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Por RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Professor da PUC-Minas e UNINCOR. Coordenador do Instituto Cultiva
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Contradições
na Implementação das Ações de Participação
1.
Uma experiência inacabada
As
políticas brasileira de participação popular à gestão pública
tiveram início nos anos 80. Inicialmente, muitas dessas experiências
foram acolhidas com alto grau de desconfiança por parte de
movimentos sociais e lideranças populares, por perceberem
tentativas de cooptação política por parte de governantes. Neste
momento a cultura política hegemônica nos mais diversos movimentos
sociais que se estruturaram à partir do processo de liberalização
ou redemocratização política por que passou o país, era
declaradamente anti-institucionalista. Ocorre que no final da década
de 80 e início dos 90, muitas lideranças e assessores desses
movimentos sociais começam a se eleger prefeitos. O discurso e a
expectativa gerados por esta novidade política sugeriam a criação
de “áreas ou zonas de gestão popular”. Nestas localidades, o
compromisso tácito dos governantes seria a prioridade em
investimentos sociais, em especial, em áreas mais carentes, a
transparência, a valorização dos mecanismos de apresentação de
demandas coletivas e a participação direta da população na
definição de ações públicas.
Nessas
“zonas de gestão popular” a profusão de iniciativas de
natureza e radicalidade distintas e que eram denominadas pela mesma
chancela de “gestão participativa” foi imensa: plenárias ou
comunicações de prestação de contas, câmaras temáticas de
negociação de políticas setoriais, plenárias de consultas,
comissões paritárias, conselhos e orçamento participativo. O que
havia em comum era a descentralização das ações governamentais e
o alargamento do processo decisório (ao menos, em relação à
consulta) de governo, envolvendo amplos segmentos sociais.
Duas
décadas depois deste início, é possível sugerir que as duas
iniciativas de participação popular mais legitimadas técnica e
politicamente foram os conselhos setoriais e o orçamento
participativo.
Em
relação ao orçamento participativo, os diversos estudos sobre o
tema
sugerem que o início desta experiência ocorreu durante a primeira
gestão petista em Porto Alegre, em 1989. A partir de então, a
experiência é acolhida pelo Diretório Nacional do PT e se espraia
por diversos municípios. Em 1992,
cerca
de uma dezena de outros municípios, administrados pelo PT, tentaram
iniciar o mesmo processo e, na gestão seguinte, de 1993/1996, em
torno de trinta municípios realizaram a experiência. A partir
desta última gestão, outros partidos resolvem também enfrentar o
desafio e iniciam práticas semelhantes. As práticas que se
autodenominaram Orçamento Participativo na gestão 1997/2000,
envolveram 140 municípios no Brasil governados por forças políticas
que podem ser chamadas de progressistas e se constituíram em espaços
de participação de grande diversidade e pluralidade de atores da
sociedade civil e de cidadãos.
O
levantamento realizado, em 2000, pelo Fórum Nacional de Participação
Popular, revelou que 50% dos municípios que praticavam o orçamento
participativo (OP) eram dirigidos pelo PT, seguidos pelos municípios
dirigidos pelo PSDB (13%), PSB (11%) e PMDB (9%).
Ocorre
que nem mesmo no Partido dos Trabalhadores o OP é uma unanimidade,
nem mesmo é implementado em todos municípios administrados pelo
partido.
No
caso dos conselhos setoriais, a experiência é mais difundida, em
especial, porque é determinada em lei federal (no caso da saúde,
educação, assistência social, criança & adolescente e
emprego). As estruturas organizativas, grau de autonomia e deliberação,
além de sua própria composição, são distintas entre si.
