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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP),
do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo.
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Alfabetização
Cultural: a luta íntima por uma nova humanidade, de Dan
Baron.
São Paulo: Alfarrabio Editora, 2004.
Formato:
16x32cm
ISBN:
8589147-02-9.
Nº
de páginas: 432
Preço:
R$ 44,00
Contato:
Assessoria de
Imprensa / sichaves@globo.com
Sobre
o Analfabetismo Cultural:
dialogando
com Dan Baron
A
obra Alfabetização Cultural: a luta íntima por uma nova
humanidade, de Dan Baron, trata da necessidade de construção
de uma pedagogia e uma estratégia de libertação que possibilite
enfrentar os dilemas da práxis transformadora da realidade social.
Como escreve a educadora peruana Liliana Galván Ore:
“Este
livro é um modelo vivo refletido no compromisso de quem faz o que
aconselha e integra sua subjetividade ao mundo exterior, para
transformar essa memória sombria e obscura da realidade numa visão
luminosa, plena de esperança pelo crescimento e florescimento”.
(p. 17)
Este
compromisso está presente em cada página do livro. Há também a
preocupação do autor em estimular e estabelecer o diálogo – a
própria estrutura do livro, com margens amplas e espaços abertos
para anotações, foi pensada com este propósito; o autor sugere
ainda que o (a) leitor (a) envie seus comentários, dúvidas etc.,
disponibilizando o seu email: maosdeobra@hotmail.com.
Dan
Baron expõe os conceitos e histórias que expressam a sua “busca
cultural por uma pedagogia de autodeterminação, acumuladas na lágrima
sábia de resistência”. (p. 23) Esta parte autobiográfica
– o primeiro livro – retrata os caminhos percorridos e as experiências
compartilhadas com os deserdados, os perseguidos e excluídos. Baron
nasceu em Londres, em 1957, formado em Literatura inglesa e com pós-graduação
em Teatro Político pela Universidade de Oxford, trabalhou com os
exilados políticos, sindicatos e sem-tetos ingleses; militou por
sete anos na Irlanda do Norte, junto às comunidades marcadas pela
guerra; retornando, em 1994, ao País de Gales, atuou como professor
de teatro comunitário e arteeducação
na Universidade de Glamorgan; também esteve presente na África do
Sul pós-apartheid e na Palestina e, a partir de 1998, passou
a trabalhar como professor visitante na Universidade do Estado de
Santa Catarina e a atuar junto aos sem-terras, os indígenas, ao
movimento sindical e universitário, com o objetivo de formar
educadores comunitários.
Ele
utiliza recursos lingüísticos como pequenos contos e poemas e expõe
o seu íntimo, entendido como um conceito pedagógico. O
autor se expõe ao leitor como um recurso coerente com o seu
projeto político-pedagógico e de maneira que isto “ilumine” a
sua “subjetividade como arteeducador e colaborador cultural” e
também o seu “papel como participante e coordenador”. (p.25)
Dan
Baron apresenta-nos oito experiências culturais coletivas, histórias
que compõem uma narrativa das possibilidades de uma prática pedagógica
da autodeterminação voltada para as comunidades excluídas dos
espaços formais educacionais e, ao mesmo tempo, envolvendo
educadores críticos numa perspectiva solidária e democrática. São
vivências relatadas não somente através da linguagem escrita, mas
também ilustrada por mais de 600 fotos, as quais revelam o convívio
e o processo pedagógico com os índios Pataxós, os sem-terra e
comunidades da periferia urbana.
A
prática pedagógica exposta nesta obra advoga o uso de recursos
como o teatro e outras formas de expressão artística. Na medida em
que integra outras capacidades sensoriais intrínsecas ao nosso corpo-pensante,
extrapolando os limites da linguagem escrita, o autor revoluciona a
concepção que geralmente temos sobre o processo de
ensino-aprendizagem. Por outro lado, contribui para a superação do
conceito de educação restrito às amarras do ensino formal. Como
ele afirma: “O ser humano educa e forma, mesmo sem o propósito ou
desejo. Participamos o tempo inteiro na formação – ou deformação
de nossa humanidade, da humanidade das pessoas com as quais
convivemos, e por implicação da humanidade do mundo”. (p. 23)
A
leitura deste livro expressa, em primeiro lugar, uma luta íntima
que envolve o próprio leitor. De repente, nos vemos diante de fatos
inelutáveis que questionam as nossas certezas e expõem a nossa
subjetividade. Não é fácil assumirmos que, na verdade, somos analfabetos
culturais; é difícil aceitar que todo o conhecimento enciclopédico
e os títulos acadêmicos que porventura temos não são garantia de
que sejamos culturalmente alfabetizados. Sabemos ler e
escrever, podemos conhecer as grandes teorias, dominar os conceitos
filosóficos, políticos etc., mas tudo isto, longe de nos aproximar
do outro e da nossa própria humanidade, pode,
paradoxalmente, ter um efeito inverso e perverso: o distanciamento
do mundo real, da mísera realidade que nos cerca; tendemos a tudo
racionalizar e nada sentir. O adágio filosófico “Penso, logo
existo” sugere uma questão: existir para quê? Para além do pensar,
que nos dá a certeza do existir, é preciso sentir
que existimos.
