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Por VALERIO ARCARY
Doutor em história pela USP,
professor do CEFET/SP, membro dos conselhos editoriais da revistas
Outubro (IES), Crítica Marxista (Cemarx / Unicamp), Lutas Sociais
(Neils/PUC/SP), e do jornal Brasil de Fato
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Quem
disse que Lula não poderia ser um novo Walesa?
Depois
de trinta anos, na seqüência do terrível golpe de 11 de setembro
de 1973, em Santiago do Chile, a esquerda mundial olha de novo para
a América Latina. Lula estaria mais para Allende ou para Walesa? Os
contextos históricos pareciam muito diferentes. Todos chegaram ao
poder por eleições, e foram eleitos depois de uma longa experiência
política de lutas, que permitiram que o PS e o PC no Chile, o
Solidarnosc na Polônia e o PT no Brasil se consolidassem como forças
políticas com influência de massas, mas antes que uma situação
revolucionária estivesse aberta.
A
insurreição no Equador, em janeiro de 2000, já sinalizava uma
nova conjuntura. As jornadas de dezembro de 2001, em Buenos Aires,
fulminaram o governo De La Rua, e revelaram que os calendários
eleitorais eram insuficientes para conter o mal estar das classes
populares. Na Venezuela, o fracasso do golpe contra Chavez, dois
anos atrás, um desenlace inusitado, sugeria que o recurso ás
quarteladas, um padrão na política externa norte-americana nos
anos sessenta depois da vitória da revolução cubana, ameaçava
radicalizar a luta de classes, no lugar de estabilizar a dominação
no continente. E, depois, vieram as eleições no Brasil e Equador.
Finalmente, em Outubro de 2003, a greve geral na Bolívia confirmou
que estamos em um novo contexto histórico. Derrubando o governo
Losada, menos de um ano depois de eleito, e abrindo uma situação
revolucionária, a greve geral convocada pela COB (Central Obrera
Boliviana) trazia o proletariado de volta a uma posição
protagonista.
O
governo Lula despertou imensa expectativa, dentro e fora do Brasil.
Afinal, era um exemplo de uma alternância eleitoral bem sucedida.
Parecia uma alternativa à crise econômica e social provocada pelos
governos alinhados com a política inspirada pelo FMI e defendida
por Washington, como os de FHC, Menem, Fujimori. Passados mais de um
ano da posse, a política do governo do PT se revela em sua
plenitude: a preservação de um ajuste fiscal duríssimo, associado
a um plano de políticas sociais compensatórias – o Fome Zero –
inspirado no modelo das políticas sociais focadas.
A
questão de fundo que, entretanto, permanece colocada, é saber se,
com esta estratégia, é possível conter a tendência à precipitação
de situações revolucionárias, que já levou à derrubada de
tantos governos. A perspectiva de baixo crescimento poderá ser
compensada pela distribuição de um pouco de dinheiro e cestas básicas
para as famílias mais pobres – os chamados excluídos – ou,
pelo contrário, não conseguirá bloquear a radicalização política
de massas?
O
reformismo do Welfare (Bem-Estar Social) do pós-guerra deixou de
ser, ainda nos anos 80, a política dominante nos círculos
burgueses. Ruiu com Mitterand, que substituiu as políticas sociais
universais de extensão de direitos – e do que se aceitava chamar
de salário indireto - a partir do segundo mandato, quando os
economistas e sociólogos da escola da regulação de Paris foram
para o poder, e depois passaram a exercer grande influência no
Vaticano e FMI, com Michel Canmdessus, e sua relação com o polonês
no poder em Roma.
No
seu lugar surgiu um novo programa de políticas sociais focadas, as
chamadas rendas mínimas, que beneficiam alguns. Esse é o laboratório
que Washington está fazendo no Brasil, depois de ter apoiado os
planos de Duhalde e de Kirshner, que procuram controlar a situação
argentina com distribuição de cestas básicas e renda mínima, que
já atingem, talvez, até 20% da população economicamente ativa.
Lula e o PT bem que gostariam, como todos os reformistas, que o
reformismo com reformas - obras públicas, elevação do salário mínimo,
reforma agrária, acesso a créditos de longo prazo para a compra da
casa própria, ampliação da escolaridade básica, etc... – fosse
possível, mas vivemos em uma época histórica em que é preciso
disposição revolucionária para lutar por reformas.
