|
Por MARIVALDA GUIMARÃES SOUSA
Pós-graduanda
do Curso de Especialização em Estudos Comparados em Literaturas
de Língua Portuguesa e Mestranda do Curso Cultura & Turismo
da UESC - Ilhéus, BA
|
|
Viajante/Turista
– Categorias em discussão com base no filme O céu que nos
protege, de Bernardo Bertolucci
Turner:
Somos os primeiros turistas desde a guerra.
Kit:
Somos viajantes, não turistas.
Turner:
Qual a diferença?
Port:
O turista pensa em voltar para casa assim que chega.
Kit:
E o viajante pode nem voltar.
O
céu que nos protege, Bertolucci
Á
medida que viaja, o viajante se desenraíza, solta, liberta. Pode
lançar-se pelos caminhos e pela imaginação, atravessar fronteiras
e dissolver barreiras, inventar diferenças e imaginar
similaridades.
Octávio
Ianni
O
filme O Céu que nos protege (The Sheltering Sky), de Bernardo
Bertolucci (1990), baseado no livro autobiográfico de Paul Bowles
(1949), apresenta a história de um casal de escritores americanos
Port (John Malkovich) e Kit (Debra Winger), acompanhados de um amigo, Turner (Campbel
Scott), que viajam pela África do Norte, por
volta de 1948, logo após a Segunda Guerra Mundial, período marcado
pelo processo gradativo de descolonização das colônias européias
situadas na Ásia e África (PEREIRA, 1980)
Os
personagens Kit e Port buscam na vastidão do Saara um sentido para
suas vidas, novas experiências na esperança de reconstruir as suas
próprias vidas e, com isso, salvar um casamento de dez anos que se
acha em crise. Daí, o casal não se considerar turista, mas
viajante. Diferentemente, o amigo Turner se considera um turista,
pois não vê a hora de retornar para casa.
Ao
introduzir essa dicotomia viajante/turista, o filme coloca em pauta
uma discussão que é muito abordada por autores contemporâneos, a
exemplo de Ferrara (1999), que trata dessa questão de modo que
viagem e turismo se apresentam com abordagens bem distintas.
Primeiro, o termo viagem é definido como um “o olhar que se
desloca” (ibidem:17), que aqui
interpreto como um olhar que busca algo que vai além do visível.
Por sua vez, o turismo é entendido como “o olhar que se
concentra” (p. 20), ou seja, é o olhar (treinado) que já sabe o
que deseja ver/conhecer. Para essa autora, o que diferencia essas
duas instâncias são as motivações que as impulsionam. Desse
modo, o termo viagem é compreendido, sumariamente, como uma busca
do desconhecido que envolve principalmente o prazer da descoberta do
espaço em todas as suas instâncias, sejam elas, sociais, culturais
e/ou históricas. Esse espaço (geográfico/cultural = lugar), é
denominado por Carlos (1999: 28) “como o produto das relações
humanas, entre homem e natureza, tecido por relações sociais que
se realizam no plano do vivido, o que garante uma rede de
significados e sentidos que são tecidos pela história e cultura
civilizadora produzindo a identidade. Aí o homem se reconhece
porque aí vive”. Essa concepção de lugar é importante porque
admite um elo afetivo entre o lugar, propriamente dito, e os seus
habitantes.
O
olhar do viajante é um olhar que se caracteriza por uma abertura
que permite o conhecimento do outro, pois, como convém observar, é
sob esse aspecto que as diferenças e as similitudes identitárias
se estabelecem e se confrontam. Nesse sentido, a identidade deve ser
entendida, conforme Warnier (2000:12), como um “conjunto de repertórios
de ação, de língua e de cultura que permitem a um indivíduo [se]
reconhecer” e, ao mesmo tempo, em um processo dialético, se
diferenciar de outros grupos sociais. De acordo com esse autor “a
identificação individual e coletiva pela cultura tem como corolário
a produção de uma alteridade em relação aos grupos cuja cultura
é diferente. O contato intercomunitário suscita as reações mais
diversas: idealização do outro, atracção pelo exótico, do belo
selvagem, mas também o desprezo, a incompreensão, a rejeição que
podem desembocar na xenofobia e na humilhação” (ibidem: 13)
[grifos do autor]. Nesse sentido, conhecer verdadeiramente a cultura
do outro (que está atrelada ao lugar) significa, acima de tudo,
respeitar a memória, os costumes, as tradições, as crenças, a
história do lugar.
