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Um
outro mundo é possível
A
globalização impulsionada pela expansão do capital e a
intensificação da tecnologia em escala planetária não resulta
apenas em maior circulação de mercadorias e de recursos
financeiros, mas cria também oportunidades para a difusão de
conhecimentos e de conceitos éticos universais, produtos da imaginação
e da criatividade humanas.
Neste
sentido, é possível afirmar que a globalização está
disseminando as raízes de uma nova ordem mundial baseada em princípios
e valores – democracia, direitos humanos e solidariedade – que
auguram uma nova era do convívio humano.
Diariamente,
são construídas redes de informação e comunicação, com base em
tecnologias abertas e acessíveis o que permite a elaboração de
uma visão e compreensão mais completa sobre a encruzilhada da
sociedade e os impactos das ações individuais e coletivas na vida
humana e no meio ambiente.
A
abertura do mercado pela dinâmica do capital transnacional tem
encontrado parceiros e aliados nas classes abastadas e nos governos
nacionais, mesmo aqueles que se dizem da “esquerda”.
Para
enfrentar os desafios decorrentes da desarticulação das organizações
comunitárias tradicionais torna-se mister uma ampla mobilização
popular exigindo novos padrões de políticas públicas e a
participação nas decisões que afetem seus destinos, mediante
consultas, plebiscitos e referendos de toda a população.
Essa
concepção coloca em discussão a reformulação do sistema de ciência
e tecnologia, tradicionalmente atreladas aos interesses das classes
dominantes. A abordagem alternativa, além de romper as barreiras
das disciplinas rigidamente enquadradas numa estrutura
departamental, procurará incorporar novas práticas de aprendizado
social através de elementos de ação coletiva, políticas públicas
inovadoras e experimentação social, com a participação de todas
as camadas da população.
Procuramos
criar alternativas que transcendem as práticas assistenciais que
fornecem álibis para pseudo-soluções e reforçam os processos de
exclusão social. Para superar o impasse em que se encontra a
sociedade postulamos a primazia da cooperação em lugar da competição
como valor fundamental e esta tarefa não pode ser reduzido à
superação da dicotomia simplista “Estado x mercado”. Na
construção da nova ordem social caberá ao Estado a função de
coordenar e orientar as atividades econômicas e sociais, enquanto a
população conquista sua autonomia, autogestão, iniciativa
criativa e liberdade.
Após
mais de trezentos anos durante os quais o Estado constituiu o marco
jurídico legal e político para a ordenação das atividades
produtivas e políticas das populações estabelecidas nos seus
limites territoriais, ele se revela impotente para impedir a
privatização de bens públicos e a deterioração das condições
de vida da imensa maioria da população. Perde, também, a maior
parte de sua capacidade financeira em conseqüência da baixa
arrecadação, sonegação e o pesado ônus do serviço das dívidas
externa e interna. O desafio para a sociedade civil é reconstruir o
Estado em suas funções de provedor de empregos, de serviços de
infraestrutura e, sobretudo, de atendimento às necessidades básicas
dos menos favorecidos e marginalizados.
Trata-se,
em última análise, de transformar um modo de vida que produz e
reproduz cronicamente a concentração de riquezas, da cultura e do
poder enquanto agrava, no outro lado, a miséria, a marginalidade e
a exclusão. Os padrões culturais impostos e disseminados pelas
elites à sociedade recusam os direitos à cidadania aos pobres e
discriminam os subalternos aos quais é vedado acesso à representação
pública, principal obstáculo a um processo de mudança. Não
havendo um fluxo de informações atualizadas e relevantes para os
excluídos, não haverá barreiras à gestão autocrática e
centralizadora. O adiamento dos debates dos problemas da sociedade
pela população e sua participação na definição das prioridades
de investimentos tende a aumentar as disparidades sociais e
regionais e, assim, agrava as tensões e conflitos. A alternativa
exige descentralização e transparência nos processos decisórios
e a plena participação democrática.
Os
impactos dramáticos do desenvolvimento desigual que aumenta o fosso
entre ricos e pobres tendem a lançar a reivindicação central de
nosso tempo – direitos humanos – não como visão utópica, mas
como condição básica para a sobrevivência e a sustentabilidade.
A
inadequação da democracia formal representativa para dar vazão às
expectativas e aspirações das populações privadas e
marginalizadas levou a propostas e práticas de desenvolvimento da
organização da produção, distribuição e consumo de bens e
serviços mais compatíveis com a integração social, participação
comunitária e o exercício pleno da cidadania. Foi a partir da
organização crescente da sociedade civil que o Fórum Social
Mundial lançou o desafio que reverberou por todos os continentes
– “Um outro mundo é possível”.
Utopia?
Mas o que seria o destino da humanidade sem os sonhadores de um
futuro alternativo? E, como dizia Oswald de Andrade, ”no fundo de
cada utopia há não somente um sonho, mas também um
protesto". São os protestos que estimulam a tomada de consciência,
a mobilização e a luta política.
O
fracasso do socialismo real que foi a primeira experiência de um
regime alternativo, não redime o capitalismo que trouxe à
humanidade, além da opulência material para poucos, a exploração
e alienação da maioria e as hecatombes de duas guerras mundiais.
Sabemos
que o socialismo democrático não pode ser realizado com base na
pobreza generalizada, onde a distribuição de bens e serviços
escassos exigirá a formação de filas, as quais, para manter a
ordem, apelarão para o aparelho de segurança do Estado,
ressuscitando a burocracia, a polícia e a desigualdade.
Entretanto,
não há motivos para pessimismo. Duzentos e cinqüenta anos atrás,
o mundo “civilizado” da época era dominado por um punhado de déspotas
absolutistas que negavam terminantemente quaisquer direitos aos
membros de suas respectivas sociedades.Foram as idéias
“subversivas” de alguns visionários, iluministas e
racionalistas, que proclamaram os direitos naturais universais à
liberdade, fraternidade e igualdade que fizeram ruir as monarquias
autoritárias e que deram origem a uma onda de reformas democráticas,
desde a guerra de Independência dos Estados Unidos, a Revolução
Francesa e os sucessivos movimentos em prol da libertação
nacional, durante todo o século XIX.
A
segunda razão se prende à interrogação sobre o destino da
humanidade e o sentido da vida. Os mestres da Cabala comparam o
mundo a uma ponte. De onde ela vem? Não sabemos. E, aonde ela leva?
Tampouco o sabemos. Mas, viver é atravessar a ponte e, caminhando
na ponte procuramos encontrar idéias, objetivos e valores que
conferem sentido às nossas vidas. As teorias científicas que
proclamam o acaso na criação do universo, foram contestados por
Albert Einstein que dizia “Deus não joga dados com o universo”
e Amílcar Herrera tentava demonstrar, com base em estudos e
elaborados cálculos, que o universo não poderia ser obra do
acaso.O sentido da criação e a missão da humanidade, segundo esse
autor, seriam a disseminação da inteligência, do conhecimento e
da ética através do universo, um desafio permanente para a
auto-realização individual e coletiva. E, se não podemos
comprovar a tese de Amílcar cientificamente e não podemos
solucionar todos os problemas , desafios e mistérios da vida,
chegamos a um ponto que nos leva a afirmar simplesmente...”porque
,assim, acreditamos”.
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