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Por ALTAMIRO BORGES
Jornalista,
editor da revista Debate Sindical e autor, com
Marcio Pochmann, do livro “Era FHC: A regressão do trabalho”
(Editora Anita Garibaldi)
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A
luta pelo controle de capitais
Ocorreu
em São Paulo, nos dias 28 e 29 de maio, o seminário internacional
sobre “controle de capitais e alternativas econômicas”. O
encontro, organizado pela Attac, Fundação Rosa Luxemburgo e Núcleo
de Estudos sobre Moeda e Crédito do Programa de Pós-Graduação da
PUC, pretende deflagrar uma jornada nacional contra a “ditadura do
capital financeiro”. Com este objetivo foram contatados vários
intelectuais, parlamentares e lideranças dos movimentos sociais.
CUT, MST e UNE já se comprometeram a engrossar essa briga. Este
texto visa ressaltar a importância e a urgência desta campanha,
servindo de alerta para os sindicalistas – tão presos às
demandas do cotidiano e, muitas vezes, tão distantes dos temas
estratégicos!
Como
explica a carta-convocatória do seminário, “a proposta do
controle dos movimentos de capital abre, numa conjuntura muito difícil,
novas possibilidades de se continuar lutando por um Brasil para
todos. A idéia desafia um dos alicerces do neoliberalismo – e uma
das armas manejadas com mais habilidade pelos conservadores para
manter o governo Lula preso ao passado. Trata-se da chamada
liberdade de circulação de capitais, um princípio que, na prática,
anula as possibilidades de construir um outro país necessário e
possível. Esta estranha ‘liberdade’ deixa a sociedade
brasileira sem meios de definir regras para a atuação dos capitais
internacionais, impotente diante dos interesses que eles
representam”.
Tripé
Satânico
A
proposta desta campanha adquire maior relevância com as recentes
turbulências no mercado financeiro mundial. Nas últimas semanas, a
mídia tem atormentado a sociedade com as tenebrosas notícias de
queda na bolsa de valores, elevação do dólar, piora do chamado
“risco Brasil”, etc. Já é visto como inevitável o aumento da
taxa de juros nos EUA, o que estaria afugentando os capitais voláteis
que saqueiam os “países emergentes”. Alguns já se recordam dos
efeitos dramáticos no México da elevação dos juros nos EUA em
1994 – de 3% para 6%. Em poucos minutos, a economia mexicana,
totalmente dependente destes capitais voláteis, ficou em
frangalhos, com a quebradeira de empresas e a demissão de milhares
de trabalhadores.
Conforme
relata um excelente artigo na revista Carta Capital, passados
dez anos do colapso no México, que abriu a temporada recente de
crises financeiras pelo mundo, o planeta ficou ainda mais perigoso.
Os países, principalmente os periféricos, estão cada vez mais
vulneráveis. Cerca de US$ 2,6 trilhões circulam diariamente pelo
globo sem qualquer controle. “A situação dos fluxos de capitais
internacionais tornou-se um pesadelo no mundo”, explicou à
revista a especialista estadunidense Jane D’Arista. Para ela, no
exato instante em que Alan Greenspan, presidente do banco central
dos EUA (Fed), elevar as taxas de juro nesta potência, terá início
a fuga de capitais das nações “emergentes”, com efeitos
altamente destrutivos.
Esse
fantasma agora ronda a economia brasileira – e deixa em apuros os
mercadores de ilusões infiltrados no governo Lula – exatamente
devido à total liberdade do fluxo de capitais. Encarado como dogma
pelos adoradores do deus-mercado, o livre fluxo compõe o tripé satânico
da política macroeconômica neoliberal – junto com os juros
estratosféricos e o elevado superávit primário. Através deste
mecanismo, o Estado é colonizado e se transforma numa máquina de
transferência de riqueza do setor produtivo para a oligarquia
financeira internacional. Esta libertinagem inviabiliza qualquer
controle público sobre a entrada e saída de dinheiro no país; ela
impede que o governo implemente uma política econômica
alternativa, soberana.
Em
certo sentido, a livre de circulação de capitais é o nó que ata
as outras duas pontas deste tripé satânico. Pressionado pela
brutal dívida pública, o governo é forçado a manter os juros nas
alturas para atrair novos capitais que permitam o precário
funcionamento da economia. Ao mesmo tempo, ela ajuda a entender o
irracional processo de sucção do superávit primário. Este
arrocho fiscal é exigido pelos credores para dar tranqüilidade ao
deus-mercado e para atrair novos capitais externos. O resultado
deste modelo nefasto é conhecido pelos brasileiros: a economia fica
estagnada, o desemprego bate recorde, a renda despenca, o Estado tem
fragilizada a sua capacidade de investimentos na infra-estrutura e
nas áreas sociais.
