de outro, o governo central, este teoricamente representando a sociedade, mas de fato apenas a si mesmo, que essas práticas venham a conhecer qualquer possibilidade de melhoria, nos processos ou nos métodos. A política é, no Brasil, um perfeito retrato da anomia geral que reina na sociedade, na qual os instrumentos de representação são falhos e os mecanismos de congregação de interesses são mais deficientes ainda.

Dadas a velha tradição centralista lusitana, a ulterior concentração de poder na monarquia e a recentralização política operada na era varguista (incluindo aqui o período militar, que aperfeiçoou esse modelo), temos todas as garantias de que o estilo “troca de favores” entre amigos e correligionários tende a se perpetuar no Brasil, com todas as conseqüências em termos de distribuição de prebendas, de sinecuras, corrupção e degradação geral da coisa pública. Acredite: não há jeito de melhorar, por mais que se esforcem os “homens probos”, as consciências cívicas e outras almas ingênuas da vida política nacional.

Este é um dado estrutural da política brasileira: ele é infensa à moral e aos bons costumes, mas isso não deveria nos surpreender o mais da conta, pois anos e anos de esperanças enterradas no altar da política politiqueira já nos deveriam ter ensinado essa simples regra de puro bom senso. Esse problema não seria tão grave se, o resto do sistema governativo – a começar pelo judiciário, mas também os tribunais de contas e os outros corpos dedicados ao controle da moralidade e da correção da coisa pública – funcionasse de modo relativamente eficiente e com a isenção que se espera de órgãos voltados para o exercício dos contrapesos de que nos fala a teoria política (os checks and balances da tradição constitucional americana, mas que remontam a Montesquieu).

Ora, o que se assiste, atualmente, é um decréscimo brutal da legalidade e do respeito à lei, como nunca se tinha visto desde os tempos do Estado novo varguista e quiçá desde sempre. Invasão de propriedades, rompimento de contratos, renúncia em aplicar a lei na forma devida, leniência com abusos de toda ordem cometidos na esfera pública e na privada, tolerância com atos manifestos de corrupção, irresponsabilidade na manutenção de serviços públicos essenciais, talvez até mesmo conivência na adoção de medidas reconhecidamente ilegais iniciadas por agentes públicos em diversos níveis da federação, enfim, são inúmeros e repetidos os casos de ilegalidades cometidas, deixadas serem perpetradas ou toleradas pelas autoridades “legais” no país.

Os exemplos são tão escabrosos, e o “espetáculo da ilegalidade” é tão presente em nossas vidas desde o início de 2003 que seríamos tentados a dizer: nunca, em nenhum outro lugar, tantos assistiram a tantas barbaridades jurídicas e legais cometidas por tantos em tão pouco tempo. O que me preocupa não é simplesmente a defesa da legalidade em abstrato, mas sim a manutenção da boa ordem jurídica sem a qual todos os negócios e atividades econômicas passam a sofrer de insegurança legal e de falta de um arcabouço adequado para a implementação e a garantia do respeito aos contratos e à propriedade legítima. O descalabro jurídico-legal tem um custo econômico direto, como podem atestar inúmeros estudos especializados, dotados de extensa fundamentação empírica.

O Brasil já vem enfrentando, desde muitos anos, uma situação de incertezas legais e de perdas patrimoniais que geram custos reais e desperdícios potenciais que podem representar vários pontos do PIB. O poder judiciário como um todo apresenta situações de morosidade e de indefinições processuais que dificultam e de fato impedem, quando não acarretam prejuízos concretos, negócios e iniciativas econômicas nas mais diversas áreas da atividade social. Mas isso é bem conhecido e não começou com o governo atual. O que é particularmente preocupante é que, desde o início do atual governo, a situação agravou-se sobremaneira, dada uma tendência em autoridades e seus prepostos em recusar a chamada “legalidade burguesa” e pretender construir uma nova situação de fato que aponte presumivelmente na direção de um Estado colocado ao serviço de certas causas “sociais” (na verdade, a serviço de uma determinada visão ideológica da vida em sociedade).

Ainda que uma visão alternativa das relações jurídicas e sociais, bem como da expressão econômica de certos direitos sociais, possa ser legítima em seu próprio mérito, ela não pode ser implementada ao arrepio da lei ordinária, quando não dos princípios constitucionais tão duramente estabelecidos ao cabo de um regime de arbítrio de mais de duas décadas. A conquista da legalidade no Brasil faz parte da luta de todos os brasileiros e não poderia agora ser posta num limbo constitucional apenas porque alguns governantes (e muitos juízes também, cabe lembrar) gostariam de “fazer justiça” com suas próprias mãos (ou com a caneta de assinatura de atos ou liminares).