Novamente, não existe consenso em relação ao seu papel e
estrutura ao longo do país, nem mesmo no interior das administrações
cujos partidos majoritários inscreveram essas estruturas de gestão
em seus programas. Os conselhos ou ficam subordinados à
determinadas secretarias ou agregam-se ao redor de uma única
secretaria ou coordenadoria (neste caso, na maioria das vezes, a
Secretaria de Governo e/ou Coordenadoria de Participação Popular
assumem a função coordenadora). Não há lugar determinado no
organograma e fluxograma das gestões municipais e é comum que
agenda das instâncias de governo subordinem as agendas dos
conselhos. Os conselhos, enquanto estruturas híbridas (são instâncias
de Estado, e não de governo, e, por este motivo, são compostos por
representação governamental, sociedade civil e, em alguns casos,
usuários e concessionárias) sugerem uma estrutura distinta da
organização burocrática, segmentada e especializada, para a
tomada de decisões. Mas, desde sua institucionalização, na
Constituição de 1988, não ocorreu nenhum avanço político que
caminhasse na direção de uma reforma administrativa desta
natureza.
Este
preâmbulo indica contradições e movimentos erráticos desses
vinte anos de experiências de gestão participativa em nosso país.
Explicam, em parte, porque raramente tais experiências ganharam
maior abrangência, alimentando iniciativas regionais, estaduais ou
nacional. Limitaram-se à iniciativas locais, com base territorial
muito precisa. Paradoxalmente, vários países da América Latina,
que não apresentam em sua história recente uma gama tão
diversificada de iniciativas em gestão participativa de âmbito
local, construíram recentemente estruturas de governança social
macroregionais e nacionais. Este é o caso do México. Também
estaria neste rol a experiência colombiana da Red de Solidariedad.
Os conselhos setoriais e o OP não chegaram a se tornar um substrato
potente para expandir seus princípios para entes superiores da do
Poder Executivo brasileiro.
Nos
próximos tópicos, procurarei fundamentar esta constatação a
partir de três contradições centrais na implementação das ações
públicas de participação popular no Brasil:
-
o
baixo impacto das ações participativas sobre a cultura política
nacional;
-
a
tensão, não superada, entre a concepção dos modelos de
participação em gestão pública adotados pelo Banco Mundial e
os modelos focados no conceito de governança social ou
democracia local;
-
a
incapacidade das ações participativas superarem a fase de
legitimação, impedindo-as de construírem uma nova
institucionalidade pública.
2.
Baixo impacto das ações participativas sobre a cultura política
nacional
Os
estudos mais recentes a respeito do impacto das ações
participativas sobre a cultura política nacional denotam um projeto
circunscrito à localidades muito específicas ou mesmo ao projeto
de agrupamentos políticos ainda mais restritos. Nem mesmo no
interior dos governos que implementam tais experiências existe
consenso a respeito da sua relevância política. Ao contrário, a lógica
clientelista em que as populações menos organizadas ou mais
desprovidas de recursos simbólicos e materiais utilizam para
negociar suas demandas imediatas, parece diminuir a crença de
muitos órgãos governamentais nas estratégias de cunho
participacionista. A necessidade de resultados imediatos para dar
resposta à disputa política crescente em regimes democráticos
induz, muitas vezes, os gestores do poder executivo a desconfiarem
dos mecanismos de participação direta na tomada de decisões e
condução das políticas de governo. Outro fator normalmente
ponderado por gestores públicos é o aumento de pressões políticas
– e até mesmo o papel organizador – que nascem nos fóruns de
participação popular institucionalizados, o que lhes parece
desagregador e particularmente grave em situações de crise fiscal
crônica. O realismo político que orienta tais observações
competem com a crença nos instrumentos de participação popular e
fecham um círculo vicioso da cultura política brasileira,
envolvendo até mesmo os governos mais à esquerda ou fortemente
comprometidos com organizações populares: a crise fiscal aumenta a
necessidade de montagem de pautas governamentais muito restritas o
que, por seu turno, privilegia demandas mais imediatas, dramáticas
ou politicamente mais legitimadas e de maior impacto social,
desarticulando e desacreditando os fóruns e estratégias de
participação institucionalizada pelos governos. Moto contínuo, as
demandas mais imediatas e dramáticas da sociedade ganham relevância
em detrimento de mecanismos de participação popular ou de
aprofundamento democrático.