Na
outra ponta, o dinheiro flui livremente para os ricos banqueiros. Só
no ano passado, o Brasil pagou R$ 145 bilhões apenas com juros.
Isto representa cinco vezes mais que os investimentos previstos na
Saúde (R$ 27 bilhões), oito vezes mais que em Educação (R$ 18
bilhões), 28 vezes mais que em Transporte (R$ 5 bilhões), 47 vezes
mais que em Segurança Pública (R$ 6 bilhões), 70 vezes mais que
em Ciência e Tecnologia (R$ 2 bilhões), 140 vezes mais que em
Reforma Agrária (R$ 1 bilhão) e 700 vezes mais que em Saneamento.
“Se as sociedades não têm meios para exercer a sua soberania
sobre os capitais externos, só lhes resta cativá-los eternamente,
oferecendo-lhes os rendimentos que eles exigirem”.
Estado
Refém
Esse
mecanismo, tão idolatrado pelos neoliberais, ainda tem outros
efeitos perversos. Faz com que o risco de abruptas crises cambiais
se torne permanente, já que a qualquer momento os investidores
podem deixar o país – e este perigo é instantâneo, on-line.
Esta ameaça reforça ainda mais o poder do capital financeiro, que
a usa como forma de chantagem. O Estado vira refém, sendo forçado
a fazer sempre mais concessões – reformas liberalizantes,
autonomia do BC, etc. Como analisa o deputado Sérgio Miranda (PCdoB/MG),
este poder descomunal só
prova que o controle de capitais “é uma pré-condição para se
debater a política econômica, pois não temos nenhum instrumento
para combater esta ditadura do capital financeiro”.
Esta
tirania ficou patente há pouco, quando o governo Lula anunciou a
retomada das contratações no setor público (congeladas desde
Collor de Mello), abriu negociações para reajustar os salários
dos servidores (também arrochados há anos) e prometeu subsídios
para a reforma agrária devido ao “abril vermelho”. Na ocasião,
as agências de risco (JP Morgan e Chase) elevaram as notas do
famigerado “risco Brasil”, numa típica chantagem, o que
derrubou as ações da Bovespa e aumentou o dólar. A própria mídia
burguesa não vacilou em interpretar estes relatórios como “puxões
de orelha” no governo Lula por ter “cedido demais”. Segundo o
economista Marcos Antonio Cintra essa chantagem evidenciou os malefícios
do tripé satânico.
“O
modelo macroeconômico, ancorado no superávit primário, na meta de
inflação e no câmbio flutuante, restringe o raio de manobra das
políticas domésticas. O relatório do JP Morgan simplesmente
explicitou essas vulnerabilidades, interna e externa, sabidas por
todos”, explica Cintra. Para ele, esta tensão tende a aumentar
nos próximos meses, o que pode comprometer de vez o programa de
mudança do governo Lula, afastar seus aliados históricos e
resultar numa fragorosa derrota eleitoral em outubro. “A ameaça
de fuga de capitais é permanente, uma espada sob a cabeça do
presidente do BC e do ministro da Fazenda. Uma operação de remessa
de recursos para o exterior, mediante a famosa conta CC-5, dura 15
minutos”.
Outro
efeito pernicioso do livre fluxo de capital, que só agora começa a
vir à tona no país, é o incentivo às atividades ilícitas.
Aproveitando-se da libertinagem financeira, da ausência de
regulamentação e controle, grande parte das atividades ilegais que
degradam o planeta, como a corrupção, o tráfico de drogas, armas,
e órgãos do corpo e o crime organizado, encontram o ambiente ideal
para a sua valorização e legalização. A cada dia que passa, a
CPI do Banestado, que apura as denúncias da evasão ilegal de bilhões
de dólares, descobre novos traficantes, contrabandistas e políticos
corruptos que utilizam os serviços “idôneos” dos bancos para a
lavagem de dinheiro sujo e para a remessa de fortunas aos paraísos
fiscais do exterior.
