Por J. GUINSBURG

Professor de Teoria do Teatro da ECA-USP e autor de, entre outros livros, Leone de'Sommi: um Judeu no Teatro da Renascença Italiana (Ed. Perspectiva)

 


* Fonte: Revista USP 15 e J. GUINSBRUG. (Org) Aventuras de uma Língua Errante: Ensaios de Literatura e Teatro Ídiche. São Paulo: Editora Perspectiva, 1996 (507p.). 

 

** Publicado com a autorização do autor e dos responsáveis das fontes indicadas. Agradecemos a todos.

 

Uma Língua Passaporte: o Ídiche

J. Guinsburg*

 

O ídiche (ou iídiche, forma aportuguesada de iidisch) originou-se, ao que tudo indica, nas áreas fronteiriças franco-germânicas, às margens do Reno, por volta do séc. X. Aí, judeus vindos principalmente da Itália e de outros países românicos adotaram o idioma local, ou seja, o alto-alemão em sua passagem do período antigo para o médio. Misturando-se desde logo com elementos do laaz[1], correlativos judaicos em francês e italiano[2] arcaicos, com a terminologia litúrgica, ritual, comercial e institucional do hebraico-aramaico, isto é, o chamado laschon-kodesch, íd. loschen-koidesch ("língua sagrada"), com palavras hebraico-aramaicas[3] (3) ligadas à atividade diária e eufemismos destinados a ocultar ao não-judeu o significado dos termos, começaram a desenvolver o juedisch-deutsch, isto é, o "judeu-alemão", nome que se alterou para iidisch-taitsch ("ídiche-alemão", sendo que o termo taitsch também veio a significar "interpretação"), de onde derivou o vocábulo iídiche.

Linguagem do cotidiano e sobretudo das mulheres, que não aprendiam o idioma sagrado, o iidisch-taitsch, em sua época arcaica (Proto-ídiche, 1000 a 1250), não se diferenciou muito do médio alto-alemão, embora, com os deslocamentos devidos às chacinas cometidas pelos Cruzados, passasse a reunir também contribuições de diferentes dialetos alemães, o que veio acentuar as suas características de jargão específico da Judengasse ("rua dos judeus"), do gueto (Velho-ídiche, 1250 a 1500). Em virtude das perseguições sofridas no curso do Medievo, sucessivas ondas de judeus aschkanazitn (de Aschkenaz, hebr. "Alemanha" e regiões adjacentes) emigraram em massa para o leste da Europa e também para outras áreas, como o norte da Itália, levando o seu dialeto como meio de comunicação intragrupal, portanto já de uso generalizado para "todos" os fins da vida coletiva.

Assim se expandiu o âmbito territorial do iidisch-taitsch, que se dividiu durante o seu período médio (Médio-ídiche, 1500 a 1750) em dois ramos, quanto à evolução lingüística. No Oeste, em que o centro principal foi a Alemanha até o séc. XIX, permaneceu mais ligado às suas formas iniciais, sobretudo na Alsácia e na Suíça, enquanto, no Leste, sua peculiaridade se aprofundou. Adaptando-se ao novo contexto e assimilando numerosos étimos e padrões lingüísticos eslavos[4], foi cristalizando estruturas ainda mais inusitadas e próprias, que o conduziram ao estádio do ídiche Moderno (de 1750 em diante) e definiram a sua feição de idioma autônomo, distinto de tudo o que lhe deu origem.

Até a segunda metade do séc. XIX, entretanto, o mame-luschen, a "língua da mamãe ou materna", na dupla implicação do termo, era visto como um "jargão", mesmo por aqueles que o empregavam não só para a comunicação diária. Deixado ao sabor da "fala", sem qualquer disciplina gramatical mais definida de "língua", demonstrava, no plano vocabular e no caráter aberto de sua estrutura, larga capacidade criativa e forte permeabilidade às influências locais. Por isso mesmo tendia a regionalizar-se com grande facilidade, tendo desenvolvido, já no séc. XVIII, dois grupos dialetais distinguíveis no quadro da Europa Oriental: o do Norte, centrado na Lituânia, e o do Sul, que abrangia a Polônia com forte peculiaridade, a Ucrânia e a Romênia.

