Por FÁBIO MASSALLI

Jornalista e mestrando em Letras na Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

RESENHA:

Álbum de Leitura: Memórias de vida, história de leitoras, de Lilian de LACERDA. São Paulo, Editora Unesp, 2003, 506 páginas.

 

Adoráveis Mulheres

 

Memórias. Espremidas entre as páginas da mente[1]. Doze mulheres nascidas entre 1843 e 1916 lembram épocas e passagens de suas vidas e colocam tais lembranças em cadernos e folhas. Estas páginas se tornam livros, alguns de escritoras por profissão outros publicados graças ao interesse, homenagem e saudade de filhos e netos. Mapear a história das leituras destas mulheres, excluídas privilegiadas em um tempo em que o acesso à obras literárias, jornais e revistas eram quase exclusividade do universo masculino, é o que faz Lilian de Lacerda em Álbum de Leitura – Memórias de vida, história de leitoras.

Álbum de Leitura foi lançado em 2003 pela Editora Unesp e tem prefácio de Roger Chartier. Em 506 páginas Lilian traça um perfil social e de leituras de cada uma destas doze mulheres. O que liam, influências que recebiam das mães, pais e outros membros da família, dificuldade, limitações e proibição de suas leituras e um pouco de suas próprias histórias de vida. Em comum todas têm a paixão pela leitura e obras como memorialistas, ou seja, escreveram elas mesmas suas memórias e a publicaram, sem a pena salvadora de escritores e jornalistas para filtrar os “grandes feitos” de “grandes personagens” com uma carteira recheada.

Duas destas mulheres são memorialistas-escritoras, Maria Helena Cardoso (Por onde andou meu coração) e Zélia Gattai (Anarquistas, graças a Deus). Outras cinco se inserem na classificação de escritoras-memorialistas. É o caso de Ana Ribeiro de Goes Bittencourt (Longos serões do Campo), Carolina Nabuco (Oito décadas), Hemengarda Leme Leite Takeshita (Um grito de liberdade: uma família paulista no fim da belle-époque), Maria José Dupré (Os caminhos), Maria de Lourdes Teixeira (A carruagem alada). As últimas cinco tiveram suas experiências com as letras centralizadas nas memórias de suas próprias vidas. Maria da Glória Quartim de Moraes (Reminiscências de uma velha), Maria Eugênia Torres Ribeiro de Castro (Reminiscência), Adélia Pinto (Um livro sem título: memórias de uma provinciana), Maria Isabel Silveira (Isabel quis Valdomiro) e Laura Oliveira Rodrigo Octávio (Elos de uma corrente: seguidos de outros elos).

Conquistar o direito à alfabetização, escolarização, profissionalização e participação na vida pública foi uma dura batalha para a mulher. De certa forma cada uma destas doze mulheres estabeleceram seus nichos de resistência e de rebeldia, mesma inseridas e cooptadas pelo sistema patriarcal e machista da sociedade brasileira do século XIX e início do XX. É uma resistência passiva, quase imperceptível, mas presente em suas vidas e histórias, não importa a região e histórico sócio-cultural a que pertencia cada uma delas.

O romance era o carro chefe entre suas leituras e as rodas de leituras entre grupos de mulheres também tinham sua import6ancia para preencher com um pouco de fantasia e ficção a vida das mulheres daquela época, numa época em que não existia televisão e o cinema era apenas uma idéia na cabeça de um francês maluco. Contrabando para elas era a oportunidade de novos, maravilhosos e proibidos livros.

Valia tudo para ler. Empréstimos, apropriações, invasões furtivas por buracos no telhado.  Lilian mostra que as mulheres que viveram entre meados do século XIX e início do século XX não eram tão caseiras e domésticas quanto os machões da época imaginavam. O feminismo ainda era uma ilusão para a maioria delas, mas a literatura já servia de portal para um mundo novo, diferente, um enriquecimento cultural e social para um universo que os maridos e pais tentavam manter restritos à cozinha, salas de pintura e bordado e afazeres domésticos. Como disse Antoine Compagnon a literatura serve para ensinar com prazer e pode estar tanto em acordo como em desacordo com a sociedade e, completando com Antonio Candido, o homem precisa de ficção e fantasia e a literatura é um fornecedor básico destes ingredientes. Portanto a literatura tão essencial para o ser humano, inclusive as mulheres subestimadas em suas capacidades e anseios do século XIX, quanto o próprio alimento. A literatura é um direito incontestável do ser humano e um ingrediente fundamental na formação do homem.

 

 
[1] Trecho extraído da música Memories, interpretada por Elvis Presley no disco 68 Comeback Special.

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