Só
através do sinistro expediente da Carta Circular número 5, a
famosa CC-5 do Banco Central que sofreu drástica adulteração no
governo FHC, bilhões sumiram do Brasil. “Pelas chamadas CC-5 em
geral, graças à liberalização, no período compreendido entre os
anos de 1996 e 2002, saíram do país 219,2 bilhões de reais, perto
de 80 bilhões de dólares... Em meados do ano passado, a polícia
parisiense deteve por várias horas o ex-prefeito Paulo Maluf e sua
esposa Sílvia em Paris, por conta de uma transferência de reais da
conta brasileira que se transformou em 1,7 milhão de euros no Credit
Agricole na capital francesa”.
Como
se observa, o mundo vive sob a ditadura das finanças. A fração
hegemônica do capital, a oligarquia financeira, manda e desmanda;
manipula governos; arruína as economias nacionais; legaliza operações
ilícitas. Enquanto as populações votam a cada quatro anos, as agências
de risco e as instituições mundiais do capital, como o FMI e o
Bird, “votam” a cada minuto, on-line. A movimentação
financeira é frenética, sem qualquer controle. Ainda em 1998,
estimava-se que o volume anual de transações chegava a US$ 380
trilhões de dólares, o equivalente a US$ 1,5 trilhão por dia.
Hoje, o mercado financeiro especula com U$ 2,6 trilhões ao dia;
enquanto isso, a humanidade é lançada diariamente na mais
deprimente barbárie.
Mentiras
do capital financeiro
Apesar
dos vários danos causados pelo livre fluxo de capitais, seus
apologistas tentam apresentá-lo como algo natural, que sempre
existiu. Alguns por ignorância, outros por medo e muitos por má-fé
alardeiam esta lorota como verdadeira. Mas a história e várias
experiências recentes desmentem esta manipulação. Na verdade, após
a II Guerra Mundial o que predominou no mundo foi a existência de
regras rígidas para a entrada e a saída de capitais. Este modelo,
ancorado na Conferência de Breton Woods, inclusive serviu para
alavancar os “30 anos gloriosos” de crescimento e estabilidade
financeira do capitalismo mundial.
Conforme
demonstra o economista João Machado, “o argumento de que a
liberdade dos movimentos de capitais promove maior bem-estar não
dispõe de fundamentação teórica coerente, nem de base empírica”.
Com base nos ensinamentos da história, ele enfatiza que esta
mistificação ideológica tem como “objetivo derrotar, e se possível
eliminar, as concepções keynesianas muito influentes até aos anos
70, e restaurar as condições da política econômica que vigoravam
no fim do século XIX e no início do século XX... Este movimento
anti-keynesiano pelo regresso histórico é o que costuma ser
chamado de neoliberalismo”.
“Eutanásia
dos rentistas”
Até
o início do século passado, o que prevalecia no mundo era o
liberalismo econômico. A preocupação central dos governos era a
de garantir plena liberdade do mercado, sem qualquer interferência
do Estado. O desemprego, por exemplo, era visto como algo voluntário,
associado à preguiça ou ao banditismo, não como efeito do
capitalismo. “Essa visão era parte da concepção geral liberal
de que os mercados se auto-regulam da melhor maneira; a oferta cria,
no global, sua própria demanda (Lei de Say), e o equilíbrio
atingido a partir do mercado garante maior satisfação social possível
(ótimo de Pareto)”, explica o autor.
Mas
a eclosão das graves crises cíclicas do capitalismo, a explosão
de conflitos e guerras e, em especial, o desenvolvimento da luta
operária – que tem como ponto alto a revolução socialista na
antiga Rússia – vão desalojar as teses liberais. A própria
burguesia, temerosa, é obrigada a procurar alternativas mais estáveis.
A publicação, em 1936, do livro Teoria Geral do Emprego, do
Juro e do Dinheiro, do economista inglês John Maynard Keynes,
terá influência teórica nesta mudança de rumo. Este
“reformador do capitalismo” advertirá a burguesia de que a
libertinagem do mercado colocava em perigo o seu sistema de exploração.
As
propostas de Lorde Keynes, da intervenção ativa do Estado na
economia, vão encontrar terreno fértil nos escombros da II Guerra
Mundial. Elas serão vitoriosas na Conferência de Breton Woods, em
julho de 1944, que cria o FMI. Os países signatários do acordo se
comprometem a promover controles dos fluxos de capitais para evitar
novos colapsos econômicos. Keynes inclusive prega a “eutanásia
dos rentistas”. Foi com base neste programa que os países
capitalistas centrais ergueram seus Estados de Bem-Estar Social (Welfare
State) e que as nações periféricas passaram pelas experiências
do nacional-desenvolvimentismo.