Dan
Baron revela a necessidade de superarmos os limites da fria
racionalidade e de assumirmos uma postura diante do mundo.
É preciso sentir, indignar-se, comprometer-se. Os que dominam a
palavra escrita iludem-se em equivaler conhecimento formal e alfabetização
cultural. O ser humano mais simples cujas condições sócio-econômicas
não lhe permitiu freqüentar os bancos universitários tem o que
ensinar. Para compreender este fato singelo é mister desmistificar
a noção de cultura, predominante e arraigada em nossos corações
e mentes, que confunde cultura com conhecimento livresco e formal.
O
domínio da cultura escrita e discursiva não é suficiente para que
nos alfabetizemos culturalmente. Essa cultura racionalista e eurocêntrica,
fator de colonização das nossas mentes e herança introjetada em
nosso ser, “nos deixa menos alfabetizados, até
‘analfabetos’, no que se refere às linguagens e performances de
nosso corpo, às emoções, aos usos do espaço e aos
relacionamentos”. (p. 41) O resultado é a cegueira da consciência,
a anulação da subjetividade e da intersubjetividade. Só superando
esta cegueira é que teremos condições de estabelecer o diálogo
com o outro. Portanto, o comprometimento intelectual, ou
seja, o engajamento militante, não nos torna necessariamente
melhores nem indica que estejamos alfabetizados culturalmente. Como
escreve o autor:
“Precisamos
reconhecer que a ausência dessa alfabetização cultural
gera conseqüências íntimas, com profundas implicações sociais e
políticas. Até que ponto preferimos olhar para as injustiças
socioeconômicas ‘externas’ porque é insuportável e
aterrorizador olhar para as suas seqüelas da desidentificação em
nossas vidas íntimas, muitas das quais não sabemos nomear,
interpretar e transformar?” (p. 43)
Para
compreender a alfabetização cultural enquanto um objetivo
estratégico na construção de uma nova utopia que respeite a
subjetividade humana e estabeleça o dialogo entre os diversos
territórios e suas manifestações étnicas, de gênero e de
classe, precisamos ter claro a definição de cultura proposta pelo
autor:
“A
cultura é normalmente entendida como a arte produzida para galerias
e teatros por gênios criativos em isolamento. Essa crença nos tem
desviado e inferiorizado por séculos. Tem sido usada para nos
convencer de que a cultura é irrelevante a nossa vida e para nos
excluir da construção de idéias e interpretações. Resultou na
idéia de que não possuímos técnicas culturais. Mas, sobretudo,
essa mentira tem sido usada para nos desencorajar de participar da
construção de nossa própria cultura e identidade.
A
cultura expressa nossa relação com a produção e reprodução da
vida; por isso, o verbo cultivar. Interpreta e define nossa relação
econômica, política e social com o mundo. É como nós
trabalhamos, comemos, pensamos, nos vestimos, organizamos, ,
sentimos, escolhemos nossos amores, amamos, nos divertimos,
refletirmos, lembramos, falamos, rimos, choramos, transamos, nos
vemos, educamos nossas crianças e enterramos nossos mortos. É como
entendemos a nós mesmos no mundo e como vivemos este entendimento”.
