Por WALTER PRAXEDES

Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e professor de Sociologia das Faculdades Nobel e Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

Reflexões sociológicas sobre a hospitalidade

 

Ao amigo João dos Santos Filho

 

1. A imaginação do turista

O turista é aquele que conquistou o privilégio da mobilidade espacial no mundo contemporâneo, uma mobilidade que depende do tamanho do seu privilégio Um privilégio que também pode ser encarado como uma enorme perda: não há como um turista deixar de imaginar que onde quer que ele esteja desfrutando momentos de satisfação, bem estar e segurança, poderia estar em outra parte.

É preciso saber lidar com a imaginação do turista pois é ela que o move a chegar e a partir de uma localidade. Em princípio, não há razão para ele se prender a um lugar específico por mais tempo do que o necessário para satisfazer o pássaro irrequieto de sua imaginação. E nada é mais angustiante para alguém que é movido pela paixão de conhecer o mundo do que perder a liberdade de escolher o seu destino.

Decorre desta inconstância da imaginação do turista os maiores desafios para aquelas localidades que são projetadas para propiciar hospitalidade aos visitantes. Para que estes se sintam bem em um local é preciso que esqueçam por um período todos os outros destinos que lhes escapam. E não há patrimônio ecológico, histórico ou cultural ou mesmo evento que possa prescindir de um lugar considerado belo pelo visitante, comida e bebida agradáveis, e uma boa companhia para aquelas conversas que não têm hora para começar, em que as palavras não saem apressadas atropelando umas às outras, e ninguém sente incômodo com o silêncio entre um assunto e outro.

2. O anseio por segurança

A liberdade de movimento do turista ocorre em um tempo e um espaço que ameaçam a sua segurança e colocam em risco o seu bem estar e a sua vida. A competição do mercado de trabalho e a ameaça de desemprego, as redes criminosas, a violência urbana, a corrupção governamental, os alimentos contaminados, a solidão e o desamparo na velhice são os temores que provocam no turista o desejo de fuga, nem que seja efêmera, para um local seguro e confortável.

Compreendida desta forma ampla, a segurança envolve desde a proteção contra as ameaças à integridade física por parte da violência das grandes cidades, serviços médicos e sanitários adequados e alimentação saudável, até a sensação de abrigo em uma noite fria, o aconchego de uma companhia que nos livre da solidão e com quem possamos compartilhar experiências e afetividade.

Outro dilema que não pode ser desconsiderado: embora o turista queira proteção contra os males mencionados, muitas vezes é ele próprio que os traz em sua bagagem. É um enorme paradoxo tentar impedir que o visitante leve à deterioração das condições de bem estar e segurança locais sem restringir a sua liberdade.

Hospitalidade, então, não pode ser confundida com a cordialidade  superficial e indiferente dos vendedores e prestadores de serviços. É possível que até implique na necessidade de polidez e afabilidade nos primeiros contatos, mas é necessário que seja muito mais do que a troca de expressões superficiais entre compradores e vendedores, para significar proteger o visitante do perigo, da rotina que entedia, do cansaço e da doença. Significa, pois, garantir segurança ao visitante cuidando para que ele esteja livre das ameaças que colocam sua vida e o seu bem estar em risco.

3. Sociabilidade

A vida humana depende da ação dos indivíduos e de sua interação. O ser humano é um ser portador de necessidades que só se realizam através dos relacionamentos entre os humanos. O reconhecimento de um outro ser como humano implica em reconhecermos as suas necessidades de recursos materiais, bens simbólicos e da presença de outro ser humano. Para a satisfação desses três conjuntos de necessidades elementares  é que se desenvolvem as mais diferentes formas de interação e relacionamento afetivo, de elaboração de conhecimentos, de atividades lúdicas e artísticas, e de produção de bens e serviços.

Para satisfazer a necessidade de presença de outro ser humano é que se desenvolvem as formas de sociabilidade como o namoro e a amizade, a polidez e a hospitalidade, a moral, a ética, o direito, o comércio e até o dinheiro, que é usado para facilitar a relação de troca entre os humanos, através do uso de uma mercadoria considerada equivalente  a todas as outras.

Como estamos discutindo os contornos da atividade de recepção turística, devemos ter em mente que a utilização do dinheiro como forma de remuneração dos serviços e bens que o turista escolhe não pode levar a que o tempo livre deste seja transformado em simples meio de ganhar dinheiro. Qualquer visitante se sente explorado quando percebe que as suas necessidades estão sendo manipuladas. Acredito, ainda, que nenhum turista considere hospitalidade um sorriso em um rosto acompanhado de uma mão estendida à espera de uma moeda.

