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Reflexões
sociológicas sobre a hospitalidade
Ao
amigo João dos Santos Filho
1.
A imaginação do turista
O
turista é aquele que conquistou o privilégio da mobilidade
espacial no mundo contemporâneo, uma mobilidade que depende do
tamanho do seu privilégio Um privilégio que também pode ser
encarado como uma enorme perda: não há como um turista deixar de
imaginar que onde quer que ele esteja desfrutando momentos de
satisfação, bem estar e segurança, poderia estar em outra parte.
É
preciso saber lidar com a imaginação do turista pois é ela que o
move a chegar e a partir de uma localidade. Em princípio, não há
razão para ele se prender a um lugar específico por mais tempo do
que o necessário para satisfazer o pássaro irrequieto de sua
imaginação. E nada é mais angustiante para alguém que é movido
pela paixão de conhecer o mundo do que perder a liberdade de
escolher o seu destino.
Decorre
desta inconstância da imaginação do turista os maiores desafios
para aquelas localidades que são projetadas para propiciar
hospitalidade aos visitantes. Para que estes se sintam bem em um
local é preciso que esqueçam por um período todos os outros
destinos que lhes escapam. E não há patrimônio ecológico, histórico
ou cultural ou mesmo evento que possa prescindir de um lugar
considerado belo pelo visitante, comida e bebida agradáveis, e uma
boa companhia para aquelas conversas que não têm hora para começar,
em que as palavras não saem apressadas atropelando umas às outras,
e ninguém sente incômodo com o silêncio entre um assunto e outro.
2.
O anseio por segurança
A
liberdade de movimento do turista ocorre em um tempo e um espaço
que ameaçam a sua segurança e colocam em risco o seu bem estar e a
sua vida. A competição do mercado de trabalho e a ameaça de
desemprego, as redes criminosas, a violência urbana, a corrupção
governamental, os alimentos contaminados, a solidão e o desamparo
na velhice são os temores que provocam no turista o desejo de fuga,
nem que seja efêmera, para um local seguro e confortável.
Compreendida
desta forma ampla, a segurança envolve desde a proteção contra as
ameaças à integridade física por parte da violência das grandes
cidades, serviços médicos e sanitários adequados e alimentação
saudável, até a sensação de abrigo em uma noite fria, o
aconchego de uma companhia que nos livre da solidão e com quem
possamos compartilhar experiências e afetividade.
Outro
dilema que não pode ser desconsiderado: embora o turista queira
proteção contra os males mencionados, muitas vezes é ele próprio
que os traz em sua bagagem. É um enorme paradoxo tentar impedir que
o visitante leve à deterioração das condições de bem estar e
segurança locais sem restringir a sua liberdade.
Hospitalidade,
então, não pode ser confundida com a cordialidade superficial e indiferente dos vendedores e prestadores de
serviços. É possível que até implique na necessidade de polidez
e afabilidade nos primeiros contatos, mas é necessário que seja
muito mais do que a troca de expressões superficiais entre
compradores e vendedores, para significar proteger o visitante do
perigo, da rotina que entedia, do cansaço e da doença. Significa,
pois, garantir segurança ao visitante cuidando para que ele esteja
livre das ameaças que colocam sua vida e o seu bem estar em risco.
3.
Sociabilidade
A
vida humana depende da ação dos indivíduos e de sua interação.
O ser humano é um ser portador de necessidades que só se realizam
através dos relacionamentos entre os humanos. O reconhecimento de
um outro ser como humano implica em reconhecermos as suas
necessidades de recursos materiais, bens simbólicos e da presença
de outro ser humano. Para a satisfação desses três conjuntos de
necessidades elementares é
que se desenvolvem as mais diferentes formas de interação e
relacionamento afetivo, de elaboração de conhecimentos, de
atividades lúdicas e artísticas, e de produção de bens e serviços.
Para
satisfazer a necessidade de presença de outro ser humano é que se
desenvolvem as formas de sociabilidade como o namoro e a amizade, a
polidez e a hospitalidade, a moral, a ética, o direito, o comércio
e até o dinheiro, que é usado para facilitar a relação de troca
entre os humanos, através do uso de uma mercadoria considerada
equivalente a todas as
outras.
Como
estamos discutindo os contornos da atividade de recepção turística,
devemos ter em mente que a utilização do dinheiro como forma de
remuneração dos serviços e bens que o turista escolhe não pode
levar a que o tempo livre deste seja transformado em simples meio de
ganhar dinheiro. Qualquer visitante se sente explorado quando
percebe que as suas necessidades estão sendo manipuladas. Acredito,
ainda, que nenhum turista considere hospitalidade um sorriso em um
rosto acompanhado de uma mão estendida à espera de uma moeda.
