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Por RUDÁ RICCI *
Sociólogo,
Professor da PUC-Minas e UNINCOR. Coordenador do Instituto Cultiva
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Conjuntura
com sinais trocados
A
Carta ao Povo Brasileiro, divulgada pela coordenação da campanha
de Lula em junho de 2002, reordenou todo cenário político partidário
que se formou em nosso país desde a década de 80. Este documento
garantia a ausência de qualquer ruptura com os compromissos monetários
e fiscais assumidos pelo governo FHC que, até então, era
qualificado pelo PT como neoliberal.
Com
a vitória de Lula, o PT governista aproximou-se significativamente
da ideologia e projetos do PSDB, constituindo uma certa unidade
programática social-democrata claramente hegemônico, a partir de
então, no espectro partidário. Todos outros grandes partidos
passaram a gravitar ao redor de PT e PSDB, o que torna o cenário
partidário bipolar, surpreendente para um país que saiu
recentemente de um regime militar.
Muitas
articulações de bastidores, desde então, procuraram forjar possíveis
acordos eleitorais entre as duas agremiações, ainda que as
disputas locais e regionais limitassem acordos mais duradouros. Lula
chegou a afirmar em entrevista que os dois partidos, que seriam
adversários no momento, poderiam se aproximar no futuro. Uma
entrevista do ministro Tarso Genro à revista Primeira Leitura
reafirmou a intenção governista. Nos últimos dias, o deputado
federal Paulo Delgado (PT-MG), candidato à Presidência da Câmara
Federal, destacou esta possibilidade como a mais realista para a política
nacional.
Os
acontecimentos do início de 2004, contudo, abalaram esta aproximação
entre tucanos e petistas governistas. A aproximação, cujo exemplo
mais visível se dá em Minas Gerais, foi barrada pelas forças políticas
paulistas de ambos os partidos. Portanto, é por Minas Gerais (e
parte do nordeste) que passa uma possível rearticulação
social-democrata e é de São Paulo que a disputa entre os dois
partidos parece criar os maiores obstáculos à este projeto de
aliança. Em suma, no interior do PSDB, forja-se uma disputa invisível
liderada pelo governador Aécio Neves (MG) e Geraldo Alkmin (SP).
O
caso Waldomiro e a postura conservadora do Banco Central em relação
aos juros básicos da economia nacional inverteram as expectativas
de empresários, banqueiros e especuladores financeiros, e até
mesmo agentes políticos. Mesmo a recuperação do crescimento do
PIB nacional nos dois primeiros trimestres de 2004 dificilmente serão
sustentados na mesma proporção ao longo do ano, em virtude do
anunciado aumento da taxa de juros da economia norte-americana que
atrairia capitais par o México. Há, ainda, um impasse em relação
aos efeitos do crescimento do PIB sobre as condições sociais, em
virtude dos baixos índices de investimento público. Até final de
maio deste ano, apenas 1,9% do total autorizado para gastos orçamentários
federais em investimento haviam sido executados. Assim, o “espetáculo
do crescimento” foi se configurando como retórica governamental.
Tais indicadores parecem sinalizar para o acirramento da disputa
eleitoral. O PSDB aumentou o tom dos discursos oposicionistas e,
mesmo os mais refratários a este distanciamento, como o Governador
Aécio Neves e o Senador Tasso Jereissati, iniciaram alguns lances
oposicionistas mais concretos.
O
Partido dos Trabalhadores, por sua vez, passou a ver as eleições
de 2004 como prova de fogo do governo Lula. A convicção (expressa
em polêmica entrevista do secretário-geral do PT, Sílvio Pereira,
ao jornal Valor Econômico) é que uma derrota do PT nas eleições
municipais seria interpretada como a derrota do governo federal. Tal
leitura sugere a possibilidade de uma pauta “federalizada” na
eleições de diversas capitais do país, em especial, naquelas em
que PT e PSDB possuem candidatos próprios com chances de vitória.
Uma
possível derrota do PT nas eleições municipais anteciparia o
calendário eleitoral e deflagraria o processo sucessório
presidencial antes da colheita dos frutos da suposta estabilidade
econômica. Este fato, por si só, teria graves impactos na
governabilidade do país, dificultando a ação político-administrativa
do governo e colocando em risco a reeleição do Presidente Lula.
Por este motivo, a agenda de reformas (política, sindical,
trabalhista) não poderia ser retomada em 2005. O programa de ajuste
fiscal seria fortemente contestado pelo arco de alianças do
governo. O custo político seria alto e deixaria o governo, ainda
mais, vinculado a grupos políticos conservadores. Assim, a eleição
de 2004 é central no projeto político de poder dos dois mais
importantes partidos brasileiros.
Para
os movimentos sociais e organizações populares brasileiros, esta
conjuntura revela-se uma encruzilhada das mais graves. Enfim, em
nenhuma das hipóteses desenhadas desde o início do governo Lula
– aproximação ou disputa acirrada entre PT e PSDB – essas forças
sociais comparecem ou têm influência significativa. Daí
aparecerem como coadjuvantes nos inúmeros fóruns criados pelo
governo federal. Também é em virtude desta realidade que suas
principais bandeiras (reforma agrária, plebiscito sobre a ALCA,
auditoria da dívida externa, entre outras) não se transformam em
agenda nacional. Mas, paradoxalmente, é deste campo político que
poderia nascer a única possibilidade de alteração das práticas e
projeto do governo Lula.
As
eleições municipais de outubro podem constituir-se, enfim, no
primeiro round desta empreitada. Esta é a chave de leitura para a
recente movimentação política da Igreja Católica. De um lado, a
CNBB divulgou declarações mais críticas em relação às políticas
do governo federal. De outro, as alas progressistas da Igreja Católica
reeditaram uma de suas iniciativas mais ousadas dos anos 90: a
Semana Social Brasileira. Trata-se de uma articulação nacional, de
articulação política, de movimentos sociais, ongs, universidades
e pastorais sociais, procurando montar uma agenda nacional e uma
pauta de mobilizações pelos direitos sociais. Esta mobilização
teve início no lançamento em Brasília, em maio, e começa a se
espraiar pelos regionais, estados, chegando a atingir dioceses e paróquias.
A Igreja Católica foi sempre um ator de grande magnitude nas
mobilizações sociais brasileiras. Esta iniciativa, portanto,
reveste-se de grande importância para os próximos lances da política
nacional. Ainda que ela continue com sinais trocados.
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