Foi somente com o movimento da Hascalá ("Ilustração" judaica) na Rússia, em sua fase populista, que esta situação começou a modificar-se. Ao contrário de Mendelssohn e de seus sequazes centro-europeus, que julgaram indispensável para o bom êxito de seus ideais de modernização do judeu e da integração deste nas "luzes" ocidentais eliminar como barbarismo lingüístico o "patuá" do gueto e o seu efeito soi disant nefasto sobre o "nobre" espírito do povo da Bíblia, os maskilim ("ilustrados") do Leste foram desde cedo levados a uma via oposta. Embora tampouco ocultassem a sua recusa programática à fala popular, proclamando e cultivando as virtudes do hebraico e do idioma oficial do país, por razões propagandísticas e, mais tarde, ideológico políticas, uma vez que o ídiche era o veículo de entendimento coletivo, puseram-se a escrever em "jargão". Na trilha aberta, foram seguidos quase imediatamente por socialistas, populistas e "nacionalistas do Galut" que viram no ídiche o idioma autóctone da nação, etnia ou minoria judaica nos estados da Europa Oriental ou, para dizê-lo com o manifesto da Conferência do ídiche de Tchernovitz em 1908, "a segunda língua nacional do povo judeu". Era o signo de uma vasta produção literária em ídiche e um vivo idichismo que, por seu turno, somando-se ao incremento dos modernos meios de comunicação, aceleraram os processos de consolidação e normatização lingüísticos, a cujo serviço foram colocados os recursos da ciência moderna. Este desenvolvimento prosseguiu com vigor até a Segunda Guerra Mundial, quando foram arrancadas do solo europeu as raízes mais fundas do ídiche.

Em que pese a diferença, as correntes emigratórias, crescentes a partir da segunda metade do séc. XIX, constituíram na América importantes centros onde o ídiche foi largamente usado e cultivado. Nos Estados Unidos sobretudo, mas caberia mencionar também o Canadá e a Argentina, os recém-vindos continuaram a servir-se dele como principal veículo de comunicação grupal interna e começaram a adaptá-lo e aculturá-lo, à medida que se adaptavam e se aculturavam, passando a empregar o inglês ou o espanhol como segunda língua, para não dizer terceira. Afluiu assim, mais uma vez, para um terreno idiomático tão fértil para esse tipo de processo, uma significativa variedade de elementos de polinização, enxerto e transplante lingüísticos, na forma de anglicismos e espanholismos que expandiram o dicionário lexical do mame-luschen e puseram-se a interagir com os seus modos de construir. A preservação e o desenvolvimento do ídiche no novo contexto foram não menos favorecidos pelo rápido surgimento de uma imprensa de grande circulação e de um complexo ramificado de instituições religiosas, educacionais, associativas, sindicais, culturais e políticas, em que os locutores do ídiche podiam revitalizar a sua relação orgânica com o idioma de origem e dar seiva renovadora à criação artística e literária. Este processo manteve a sua vitalidade enquanto, apesar do impacto dos fatores de aclimatação e assimilação, não houve um estancamento total do fluxo fun der alter heim (da velha pátria) que o irrigava e lhe trazia o húmus idichista.

Foi também nesse novo ambiente que os esforços encetados pelo Yidischer Wissenchaftlicher Institut de Vilna viram-se coadjuvados e transpostos para um organismo congênere, sediado em Nova York, que também se dedicou aos estudos sistemáticos sobre a língua ídiche e a sua frutificação cultural. Nele, principalmente após a destruição dos grandes centros da vida judaica na Europa Oriental, inclusive a Jerusalém lituana (Vilna), prosseguiram os trabalhos de normatização idiomática, na linha do Yivo europeu, que, em 1936, recomendara a adoção do dialeto setentrional como base da reforma da prosódia ídiche e, em 1937, publicara sua ortografia unificada. Dois lingüistas notabilizaram-se particularmente nestas pesquisas filológicas, literárias e socioantropológicas no núcleo americano, Max Weinreich (1894-1969) e Uriel Weinreich (1925-67), pai e filho. Através de ambos, as disciplinas do ídiche começaram a ingressar nos estudos universitários regulares dos Estados Unidos. Em nossos dias, ao lado das israelenses, algumas das principais universidades da Europa e das Américas integraram o ídiche em seu currículo.

