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Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor
em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre
relações internacionais e política externa do Brasil
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A
crise de governança no Brasil
Nota
preliminar: O presente texto foi elaborado no início de
abril de 2004, tendo sido revisto um mês depois para verificação
de seu conteúdo em relação às condições da conjuntura política
no início de maio (nada parece ter mudado). Nele não tenho a
pretensão de oferecer soluções a todos os problemas de que padece
atualmente (mas também estruturalmente) o Brasil. Tenho consciência,
porém, de que um dos requisitos para caminhar no sentido de
encontrar respostas apropriadas a esses problemas está na formulação
das perguntas pertinentes e no oferecimento de um diagnóstico
ajustado aos problemas percebidos. Creio ter indicado os problemas
que me parecem mais graves no Brasil atual, a começar pela crise de
governança. Os elementos aqui alinhados têm o modesto objetivo de
contribuir para diminuir o quadro nebuloso que dificulta até mesmo
visualizar o principal problema no Brasil atual, que reputo ser a
falta de governança.
A
despeito do que se crê e do que se afirma freqüentemente, o Brasil
não enfrenta nenhuma crise econômica, ou mesmo política. Ele tem,
sim, uma séria e grave crise de governança, que: (a) paralisa a máquina
pública; (b) aumenta a volatilidade do ciclo econômico; (c)
diminui a confiabilidade do e no sistema de solução de controvérsias
(judiciário) e (d) influencia de modo negativo o quadro político-institucional.
Esse quadro termina por: (e) acirrar artificialmente alguns
conflitos menores e (f) diminuir, de modo dramático, as
perspectivas de melhoria da mesma governança.
Crise
econômica?: nem sombra
Não
há crise econômica no País. Esta afirmação pode soar irônica
ou irrealista, em vista do crescimento negativo do PIB, do aumento
do desemprego, da fragilidade continuada das contas públicas e da
incapacidade de enfrentar novas demandas por recursos públicos por
parte dos agentes públicos e da própria sociedade. Tudo isso pode
ser verdade e, no entanto, o País não está e nem corre o risco de
enfrentar uma crise econômica. Os indicadores negativos atualmente
exibidos decorrem de um pequeno ciclo de falta de confiança
despertado pela conjuntura eleitoral de 2002, que veio agregar-se
aos problemas gerados anteriormente em escala regional a partir da
crise argentina desde antes da derrocada, no final de 2001. O Brasil
tem problemas de fragilidade interna e externa desde muitos anos,
praticamente desde a fase da redemocratização – que jamais
produziu anos de crescimento sólido e sustentável – e vinha
penosamente, ao longo dos anos 1990, tentando colocar em ordem esses
desequilíbrios, com base em políticas consistentes e adeptas do
rigor fiscal, com maior ênfase a partir da mudança no regime
cambial em 1999. O comando econômico precisaria continuar virtuoso,
sem hesitações.
A
retomada de um processo de crescimento sustentado, compatível com
as taxas historicamente registradas no passado (com exceção do
interregno 1962-1965), depende, ao meu ver, da manutenção daquelas
políticas, o que entretanto foi colocado em dúvida na conjuntura
eleitoral de 2002. Pagamos o preço por uma transição política
extremamente saudável do ponto de vista democrático e bem vinda do
ponto de vista político e social. Devemos reconhecer que a
democracia tem um certo preço em termos de aumento da cacofonia no
processo decisório, mas ela é, em qualquer hipótese,
infinitamente mais saudável, inclusive no plano econômico, do que
qualquer sistema autoritário de debates (restritos) e de tomada
(arbitrária) de decisões.