O
viajante, de uma forma geral, é movido primeiramente por um
sentimento de liberdade, de vontade, do desejo de ir em busca do
dessemelhante, onde a “experiência da viagem permite fremir o eu
excitado pelos novos panoramas e [pelos] novos contatos” (FERRARA,
1999: 19). Essa citação encaixa-se perfeitamente no perfil do
personagem Port, em que a opção de se deslocar para lugares tão
distantes, como a África do Norte – Marrocos, Argélia, Tunísia
- lhe permite experiências inimagináveis, pois o contato com
pessoas de culturas tão diversas e tão peculiares lhe proporciona
realizar comparações entre si próprio e o outro. Por conseguinte,
nesse exercício de confronto de alteridades, as diferenças e
semelhanças, individuais e coletivas, são estabelecidas. Port é
movido por uma busca de caráter existencial. Nesse sentido, o termo
viagem, se bifurca novamente e deve ser compreendido tanto como metáfora
do desconhecido, como metáfora do prazer que se manifesta na
concretização da descoberta. Para Port e Kit são duas viagens em
uma, viagens que se deslocam e se interagem entre si: uma é
interior, em busca de si mesmos, a outra, externa, onde a paisagem
desértica provoca deslumbramento e temor.
O
cenário do filme, cuja fotografia é extraordinária, se apresenta
por magníficas imagens do Saara. Essas imagens são intercaladas,
ao longo do filme, e se contrapõem com as imagens das cidades que
fazem parte do percurso realizado pelos protagonistas. Na longa
travessia, e sem nenhuma pressa – nem dos personagens nem dos
meios de transporte -, sob o calor escaldante do deserto, as cidades
surgem sem nenhuma infra-estrutura. A realidade visível é a de
extrema pobreza e de muita sujeira, o que parece justificar a presença
de tantas moscas em determinados locais. Junto com as cidades surgem
povos bastante sofridos. Pessoas famintas, cobertas por andrajos e
insetos, mendigos por toda parte - todo esse quadro, convém
ressaltar, é incompatível com roteiros planejados para uma
atividade turística. O estado de miséria absoluta que se faz
presente nos lugares de passagem que tanto incomoda Kit é
resultante, em grande parte, dos absurdos causados pela política de
exploração que se sucedeu com o imperialismo das grandes nações
européias, que mais tarde, culminou na I e II Grandes Guerras. No
entanto, Port parece indiferente a tudo aquilo. Pelo contrário,
sente-se fascinado e não apresenta qualquer receio em interagir com
a população. Desse modo, o personagem encarna o papel do viajante, pois se
comporta como aquele que está disposto a desvendar, apreender,
vivenciar o lugar sem expressar qualquer estranhamento. Assim, “a
viagem pode alterar o significado do tempo e do espaço, da história
e da memória, do ser e do devir. Leva[r] consigo implicações
inesperadas e surpreendentes” como sugere Ianni (2000: 22).
No
entanto, convém mencionar, que nem sempre as viagens são movidas
por bons propósitos. Estou me referindo à descoberta do Novo Mundo
em que as viagens de conquistas tornaram-se sinônimo de viagens de
exploração onde populações inteiras, quando não dizimadas,
foram subjugadas e levadas a uma opressão que se remaneja
continuamente e se faz perdurar até os dias de hoje. Isso sem
mencionar os longos processos de aculturação aos quais os povos
conquistados foram (e ainda se encontram submetidos). Fartos
exemplos são encontrados na história da civilização humana,
sobretudo com o advento das grandes navegações quando entraram em
cena os viajantes-conquistadores ocidentais.
Compreendendo
o turismo enquanto uma atividade organizada e institucionalizada,
tem-se que o “caráter burocrático/comercial do turismo é um
elemento fundamental para distingui-lo da villeggiatura” (FERRARA:
21, grifo da autora) [leia-se viagem;]. Ou seja, o turista tende a
cumprir uma programação previamente elaborada pelos agenciadores
cujo roteiro é analisado e, posteriormente, selecionado de acordo
com o desejo e as possibilidades aquisitivas do interessado.