Este
círculo vicioso foi recentemente confirmado em pesquisa coordenada
por Guillermo O’Donnell. Nesta pesquisa, financiada pelo PNUD e
intitulada “A Democracia na América Latina”, envolveu 18 países
latino-americanos e revelou traços fundantes da cultura política
de natureza clientelista. Para 56,3% dos entrevistados, o
desenvolvimento econômico é mais importante que a democracia e
54,7% disseram que apoiariam um governo autoritário se resolvesse
problemas econômicos. Os dados são ainda mais graves para o caso
brasileiro quando comparamos as motivações que levam a essas
convicções. Quando inquiridos sobre as orientações pessoais a
respeito da democracia, o Paraguai apresenta o maior índice
daqueles que se dizem “não democratas” (62,8%). Em seguida,
seguem outros cinco países com índices que gravitam entre 30% e
38% de “não democratas”: Equador, Colômbia, Argentina, Chile e
México.
O
Brasil figuraria num terceiro bloco, em que quase metade dos
entrevistados apresentaram uma posição “ambivalente” a
respeito da democracia, como é possível perceber na tabela
apresentada a seguir:
Tabela
01: Orientação dos brasileiros a respeito da democracia
|
País
|
Democratas
(%)
|
Ambivalentes
|
Não
democratas
|
|
Argentina
|
51,1
|
17,0
|
31,8
|
|
Bolívia
|
34,9
|
35,6
|
29,6
|
|
Brasil
|
30,6
|
42,4
|
27,0
|
|
Colômbia
|
16,9
|
46,4
|
36,7
|
|
Costa
Rica
|
53,8
|
36,6
|
9,5
|
|
Chile
|
40,7
|
27,7
|
31,6
|
|
Equador
|
23,1
|
38,6
|
38,3
|
|
El
Salvador
|
35,0
|
45,1
|
19,9
|
|
Guatemala
|
42,0
|
36,0
|
22,0
|
|
Honduras
|
46,2
|
37,1
|
16,7
|
|
México
|
54,4
|
15,2
|
30,4
|
|
Nicarágua
|
38,7
|
45,7
|
15,6
|
|
Panamá
|
48,2
|
29,2
|
22,5
|
|
Paraguai
|
22,0
|
15,2
|
62,8
|
|
Peru
|
54,8
|
23,1
|
22,1
|
|
República
Dominicana
|
48,3
|
33,7
|
18,0
|
|
Uruguai
|
71,3
|
14,1
|
14,6
|
|
Venezuela
|
54,5
|
29,5
|
15,9
|
Pelos
destaques apresentados na tabela acima, é possível perceber que um
país (Paraguai) apresenta uma cultura política com traços não
democráticos mais declarados e evidentes. Outros, como Argentina e
México, apresentam uma sociedade polarizada entre democratas e não
democratas, embora com predominância do primeiro bloco (acima de
50%, em contraposição a 30% de não democratas).
O
caso brasileiro é típica de uma cultura
política ambivalente. Mesmo no caso de El Salvador e Nicarágua,
outros dois países que acompanham o Brasil ao apresentarem maior índice
de respostas ambivalentes, possuem uma prevalência de democratas
sobre não democratas. Os brasileiros, contudo, apresentam um equilíbrio
entre democratas e não democratas.
Este
traço cultural, de natureza difusa, de baixa orientação para
consolidação de valores políticos, parece contribuir para que as
políticas participacionistas também configurem-se como
ambivalentes por diversos governos que as adotam. Em outras
palavras, a cultura política ambivalente sustentaria uma ação
governamental pragmática, cautelosa, mesmo nos governos engajados
na implementação de instrumentos institucionais de participação
à sua gestão. Daí poderia surgir uma hipótese explicativa das
ausência de definição do lugar dos conselhos setoriais ou mesmo
do baixo grau de envolvimento do conjunto das instâncias de governo
em várias experiências de OP no Brasil.
Uma
outra pesquisa, realizada pelo IBOPE, no final de 2003, encomendada
pelo Observatório da Educação e da Juventude (programa da
organização não-governamental Ação Educativa) revela as nuanças
desta cultura ambivalente. Embora 44% dos entrevistados acreditarem
que exercem poder político (contra 30% que não acreditam ter este
poder), 56% afirmaram não desejar participar das práticas capazes
de influenciar as políticas públicas. Quanto menor o grau de
instrução, maior o índice de abstenção em relação à sensação
de poder. Apenas 6% acreditam que o seu poder se exerce pela sua
participação direta, além do voto. Os principais motivos para a não
participação em práticas participacionistas foram: a) falta de
informação sobre as práticas (35%), falta de tempo (26%) e práticas
consideradas chatas (21%).