A
hospitalidade é uma forma de relação humana baseada na ação recíproca
entre visitantes e anfitriões. Sempre que os humanos se relacionam,
mesmo para a realização de atividades práticas ligadas a receber
ou visitar alguém ou um local, o relacionamento depende dos valores
daqueles que estão interagindo, ou seja, depende dos princípios
que orientam as condutas dos envolvidos na relação. A discussão
sobre a hospitalidade é muito mais do que uma simples difusão de técnicas
de bom atendimento na atividade turística, pois depende de uma
discussão prévia sobre os valores que devem fundamentar as práticas
de recepção aos turistas. Valores novos devem ser propostos e
debatidos livremente, mas nunca impostos.
4.
Cidadania
Uma
hospitalidade que faça com que o turista se sinta realmente bem
vindo à localidade e seguro depende da qualidade de vida dos
moradores locais. Não vá o empresário do setor turístico
acreditar que terá um colaborador empenhado doando o melhor de si
para o atendimento ao turista se o mesmo se sente desrespeitado e
explorado, não teve acesso a uma educação adequada e está
exposto ao estresse próprio daqueles que não controlam o próprio
tempo nos momentos de descanso e lazer.
É
outro dilema da hospitalidade disponibilizar prazer, bem estar e
segurança para o turista sem gerar sofrimento para os anfitriões e
moradores locais. Para gerar hospitalidade temos que garantir que os
moradores locais vivam com qualidade de vida suficiente, segurança
e bem estar para que não se sintam impelidos a ameaçar a segurança
dos visitantes.
Não
podemos querer imaginar um mundo hospitaleiro para o turismo
enquanto escondemos a nossa pobreza, através da exclusão dos
pobres dos espaços públicos destinados aos visitantes. Em meio à
pobreza crescente dos centros urbanos no mundo todo agentes
governamentais e empresários podem cair na tentação de restringir
os movimentos dos mais pobres. Nosso dever é evitar que o projeto
de produzir a hospitalidade que atraia os turistas gere o fascismo que leva à exclusão da cidadania, com os
mais pobres perdendo o direito de transitar e de decidir sobre os
rumos de sua cidade. Da cidade formada por ruas, praças, monumentos
e edificações erguidas pelas suas mãos, enquanto eles próprios
estão confinados nos bairros sem infra-estrutura e sem lazer.
5.
Sexo e prostituição
Longe
de negarmos o prazer como uma forma de reconciliação do ser humano
com a sua própria natureza, pregando um moralismo que na prática
leva à abstinência, defendo que a hospitalidade envolve a aceitação
da possibilidade da interação sexual entre visitantes e moradores.
Para os dois lados tal interação pode significar vida e sentimento
fora das alternativas do sexo solitário, pela Internet ou comprado.
Podemos
assim discutir a hospitalidade sem confundi-la com a relação promíscua
entre turismo e as redes de prostituição e tráfico de mulheres e
crianças. Se não houver na localidade anfitriã pessoas que
transformem o corpo em mercadoria como um meio para a satisfação
de suas necessidades de consumo, o fenômeno da prostituição perde
a centralidade que hoje adquire no setor turístico. Então, para
satisfazer as suas necessidades afetivas e sexuais o visitante deverá
buscar a interação com os moradores locais simplesmente pela
satisfação que o relacionamento poderá gerar para os envolvidos,
e não em virtude do interesse monetário ou da coação dos
criminosos sobre os mais pobres e indefesos da localidade que, neste
caso, jamais pode ser chamada de comunidade, pois em uma verdadeira
comunidade ninguém se sente desprotegido e carente ao ponto de ter
que se prostituir.
6.
Cultura popular
A
importância de uma efervescência cultural na vida social local
também não pode ser minimizada pelos planejadores da
hospitalidade, pois como nos adverte Bauman (2003: 46) “um lugar
pode estar fisicamente cheio, e no entanto assustar e repelir os
moradores [e visitantes] por seu vazio moral”. Deriva deste raciocínio
a importância que devemos atribuir às culturas populares locais,
apoiando ou simplesmente não obstaculizando a sua livre manifestação.
Para os planejadores da hospitalidade o apoio a um grupo de cultura
popular não pode implicar no roubo de sua autonomia. Sem autonomia
as culturas populares perdem a autenticidade, a afetividade, a
alegria e a criatividade que as definem. Também não deve ser
esquecido que o respeito à cultura popular, à diversidade das
manifestações culturais dos mais pobres, não pode levar à
sublimação das suas reais condições de vida. Respeitar a diferença
não pode significar nos tornarmos indiferentes às situações que
geram a desigualdade.
7.