O
aparelho político precisaria estar “aparelhado” para acomodar
esse aumento na dispersão de opiniões, mas qualquer melhoria na
institucionalidade do Estado depende dramaticamente da qualidade dos
homens públicos, fator notoriamente carente na nossa tradição
social e cultural. Não se pode sempre dispor de condições ideais
para o processo de desenvolvimento, mas as improvisações podem por
vezes custar caro. Ora, temos hoje, no comando da máquina econômica,
uma equipe realista, preparada e inimiga declarada de qualquer
improvisação ou magia econômica. Esta equipe é um poderoso fator
para a superação das dificuldades econômicas conjunturais, mas
ela não pode, obviamente, ocupar as demais vertentes da
governabilidade, que dependem do governo como um todo e não apenas
dos limitados poderes da equipe econômica.
Crise
política?: depende do que se entende pelo termo
Não
há, tampouco, o menor sinal de crise política no País. Oposição
e situação vêm cumprindo, com graus razoáveis de ativismo e de
engajamento, suas funções respectivas: criticar e apontar caminhos
alternativos a primeira, processar e votar leis a segunda. Ruídos e
“golpes baixos” correspondem ao que se poderia esperar de um
sistema político baseado em “jogo de soma zero”, como o
brasileiro, e a um certo estilo de fazer política, marcado mais
pelo apelo a uma retórica de teatro do que apoiado em argumentos
racionais de governança responsável. A grande imprensa parece
moderada, e não tem insuflado os ânimos ou paixões políticas,
nem acuado o governo com demandas excessivas de explicações para
os impasses atuais da governança.
O
sistema político-partidário e, reconhecidamente, mesmo o regime
democrático-representativo apresentam, no Brasil, baixa qualidade
intrínseca e baixíssimos níveis de eficiência e não há
qualquer expectativa de progresso no futuro previsível. Não
obstante, o funcionamento do Legislativo não se deteriorou nos últimos
quinze meses, mas tampouco experimentou melhora sensível, como
corresponderia à “nova era” da política. Mas não se pode
esperar, no curto prazo, correção de fatores estruturais como
estes.
Não
hesito portanto em dizer que o atual quadro brasileiro não se
caracteriza por qualquer crise econômica ou política, ainda que
possam existir indicadores preocupantes na primeira vertente e “ruídos”
agora mais “ruidosos” na segunda, aliás derivados quase que
inteiramente do dramático quadro de governança que passo agora a
registrar.
Poder
não se divide, reza uma velha máxima da teoria e da prática
É
um dos truísmos da vida prática, e até da teoria política, o
fato de que o poder especificamente político não se divide, nem
deve ser dispersado, devendo existir de forma concentrada numa única
fonte de autoridade. Esta tem de deter, legítima e
incontestavelmente, por delegação dos eleitores, o comando do
processo decisório, que deve então funcionar de maneira eficiente
a partir dessa fonte unitária de decisões.
Não
é uma revelação inédita o fato de que, no Brasil atual, as
fontes de poder estavam e estão relativamente dispersas, ainda que
de maneira informal, passando a estar um pouco mais diluídas a
partir de conhecido episódio no comando central do governo, que
fragilizou uma dessas fontes legítimas e reconhecidas de poder. Sem
qualquer avaliação sobre o caráter mais ou menos ético, ou
eficiente, da “solução” que se deu ao episódio em questão,
deve-se reconhecer que ambos, o evento e seu “encaminhamento”,
impactaram tremendamente a natureza e o exercício da governança no
Brasil. (Não me manifesto aqui sobre o impacto público, e suas
conseqüências em termos de imagem, desses elementos ligados à
simbologia e ao próprio exercício do poder, mas refiro-me, tão
simplesmente, aos seus efeitos sobre a qualidade e a
“quantidade” da governança. Mas pode-se também notar que esse
processo, assim como o episódio ainda em aberto da compra do novo
avião presidencial representam um enorme custo político e moral
para a autoridade do poder central, difíceis de serem revertidos no
curto ou no médio prazo.).
A
recomposição de uma única autoridade central e a existência de
um comando político reconhecido constituem, ao meu ver, condições
indispensáveis para a superação da atual crise de governança no
Brasil. Sem isso, todo o mais, em termos de políticas públicas e
setoriais, está e ficará comprometido pelo resto do período de
governo. Não é preciso dizer que autoridade não se proclama, mas
sim se exerce, de modo claro e direto, com conseqüências imediatas
– demissão ou afastamento – para os mais recalcitrantes e
eventuais candidatos a rebeldes. Tergiversações e hesitações
costumam ser mortais.