Um
novo marco histórico: estagnação e recolonização
Há
mais de vinte anos, as sociedades latino-americanas entraram, de
conjunto, em uma longa estagnação – crescimento muito baixo,
inferior a 3% ao ano, na média das décadas de oitenta e noventa -
com poucas variações do produto nacional, mesmo quando a economia
dos EUA se recuperava, como entre 1992 e 2000. A mobilidade social
intensa do período histórico anterior se interrompeu. Pela
primeira vez, uma geração de jovens descobriu que não podia
aspirar a uma vida melhor que a da geração de seus pais. As tensões
sociais que o processo de urbanização e industrialização do pós-guerra
conseguiu absorver, porque permitia a esperança de uma ascensão
individual, deixou de ser possível. Esse fator estrutural explica a
instabilidade da dominação capitalista na região.
Entretanto,
ainda que estejamos diante de uma vaga de mobilizações revolucionárias
continental, nenhuma ruptura aconteceu. Nem uma ruptura na inserção
dos países latino-americanos no Sistema Mundial de Estados, nem uma
ruptura social. O mapa político latino-americano, contudo, já
mudou substancialmente, e ainda vai mudar mais. Chavez, Lula,
Gutierrez e Kirchner e, em futuro próximo – possivelmente - a
Frente Ampla no Uruguai e o MAS de Evo Morales na Bolívia, são
governos que se explicam, mesmo considerando as evidentes diferenças,
pelo esgotamento dos ajustes neoliberais promovidos no continente
nos anos noventa.
O
marxismo analisa todos os fenômenos da vida político-social – a
começar pela caracterização dos governos - a partir de um ângulo
de classe. Esse é um procedimento incontornável. Todas as novas
forças políticas que chegaram ao poder, por diferentes vias e em
contextos diversos, constituíram governos do capital. Mas, tão
importante quanto, há que considerar que são governos burgueses anômalos,
porque não são os homens do capital que estão no poder.
Diante
deles, parecem desenhar-se quatro cenários que denominaremos, de
via chilena, via russa, via inglesa e via argentina. As metáforas
históricas são sempre perigosas porque, como sabemos, a história
não se repete, e os esquemas são somente um esforço de procurar
constantes e padrões, mas não deixam de ser um instrumento de análise.
A
agonia de governos reformistas sem reformas
Na
primeira via, a “chilena”, por analogia com Allende em 1973, a
Frente Popular abriu as portas para a contra-revolução. O Governo
não mobiliza as massas no sentido de uma ruptura, mas não atende,
também, às pressões do imperialismo, demonstrando-se incapaz de
conter a pressão de suas bases sociais, e é derrubado por um golpe
fascista. É uma hipótese descartada, porque o governo do PT não só
atende a pressão dos banqueiros, como se prepara para enviar,
vergonhosamente, tropas para o Haiti, legitimando a invasão
franco-americana.
Na
segunda, a “russa”, por analogia com Kerensky e o intervalo
entre fevereiro e outubro de 1917, o governo igualmente fracassa,
mas as forças da revolução se antecipam às da contra-revolução.
Esse cenário parece implausível, seja pela situação objetiva da
luta de classes, que ainda não evoluiu para uma situação
revolucionária, seja, também, pela fragilidade das forças na
esquerda brasileira com um projeto anticapitalista.
Na
terceira, a inglesa, por analogia com os governos do Labour depois
de 1945, o governo de colaboração de classes encontra uma situação
econômica internacional favorável de crescimento que permite
negociar concessões, e articula com sucesso um pacto social e político
que estabiliza a crise que o levou a vencer as eleições, e permite
a alternância eleitoral sem traumas. Esse plano corresponde aos
sonhos “político-eróticos” de Lula, Palocci e Zé Dirceu, mas
com o Fome Zero, no lugar do que na Inglaterra, e na Suécia, foram
o pleno emprego, a elevação do salário-médio, o aumento da
escolaridade e a rede de proteção social. Parece improvável um
futuro animador para um reformismo sem reformas em um país da
periferia.
Na
última e mais plausível, a Argentina, por analogia com a eleição
de De La Rua em 2000, os novos Governos aplicam, na essência, o
mesmo ajuste econômico e político que o FMI exigiu de todos os
governos anteriores, e tentam conter as pressões sociais que os
elegeram com palavras e Fome Zero. Instala-se uma crise crônica,
mas sem uma saída política clara. O desgaste do PT diante de suas
bases sociais históricas parece, portanto, inexorável, e enfrentará
resistência nas ruas, e dificuldades nas urnas. Não foi diferente
na África do Sul, depois da vitória do CNA dirigido por Mandela, e
não deveríamos esquecer a experiência pioneira de Walesa e o
Solidarnosc na Polônia.
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