Humilhação
Em
um de seus livros sobre a globalização Zygmunt Bauman comenta que
a experiência de algumas cidades norte-americanas expressam o que
podemos considerar uma predisposição contrária à hospitalidade:
“a suspeita em relação aos outros, a intolerância face à
diferença, o ressentimento com estranhos e a exigência de isolá-los
e bani-los, assim como a preocupação histérica, paranóica com a
“lei e a ordem”, tudo isso tende a atingir o mais alto grau nas
comunidades locais mais uniformes, mais segregadas dos pontos de
vista racial, étnico e de classe.” (Bauman, 1999:
54)
O
próprio Bauman tenta explicar as possíveis causas da intolerância
em seu livro. Para o sociólogo polonês, “a uniformidade alimenta
a conformidade e a outra face da conformidade é a intolerância.
Numa localidade homogênea é extremamente difícil adquirir
as qualidades de caráter e habilidades necessárias para
lidar com a diferença humana e situações de incerteza; e na ausência
dessas habilidades e qualidades é facílimo temer o outro,
simplesmente por ser outro – talvez bizarro e diferente, mas
primeiro e sobretudo não familiar, não imediatamente compreensível,
não inteiramente sondado, imprevisível” (Bauman, 1999: 55) O
medo e a indiferença em relação ao desconhecido faz perdermos a
oportunidade de um encontro para conhecermos e sermos conhecidos.
Não
saber lidar com o considerado diferente, que pode ser alguém com um
problema de saúde, uma necessidade especial ou uma identidade
incompreendida e não aceita, até mesmo não intencionalmente pode
levar o anfitrião a fazer o visitante se sentir humilhado. A
humilhação gera o ressentimento com a gente do lugar e o desejo de
fugir para não mais voltar. De outra perspectiva, a necessidade de
humilhar o outro é sinal de imaturidade ou falta de capacidade para
conviver e, no seu limite, se expressa, ainda, no desejo de subjugar
o outro através da crueldade, como nos exemplifica o espetáculo
demasiado humano das torturas dos cidadãos iraquianos praticadas
pelos soldados das forças de ocupação norte-americanas.
8.
Conexão com os fluxos globais
Por
último quero recordar uma dimensão estratégica da hospitalidade
para a gente de um lugar: uma forma de conexão com o mundo através
do contato com o visitante. Do contrário podemos perder a
capacidade de comunicação com os de fora da localidade, e o nosso
destino será o confinamento e a exclusão dos fluxos globais de
informações.
Na
análise que o sociólogo Manuel Castells realiza sobre as
sociedades contemporâneas é muitas vezes ressaltado o aspecto da
dependência crescente das atividades humanas em relação à
necessidade de processamento de informações para a geração de
conhecimentos e sua distribuição. Este aspecto permite
caracterizarmos as sociedades contemporâneas como informacionais,
em virtude do fluxo contínuo de informações pelas redes
comunicacionais. Uma consequência de tal característica é que
“o controle da ciência e da técnica das tecnologias da informação
chega a ser uma fonte de poder em si mesma”. (Castells, 1996: 15)
O trânsito livre de investimentos no mercado financeiro global, os
movimentos migratórios de trabalhadores, o turismo, os processos de
produção de mercadorias e as tecnologias gerenciais dependem de
informações que são produzidas e operacionalizadas em todas as
regiões do planeta.
Para
que se possa garantir a participação na rede mundial de fluxos de
informações Castells acredita que é fundamental a “a habilidade
de usar (e de alguma maneira produzir) tecnologias de informação”.
Um segundo aspecto ressaltado é a necessidade de os cidadãos da
sociedade global estarem conectados aos fluxos de informação e
comunicação, pois “o acesso a tais fluxos se faz crítico para
qualquer economia e, portanto para qualquer sociedade. Estar
desconectado da rede é equivalente a não existir na economia
global” (Castells, 1996: 22). Os efeitos da desconexão da
economia informacional global podem ser percebidos na marginalização
de vastas regiões do planeta, e no número crescente de cidadãos
marginalizados em seus próprios países, sejam estes ricos ou
pobres.
Conclusão
Hospitalidade
é considerar todos os visitantes como bem vindos, compartilhando
com eles o bem estar e a segurança que também não nos faltam.
Hospitalidade é a generosidade de um agrupamento humano, seja uma
comunidade, etnia, cidade, nação, estado ou país. É a ternura da
gente de um lugar em relação ao estrangeiro e os seus mistérios,
enquanto este também imagina os seus anfitriões como uma gente
misteriosa e nem por isso deixou de visitá-la. A hospitalidade é,
portanto, um encontro bem sucedido entre mistérios: Civilização não
quer dizer outra coisa.
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