|
Por MICHEL
JUSTAMAND Doutorando
em Ciências Sociais na PUC-SP. Professor de Ciências Sociais e
Antropologia da Universidade Bandeirantes de São Paulo
|
|
A
presença das pinturas rupestres nos livros didáticos de História
no Brasil – de 1960 a 2000
Uma
possível história do Brasil antes de 1500 é questionada por
adultos e crianças há muito tempo. Na fase inicial de estudos
formal, na escola, nos é dado como certo que a história nacional
inicia-se em 1500. Mas, algum tempo depois, nos perguntamos: se já
existiam habitantes nesta terra, estes não tinham e fizeram história?
Para
este artigo, interessam os vestígios deixados nas rochas pelos
primeiros habitantes do Brasil, que são as pinturas rupestres. Elas
nos transmitem suas histórias e estão expostas em várias formas
artísticas (como as tradições e/ou subtradições, ou ainda
estilos das pinturas rupestres), culturais, sociais, etc.
As
pinturas rupestres estão plasmadas nas paredes das rochas
espalhadas por todos os estados do país, especialmente em algumas
cidades. Aparecem nas cavernas e nas rochas que serviram,
provavelmente, de abrigo para os primeiros habitantes do Brasil,
muito antes de 1500.
Estas
pinturas, então, poderiam transmitir informações sociais e
culturais de grande importância para a sobrevivência do grupo que
existisse naquele espaço e também para o futuro, fornecendo-nos
dados sobre a forma de vida das comunidades locais.
Parece-nos
que os livros didáticos de História do Brasil seriam o melhor
local para divulgar tal informação, pois são de grande importância
para o desenvolvimento da população. Por isso, procuramos
pesquisar estes livros.
Os
livros didáticos de História (do Brasil, Geral e/ou Integrada) não
relatam este assunto como se fizesse parte da história do país.
Tratam o período como pré-história, ou uma “história menor”
talvez. Desta forma, não esclarecem os leitores da possibilidade de
que o Brasil tenha tido uma História independente daquela da
Europa, por exemplo, e assim escondem algumas informações,
existentes nas pinturas, de nosso interesse. Hoje as pinturas
rupestres nos mostram um potencial informativo sobre a história dos
primeiros habitantes do Brasil e das Américas não contada nos
livros didáticos. Mesmo aqueles livros que contavam a História do
Brasil e até aqueles que se diziam livros didáticos de História
Geral não faziam menção alguma à passagem do homem pelo
Brasil/Américas, antes de 1500.
Algumas
imagens de pinturas rupestres que aparecem nos livros didáticos, de
certa forma, são padronizadas, pois as mesmas aparecerem em vários
livros. Os autores
destes livros utilizam-se sempre das mesmas tradições de pinturas
rupestres e sendo que, no país, o que não faltam são tradições
diferentes e locais para serem explorados.
Por
esse motivo, esses autores empobrecem a visão do educando, que não
percebe a existência das pinturas rupestres em todo o país,
podendo até haver uma produção próxima de sua escola, ou residência,
cidade ou estado, indicando uma história antiga para sua região
também e não somente para a antiguidade clássica (por exemplo:
Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, etc.).
A
arqueologia que é a ciência que estuda mais detalhadamente as
pinturas rupestres e que tem se pronunciado sobre elas com algumas
afirmações que se tornam tendências metodológicas. Uma destas
afirmações, apontada e defendida por André Prous, entre outros, é a de que
não se deve interpretá-las. Uma outra tendência mais aberta, no
sentido de que permite algumas interpretações é a sugerida por
Edithe Pereira.
Existem
ainda aqueles que compactuam com uma tendência que faz descrições
que são, praticamente, interpretações das pinturas rupestres e
que indicam a utilidade delas como referencial no uso social dos
primeiros habitantes do país. Neste caso, estão cientistas como Niéde
Guidon e Pedro Schmitz, entre outros.
As
pinturas rupestres apresentam a possibilidade de múltiplas
interpretações. Uma delas é a de que se pode “ler” os códigos
ali plasmados e adquirir informações sobre a vida e as práticas
sociais dos primeiros habitantes do país.
Sobre
as pinturas, Lucci, autor de livros didáticos e também
historiador, diz: Ainda
habitando nas cavernas, o homem primitivo começou a desenvolver a
atividade artística – representava nas paredes, a natureza que o
cercava e cenas da vida cotidiana, por meio de desenhos de animais e
árvores.