No
caso do filme, o ‘boa vida’ Turner, um personagem de pouco
relevo, convém referir, se adapta perfeitamente no papel do turista
que busca passivamente apenas o exótico, “viaja por curiosidade e
ociosidade” (ibidem:20). Trata-se, na verdade, de um belíssimo
jovem, vaidoso e muito rico, mas que não possui nenhuma ocupação
profissional. Turner só aceitou viajar com o casal movido pelo
desejo de uma aventura amorosa com Kit. Aí, nesse caso, a atividade
turística visa ao preenchimento do tempo e do espaço como uma
alternativa de lazer. Assim, o espaço visitado, sob o signo da
sociedade de consumo, torna-se tão somente um objeto mercantilizável,
de tal modo que o turismo assume uma conotação de exclusivismo, pois
é uma atividade que “não é comum a todos, mas destina-se,
apenas aos privilegiados que podem virar turistas” (p.20). E ser
turista, nesse caso, é ter poder aquisitivo para desfrutar do
conforto e da segurança de uma viagem meticulosamente planificada,
com a programação pré-estabelecida, de tal modo que os riscos de
algo dar errado ficam, pelo menos teoricamente, impossibilitados. É
pertencer a uma elite financeira cujos sonhos realizam-se mediante
pagamento efetuado. Mas, e quanto ao prazer da descoberta, do
encantamento, da novidade, do inesperado, que move os viajantes?
(SIMÕES, 2001).
Embora
as possibilidades de viagens que temos hoje sejam inúmeras, seja física,
virtual ou metaforicamente, o que prevalece sempre, ao que parece,
é o prazer da descoberta. O encontro com o novo. A busca de
conhecimento. A viagem, em nível metafórico, deve envolver o
descobrir-se a si mesmo e, concomitantemente, o outro. Esse é um
processo que, conforme Ianni (2000: 13-14), “envolve ultrapassar
fronteiras, tanto as dissolvendo como as recriando. Ao mesmo tempo
em que demarca diferenças, singularidades ou alteridades, demarcam
[também] semelhanças, continuidades, ressonâncias. [...] Nessa
travessia, pode reafirmar-se [ou negar-se] a identidade e a intolerância.
[...] sob vários aspectos, a viagem desvenda alteridades, recria
identidades e descortina pluralidades.”
O
desejo de ultrapassar fronteiras, descobrir, buscar novos
conhecimentos, conquistar e dominar outros povos e territórios faz
parte, conforme citei anteriormente, da História da civilização
humana. Essa busca incessante se constitui na força motriz que
impulsiona o homem em seus deslocamentos desde os seus primórdios.
Seja pela necessidade de sobrevivência – busca de novas formas de
alimentos, por exemplo, seja pela própria natureza irrequieta e
insatisfeita do ser humano, a ânsia que o movimenta à procura do
novo aliado ao prazer, constitui-se em uma força reconhecidamente
inesgotável.
Esta
disposição ao deslocamento que se observa ao longo de toda a história
vem confirmar que o homem é um perpétuo viajante. Contudo, como
pudemos observar, as motivações que impulsionam as viagens nunca são
as mesmas. As características e as condições das viagens
diferenciam-se também em suas denominações. Oliveira (2000: 32),
por exemplo, afirma que “é importante diferenciar os termos
deslocar-se, viajar e fazer turismo”. Para o autor são três instâncias
que se diferenciam tanto pelas motivações como pelas condições
da viagem. Desse modo, deslocar-se corresponde ao “ato praticado
por pessoas que mudam de cidade [...], que vão morar em outros
locais, sem retorno imediato ao local de origem”; viajar, por sua
vez, é “o ato de deslocar-se temporariamente de um lugar para
outro, sempre com a intenção de retornar” (convém lembrar que
esta definição se contrapõe a definição de Port) e finalmente,
fazer turismo, “pressupõe uma viagem temporária que exige infra
estrutura adequada”.
Por
outro lado, Oliveira (op. cit.) afirma que o vocábulo turismo tem a
sua origem etimológica na palavra tur do “hebreu antigo e
corresponde ao conceito de viagem de descoberta, de exploração, de
reconhecimento.” [os grifos são do autor]. Portanto, os
significados se interpenetram Nesse sentido, quando é que viagem
realmente se distingue do turismo?
Penso
que a maior questão talvez não seja verdadeiramente esta, afinal
temos tantas formas de viajar hoje, seja física, virtual ou imaginária
que chegamos até mesmo a confundir imagens e sonhos com realidades.