Se
os controles de capitais inexistiam antes desta fase, a partir daí
eles se generalizam pelo planeta. Os economistas Fernando Cardim e
João Sicsú provam que estes mecanismos duraram mais de três décadas.
“Mesmo países desenvolvidos, como na Europa Ocidental,
praticamente só vieram a eliminar as barreiras formais à circulação
de capitais nos anos 1990. Muitos bloqueios, na verdade, permanecem,
vários dos quais sob a forma de restrições regulatórias, mais do
que barreiras explícitas”.
Eles lembram que o próprio FMI não conseguiu remover do seu
estatuto o Artigo VI, que legítima a adoção de controles.
Revanche
Neoliberal
Mas
as idéias keynesianas começam a desmoronar com o agravamento da
crise estrutural do capitalismo, a partir dos anos 70. A primeira
experiência de libertinagem financeira foi implantada no Chile do
ditador Augusto Pinochet. Anos mais tarde, o fim do controle de
capitais virou moda nos EUA de Ronald Reagan e na Inglaterra de
Margareth Thatcher. No final da década de 80, com o nefasto
Consenso de Washington, é imposto a fórceps na maioria dos países.
A débâcle do bloco soviético torna dispensável o “capitalismo
do medo”, conforme síntese de Eric Hobsbawm, e dá alento à
revanche neoliberal da desregulamentação.
Nesta
vingança do mercado, o FMI passa a impor, de forma ostensiva, a
remoção de qualquer barreira ao capital. Já as agências de
risco, através de seus relatórios terroristas, fazem deslavada
chantagem contra os governos resistentes. A ofensiva neoliberal
difunde o mito de que “o dinheiro precisava de liberdade
para se multiplicar. Era preciso chamar de autoritárias, e em
seguida arrasar, todas as barreiras que a luta social havia construído
para se defender contra a selvageria do capital: as leis de defesa
do trabalho, o Estado de Bem-Estar Social, a proteção às empresas
públicas, o controle das transações financeiras”.
A
ditadura das finanças reina absoluta; a oligarquia financeira
torna-se a fração hegemônica da burguesia. Só que o mundo dá
voltas! Ao contrário do que havia prometido, o neoliberalismo não
gerou crescimento nem estabilidade. Além de sacrificar a
humanidade, ele não soluciona a crise estrutural do capitalismo. A
partir dos anos 70, o mundo registra taxas anuais declinantes de
crescimento do PIB; as enormes riquezas produzidas, impulsionadas
pela “revolução informacional”, são transferidas para a
oligarquia financeira; e, para enterrar de vez o dogma liberal, as
turbulências financeiras se expandem e ficam mais destrutivas!
Experiências
recentes
Diante
deste estrondoso fracasso, várias nações passaram a procurar
caminhos alternativos. Os chamados “países em desenvolvimento”
da Ásia, após o vendaval financeiro e cambial de 1997, tentaram
superar a sua vulnerabilidade externa. Através de diversos
mecanismos, muitos voltaram a adotar medidas para disciplinar a
entrada e a saída de capitais. No geral, eles hoje obtêm maior
sucesso econômico e maior estabilidade do que os que aplicam o
modelo neoliberal ou dos que se acomodam à “herança maldita”.
Num
outro estudo de fôlego, Fernando Cardim e João Sicsú relatam vários
casos de países que adotaram mecanismos de controle de fluxos. “A
crise asiática (97/98), seguida pela crise russa, pela brasileira e
por várias outras acabaram por fazer o movimento liberalizante
perder o fôlego, ainda que não o revertesse. A pressão pró-liberalização
cedeu lugar à preocupação com requisitos necessários para a
abertura financeira. O FMI passou a reconhecer que a manutenção de
certos controles poderia ser tolerada”.
Entre outras experiências, eles destacam o caso emblemático da Malásia,
que abalou a crença no livre fluxo de capital.
Em
setembro de 1998, diante do agravamento do colapso financeiro na Ásia,
o governo da Malásia impôs uma série de medidas de controle da saída
de capitais para defender sua moeda local - o ringgit.