O
autor sugere que os homens deram início às atividades artísticas
também por meio das pinturas rupestres. E esse caminho artístico
aponta um conhecimento do mundo que os cercava e também quais
poderiam ser suas necessidades no contexto social, ecológico e histórico
em que viviam. Por “meio de desenhos de animais e árvores”, temos uma noção da
relação entre homens e seu habitat, vantagens e desvantagens, da
permanência ou não, entre outras questões. E voltam as perguntas:
se as pinturas têm o poder de comunicar algo, por que não utilizar
as existentes no Brasil? Por que as pinturas que aparecem nos livros
didáticos deste autor não são de nosso país? Por que uma produção
cultural/social como as pinturas rupestres não são usadas nos
livros didáticos?
Em
um dos livros didáticos de História do Brasil dos mais usados nos
anos 60, o de Antônio J. Borges Hermida, as únicas imagens que
constam não são as de pinturas rupestres (ou outras formas
culturais locais), mas desenhos estilizados dos primeiros habitantes
do Brasil.
Esperávamos
encontrar, então, nos livros didáticos da década de 70, algum
avanço nesta posição, pois nesta década as ciências já estavam
estudando com bastante intensidade os sítios arqueológicos do
Brasil, como São Raimundo Nonato (PI) e o Vale do Jequitinhonha
(MG), por exemplo. Entretanto, além de não apresentarem imagens do
Brasil sobre o período anterior a 1500, a história ensinada começa
com a formação do Estado Nacional de Portugal.
Com
os avanços científicos nas pesquisas arqueológicas na década de
80, no Brasil, e a descoberta de pinturas rupestres por todos os
estados do país, esse tema passasse a se refletir nos livros didáticos
do período. Uma discussão embrionária da ciência arqueológica
surge finalmente nos livros didáticos, mas com fotos de pinturas
rupestres da Europa, mesmo para tratar das questões do Brasil.
Nas
produções dos anos 90, o quadro mudou bastante com relação às décadas
passadas. Existem livros com uma grande qualidade e preocupação
com a apresentação deste passado que interessa a todos que neste
país moram. Nesta década surgiram os mapas com a localização das
populações mais significativas das Américas e do Brasil. É o
caso de Gilberto Cotrim em História e consciência do Brasil,
(1997/Saraiva) ; com indicações dos
lugares onde se encontravam as pinturas no Brasil e Vicentino/Dorigo
(1998/Scipione) em História do Brasil.
Nos
livros didáticos de História Geral para o ensino médio, surge,
nesta década a divisão entre pré-história no mundo e no
Brasil/Américas, com os livros de José J. de A. Arruda e Nelson
Piletti (1998/Ática), Antônio Pedro (1998/FTD), Florival Cáceres
(1998/Moderna), entre outros.É também nesta década que aparecem
as primeiras imagens (a maioria colorida) de pinturas rupestres
nestes manuais. Em alguns casos, são apenas ilustrativas e, em
outros, existe motivo para estarem lá, como em História do Brasil,
de Dorigo/Vicentino, pois há discussão sobre as fotos.
As
imagens coloridas também são de grande importância, porque hoje
os adolescentes estão acostumados com elas. Em alguns livros didáticos,
desta década, as fotos em preto e branco fazem com que as pinturas
rupestres percam seu brilho. Este
é o caso dos autores Cotrim, Arruda, Piletti, Pedro, Cáceres, e
outros (nos livros citados). E, no Brasil, as pinturas possuem uma
das maiores variedades de cores do mundo.
A
pintura rupestre tem recebido algumas interpretações dos
professores de História e historiadores autores de livros didáticos
como Lucci e também Vicentino/Dorigo. Eles criam um vínculo
interpretativo entre as pinturas rupestres e o presente em suas
considerações, para auxiliar a compreensão por parte dos alunos.
Apontam uso e significado, dados que estariam nas entrelinhas das
pinturas e que são úteis pedagogicamente.
Em
livros didáticos como o de Piletti (1998/Ática) ou o de Vicentino/Dorigo,
ocorrem algumas informações nas legendas das pinturas, abaixo das
fotos, que ajudam os leitores a compreenderem o exposto na imagem: As mulheres em algumas das pinturas são identificadas pelo ventre
proeminente que caracteriza a gravidez das mesmas.
Ou
ainda: Nas figuras pintadas em
paredes rochosas do Parque Nacional da Serra da Capivara, em São
Raimundo Nonato, PI, destacam-se as do sítio da Pedra Furada, onde
predominam cenas de caça, trabalho e vida familiar.
Mas
os livros didáticos dos anos 90 trazem também capítulos como “Antes
do descobrimento”.
E títulos como “Do
descobrimento à independência”.
Nesses dois casos, está presente o discurso dominante e
alienante, que não propõe uma visão de que a história do Brasil
pudesse ter começado antes da invasão portuguesa.
Acreditamos
que se as pinturas rupestres que aparecem nos livros didáticos se
forem bem trabalhadas em breve, as gerações vindouras farão novos
questionamentos e não mais aqueles com os quais nos defrontamos
quando estávamos nos primeiros anos de escolarização.