A hospitalidade é uma forma de relação humana baseada na ação recíproca entre visitantes e anfitriões. Sempre que os humanos se relacionam, mesmo para a realização de atividades práticas ligadas a receber ou visitar alguém ou um local, o relacionamento depende dos valores daqueles que estão interagindo, ou seja, depende dos princípios que orientam as condutas dos envolvidos na relação. A discussão sobre a hospitalidade é muito mais do que uma simples difusão de técnicas de bom atendimento na atividade turística, pois depende de uma discussão prévia sobre os valores que devem fundamentar as práticas de recepção aos turistas. Valores novos devem ser propostos e debatidos livremente, mas nunca impostos.

4. Cidadania

Uma hospitalidade que faça com que o turista se sinta realmente bem vindo à localidade e seguro depende da qualidade de vida dos moradores locais. Não vá o empresário do setor turístico acreditar que terá um colaborador empenhado doando o melhor de si para o atendimento ao turista se o mesmo se sente desrespeitado e explorado, não teve acesso a uma educação adequada e está exposto ao estresse próprio daqueles que não controlam o próprio tempo nos momentos de descanso e lazer.

É outro dilema da hospitalidade disponibilizar prazer, bem estar e segurança para o turista sem gerar sofrimento para os anfitriões e moradores locais. Para gerar hospitalidade temos que garantir que os moradores locais vivam com qualidade de vida suficiente, segurança e bem estar para que não se sintam impelidos a ameaçar a segurança dos visitantes.

Não podemos querer imaginar um mundo hospitaleiro para o turismo enquanto escondemos a nossa pobreza, através da exclusão dos pobres dos espaços públicos destinados aos visitantes. Em meio à pobreza crescente dos centros urbanos no mundo todo agentes governamentais e empresários podem cair na tentação de restringir os movimentos dos mais pobres. Nosso dever é evitar que o projeto de produzir a hospitalidade que atraia os turistas  gere o fascismo que leva à exclusão da cidadania, com os mais pobres perdendo o direito de transitar e de decidir sobre os rumos de sua cidade. Da cidade formada por ruas, praças, monumentos e edificações erguidas pelas suas mãos, enquanto eles próprios estão confinados nos bairros sem infra-estrutura e sem lazer.

5. Sexo e prostituição

Longe de negarmos o prazer como uma forma de reconciliação do ser humano com a sua própria natureza, pregando um moralismo que na prática leva à abstinência, defendo que a hospitalidade envolve a aceitação da possibilidade da interação sexual entre visitantes e moradores. Para os dois lados tal interação pode significar vida e sentimento fora das alternativas do sexo solitário, pela Internet ou comprado.

Podemos assim discutir a hospitalidade sem confundi-la com a relação promíscua entre turismo e as redes de prostituição e tráfico de mulheres e crianças. Se não houver na localidade anfitriã pessoas que transformem o corpo em mercadoria como um meio para a satisfação de suas necessidades de consumo, o fenômeno da prostituição perde a centralidade que hoje adquire no setor turístico. Então, para satisfazer as suas necessidades afetivas e sexuais o visitante deverá buscar a interação com os moradores locais simplesmente pela satisfação que o relacionamento poderá gerar para os envolvidos, e não em virtude do interesse monetário ou da coação dos criminosos sobre os mais pobres e indefesos da localidade que, neste caso, jamais pode ser chamada de comunidade, pois em uma verdadeira comunidade ninguém se sente desprotegido e carente ao ponto de ter que se prostituir.

6. Cultura popular

A importância de uma efervescência cultural na vida social local também não pode ser minimizada pelos planejadores da hospitalidade, pois como nos adverte Bauman (2003: 46) “um lugar pode estar fisicamente cheio, e no entanto assustar e repelir os moradores [e visitantes] por seu vazio moral”. Deriva deste raciocínio a importância que devemos atribuir às culturas populares locais, apoiando ou simplesmente não obstaculizando a sua livre manifestação. Para os planejadores da hospitalidade o apoio a um grupo de cultura popular não pode implicar no roubo de sua autonomia. Sem autonomia as culturas populares perdem a autenticidade, a afetividade, a alegria e a criatividade que as definem. Também não deve ser esquecido que o respeito à cultura popular, à diversidade das manifestações culturais dos mais pobres, não pode levar à sublimação das suas reais condições de vida. Respeitar a diferença não pode significar nos tornarmos indiferentes às situações que geram a desigualdade.