Com
efeito, a maioria dos entrevistados demonstraram desconhecimento a
respeito dos mecanismos de participação popular ou democracia
participativa. Para a minoria informada, as práticas mais citadas
foram: conselhos de educação, audiências públicas e orçamento
participativo. Entre os mais interessados em participar, destacam-se
os jovens, entre 16 e 24 anos de idade (54% demonstraram interesse
em participar de instrumentos participacionistas).
Outra
pesquisa, coordenada por Leonardo Avritzer, em que se analisa o
associativismo paulistano (setembro de 2003) revela a predominância
de práticas associativas originariamente religiosas na maior metrópole
brasileira, com presença marcante de demandas articuladas ao redor
da moradia, saúde e defesa dos trabalhadores. Seus membros são, em
sua maioria, mulheres de baixa renda e desfiliados sociais. A forma
de atuação é predominantemente informal (94% dos participantes são
voluntários). Dos paulistanos que participam com grande freqüência
de agrupamentos ou instituições, 48% afirmam que não participam
das principais decisões das mesmas. Quanto menor a escolaridade do
participante, menos ele se sente participante da tomada de decisões.
Quando questionados se a participação trouxe alguma mudança nas
suas práticas e valores cotidianos, a maioria das respostas indicou
a melhora da relação com o outro, a solidariedade e o amor ao próximo,
além de benefícios espirituais. O aprendizado político não
supera 5% das respostas (sendo mais destacado pelos homens com
ensino superior).
A
participação enquanto prática política, enfim, não se constitui
como valor na cultura nacional. E este parece ser o cerne das
contradições e impasses das práticas participacionistas no país.
Esta é uma das conclusões a que chega a pesquisa “Projeto Metrópoles,
Desigualdades Socioespaciais e Governança Urbana”, coordenada
pela PUC-Minas, IPARDES, UFRGS, PUC-SP, FASE, UFRJ e que envolveu
1.540 conselheiros de Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte,
Recife, Belém, São Paulo e Rio de Janeiro. A pesquisa revela que
as diferenças de grau e forma de incorporação dos atores sociais
em arenas de gestão participativa está diretamente relacionadas às
diferenças na proporção de pessoas habilitadas a participar do
controle das políticas sociais, bem como pelas diferenças entre as
culturas cívicas e a instituição e mobilização das esferas públicas.
Novamente,
assim como nas pesquisas relatadas anteriormente, a grande maioria
da população brasileira parece ainda distante dessas práticas.
Com efeito, o perfil dos representantes da sociedade civil que
participam dos conselhos municipais pesquisados sugere a predominância
de cidadãos com maior grau de instrução e renda:
-
51%
possuem educação universitária e 33% ensino médio (Belo
Horizonte apresenta indicadores próximos dos do nordeste: 43%
com ensino universitário, contra 60% no RJ e SP);
-
65%
recebem rendimentos superiores a 5 salários mínimos e 38%
acima de 10 salários mínimos (em BH, 58% recebem mais de 5 salários
mínimos, contra 86% em SP e 66% no RJ);
-
56%
possuem alto engajamento sociopolítico (associado ou filiado a
associação ou organização social), sendo que BH está abaixo
da média (47%), somente acima da situação de Recife (42%);
-
60%
participam de reuniões partidárias ( BH está acima do índice
do sudeste, com 52%, sendo o segundo maior índice entre as
capitais).
As
práticas participacionistas em nosso país não conseguiram, até o
momento, se espraiar pelo território nacional e nem mesmo
enraizar-se na cultura política nacional. Nem mesmo nas localidades
onde elas foram implementadas por governos locais parece ocorrer uma
mudança significativa na cultura política local. O mesmo pode se
dizer sobre as convicções e práticas de todos órgãos de direção
e gerenciamento das políticas públicas nas localidades onde esses
mecanismos participacionistas foram implementados.
