Por LAURO A. MONTECLARO CESAR JR. 

Graduado em Engenharia Civil, Pós-graduado em Administração de Empresas, Núcleo de Concentração  Análise de Sistemas, pela Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo - Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado - FACESP - FECAP. Gerente de informática da Santa Casa de Misericórdia de Pindamonhangaba. Consultor de informática da Federação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas do Estado de São Paulo - FESEHF

 

Previdência social e desemprego tecnológico

 

Um dos efeitos mais perversos da disseminação da tecnologia de informação com o objetivo de reduzir a necessidade de mão-de-obra é o agravamento do problema do déficit da previdência social.

Os otimistas em relação às diretrizes do atual processo de globalização e ao modelo seguido pela nova economia tendem a subestimar seus efeitos nocivos no mercado de trabalho. A crença de que o que vivemos é apenas uma terceira revolução industrial é desmentida a todo o momento pela percepção dos efeitos das novas tecnologias nos setores de comércio e serviços.

Essa visão estreita permite afirmar que os empregos logo voltarão devido ao aumento da demanda provocado pela redução dos preços dos produtos através do próprio aumento da produtividade.

Ocorre que esse raciocínio não leva em conta vários fatores, como por exemplo, o fato das empresas da nova economia reagirem aos aumentos de demanda investindo em mais tecnologia, e nunca em aumento de contratações. Também se desconsidera que as reduções das jornadas de trabalho, no passado, ocorreram por meio de sindicatos fortes e/ou estados intervencionistas, exatamente o contrário do que vemos hoje.

Mesmo se aceitarmos a tese de que o desemprego tecnológico se deve ao baixo nível de escolaridade de muitos trabalhadores e que, portanto a solução passa simplesmente pela melhoria das qualificações profissionais, temos o seguinte problema insolúvel: O equilíbrio dos sistemas de previdência social.

A teoria otimista do “novo trabalho” costuma apresentar como característica chave para o sucesso na nova realidade do mercado, o conceito de “empregabilidade”. Em resumo o novo empregado é um indivíduo com alta qualificação em tecnologia, administração de negócios, fluente em pelo menos dois idiomas, etc.

Além disso, deve fazer uma série de cursos extra curriculares e deve se manter permanentemente atualizado de modo a acompanhar as rápidas mudanças características do mundo globalizado. Deve evitar a todo custo que seus conhecimentos fiquem defasados ou obsoletos.

Isso só é possível se o trabalhador tiver muito mais anos de escolaridade e treinamento do que agora. Em outras palavras, para se tornar “empregável” o trabalhador deverá investir vários anos de sua vida útil em estudos.

Por outro lado, ao chegar à meia idade, sua capacidade de absorver novos conhecimentos gerais irá diminuir, entre outras coisas porque ele estará totalmente absorvido em seu trabalho, o que exigirá uma especialização cada vez maior. Além disso, terá novas preocupações como família, filhos, etc. Assim, dificilmente terá condições de se atualizar com a necessária velocidade.

A rápida obsolescência, mesmo dos profissionais mais capacitados, significará a aposentadoria cada vez mais precoce. Isso já vem ocorrendo por toda parte, incluindo-se ai o grupo dos aposentados compulsórios, ou seja, os trabalhadores da faixa de 45 a 55 anos que simplesmente não conseguem mais se empregar mesmo tendo um currículo fabuloso.

A propósito, numa recente publicação orientando a elaboração de currículos, Karin Parodi, do Career Center de São Paulo, adverte textualmente “que os profissionais mais experientes tomem cuidado ao relatar sua trajetória profissional, pois experiência demais pode acabar indo contra o candidato, já que pressupõem que ele é mais velho” (VOCÊ S/A, 2004:35).

Considerando que as melhorias das condições de saúde em geral torna praticamente imperceptível o declínio físico e que qualquer discriminação é mal vista, essa afirmação seria um absurdo. Ocorre que os recrutadores sabem que qualquer conhecimento não teórico que tenha sido obtido a cinco, dez ou mais anos, acaba sendo inútil e as vezes até atrapalhando a adaptação a um novo ambiente de trabalho.

