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Previdência
social e desemprego tecnológico
Um
dos efeitos mais perversos da disseminação da tecnologia de
informação com o objetivo de reduzir a necessidade de mão-de-obra
é o agravamento do problema do déficit da previdência social.
Os
otimistas em relação às diretrizes do atual processo de globalização
e ao modelo seguido pela nova economia tendem a subestimar seus
efeitos nocivos no mercado de trabalho. A crença de que o que
vivemos é apenas uma terceira revolução industrial é desmentida
a todo o momento pela percepção dos efeitos das novas tecnologias
nos setores de comércio e serviços.
Essa
visão estreita permite afirmar que os empregos logo voltarão
devido ao aumento da demanda provocado pela redução dos preços
dos produtos através do próprio aumento da produtividade.
Ocorre
que esse raciocínio não leva em conta vários fatores, como por
exemplo, o fato das empresas da nova economia reagirem aos aumentos
de demanda investindo em mais tecnologia, e nunca em aumento de
contratações. Também se desconsidera que as reduções das
jornadas de trabalho, no passado, ocorreram por meio de sindicatos
fortes e/ou estados intervencionistas, exatamente o contrário do
que vemos hoje.
Mesmo
se aceitarmos a tese de que o desemprego tecnológico se deve ao
baixo nível de escolaridade de muitos trabalhadores e que, portanto
a solução passa simplesmente pela melhoria das qualificações
profissionais, temos o seguinte problema insolúvel: O equilíbrio
dos sistemas de previdência social.
A
teoria otimista do “novo trabalho” costuma apresentar como
característica chave para o sucesso na nova realidade do mercado, o
conceito de “empregabilidade”. Em resumo o novo empregado é um
indivíduo com alta qualificação em tecnologia, administração de
negócios, fluente em pelo menos dois idiomas, etc.
Além
disso, deve fazer uma série de cursos extra curriculares e deve se
manter permanentemente atualizado de modo a acompanhar as rápidas
mudanças características do mundo globalizado. Deve evitar a todo
custo que seus conhecimentos fiquem defasados ou obsoletos.
Isso
só é possível se o trabalhador tiver muito mais anos de
escolaridade e treinamento do que agora. Em outras palavras, para se
tornar “empregável” o trabalhador deverá investir vários anos
de sua vida útil em estudos.
Por
outro lado, ao chegar à meia idade, sua capacidade de absorver
novos conhecimentos gerais irá diminuir, entre outras coisas porque
ele estará totalmente absorvido em seu trabalho, o que exigirá uma
especialização cada vez maior. Além disso, terá novas preocupações
como família, filhos, etc. Assim, dificilmente terá condições de
se atualizar com a necessária velocidade.
A
rápida obsolescência, mesmo dos profissionais mais capacitados,
significará a aposentadoria cada vez mais precoce. Isso já vem
ocorrendo por toda parte, incluindo-se ai o grupo dos aposentados
compulsórios, ou seja, os trabalhadores da faixa de 45 a 55 anos
que simplesmente não conseguem mais se empregar mesmo tendo um currículo
fabuloso.
A
propósito, numa recente publicação orientando a elaboração de
currículos, Karin Parodi, do Career Center de São Paulo, adverte
textualmente “que os profissionais mais experientes tomem cuidado
ao relatar sua trajetória profissional, pois experiência demais
pode acabar indo contra o candidato, já que pressupõem que ele é
mais velho” (VOCÊ S/A, 2004:35).
Considerando
que as melhorias das condições de saúde em geral torna
praticamente imperceptível o declínio físico e que qualquer
discriminação é mal vista, essa afirmação seria um absurdo.
Ocorre que os recrutadores sabem que qualquer conhecimento não teórico
que tenha sido obtido a cinco, dez ou mais anos, acaba sendo inútil
e as vezes até atrapalhando a adaptação a um novo ambiente de
trabalho.
Em
resumo, a nova economia exige que os trabalhadores entrem cada vez
mais tarde e saiam cada vez mais cedo do mercado de trabalho. O novo
sistema não só precisa de menos gente como as usa cada vez por
menos tempo.
Desta
vez o próprio Castells, que acusa os pessimistas como Rifkin de
serem “Profetas do desemprego maciço”, tem de reconhecer que
“... o sistema de contabilidade que calcula as aposentadorias e a
assistência médica entra em colapso, não porque haja excesso de
idosos, mas porque a proporção entre contribuintes ativos e os
beneficiários inativos torna-se insustentável, a menos que os
aumentos de produtividade sejam enormes, e a sociedade aceite uma
redistribuição intergeneracional maciça” (CASTELLS, 1999:537).
É
curioso o esforço para se evitar o uso da expressão “redistribuição”
pura e simplesmente. Foi necessário um termo no mínimo pouco usual
para fazer crer que o problema seria entre “gerações” e não
entre “classes”. Entre velhos e moços e não entre ricos e
pobres.
Continuando,
Castells chega ao âmago da questão: “A menos que se modifique a
base de cálculo dos benefícios sociais mediante um novo contrato
social, a diminuição do tempo de serviço válido e a acelerada
obsolescência da mão-de-obra decretarão o fim das instituições
de solidariedade social e a introdução das guerras etárias” (CASTELLS,
1999:538).
Isso
mostra como em uma obra monumental, onde se combina erudição e bom
senso, podem-se dizer bobagens. O que seria uma “guerra etária”?
Quer dizer que no futuro teremos bandos de idosos armados de
guarda-chuvas e bengalas atacando grupos de jovens executivos que se
defenderiam com celulares e leptops? Seria mais um tipo de
“conflito de baixa intensidade”? É cômico se não fosse trágico!
Obviamente,
o que teremos será à volta dos velhos como um peso para os mais
jovens. A figura do velhinho triste e inútil que, todos esperam que
morra logo, voltará das páginas das antigas estórias sobre os
operários do século XIX, diretamente para a era da informação.
À
medida que as pessoas vivam mais, terão um curto período não só
para conseguir ter um emprego e se manter, mas também para garantir
conforto e bem estar em sua longa existência pós-trabalho. O cenário
do futuro será como o mundo dos jogadores de futebol ou dos modelos
atuais. Ou se fica muito rico logo ou se estará condenado à
insignificância e ao esquecimento.
A
grande diferença é que esses profissionais não são obrigados a
investir décadas de estudos e treinamento em suas profissões antes
de iniciar suas carreiras. Simplesmente exploram seus talentos
naturais. Quando não fazem sucesso, procuram logo uma profissão
“normal”. Se não enriquecem no auge da fama, sempre sobra um
bom emprego público para quebrar o galho...
É
desnecessário observar o potencial de desagregação social, a
abolição de toda ética nos negócios e da inevitável transposição
da fronteira com a criminalidade. Com o enfraquecimento cada vez
maior do papel da família e dos estados nacionais, o indivíduo
tenderá a agir não como um como “ser sociável” e sim como um
predador selvagem.
Mas
Castells explica que tudo isso pode ser evitado se os benefícios
sociais forem calculados em novas bases, mediante um “novo
contrato social”, embora aqui ele não pareça dar a devida dimensão
ao termo.
Está
mais do que claro que toda a nova economia e a própria estabilidade
da sociedade global do futuro, depende de um novo “Contrato
Social”, mas nos termos em que Jean-Jacques Rousseau
usou a expressão.
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