Fruto
desta descontinuidade ou insuficiência no convencimento político,
convivemos, no momento, com conceitos e objetivos distintos que estão
sob o mesmo teto discursivo das práticas participacionistas. Muitas
dessas práticas podem ser consideradas híbridas, porque incorporam
concepção que, em alguns casos, são conflitantes. Vejamos duas
das principais orientações teóricas e políticas que se
disseminaram ao longo do território nacional nos últimos vinte
anos.
3.
Paradoxos e
Paradigmas da Participação: competitividade urbana, sistemas de
parceria ou governança social?
São
várias as concepções que embasam as políticas de participação
popular institucionalizadas no interior dos governos. No interior do
gradiente de concepções, duas proposições polarizam entre si,
por onde gravitam as demais. Estas duas concepções de gestão
participativa, por sua vez, nem sempre são compreendido como
distintos pelos órgãos promotores e movimentos sociais que
sustentam as políticas de cunho participacionista. Assim, esta seção
procura distinguir os objetivos e metodologias que constituem a essência
dessas duas orientações.
Comecemos
pela proposição propagada pelo Banco
Mundial ao longo dos anos 90 e que constituiu a cartilha do good governance. O Programa Parcerias para Redução da Pobreza
(1996) do Banco Mundial/PNUD/Interamerican Foundation apresenta-se
como a mais acabada ilustração deste paradigma, e sustenta-se na
crítica ao desenvolvimento centrado e promovido pelo Estado, em
especial, a partir da escalada da crise fiscal que se inicia nos
anos 80.
A
alternativa preferencial estaria assentada nas parcerias entre
setores públicos e privados, em especial, no que diz respeito ao
plano local, em virtude dos municípios encontrarem maiores limitações
financeiras. Daí a proposta de descentralização administrativa
das políticas sociais, acompanhada da adoção de parcerias público-privado. Esta proposição
(descentralização administrativa, diminuição da burocracia pública
e parcerias público-privado) passa a ser incluída como “bom
governo” nos textos internacionais. Variantes desta proposição,
como a do “modelo Barcelona” reforçam o caráter empresarial do
planejamento e desenvolvimento dos municípios, delimitando ou
desconhecendo as relações de poder e os conflitos sociais que
estruturam a vida urbana.
Uma
segunda proposição, distinta da solução do Banco Mundial, é a
que poderíamos denominar de Governança
Democrática.
Trata-se da tentativa de radicalização dos mecanismos e
instrumentos de democracia local. São padrões de interação entre
governos locais e atores sociais que diagnosticam, definem
diretrizes e coordenam ações públicas, a partir de fóruns híbridos,
instalados na estrutura de Estado. São estruturas deliberativas e
que superam a velha separação da teoria política moderna entre
Estado e Sociedade Civil, na medida em que à sociedade civil é
garantido assento no processo decisório de elaboração e condução
de políticas públicas, redefinindo o que até então se definia
como espaço de negociação entre governo e representações
sociais. Não se trata, portanto, de parcerias, mas de novas
estruturas de gestão instaladas no interior do Estado.
Em
termos práticos, os conselhos setoriais de gestão garantidos na
Constituição Federal de 1988 e em leis federais deram visibilidade
a esta proposição. A adoção de estruturas de gestão
descentralizadas (como é o caso de subprefeituras criadas em
diversos centros metropolitanos), também estariam filiadas à esta
intenção. Na cidade de São Paulo, a proposta de criação das
subprefeituras articulou a descentralização administrativa com a
criação de instâncias de participação territorial da população.
Com efeito, a Lei Orgânica do Município, na seção VIII (artigos
54 e 55), sugere a criação de Conselho de Representantes dos
territórios estabelecidos para jurisdição das subprefeituras:
Art. 54 – A cada área administrativa do
Município, a ser definida em lei corresponderá um Conselho de
Representantes, cujos membros serão eleitos na forma estabelecida
na referida legislação.
