RESENHA:
José
Reinaldo de Carvalho e Lejeune Mato Grosso de Carvalho.
Luta
imperialista X Hegemonia americana. São Paulo: Alfa-Ômega, 2004.
Atualidade
da luta antiimperialista
Jawdat
Abu-el-Haj* *
Lançado
em março passado, o livro Luta
Antiimperialista X Hegemonia Americana (Editora Alfa Ômega,
2004, R$ 37,00 pedidos por 11-3062-6400 pelo Disk-Livros),
escrito pelo jornalista José Reinaldo Carvalho e pelo sociólogo
Lejeune Mato Grosso de Carvalho, é uma das raras documentações
do surgimento do padrão militarista da nova direita nas relações
internacionais.
José
Reinaldo é vice-presidente do PCdoB, responsável pelas relações
internacionais do Comitê Central do Partido e participante do Fórum
de São Paulo, bem como colunista do Portal Vermelho. Foi
editor da revista Princípios e do jornal A Classe Operária.
Reinaldo possui uma vasta experiência internacional em mais de
trinta países representando o PCdoB em numerosos encontros da
esquerda marxista mundial.
Lejeune Mato Grosso de Carvalho é sociólogo
da Universidade Metodista de Piracicaba, presidiu a Federação
Nacional dos Sociólogos. Também colunista do portal Vermelho
e colaborador de diversas revistas
entre elas Princípios, Debate Sindical, Impulso e
do jornal A Classe Operária. Há duas décadas é
observador e comentarista sobre a política do Oriente Médio e
dos conflitos internacionais, tendo também visitado pelo menos
dez países em pesquisas e palestras.
Os
autores do livro A Luta Antiimperialista e a Hegemonia
Americana pertencem a uma categoria distinta de intelectuais,
os intelectuais públicos. E a uma agremiação de pensadores
munidos com conhecimento teórico cujo objetivo primordial é a
critica social de uma ordem econômica e política injusta.
Procuram desvendar os mecanismos da perpetuação do poder
dominante e a manutenção de sua hegemonia, procuram acompanhar
as conjunturas com voracidade, objetivando compreender as práticas
políticas e o sentido histórico das ações coletivas.
Geralmente, são militantes dos partidos da esquerda, assumem a
defesa de alternativas políticas libertárias e recusam a cooptação
material. Denunciam o poder econômico e rejeitam as manipulações
das informações e o monopólio da verdade. Finalmente, insistem
em desenvolver meios alternativos de informações, conhecimentos
e interpretações rompendo com a censura imposta pelos proprietários
de jornais, grupos de interesses econômicos e seus fiéis
servidores na profissão jornalística.
Dentro
dessa tradição de critica social,
Luta Antiimperialista X Hegemonia Americana é uma
coletânea de artigos publicados no Portal Vermelho. Ao
todo são 75 trabalhos divididos entre cinco temas: 1.
Guerra no Iraque, 2. Palestina, 3. Brasil e as relações
internacionais, 4. América Latina e África e 5. Países
Socialistas e Socialismo. E natural que o grande peso das observações
se centre no Oriente Médio, pois a guerra econômica promovida
pelos monopólios internacionais do petróleo e de armamentos e a
revolta popular pela autodeterminação nacional do povo palestino
(A Intifada), dominaram os noticiários internacionais nos últimos
cinco anos.
Para
os estudiosos da política, este livro é urna fonte indispensável
de informações e análises. Na sua documentação encontramos o
embrião de uma nova ordem mundial gestada por urna direita xenofóbica
e militarista, um protofascisrno que domina o sistema político
dos paises desenvolvido. Se na década de noventa a hegemonia do
capital monopolista era praticada através dos ajustes econômicos
e a hegemonia intelectual do pensamento neoliberal, o novo padrão
político assumido pela direita mundial é a dominação
coercitiva e a imposição militar de modelos políticos sobre
os povos.
O
movimento de libertação nacional palestino apresenta no Oriente
Médio um alternativa progressista ao modelo neocolonial
dominante. Desde o seu nascedouro liderou urna resistência
popular assentada sobre a massa dos expatriados camponesas
transformados em refugiados sem terra. Desde 1969 insistiu que a
massa dos oprimidos (refugiados e camponesas) não somente
participa na resistência, mas lidera politicamente e
intelectualmente a sua concepção. Essa preferência popular
explica a tenacidade da resistência do povo palestino, sua crença
inabalável nos seus direitos nacionais e a disposição de
oferecer sacrifícios intermináveis na luta pela liberdade. Esse
modelo político oferecido aos povos do Oriente Médio é a antítese
do modelo neocolonial imposto sobre as massas árabes. A sua essência
é a mobilização das massas na luta pelos seus direitos
nacionais, sociais e econômicos. Para o movimento palestino não
ha separação entre a luta nacional e a consolidação dos
direitos da cidadania. A luta pelos direitos é a essência da
emancipação nacional.
O
significado universal da luta do povo palestino, como reconhecem
os autores, foi bem concebida por Edward Said, o protótipo do
intelectual progressista e o incansável crítico social. O seu clássico
Orientalismo é a doutrina intelectual que alimenta o
movimento nacional palestino na sua luta contra o neocolonialismo.
A sua contestação a ideologia do caráter nacional, a mesma que
inspirou a dominação cultural do povo brasileiro, é a nova
ideologia que inspira a luta dos oprimidos pela igualdade.
Os
autores nos ensinam que no Brasil nascem possibilidades de mudanças
políticas reais a partir da eleição de Luiz lnácio Lula da
Silva. Abre-se um novo momento político para construir um caminho
latino-americano nas relações internacionais onde a
solidariedade entre os povos e o multilateralismo da política
externa são os pilares de uma nova visão mundial. Enquanto o
governo americano levantava as alternativas militaristas e
multiplicava os gastos bélicos, Lula e as forcas progressistas no
Brasil erguiam as bandeiras de solidariedade, justiça social e
igualdade como fontes da paz perpétua.
O
livro termina com a esperança do socialismo onde as diversidades
nacionais e culturais se dão num âmbito da igualdade. A única
liberdade possível é aquela baseada na igualdade. Esse é o
principio universal que determina o futuro dos povos e as
possibilidades de um desenvolvimento justo. No cenário conturbado
que vivemos nos dias atuais, de um mundo ainda unipolar, a leitura
de Luta antiimperialista X Hegemonia americana é muito
importante para uma real compreensão dos conflitos internacionais
na atualidade.