(p. 56)
Esta
percepção torna possível compreender como a cultura se encontra
profundamente relacionada à “nossa história pessoal, familiar,
comunitária, nacional e, hoje, explicitamente global, gravada em
nosso corpo, nossas emoções, nossos sentidos e nossas relações
– com os vivos, com os mortos e aqueles que ainda não
nasceram”. (p. 57)
A
alfabetização cultural pressupõe não apenas a compreensão
não elitista, da cultura, como também uma atitude pedagógica
fundada na autodeterminação. Trata-se de uma pedagogia crítica,
uma pedagogia da esperança que possibilite ir além da crítica
e da resistência à realidade. É preciso, portanto, incorporar uma
nova atitude fundada na compreensão da própria
subjetividade e no diálogo com o outro, uma atitude
que persiga a coerência entre os meios e os fins, entre o discurso
e a prática.
Este
não é um processo fácil, pois os valores dominantes nos envolvem
o tempo todo. Mesmo os intelectuais críticos e os militantes dos
movimentos sociais, partidos etc., encontram-se imbuídos e viciados
pela cultura opressiva – muitos querem libertar os oprimidos, mas
atuam na mesma perspectiva dos opressores. E, muitas vezes, cegos em
seu fanatismo, nem o percebem. Com efeito, os valores predominantes
de competição, do vigiar e punir fundados em prêmios e
castigos, são muito fortes e impõem barreiras à uma nova
atitude solidária e dialógica.
A
alfabetização cultural indica o reconhecimento das nossas
fraquezas, do “bicho”
que habita em nosso ser. Resistir é fundamental, mas também é
preciso construir barricadas que sustentem a nova atitude.
Como sugere Baron, precisamos
“debater
e definir os valores e princípios de libertação que sustentarão
e transformarão a resistência. Mas temos que aprender a praticá-los.
Como militantes, precisaremos demonstrar respeito pela
fragilidade, humanidade, individualidade, prazer, necessidades,
conhecimentos e sentimentos de cada pessoa. Precisaremos colaborar,
não dirigir. Escutar e perguntar, não pré-julgar. Abrir e
dialogar, não discursar. Empatizar e entender, não condenar.
Experimentar e participar, não apressar e dominar. Valorizar a
resistência (pessoal e coletiva) como conhecimento, não marginalizá-la
ou ignorá-la” (pp. 63-64)
Os
que agem como se fossem o demiurgo da história, missionários da
utopia, apóstolos da razão, em geral, praticam o oposto. O
discurso, mesmo quando crítico e pretensamente democrático, é
negado pela prática autoritária. Um dos méritos desta obra é
precisamente o de estimular a reflexão sobre as nossas fraquezas e
incoerências e sobre as possibilidades de agir diferente.
Há
livros que lemos e que passam, ainda que momentaneamente fique a
impressão de que valeu a pena lê-lo. Com o tempo, perde-se a mais
remota lembrança e não restará nem ao menos o registro do título
da obra e o nome do seu autor. (Como aqueles esquecidos em nossas
estantes e que, um dia, ao acaso, descobrimos que os temos). Há
livros que são úteis, que nos ajudam a compreender determinadas
teorias, conceitos etc.; que nos ensinam história, sociologia, política
etc., e acrescentam-nos algo, ainda que os esqueçamos. Há os que
lemos com prazer, como se fosse simplesmente parte do lazer –
entre estes incluo, especialmente, a literatura.
Mas
há livros que jamais esquecemos, que nos ensinam sobre teorias e
conceitos, sobre as áreas do conhecimento humano, que nos
comprometem e que permitem-nos a prática dialógica; são
livros que nos transformam substancialmente, que nos deixam uma
sensação paradoxalmente angustiante e prazerosa – a angústia
pela exposição das nossas fraquezas e dos dilemas que nos parecem
insolúveis; e o prazer pela alegria de compreender melhor o mundo,
os indivíduos e suas relações e a nós mesmos e nosso lugar neste
contexto. A obra de Dan Baron tem essa qualidade.
A
propósito, devemos registrar o cuidado editorial: este é um
daqueles livros que conseguem a proeza de unificar forma e conteúdo
numa perspectiva bela e instigante. Isto não ocorre por acaso, mas
sim porque tanto o autor quanto os responsáveis pela edição
compartilham do mesmo projeto político-pedagógico. Não se trata
apenas da publicação de mais um livro, mas de compartilhar experiências
que auxiliam os espíritos críticos e inquietos a refletirem sobre
a sua práxis e, simultaneamente, terem em mãos uma obra que os
ajudam em sua prática educativa transformadora. Uma obra, portanto,
recomendável aos que ainda não perderam a esperança e que
persistem em mudar de atitude...
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