Art. 55 – Aos Conselhos de Representantes
compete, além do estabelecido em lei, as seguintes atribuições:
I – participar, em nível local, do
processo de Planejamento Municipal e em especial da elaboração das
propostas de diretrizes orçamentárias e do orçamento municipal
bem como do Plano Diretor e das respectivas revisões;
II – participar, em nível local, da
fiscalização da execução do orçamento e dos demais atos da
administração municipal;
III – encaminhar representações ao
Executivo e à Câmara Municipal, a respeito de questões
relacionadas com o interesse da população local.
Outro
tema que aparece como elemento fundante da Governaça Social é a
intersetorialidade. Trata-se da adoção de uma estrutura coerente
com a descentralização administrativa e valorização da cultura e
identidade territoriais. Se a base de elaboração de políticas públicas
passa a ser o território, as diversas instâncias de governo
necessitam produzir políticas intersetoriais, de natureza
interdisciplinar ou, na prática, perpetuam o foco na própria
estrutura gerencial e nas ações fragmentadas de cada secretaria.
No Brasil, algumas iniciativas de reforma administrativa, como as
realizadas em Minas Gerais (mais especificamente, em Belo Horizonte
e Juiz de Fora), procuraram criar uma estrutura gerencial superior
de natureza intersetorial (como no caso da criação de Secretaria
de Políticas Sociais). Contudo, nem sempre tais iniciativas foram
acompanhadas da criação de estruturas de gestão participativa,
também com a mesma natureza intersetorial.
Assim,
as inúmeras iniciativas que compõem este paradigma de gestão
participacionista criaram mecanismos parciais ou incompletos, até o
momento.
As
experiências de governança social demandam um novo perfil de
gestor público, indicando novas competências, tanto para lideranças
sociais, quanto para gestores estatais. Este parece ser uma característica
nem sempre observada. Os novos atributos de gestão poderiam ser
assim listados:
-
Capacidade
de gerir e manipular informações. Sem informação técnica, não
se decide, nem se elabora, mas apenas se opina. A capacidade de
decidir em ações públicas está diretamente relacionada às
informações que instruem a definição de prioridade ou
processos seletivos de demandas;
-
Capacidade
de Elaboração de ações e políticas públicas. A mera
apresentação de demandas não garante sua conquista ou superação
de realidades marcadas pela carência (que, por sua vez,
restringem a liberdade política e social das populações
envolvidas nesta condição). A elaboração de ações públicas
exige um conhecimento técnico que perpassa o entendimento da
execução da peça orçamentária, os instrumentos e mecanismos
de controle de sua execução, a utilização correta dos
recursos materiais e simbólicos para sua execução, a
compreensão dos escaninhos burocráticos e políticos que
objetivam as ações públicas, a metodologia e cronograma de
execução;
-
Capacidade
de Monitoramento e Avaliação de Resultados;
-
Capacidade
de articulação política. A articulação política no
interior das instâncias de governo (incluindo a representação
legislativa) é tão significativa para que as políticas públicas
definidas sejam realizadas, quanto a capacidade de representação
e articulação das lideranças sociais instaladas nas instâncias
de governança social com sua base social. É comum a agenda de
governo envolver e subordinar a agenda das instâncias híbridas
de gestão participativa o que leva, invariavelmente, à perda
de representatividade e comunicação entre lideranças sociais
e sua base de representação.
Um
inventário das práticas participacionistas em nosso país revela
movimentos erráticos ou até mesmo contraditórios (ou
incompletos). Intenções políticas e estratégias distintas
parecem criar um amálgama conceitual, confundindo lideranças
sociais e instalando competição entre estruturas de gestão
conflitantes.
Tendo
como referência o paradigma da Governança Social descrito acima,
apresentamos na próxima seção deste ensaio uma indicação do que
poderia ser compreendido como uma tipologia das fases de sua
implantação. Como toda tipologia, a sugestão apresentada não se
apresenta como um roteiro a ser seguido em termos práticos, mas
apenas um guia de interpretação do encadeamento de ações e
objetivos para instalação de sistemas de governança social.