Uma
anarquia pouco saudável na sociedade civil
Mas
o quadro é ainda mais grave quando se passa da autoridade “para
dentro” para a autoridade “para fora”, isto é, em direção
de fontes concorrentes de poder ou no âmbito do exercício real da
autoridade legítima, delegada pela sociedade e pelo sistema
constitucional, para o cumprimento das leis. Ora, não é preciso
muito esforço visual, ou apelo a registros impressos, para se
constatar que diminuiu enormemente o respeito à lei e aos contratos
nos últimos quinze meses. Sem considerar questões partidárias ou
mesmo de cunho ideológico (e persiste uma certa confusão aqui),
deve-se reconhecer que essa situação faz aumentar, tremendamente,
a volatilidade do cenário econômico, além de agregar custos reais
ao funcionamento do sistema como um todo e de contribuir para
agravar o quadro de anomia social e de desrespeito generalizado ao
quadro legal no País.
A
justiça, em si, já constitui um ônus terrível, direto e
indireto, para o sistema econômico, diminuindo o PIB potencial. Mas
o desrespeito à lei, endossado inclusive por ministros de Estado,
constitui um imenso desincentivo aos investimentos (estrangeiros e
nacionais) e à iniciativa privada, únicos capazes de criar
empregos e disseminar renda no País. É dramático saber, por
exemplo, que juízes de província podem criar obrigações para o
Executivo sem qualquer amparo na legislação em vigor, que
governadores podem promulgar leis anti-constitucionais ou que os
mandatários, em geral, se eximem de fazer cumprir a lei em casos
claríssimos de violação de direitos dos cidadãos (como as muitas
invasões de propriedades). O desrespeito à legalidade chegou a níveis
preocupantes no Brasil, mas isso não parece preocupar nem o sistema
judiciário nem o próprio Executivo.
Base
congressual e governança: uma contradição nos termos
A
desgovernança existente aparece em primeiro lugar na própria máquina
pública, hoje ineficiente e descoordenada ao ponto da paralisia.
Algo pode ser debitado aos custos da transição, na qual uma parte
da tecnocracia foi substituída pela militância, dedicada e
entusiasmada com a causa da mudança, mas nem sempre habilitada a
lidar com as reais complexidades da administração pública. Se o
ministro da área não possui competências executivas, ou não dispõe
de prévia experiência anterior no seu setor, o quadro pode ficar
ainda mais dramático, dando a impressão de que os ministérios
atuam em ordem dispersa, cada um com suas próprias prioridades políticas
e um escasso comprometimento com as diretrizes gerais do governo
(quando elas existem naquele setor).
Não
há uma solução simples a esse problema, pois qualquer estrutura
ministerial, grande, média ou pequena – e a atual é desmesurada
–, só pode funcionar bem se a qualidade da gestão, em suas
diferentes vertentes, for razoavelmente satisfatória, com metas
claras e cobranças regulares. A continuidade da atual lógica político-partidária
na montagem ministerial significa a continuidade da inoperância
administrativa na mesma proporção. Ainda que eu recomende uma
completa reestruturação ministerial, reconheço que isso traria
problemas na frente congressual. Cabe ao supremo mandatário julgar
o que seria possível fazer para aumentar a eficiência da “sua”
máquina executiva.