Em resumo, a nova economia exige que os trabalhadores entrem cada vez mais tarde e saiam cada vez mais cedo do mercado de trabalho. O novo sistema não só precisa de menos gente como as usa cada vez por menos tempo.

Desta vez o próprio Castells, que acusa os pessimistas como Rifkin de serem “Profetas do desemprego maciço”, tem de reconhecer que “... o sistema de contabilidade que calcula as aposentadorias e a assistência médica entra em colapso, não porque haja excesso de idosos, mas porque a proporção entre contribuintes ativos e os beneficiários inativos torna-se insustentável, a menos que os aumentos de produtividade sejam enormes, e a sociedade aceite uma redistribuição intergeneracional maciça” (CASTELLS, 1999:537).

É curioso o esforço para se evitar o uso da expressão “redistribuição” pura e simplesmente. Foi necessário um termo no mínimo pouco usual para fazer crer que o problema seria entre “gerações” e não entre “classes”. Entre velhos e moços e não entre ricos e pobres.

Continuando, Castells chega ao âmago da questão: “A menos que se modifique a base de cálculo dos benefícios sociais mediante um novo contrato social, a diminuição do tempo de serviço válido e a acelerada obsolescência da mão-de-obra decretarão o fim das instituições de solidariedade social e a introdução das guerras etárias” (CASTELLS, 1999:538).

Isso mostra como em uma obra monumental, onde se combina erudição e bom senso, podem-se dizer bobagens. O que seria uma “guerra etária”? Quer dizer que no futuro teremos bandos de idosos armados de guarda-chuvas e bengalas atacando grupos de jovens executivos que se defenderiam com celulares e leptops? Seria mais um tipo de “conflito de baixa intensidade”? É cômico se não fosse trágico!

Obviamente, o que teremos será à volta dos velhos como um peso para os mais jovens. A figura do velhinho triste e inútil que, todos esperam que morra logo, voltará das páginas das antigas estórias sobre os operários do século XIX, diretamente para a era da informação.

À medida que as pessoas vivam mais, terão um curto período não só para conseguir ter um emprego e se manter, mas também para garantir conforto e bem estar em sua longa existência pós-trabalho. O cenário do futuro será como o mundo dos jogadores de futebol ou dos modelos atuais. Ou se fica muito rico logo ou se estará condenado à insignificância e ao esquecimento.

A grande diferença é que esses profissionais não são obrigados a investir décadas de estudos e treinamento em suas profissões antes de iniciar suas carreiras. Simplesmente exploram seus talentos naturais. Quando não fazem sucesso, procuram logo uma profissão “normal”. Se não enriquecem no auge da fama, sempre sobra um bom emprego público para quebrar o galho...

É desnecessário observar o potencial de desagregação social, a abolição de toda ética nos negócios e da inevitável transposição da fronteira com a criminalidade. Com o enfraquecimento cada vez maior do papel da família e dos estados nacionais, o indivíduo tenderá a agir não como um como “ser sociável” e sim como um predador selvagem.

Mas Castells explica que tudo isso pode ser evitado se os benefícios sociais forem calculados em novas bases, mediante um “novo contrato social”, embora aqui ele não pareça dar a devida dimensão ao termo.

Está mais do que claro que toda a nova economia e a própria estabilidade da sociedade global do futuro, depende de um novo “Contrato Social”, mas nos termos em que Jean-Jacques Rousseau usou a expressão.

 

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Equacionando a questão do desemprego tecnológico

Bibliografia:

Castells, Manuel, A Era da Informação, Vol.1 - A Sociedade em Rede, São Paulo, Paz e Terra, 1999 (7ª edição).

Rifkin, Jeremy, O Fim dos Empregos, São Paulo, Makron Books, 1996.

Você S/A, Elabore seu currículo, São Paulo, Editora Abril, 2004.

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