Trata-se, enfim, de um roteiro teórico, abstrato, que objetiva
situar uma metodologia de desenvolvimento de instâncias
participacionistas cuja intenção é construir a institucionalidade
pública que efetive o empoderamento social.
4. Em busca da construção de uma nova
perspectiva
A
tipologia sugerida apoia-se em três etapas de implantação: a)
fase de legitimação; b) fase de efetividade; c) fase de
institucionalização da nova cultura política de empoderamento
social. Vejamos de perto cada uma dessas etapas:
Fase
de Legitimação: Trata-se
de uma fase inicial que pressupõe a legitimação da dinâmica de
gestão participativa como processo decisório de governo e como locus de
apresentação de demandas sociais e deliberação
participativa das ações públicas. Assim, nessa etapa
procura-se a legitimação no
interior do governo, o reconhecimento do governo e a incorporação
dos processos de participação na dinâmica gerencial das
secretarias e instâncias da gestão municipal, assim como se busca
a legitimação externa ou
social, revelada pela capacidade de mobilização social e
representatividade territorial dos delegados e representantes
(conselheiros, entre outros) .
Em
princípio, essa fase exige grande capacidade de convencimento e
mobilização do órgão dirigente ou coordenador do instrumento ou
mecanismo de gestão participativa, correndo-se o risco de perda de
unidade política, em virtude da cristalização de práticas
voluntaristas.
Fase
de Efetividade: Consolidada
a legitimação interna e externa, provocando o início do
envolvimento político das instâncias de governo na dinâmica
participacionista e o enraizamento desse sistema decisório e
participativo na malha territorial, surgem novos objetivos visando
à consolidação do processo de descentralização administrativa,
aumento da participação das comunidades no processo de gestão e
propiciando a discussão do desenvolvimento do território em sua
totalidade.
É
possível destacar três objetivos que definem essa etapa de
efetividade da dinâmica participacionista:
-
Construção
de programas e práticas intersetoriais, envolvendo as diversas
instâncias de governo na formulação de projetos de
desenvolvimento de territórios, cujo foco não é mais a própria
lógica da área ou secretaria, mas a demanda e estratégias
comunitárias ou territoriais;
-
Criação
de um sistema de comunicação social e de planejamento que
envolva e integre comunidades de diversos territórios e instâncias
governamentais;
-
Criação
de práticas de empoderamento social (estruturas estatais
participativas, descentralizadas, articuladas em rede, de
elaboração e gestão de políticas públicas), que se
articulam ao redor de um sistema de governança social.
Os
três objetivos criam as bases de uma nova institucionalidade pública
e têm como eixo a integração
da sociedade civil e governo municipal na construção de negociações
e gestão de políticas públicas.
Fase
de Institucionalização da nova cultura política: Criadas
as bases da nova institucionalidade pública, trata-se de consolidar
(ou internalizar) uma nova cultura política que sustente a sua
estabilidade. No caso, a dinâmica participacionista sustentaria a
superação da estrutura burocrática de organização estatal por
um outro sistema de gestão, de natureza híbrida (instâncias
estatais onde agentes de governo e sociedade civil estariam
assentados para gerenciar as políticas públicas). Essa nova
institucionalidade rompe com a separação moderna entre sociedade
civil e Estado. Faz parte dessa possibilidade a construção de
sistemas de monitoramento participativo, com base territorial e
articulados em rede, da execução das políticas públicas
decididas anteriormente. É nesse momento que é possível
vislumbrar a superação da cultura corporativa/localista (apoiada
nas demandas difusas de cada território por construção de
equipamentos e obras) para a elaboração estratégica de
desenvolvimento do município a partir da identificação das intenções
políticas de desenvolvimento de cada território.
É
possível, através da tipologia apresentada acima, identificar o
estágio em que nos encontramos na implementação das práticas
participacionistas. Esboçamos, quando muito, o ingresso na fase de
efetividade. É possível perceber, ainda, que as práticas
participacionistas em nosso país, mesmo não tendo superado a fase
de mera legitimação política, estão circunscritas quase que
exclusivamente ao âmbito local e municipal. Não chegaram a causar
impacto ou reflexo nas práticas de gestão pública de entes
superiores da política nacional. Nem mesmo os partidos que
instalaram e gerenciam sistemas de governança social em diversos
municípios brasileiros parecem adotá-los como compromissos políticos quando instalados nos governos
estaduais e federal. Este é o caso específico do PT e PSDB.