O fato é digno de menção. Pois, independentemente da imensa valia das investigações científicas efetuadas nos quadros acadêmicos, a transferência para esse outro âmbito adquire quase um caráter, senão simbólico, pelo menos sintomático. Com efeito, em toda parte onde subsiste o interesse pelo ídiche e onde grupos de falantes ou leitores idichistas se dispuseram a apoiar, de um ou de outro modo, as tentativas de fazê-lo sobreviver, foi preciso, pelo menos nos últimos 40 anos, recorrer a esse abrigo institucionalizado ­ o que é paradoxal em se tratando de uma fala da rua, da iidische gass ­ para de alguma forma manter o tronco vivo numa redoma ou numa estufa.

Em Israel, onde, afora grupos religiosos, parte da população, em especial a de cepo aschkenazi, conserva ou até adquiriu certa familiaridade com o ídiche a solução encontrada não tem sido diferente, nem após a chegada das levas de judeus soviéticos, que em sua maioria utilizam o russo como língua materna. Na ex-União Soviética, dizem, houve um redespertar do interesse pelo ídiche, mas em que termos, pode-se perguntar. Não consta que tenha voltado a ser o instrumento lingüístico das massas de ievreis, nem sequer que haja resistido na longínqua Birobidjan, mas, sim, que é motivo de pesquisas e de resgates acadêmicos e literários, principalmente em russo. Mesmo a onda de nostalgia e revaloração que varreu o judaísmo do Ocidente aschkenazi, gerando numerosos e atualizados estudos de toda ordem e traduções em uma amplitude jamais conhecida ­ e isso para não falar do extraordinário impacto causado pela obra de Baschevis-Singer ­, não foi de molde, creio, a revigorar algumas das condições sociocomunicacionais e antropológicas indispensáveis para que o ídiche, além de veículo idiomático de grupos sectários, por grandes que sejam, levados a ele por razões exclusivamente religiosas, possa explorar, com plenitude, as fantásticas capacidades comunicativas, expressivas e criativas que desenvolveu intrinsecamente.

Este rápido escorço diacrônico do ídiche põe em relevo algumas questões que talvez mereçam ser repensadas em outro plano. Por exemplo, o aparecimento e o desenvolvimento do ídiche têm sido vinculados, pela visão historicista, não apenas estreita porém organicamente, à mulher e às camadas mais humildes e menos letradas do mundo europeu-central e europeu-oriental, isto é, ao universo aschkenazi. Nada mais certo. Pois os dois grupos de falantes, na medida em que não aprendiam e/ou não cultivavam o loschen koidesch ("língua sagrada"), tiveram um papel primordial no processo de constituição do dialeto judeu-alemão e no uso preferencial deste como linguagem do cotidiano do grupo. Mas, ainda assim, é preciso não esquecer que, em conjunto com eles, todos os demais estratos da população do gueto aschkenazi, em quase todas as circunstância da vida, usaram desde logo o mesmo veículo idiomático. Ou seja, com exceção dos momentos em que se entregavam à proferição das preces e dos textos do culto ou à leitura e/ou redação dos escritos religiosos, das obras de natureza ética, filosófica, narrativa e poética (o verso profano hebraico, ainda que existente, era pouco difundido, a não ser quando assumia a forma de piut, isto é, de hino cultual, ou era inserido no devocionário), o judeu aschkenazi, talmid-hohem, rabino ou homem comum, falava indistintamente o "jargão". E, o que é mais importante, falava-o dentro de casa e fora, na tenda do artífice ou do comerciante, nos encontros e nas relações sociais de todos os níveis, nas antecâmaras rabínicas, nas cortes de julgamentos, nas sinagogas e nas casas de estudo, nos heiders e nas ieschives, quer dizer, não só na rua como nos próprios focos de conservação e criação do judaísmo aschkenazi daquelas épocas. Isto significa que todo o processo de vida espiritual e material aschkenazi foi perpassado e entretecido no ídiche. Ele permeava o sistema todo pelo qual o menino aschkenazi no heider era alfabetizado e introduzido na Torá.