Imaginamos
que não tenham sido exclusivamente os avanços da arqueologia, mas
também as preocupações dos autores e editoras com a qualidade de
seus materiais, além das cobranças e questionamentos dos alunos,
que contribuíram para as mudanças ocorridas nos livros didáticos
atuais.
Bibliografia
EMPRESAS
DOW. Herança – A expressão
visual do brasileiro antes da influência
do europeu. Brasil, 1984. 70 p.
FUNARI,
Pedro Paulo Abreu. Arqueologia.
São Paulo. Ática,
1988. 85 p.
GUIDON, NIÉDE. In: “As ocupações pré-históricas do Brasil”,
In: CUNHA, Manuela Carneiro da. História
dos Índios no Brasil. São Paulo, Cia das Letras, 1992, págs.
37 a 52.
______.
Pré-História no Piauí. Revista
Horizonte Geográfico, ano 3, nº 12, set/out, 1990.
KERN,
Arno A. e outros. Arqueologia
Pré-Histórica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. Mercado
Aberto, 1991. 356 p.
MARTIN, Gabriela. A Pré-História do
Nordeste do Brasil. Pernambuco. UFPE, 1997.
445 p.
MENDES,
Josué Camargo. Conheça a Pré-história
Brasileira. São Paulo. USP, Editora Polígono, 1970. Da pág.
113 a 135.
PALLESTRINI,
Luciana e MORAIS, José Luiz de. Arqueologia
Pré-Histórica Brasileira. São Paulo. USP fundo de Pesquisa,
1982.
PEREIRA,
Edithe. Registros rupestres do Noroeste do Pará. Revista de Arqueologia, São
Paulo, nº 8, 19943. 321-335 p.
_____
. Arte rupestre na Amazônia.
Belém, edição SEBRAE, 1999. Da Pág. 12-21.
PEREIRA
Jr., José Anthero. Introdução
ao Estudo da Arqueologia Brasileira.
São Paulo. Ind. Gráfica Bentivegna Editora, 1967. 261 p.
PESSIS,
Anna-Marie. In: “Pré-História da região do Parque da Serra
Capivara”. In: TENÓRIO, Maria Cristina. (org.) Pré-História
da Terra Brasilis. Rio de Janeiro, UFRJ, 1999, págs. 61 a 74.
PINSKY,
Jaime. As primeiras Civilizações.
S. Paulo, ed. Atual, 1994. 98 p. 280 p.
PROUS,
André. Arqueologia Brasileira.
Brasília. UnB, 1991, 605 p.
RIBEIRO,
Berta G. Arte Indígena,
Linguagem Visual. Rio de Janeiro, Ed. Itatiaia, 1989. 186 p.
TENÓRIO,
Maria Cristina. Pré-História
da Terra Brasilis. Rio de Janeiro, Ed. UFRJ, 1999. 376 p.
Fontes:
ALENCAR,
Chico e outros. História da
Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro, Ed. Ao Livro Técnico,
1996.
ARRUDAS,
J. J. de A. & PILETTI, Nelson. Toda
a História. São Paulo, ed. Ática, 1997.
BARBEIRO,
Heródoto & CANTELE, Bruna Renata. Ensaio
Geral 500 anos de Brasil.
São Paulo, ed. Nacional, 1999.
CÁCERES,
Florival. História Geral.
São Paulo, ed. Moderna, 1996.
COTRIM,
Gilberto. História e consciência
do Brasil. São Paulo, ed. Saraiva, 1997.
FERREIRA,
Olavo Leonel. História do
Brasil. São Paulo, ed. Ática, 1995.
FIGUEIRA,
Divalte Garcia. História.
São Paulo, ed. Ática, 2000.
KOSHIBA,
Luiz & PEREIRA, Denise M. F. Américas
uma introdução histórica.
São Paulo, ed. Atual, 1996.
MEIRA,
Antonio Carlos. Brasil
recuperando a nossa história. São Paulo, ed. FTD, 1998.
MOTA,
Myriam Becho & BRAICK, Patrícia Ramos. História
das cavernas ao terceiro
milênio. São Paulo, ed. Moderna, 1997.
PEDRO,
Antonio. História da civilização
ocidental (integrada Brasil e Mundo).
São Paulo, ed. FTD,
1997.
PILETTI, Nelson. História do Brasil. São Paulo, ed. Ática, 1997.
SCHMIDT,
Mario. Nova História Crítica
da América. São Paulo, ed. Nova Geração, 1998.
SILVA,
Francisco de Assis. História
do Brasil. São Paulo, ed. Moderna, 1992.
VICENTINO,
Cláudio. História Geral.
São Paulo, ed. Scipione, 2000.
|
|

|