“Quando foram adotadas as restrições, a comunidade financeira
internacional prognosticou o seu rotundo fracasso... Não só previu
seu goro como efetivamente agiu contra a Malásia. A despeito de
previsões frustradas e das ações adversas dos liberalizantes, os
controles foram muito bem sucedidos”, relatam. Barraram a fuga de
capitais e a queda de reservas; com isso, o governo baixou os juros
e estimulou crescimento econômico. “A recuperação malaia foi
impressionante”. O PIB cresceu 5,4% em 1999; 7,8% em 2000; e 7% em
2001.
Os
autores também citam a China, onde as transações de capitais
dependem de autorização do Estado; as operações financeiras com
o exterior, de entrada ou de saída, são examinadas em detalhe.
Outro exemplo é o do Índia, onde predomina o uso de restrições
de natureza quantitativa e administrativa às transações de
capitais. Mesmo em países “amigáveis do mercado” há restrições,
como no Chile, onde são obrigatórios depósitos quando da entrada
de capitais como forma de evitar a volatilidade. Diante destas
experiências, que refutam totalmente as mentiras do capital
financeiro, vale a indagação do jornalista Antonio Martins,
integrante da Attac (Ação pela Tributação das Transações
Financeiras em Apoio aos Cidadãos):
“China
e Índia, que nunca abandonaram o controle sobre os capitais, são
hoje sinônimos de crescimento econômico continuado. A proposta já
chegou à América do Sul. Adotada no ano passado na Venezuela, foi
um dos fatores que permitiu o início da recuperação econômica.
Fortalecido, o Estado foi capaz de autorizar, no final de abril, um
aumento de 30% no salário mínimo. Também a Argentina aderiu à idéia,
desde o início de 2003. Todas as análises sérias sobre a retomada
da sua produção (crescimento do PIB em torno de 7%) sustentam que
ela só foi possível porque o governo rechaçou as políticas do
FMI. O que pode impedir – a não ser uma visão abertamente dogmática
– que o Brasil recorra a este remédio de efeitos comprovados?”.
A
orgia financeira no Brasil
O
Brasil é hoje um país vulnerável, “pendurado na brocha”. Para
manter, aos trancos e barrancos, o frágil funcionamento da
economia, ele depende do ingresso anual de quase US$ 53 bilhões do
mercado externo. Essa situação de dependência, uma marca da história
nacional, chegou às raias do absurdo durante o triste reinado de
FHC. Apesar da conversa fiada sobre austeridade fiscal e da entrega
criminosa de boa parte do patrimônio público, via privatizações
espúrias, o seu governo tornou o país ainda mais capenga. Na hora
em que FHC reaparece das sombras, encabeçando uma hidrófoba oposição
neoliberal, vale repisar que o seu reinado transformou o país num
grande cassino. Ele escancarou de vez a orgia financeira no Brasil!
Em
dezembro de 1994, pouco antes da sua primeira posse, a dívida líquida
do setor público (que inclui as dívidas interna e externa, menos
reservas internacionais) era de R$ 153,2 bilhões, o equivalente a
28% de todas as riquezas produzidas no país. Já no final do seu
segundo mandato, em dezembro de 2002, havia saltado para R$ 881,1
bilhões – 55,5% do PIB. O grosso do esforço produtivo nacional,
que deveria servir para alavancar os investimentos públicos e gerar
milhões de empregos, foi desviado para o pagamento dos juros e
amortizações destas ilegítimas dívidas. A “livre” circulação
de capitais, um mandamento sagrado do credo neoliberal, foi usada
para alimentar esta perversa especulação financeira.
Como
ironiza Paulo Nogueira Batista Jr., o sinistro governo FHC deveria
“figurar nos estudos de caso de experiências econômicas
extravagantes. A carga tributária bruta aumentou cerca de 10 pontos
percentuais do PIB em apenas oito anos. Ao mesmo tempo, foram
privatizadas muitas empresas públicas, algumas das melhores e mais
importantes... Já a combinação desastrosa de sobrevalorização
cambial e abertura imprudente da economia, nos campos comercial e
financeiro, gerou desequilíbrios enormes na balança de pagamentos
e resultou em rápido crescimento das obrigações internacionais do
Brasil. A economia ficou à mercê das turbulências financeiras
mundiais, tornando-se vítima preferencial de choques externos”.
Canto
da sereia
É
bem verdade que a burguesia tupiniquim nunca foi muito afeita à
defesa da soberania nacional. Desde longa data, é crônico o seu
servilismo ao capital estrangeiro – num primeiro momento, ao
imperialismo inglês; e, na seqüência, ao império estadunidense.