Nele se desenrolava o ininterrupto diálogo e debate que, desde a adolescência e a mocidade na ieschive até o fim de sua vida, o filho de Israel, nos estudos individuais e nas argumentações em grupo, travava com a biblioteca que o consagrava, o Tanach e a Mischná, o Talmud e os midraschim, as Responsa e as ordenações legais, o sermonário e os livros místicos, para cumprir, à risca, os mandamentos e as mitzves, na letra e no espírito. Mas o vernáculo das Platea Judaeorum não foi apenas oralizado pela voz de seus habitantes, como, muito cedo, grafado em caracteres hebraicos ­ portanto naqueles em que o judeu era alfabetizado, isto é, era letrado. A documentação subsistente data dos primórdios do dialeto e indica esta textualização em um copioso repositório bibliográfico de largo espectro. Toda espécie de escritos, desde os de correspondência até os de caráter comercial, exegético, homilético, cronístico, romanesco e poético, encontrou expressão e respaldo neste verbo, a ponto de se poder falar de uma literatura ídiche muito antes de ter esse idioma recebido qualquer direito de cidadania culta. Assim, dever-se-ia concluir que o iidisch-taitsch assumiu logo, com o hebraico e o aramaico, a função de esteio oral-escritural do universo cultural construído na esfera de Aschkenaz. Ele se torna componente estrutural desta sociedade.

Esta natureza e função imprimiram-se naturalmente na própria arquitetura da língua. Mas a evolução e a definição das características do ídiche não podem ser vistas apenas ante rem no processo. Cumpre considerar algumas peculiaridades sócio-históricas da vida judaica, para vislumbrar algo do jogo lingüístico que de pronto se estabeleceu, que influíram nos rumos que o novo jargão tomaria. Quando da formação do ídiche, os seus criadores já constituíam um grupo marcadamente polilingüístico, pelo menos desde o fim do Primeiro Exílio, uma vez que, conservando o hebraico, passaram a utilizar-se crescentemente do aramaico, que permaneceu como canal de comunicação até o ascenso do árabe. Por isso mesmo, desenvolveram, como atesta a própria literatura talmúdica, uma sensível capacidade de mixagem integrativa que lhes permitiu incorporar, no ramo aschkenazi, o ídiche, e no sefardita, mais tarde, o ladino, como um terceiro idioma qualificador e operador de sua identidade coletiva, afora os vários dialetos judio-árabes e independentemente das numerosas línguas contextuais em que se exprimiam por força de suas dispersões.

Mas como é que funcionava especificamente no gueto ou no schtetl aschkenazi a interação destas três vozes? O hebraico era a língua da Torá e da Mischn. O hebraico-aramaico e o aramaico-hebraico, a do Tahmud de Jerusalém e a do Talmud da Babilônia, respectivamente. Ambos servindo de base para o que se denominou loschen koidesch, a língua sagrada, uma composição semítica variável, essencialmente hebraica, das duas fontes, e formando o vigamento da inflexão prosódica aschkenazi do hebraico, sendo como tal largamente empregado na veiculação e geração da literatura hermenêutica e religiosa em geral, bem como na prosa e na poesia laicas, o que acabou convertendo-o no principal repertório de que se valeram a renovação literária da Hascalá e os seus desdobramentos na Modernidade. Todavia, no contexto original da Judengasse, tanto o hebraico quanto o aramaico só eram atualizados na leitura ou na escritura, nos comentários, nas preces e nas prédicas, como elocução dos textos, isto é, em última análise, constituíam fonte de citações de maior ou menor extensão, na medida em que eram sempre operados, mesmo quando compunham o todo da obra interpretada ou do texto redigido, a partir de um engaste ou de uma mixagem lingüísticos. Pergunta-se, então: no que eram engastados? No suporte do colóquio e do taitsch do discurso ídiche corrente. Tal fenômeno parece ter repercutido profundamente nesta economia trilingual e não deveria ser relegado a um plano secundário para a compreensão da morfologia e da sintaxe do ídiche.

Não se pretende aqui, como seria o caso num estudo mais aprofundado, analisar em termos técnicos os instigantes problemas que o ídiche propõe à lupa do estudioso. Estes aspectos têm sido objeto de numerosos trabalhos dedicados aos idiomas dos judeus e, no que tange ao ídiche em particular, de lingüistas especializados no tema, bem como em línguas germânicas.

É de consenso geral entre estes cientistas da linguagem, sejam quais forem suas escolas ou linhas metodológicas, que os modos sintagmáticos e paradigmáticos do mame-luschen são de uma flexibilidade e de uma capacidade de absorção espantosas. Também é opinião firmada que o seu poder de engendramento lexical, sem perda de padrões peculiares e inerentes, parece superior ao de muitas línguas hoje dominantes e consideradas modernas por sua dinâmica interna. Não será por outro motivo, por exemplo, que o ídiche conheceu, como poucas línguas, uma ampliação incessante de seu dicionário vocabular em função do contexto vivido.