Com efeito, existe uma preocupante tendência, entre os governantes, a desculpar in limine representantes dos auto-proclamados “movimentos sociais”, que perpetram abusos e ilegalidades gritantes, em nome de uma pretensa busca de reparações por injustiças passadas e privações do presente: “faz parte da democracia”, dizem esses governantes desmiolados, esquecendo talvez que o primeiro dever do democrata é defender a legalidade contra atentados arbitrários. Legisladores também tendem a ser condescendentes com esses atentados várias vezes perpetrados, talvez porque eles mesmos se julgam acima das leis que atingem os “comuns dos mortais”, que somos todos nós.

Situação muito pior é a daqueles juízes de província que pensam encarnar, por vezes em cantos recuados do país, a lei e a ordem, ademais da justiça reparadora, e passam a “distribuir benesses” por meio de liminares e sentenças de duvidosa legalidade efetiva. Não contentes em interpretar a lei de modo especioso, eles por vezes “criam” leis que só existem em suas cabeças, ou dão guarida a medidas estapafúrdias adotadas por representantes executivos ainda mais lunáticos e ideologicamente motivados. Um exemplo, entre outros, desse tipo de ilegalidade que provoca prejuízos incomensuráveis à economia do país revelou-se numa lei inconstitucional do estado do Paraná de 2003, que intentou proibir a livre circulação de bens no território estadual a pretexto de que tais produtos poderiam ser geneticamente modificados. O fato de que algum órgão de controle, de nível estadual ou federal, não tenha de imediato declarada nula, ab initio, uma tal lei celerada é já por si preocupante; mas o fato, também, que o responsável em última instância pela situação de ilegalidade, o governador em pessoa, não tenha sido processado pelas perdas enormes que acarretou a inúmeros agentes econômicos – produtores, transportadores, compradores, usuários das vias de comunicação e dos portos, e todos os demais direta e indiretamente envolvidos naquele comércio legal, que tem seu quadro jurídico-legal determinado pela União –, essa situação confirma, mais uma vez, o quão frágil é o substrato jurídico no país, ademais de revelar a volatilidade legal em que são obrigados a trabalhar simples agentes privados do sistema econômico.

Não é preciso multiplicar os exemplos para se constatar como esse tipo de situação contribui para perdas econômicas apreciáveis, quase todos os dias, em todas as esferas da vida pública e privada em nosso país. A lei parece ser um detalhe, que é dado ignorar segundo os interesses e as conveniências políticas.

 

Termino este retrato sem retoques da situação no Brasil em meados de 2004 por mais uma constatação e uma recomendação singela. Constato, para tristeza do eleitor e do simples cidadão, que as esperanças depositadas no principal agente da transformação econômica e da reforma política no Brasil, bem como da justiça social, não parecem perto de realização, nem como intenção. Ou talvez sim: pode ser que haja um sincero desejo de cumprir com certas promessas de campanha e certos compromissos agitados durante longos anos de oposição irredutível e aparentemente animada por nobre ideais e elevados princípios éticos (ainda que se possa sinceramente duvidar que os meios e os métodos supostamente mobilizados para essas tarefas fossem os efetivamente corretos e adequados, do ponto de vista da simples racionalidade econômica). O que se observa, porém, é um descompasso enorme e uma distância incomensurável entre aqueles ideais e objetivos proclamados desde há muito e a prática corrente da governança real. Não me parece que o abismo esteja perto de ser superado, antes que o descalabro se imponha como sensação incontornável. Esta a constatação, que espero esteja equivocada.

A recomendação seria simplesmente no sentido de, finalmente, se encerrar a retórica (geralmente vazia) da mudança radical e da ruptura total em relação à herança deixada e aos “500 anos” de esquecimento, em prol de uma atitude humilde de exame da situação presente com abertura de espírito para aceitar verdades inquestionáveis e diagnósticos inapeláveis: este governo, não mais do que qualquer outro, não tem todas as respostas a todos os problemas colocados por séculos de negligências sociais e erros gerencias, quando não por irresponsabilidade das elites – entre as quais se situam as lideranças sindicais e partidárias, de todas as tendências – e equívocos de “intelectuais”. Não existem fórmulas mágicas, assim como não existe vontade política capaz de, num estalar de dedos, romper amarras estruturais que nos conduziram ao poço de iniqüidades que ainda caracteriza o Brasil. Uma atitude aberta e cooperativa com todas as forças sociais e políticas do país parece ser a melhor atitude a adotar numa conjuntura histórica de transformação que pode nos conduzir a um futuro de realizações promissoras ou a uma nova quadra de desesperança e desespero.

A escolha das alternativas e do caminho a ser adotado incumbe, sem delegação possível neste caso, ao dirigente máximo do país. Só ele pode nos conduzir para fora do beco econômico construído nas últimas décadas e, na esfera política, acima e além do Estado a que chegamos. Espero apenas que não seja tarde demais e que orgulhos indevidos nesta hora tão grave não paralisem a necessária tomada de decisão. O Rubicão está aqui: é preciso saltá-lo.

 

 
 

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