É certo também que sempre existiram contradições em seu
interior, com frações burguesas defendo certa autonomia nacional e
outras, a total subserviência. Essa disputa marcou toda a trajetória
republicana. Foi o pano de fundo da chamada “revolução de 30”,
do suicídio de Getúlio Vargas, do golpe militar 64, entre outros
episódios dramáticos da história brasileira.
Uma
mudança de qualidade, porém, ocorreu na fase recente. A parcela
majoritária da grande burguesia nacional, seduzida pelo canto da
sereia da “globalização neoliberal”, resolveu apostar as
fichas no cassino financeiro mundial. Desde a crise econômica de
1982, um setor dolarizou parte das suas riquezas. Hoje, a maior
parte tem recursos em dólares, geridos por “bancos” nos paraísos
fiscais. Mas é a partir dos anos 90 que esta tendência se
consolida. Primeiro com Collor de Mello que, em setembro de 1992,
pouco antes do impeachment, liberou o fluxo de capitais; na
seqüência, num grau mais radicalizado, com o tucano FHC.
Como
demonstra um acalentado estudo, dos economistas Marcos Antonio
Cintra e Daniela Prates, “foi a esse padrão de fluxos de capitais
voláteis, predominante nos mercados financeiros globalizados,
sujeito às turbulências no mercado de ativos e de câmbio, que as
elites dirigentes engataram a economia brasileira. Desde o início,
o governo de FHC tomou o partido da internacionalização e apostou
que a oportunidade histórica do país estaria na adesão à onda de
reformas liberalizantes... Em 2000, na gestão do presidente do BC,
Armínio Fraga, o processo de liberalização e desregulamentação
foi praticamente finalizado”.
Para
eles, o Plano Real foi decisivo neste processo de financeirização.
Não foi uma invenção original de FHC, mas sim produto dos
mercados globalizados. Os capitais fluíram do exterior porque “o
país oferecia altas taxas de juros e a possibilidade de se adquirir
ativos subvalorizados, sobretudo com a perspectiva de ampliação da
privatização”. Para garantir segurança ao capital externo, FHC
impôs profundas mudanças institucionais, reduzindo as barreiras até
então existentes às aplicações estrangeiras no mercado doméstico
e facilitando a evasão de capitais. Eles citam, por exemplo, a
resolução nº 2.770 do Conselho Monetário Nacional, de agosto de
2000, revogando 237 normas que disciplinavam operações financeiras
no exterior.
Sacanagem
cambial
Este
processo desenfreado de libertinagem financeira contou com a inestimável
ajuda do Banco Central, como comprova minuciosa reportagem do
jornalista Raimundo Pereira.
Com base nas acusações das procuradoras da República Valquíria
Nunes e Raquel Branquinho, ele mostra que, através de circulares,
cartas e até de uma cartilha, o BC revogou regras de controle
cambial fixadas pela lei 4.131, baixada em 1962. Tamanha ilegalidade
motivou um processo, que corre na Justiça Federal desde dezembro
passado, solicitando a condenação por crime de improbidade
administrativa dos ex-presidentes do BC, Gustavo Loyola e Gustavo
Franco, e de mais 13 altos dirigentes do sistema financeiro.
Segundo
a denúncia, em novembro de 1993, quando FHC ainda era ministro da
Fazenda, o Banco Central publicou uma cartilha intitulada “O
regime cambial brasileiro: evolução recente e perspectivas”. No
ponto de número dez, o BC dava dicas de como fugir das restrições
existentes à evasão de divisa. “Se um agente quiser fazer uma
remessa para o exterior, basta que deposite cruzeiros reais na conta
de uma instituição financeira não-residente e deixe que ela faça
o resto”. A orientação do Banco Central foi tão escancarada que
o próprio mercado passou a se referir a este documento como Cartilha
da Sacanagem Cambial.
Além
disso, esta orgia financeira pode ainda se aproveitar da falta de
mecanismos eficazes de fiscalização do Estado. Pesquisa do
analista Gerson Luiz Romantini mostra que dos 18.610 comunicados de
operações financeiras suspeitas, apenas 666 foram convertidos em
inquéritos pela equipe de apenas 18 funcionários do Conselho de
Controle de Atividades Financeiras do Banco Central. Destes, apenas
149 pessoas foram indiciadas; mas ninguém foi preso até hoje e
nenhum centavo da evasão foi recuperado. Desta forma, a liberalização
patrocinada pelo governo FHC inclusive estimulou a lavagem de
dinheiro e a sonegação.