Em outras palavras, percebe-se que aquele "desprezível" linguajar das judiarias do centro- e leste-europeu conseguiu, na sua tipicidade aparentemente menor e enguetizada, tomar um feitio que é quase o de uma língua- "passaporte", preservando no seu curso pelas épocas e pelos continentes a aptidão de continuar a ser ele próprio em meio de tantos outros ­ uma língua franca, no âmbito de seu próprio isolamento, uma língua realizada e atualizada por seus locutores no mundo inteiro e com a internalização desta presença. Na verdade, trata-se de uma curiosa dialética lingüística em que o fechamento resultou em abertura, o caracteristicamente nacional no caracteristicamente internacional, o arcaizante no modernizante.

Nestas condições, poder-se-ia pensar que os esforços de normalização e normatização que foram empreendidos a partir dos modelos clássicos das filologias européias, embora trouxessem por certo grandes contribuições para o estabelecimento gramatical do ídiche e para a codificação de sua norma culta, partiam de pressupostos positivistas, nacionalistas e, de certo modo, redutores das potencialidades deste idioma. Pois, ao classificar, categorizar e definir, no intento de "normalizá-lo", estava se comprimindo em alguma medida o espectro de suas possibilidades, em conceitos historicistas ancorados num passado-princípio, quando a natureza e a dinâmica do ídiche o situariam preponderantemente no universo dos processamentos lingüísticos da aldeia global em devir, como sugerem novas pesquisas apoiadas no moderno instrumental das ciências da linguagem.

Por paradoxal que possa parecer, o ídiche é um dos exemplares mais inusitados de uma língua estruturalmente moderna, a tal ponto que nem sequer a destruição da maioria de seus falantes no Holocausto e, portanto, de sua base fundante, a sociedade e a cultura aschkenazi, logrou aniquilá-lo por completo. E vemo-lo, hoje, tentando articular-se a partir de seus destroços, por novos meios e em novos meios, como os vasos partidos da redenção final na versão luriana, retomada por W. Benjamin: metáfora que pode nos servir talvez de símbolo para o que estamos agora pretendendo fazer aqui.


[1] Laaz ou, como pretende M. Weinreich, loez, literalmente no primeiro caso "língua estrangeira", "não-hebraica", e, no segundo, língua de um "povo estrangeiro". Designação que se estendeu às glosas e glossários em vernáculos sobretudo românicos, escritos com caracteres hebraicos, de que se serviam os comentadores judeus da Idade Média e que constituíram o início do processo de adaptação do alfabeto hebraico ao ídiche (vocalização, ditongos, etc.).

[2] O francês e o italiano antigos desempenharam também papel relevante entre os constituintes do ídiche. Seus vestígios persistem em palavras como: alker = alcove; almer = armoire; bentschen = benés; pultzel = pucelle; davenen = divisiner; prisant = présent. E, em nomes próprios, como: Schnoier = Senior; Bunem = Bonhomme; Toltze = Dolce; Ienti = Gentile; Schprintze = Esperanza.

[3] Hebraísmos como din (julgamento); kascher, íd. koscher ("ritualmente puro" ); iom-tov, íd iontev ("dia de festa"); gan-eden, íd. gan-eiden ("jardim do Éden, paraíso ); Torá, íd. Toire ("Lei", "ensinamento"); bem como aramaísmos, isto é, os dois constituintes lingüísticos semíticos do que é efetivamente a chamada "língua sagrada", figuram certamente entre os primeiros componentes do ídiche. Posteriormente, com o Hassidismo em particular, a participação dos hebraísmos e dos aramaísmos do discurso religioso aumentou consideravelmente no vocabulário ídiche.

[4] Os eslavismos, além de contribuírem ponderavelmente para o atual léxico, geraram algumas das construções lingüísticas mais típicas do ídiche: diminutivos em ker, como altischker ("velhinho"); libinker ("queridinho"); em niu, como tateniu ("paizinho"); bobeniu ("avozinha"); outros sufixos que se compõem com radicais alemães e/ou eslavos como as desinências em nik: schlimazlnik ("sujo", "desmazelado") de schlim (alemão) + mazal (hebraico) + nik (eslavo).

 
 

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