Em
outras palavras, as práticas participacionistas são, ainda,
marginais na cultura política nacional. Mesmo os partidos políticos
mais comprometidos historicamente com tais práticas parecem vacilar
na sua ousadia administrativa quando o controle político sobre
instrumentos de gerenciamento são mais frágeis e exigem maiores
acordos entre forças políticas. A cultura política ambivalente,
enfim, parece contribuir para a reorientação programática dos
partidos políticos mais inovadores do país, que buscam
legitimar-se a partir de um discurso e programas hegemonicamente
difusos. A ousadia política, nas instâncias superiores de gestão,
cede terreno à capacidade gerencial da crônica crise fiscal que
assola o país desde finais da década de 70 do século passado.
5.
Impasses e
Perspectivas
À
guisa de uma conclusão, é possível eleger três situações
emblemáticas do estágio de desenvolvimento e implementação de ações
de natureza participacionista em nosso país. São elas:
Não
superamos a fase de mobilização social, característica dos
movimentos sociais que lutaram pela democratização do país ao
longo dos anos 80 do século passado e que inscreveram várias
instrumentos de governança social na Constituição de 1988 e Leis
Orgânicas Municipais. A fase de mobilização parece não evoluir
para o que poderíamos denominar de fase de organização social. As
instâncias de operacionalização do OP e os conselhos setoriais
espalhados pelo país parecem sofrer sobremaneira com esta insuficiência.
Uma hipótese explicativa deste fenômeno é a ausência de uma
concepção mais acabada de gestão participativa, indicando uma
nova engenharia política que induza à reforma administrativa de
natureza participacionista, desmontando as estruturas burocráticas
de gestão;
No
caso das lideranças sociais e populares, maiores interessados na
instalação de sistemas de governança social, parece persistir ou
prevalecer os referenciais teórico-políticos de uma cultura
marxista-cristã (comunitarista, anti-institucionalista,
mobilizadora) que cimentou vários movimentos sociais forjados nos
anos 80. Esta fusão entre um marxista estigmatizado e escatológico
com traços de cristianismo voluntarista, contribuem para uma forte
empatia popular nas campanhas de massa, mas diminuem as referências
para elaboração de estratégias e estruturas de poder inovadores.
O ressentimento político é, assim, alimentado permanentemente e
passa a ser acompanhado de perto pelo sentimento de impotência que,
por sua vez, realimenta o anti-institucionalismo e o voluntarismo
político. Assim, o círculo vicioso gravita ao redor da mobilização
social permanente;
Contudo,
é possível iniciar um processo de aprofundamento e sistematização
das experiências de gestão participativa existentes, difundidas e
implementadas de maneira desarticulada e desconexa ao longo do país.
A sistematização desta pauta poderia criar uma
cultura política mais complexa e madura deste campo ideológico. A
partir daí, um outro passo, mais ousado, poderia ser tomado: a criação
de uma rede de Escolas da Cidadania (à exemplo das Casas de
Cidadania dos EUA, nos anos 50, que fundamentaram o movimento
anti-racista no sul do país), que procurassem criar espaços de
reflexão sobre a nova institucionalidade pública a ser sedimentada
no país, aumentando a capacidade de gestão social de lideranças
sociais. Finalmente, esta rede de escolas da cidadania poderia
desencadear a institucionalização de práticas participacionistas
no território nacional através de uma Lei de Responsabilidade
Social. Afinal, trata-se de um diálogo com uma cultura política
arraigada em nosso país. Uma cultura peculiar, instável, insegura,
indecisa, pendular.
Toda cultura
ambivalente, enfim, não consegue fixar uma convicção. Por se
tratar do dilema do copo pela metade, que depende do ponto de referência
do observador, este traço cultural brasileiro instrui uma disputa
política constante. E é exatamente deste ponto que devemos partir
para consolidarmos a democracia em nosso país.
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