Impasses
atuais
Lula
foi eleito exatamente para alterar este quadro tão deplorável.
Superando os preconceitos arraigados, a sabotagem econômica e o
terrorismo político, a sociedade brasileira explicitou que desejava
profundas mudanças no Brasil. A estagnação econômica, geradora
de desemprego, queda de renda e ausência de políticas sociais, foi
repudiada nas urnas. O neoliberalismo, como expressão da hegemonia
do capital financeiro, foi derrotado eleitoralmente. Até uma
parcela da burguesia, agora em atrito com a oligarquia rentista,
aderiu à candidatura de esquerda do operário Luís Inácio Lula da
Silva.
Diante
da perversa herança do neoliberalismo, poucos acreditavam que seria
possível desmontar de uma única vez, de forma abrupta, esta
destrutiva bomba do capital financeiro. Mas era preciso sinalizar
para as mudanças, iniciar a transição na política macroeconômica.
Até agora, porém, o tripé neoliberal se mantém intacto e,
inclusive, foi agravado: a taxa de juro real prossegue nas alturas;
o superávit fiscal foi elevado; e o livre fluxo de capitais
continua a gerar calafrio na sociedade e alegria aos banqueiros. Nem
mesmo a desregulamentação financeira de FHC foi revertida. Prova
disso é a circular nº 3.187 do BC, de abril de 2003, que permite
remessas de capital ao exterior através da sinuosa Transferência
Eletrônica Disponível.
A
área econômica do governo Lula, encabeçada por Antonio Palocci e
lotada de serviçais da era FHC, faz de tudo para agradar o
“deus-mercado”. Por um lado, diz que não há alternativas; por
outro, aposta numa incerta liquidez internacional. Com isso,
envereda cada vez mais na arapuca neoliberal. Mas, como alerta Paulo
Nogueira Batista Jr., “este modelo possuí mecanismos de
autopreservação, pois cria dependências que tornam arriscados os
‘desvios de conduta’ na área econômico-financeira. Acontece
que as políticas que os mercados financeiros e seus porta-vozes
estigmatizam como ‘desvios de conduta’ são justamente aquelas
que poderiam conduzir a uma retomada do desenvolvimento e à geração
de empregos”.
Como
recorda o professor Fernando Cardim de Carvalho, ainda na fase
eleitoral, o então candidato Lula foi forçado a assumir
compromissos com o mercado. Na véspera do pleito, a taxa de cambio
atingiu R$ 3,98 por US$ 1,00, a inflação disparou e o chamado
“risco Brasil” bateu recordes. FHC alimentou o clima de
alarmismo para impor essa blindagem. Mas esta rendição, que
poderia ser transitória, acabou virando permanente com a ilusão de
se conquistar a “credibilidade” do mercado financeiro. Para ele,
o governo Lula faz um jogo de alto risco ao colocar todas as fichas
na conquista desta credibilidade. Os “jogadores do mercado” não
são ingênuos; sua confiança exige medidas concretas e,
principalmente, irreversíveis.
“Enquanto
a irreversibilidade das escolhas político-econômicas de Lula não
for estabelecida, seja por uma autocrítica pública do presidente,
renegando suas idéias anteriores (e as do PT), seja pela implementação
de um conjunto amplo de reformas institucionais, como a concessão
da independência do Banco Central, que impeçam o governo de voltar
atrás em seus compromissos, a credibilidade será sempre
limitada... Com a liberdade concedida a capitais financeiros de
entrada e saída no país, a economia estará sempre no fio da
navalha... Com tal ameaça pairando sobre a economia, não é de se
esperar nenhum movimento sustentado de recuperação do crescimento
perdido há tantos anos”.
Para
ele, o governo Lula precisa urgentemente romper com este “círculo
de ferro”, adotando o controle do fluxo de capital. “O futuro não
está perdido nem o governo Lula está condenado ao fracasso. O dano
já causado pela infeliz decisão de prosseguir, e radicalizar, as
políticas de FHC é grande, mas ainda pode ser contido. A escolha
do governo é clara: mudar os seus caminhos enquanto é tempo ou fazê-lo
forçado pela crise econômica e política que resultará quando se
esgotar a paciência de sua base política”.
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