Tanto que os tipos de experiências se desdobram e se multiplicam
proporcionadas pelo grande aparato tecnológico de que hoje
dispomos. De modo que vivemos um dia-a-dia intenso, agitado, dinâmico,
sujeito a contínuas modificações que desestabilizam as pessoas
tanto física como emocionalmente. Esse ritmo acelerado de vida a
que se submetem as pessoas, principalmente nos grandes centros
urbanos, tem gerado um grande mal-estar, um sentimento generalizado
de instabilidade e, dessa forma, é que atingimos o tão proclamado
estresse. De Masi (2000) diz que é típico da sociedade pós-industrial
a desestruturação do tempo e do espaço e isso tem gerado muitos
conflitos.
Se
a vida, por um lado, se tornou mais fácil com o desenvolvimento e a
rapidez dos meios de transporte e de comunicações (telefonia,
internet, tv, etc), por outro lado, tem levado a humanidade a um
constante desafio: sobreviver em um mundo extremamente acelerado e
homogêneo. É sabido que toda essa parafernália tecnológica
contribui, sobremaneira, com uma espécie de desencantamento do
mundo, tanto que a “nossa compreensão sobre viagens e lugares,
bem como a maneira como a experenciamos, vem sendo fortemente
afetadas pela mercantilização e pela hiper-realidade da mídia que
tudo altera com estratégias de publicidade e marketing” (GODEY,
2002: 131). No atual contexto de globalização e mundialização
cultural que Ortiz (1998: 30) define como “um fenômeno social
total que permeia o conjunto das manifestações culturais”,
transformando tudo em uma coisa só, torna-se um grande desafio
buscar novas alternativas de viagens que possibilitem o encontro com
o novo, o dessemelhante. Como tão bem recomenda Otávio Ianni
(2000: 30), algo que possibilite desvendar alteridades, no sentido
de auto-afirmar-se, de fazer parte de uma “travessia, a despeito
de despojar-se, libertar-se e abrir-se, [onde o viajante procura]
reafirma seu modo de ser, observar, sentir, agir, pensar ou
imaginar. No limite, são muitos os viajantes que buscam e rebuscam
o seu eu, ou a sua sombra. Mesmo quando parecem fugir, estão se
procurando no diferente, desconhecido, outro”.
|
|

|
BIBLIOGRAFIA
BÁSICA
CARLOS,
A.F.A. O turismo e a produção do não-lugar. In.: Turismo: espaço,
paisagem e cultura. Yázigi, Eduardo, 1999, pp.25-37
FEATHERSTONE,
M. O desmanche da cultura. Globalização, pós-modernismo e
identidade. Trad. Carlos E. M. de Moura. São Paulo : Studio Nobel,
1997. 289 p.
FERRARA,
Lecrécia D’Alessio. O turismo dos deslocamentos virtuais. In: YÁZIGI,
Eduardo (org.). Turismo: espaço, paisagem e cultura. São Paulo:
Hucitec, 199. p. 15 - 24
GIDDENS,
A. As conseqüências da modernidade. Trad. Raul Fiker. São Paulo :
Ed. Unesp, 1991. 177 p. [Introdução, p. 11-60].
GOODEY
B. Turismo Cultural: novos viajantes, novas descobertas. In: MURTA,
S. M.; ALBANO, C. (org). Interpretar o patrimônio: um exercício do
olhar. Belo Horizonte: UFMG; Território Brasilis, 2002. p.131 –
138.
HANNERZ,
U. Fluxos, fronteiras, híbridos. In: Mana. Estudos de Antropologia
Social, v. 3, n. 1, abril 1997, p. 7-38.
IANNI,
O. Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro : Civilização
Brasileira, 2000, 319
p.
MASI,
D.. O ócio criativo. Entrevista a Maria Serena Palien. Rio de
Janeiro: Sextante, 2000.
ORTIZ,
R. Mundialização e Cultura. São Paulo: Editora Brasiliense S.A.,
1994, 234 p.
PEREIRA,J.M.N.
Colonialismo, Descolonização e Neo-Colonialismo, Centro de Estudos
Afro-Asiáticos, 1980.
SIMÕES,
M.L.N. Viajar é preciso? Publicado no Boletim da Embaixada do
Brasil em Lisboa. Julho/2001
WARNIER,
J.P. A art Zen contra Titanic. In:
A Mundialização da Cultura. Trad. Luís Felipe Sarmento. Lisboa:
Notícias, 2000, p. 9-21.
|
|