7. Humilhação

Em um de seus livros sobre a globalização Zygmunt Bauman comenta que a experiência de algumas cidades norte-americanas expressam o que podemos considerar uma predisposição contrária à hospitalidade: “a suspeita em relação aos outros, a intolerância face à diferença, o ressentimento com estranhos e a exigência de isolá-los e bani-los, assim como a preocupação histérica, paranóica com a “lei e a ordem”, tudo isso tende a atingir o mais alto grau nas comunidades locais mais uniformes, mais segregadas dos pontos de vista racial, étnico e de classe.” (Bauman, 1999:  54)

O próprio Bauman tenta explicar as possíveis causas da intolerância em seu livro. Para o sociólogo polonês, “a uniformidade alimenta a conformidade e a outra face da conformidade é a intolerância. Numa localidade homogênea é extremamente difícil adquirir  as qualidades de caráter e habilidades necessárias para lidar com a diferença humana e situações de incerteza; e na ausência dessas habilidades e qualidades é facílimo temer o outro, simplesmente por ser outro – talvez bizarro e diferente, mas primeiro e sobretudo não familiar, não imediatamente compreensível, não inteiramente sondado, imprevisível” (Bauman, 1999: 55) O medo e a indiferença em relação ao desconhecido faz perdermos a oportunidade de um encontro para conhecermos e sermos conhecidos.

Não saber lidar com o considerado diferente, que pode ser alguém com um problema de saúde, uma necessidade especial ou uma identidade incompreendida e não aceita, até mesmo não intencionalmente pode levar o anfitrião a fazer o visitante se sentir humilhado. A humilhação gera o ressentimento com a gente do lugar e o desejo de fugir para não mais voltar. De outra perspectiva, a necessidade de humilhar o outro é sinal de imaturidade ou falta de capacidade para conviver e, no seu limite, se expressa, ainda, no desejo de subjugar o outro através da crueldade, como nos exemplifica o espetáculo demasiado humano das torturas dos cidadãos iraquianos praticadas pelos soldados das forças de ocupação norte-americanas.

8. Conexão com os fluxos globais

Por último quero recordar uma dimensão estratégica da hospitalidade para a gente de um lugar: uma forma de conexão com o mundo através do contato com o visitante. Do contrário podemos perder a capacidade de comunicação com os de fora da localidade, e o nosso destino será o confinamento e a exclusão dos fluxos globais de informações.

Na análise que o sociólogo Manuel Castells realiza sobre as sociedades contemporâneas é muitas vezes ressaltado o aspecto da dependência crescente das atividades humanas em relação à necessidade de processamento de informações para a geração de conhecimentos e sua distribuição. Este aspecto permite caracterizarmos as sociedades contemporâneas como informacionais, em virtude do fluxo contínuo de informações pelas redes comunicacionais. Uma consequência de tal característica é que “o controle da ciência e da técnica das tecnologias da informação chega a ser uma fonte de poder em si mesma”. (Castells, 1996: 15) O trânsito livre de investimentos no mercado financeiro global, os movimentos migratórios de trabalhadores, o turismo, os processos de produção de mercadorias e as tecnologias gerenciais dependem de informações que são produzidas e operacionalizadas em todas as regiões do planeta.

Para que se possa garantir a participação na rede mundial de fluxos de informações Castells acredita que é fundamental a “a habilidade de usar (e de alguma maneira produzir) tecnologias de informação”. Um segundo aspecto ressaltado é a necessidade de os cidadãos da sociedade global estarem conectados aos fluxos de informação e comunicação, pois “o acesso a tais fluxos se faz crítico para qualquer economia e, portanto para qualquer sociedade. Estar desconectado da rede é equivalente a não existir na economia global” (Castells, 1996: 22). Os efeitos da desconexão da economia informacional global podem ser percebidos na marginalização de vastas regiões do planeta, e no número crescente de cidadãos marginalizados em seus próprios países, sejam estes ricos ou pobres.

Conclusão

Hospitalidade é considerar todos os visitantes como bem vindos, compartilhando com eles o bem estar e a segurança que também não nos faltam. Hospitalidade é a generosidade de um agrupamento humano, seja uma comunidade, etnia, cidade, nação, estado ou país. É a ternura da gente de um lugar em relação ao estrangeiro e os seus mistérios, enquanto este também imagina os seus anfitriões como uma gente misteriosa e nem por isso deixou de visitá-la. A hospitalidade é, portanto, um encontro bem sucedido entre mistérios: Civilização não quer dizer outra coisa.

 

 
Referências

BAUMAN, Zygmunt. Globalização, as consequências humanas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1999.

______. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.

CASTELLS, Manuel. “Fluxos, redes e identidades: uma teoria crítica da sociedade informacional. In: CASTELLS, Manuel. Novas perspectivas críticas em educação. Porto Alegre, Artes Médicas, 1996.

LEFEBVRE, Henri. “Estrutura social: a reprodução das relações sociais”. In: FORACCHI, Marialice M. e MARTINS, José de Souza. Sociologia e sociedade: leituras de introdução à sociologia. Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos Editora, 1984.

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