A
ausência de prioridades claras de governo e sobretudo a dispersão
do comando central, com a persistência de dúvidas relativamente ao
apoio às orientações econômicas até aqui seguidas – e que
certamente permitiram reverter o quadro dramático existente no
final de 2002 –, tem atuado para aumentar a volatilidade do ciclo
econômico, pois os agentes são levados a adotar um compasso de
espera (seja para precaver-se contra uma possível mudança de
regras, seja no aguardo de medidas que possam representar uma
melhoria relativa das condições da atividade econômica). O
problema aqui é tanto a falta de uma clara manifestação em favor
da política econômica atual, com o engajamento do conjunto do
governo, quanto o próprio fato de que agentes do Estado ainda
determinam, por vezes de modo arbitrário, o comportamento de vários
setores da economia, o que obviamente dá margem à manutenção do
já referido quadro de incertezas.
Um
exemplo, entre outros, da contradição entre as orientações
gerais do governo e a implementação concreta de medidas setoriais
revelou-se no caso da discriminação entre companhias nacionais e
de capital estrangeiro nos financiamentos concedidos pelo mais
importante órgão do setor. Independentemente da legalidade ou da
oportunidade de tal tipo de medida discriminatória, o fato a ser
destacado é, justamente, a possibilidade de que órgãos
subordinados possam atuar contraditoriamente às orientações do
governo. Isto se chama ausência de autoridade e repercute na crise
geral da governança pública.
Uma
justiça pouco justa
A
situação da justiça e do ordenamento legal é provavelmente um
dos fatores mais negativos que afetam a governabilidade do e no País,
aumentando dramaticamente os custos da atividade econômica. Não me
refiro apenas à possível e provável existência de
disfuncionalidades no aparato judicial, com manifestações de
corrupção e nepotismos que podem e devem ser coibidos por alguma
forma de controle externo (como aliás deve ser o caso com qualquer
poder: não é possível, por exemplo, que o Legislativo e o Judiciário
possam criar fontes de despesas sem qualquer tipo de disciplina orçamentária).
O que desejo destacar é a própria anomia dos processos jurídicos,
nas três esferas da federação e em vários setores de atividade
(nas relações de trabalho, por exemplo). Mais: controles internos
e externos devem ser implementados para coibir a extraordinária
profusão de medidas liminares, várias dotadas de escasso ou nenhum
embasamento legal.
Um
exemplo pode ser citado na determinação ilegal de fichamento de
turistas americanos ingressando no Brasil, ainda mais dramatizada
pelo endosso oficial (isto é, do Executivo) a essa medida que
claramente carece de amparo na legislação existente. Outro é o
fato de estados federados introduzirem, também ilegalmente, restrições
à circulação de mercadorias em seus territórios (soja
supostamente transgênica), sem que qualquer autoridade federal
coibisse imediatamente tal usurpação inconstitucional de
autoridade. A falta de iniciativa do Executivo ou do Judiciário
redunda em imensos custos econômicos para os agentes privados:
produtores, transportadores, compradores ou simples cidadãos.
Podem
ser multiplicados várias vezes os casos de ausência de controle
– o que não é, senão, uma manifestação a mais de falta de
autoridade – de medidas “legais” que afetam gravemente a
confiabilidade do sistema judicial em nosso País e aumentam, de
modo exponencial, a volatilidade com que tem de se haver o sistema
econômico. Uma possível recomendação seria a constituição de
um grupo de trabalho para examinar esse tipo de controle, que não
está sendo cogitado no atual processo de reforma do Judiciário.
Governar
não é um exercício acadêmico
Um
governo, qualquer governo, não é feito para provar teses acadêmicas
ou testar programas partidários. Ele tampouco atua com base em
“grandes teorias” (aliás mais proclamadas do que reais). Ele é
eleito, e constituído, para produzir o máximo de bem estar para os
cidadãos, pelos meios os mais pragmáticos e racionais possíveis.
Parece estar havendo hoje, no Brasil, uma luta contra o passado e
uma dispersão de esforços no presente. A luta contra o passado se
exerce tanto contra antigos “adversários” (o que é revelado
pela tese da “herança maldita”), como em relação às teses
anteriores, que não podem (e não devem) ser o centro do debate das
alternativas de políticas econômicas.
Essa
obsessão com um passado mítico, seja para condenar o dos outros,
seja para justificar o seu próprio, tem ocupado uma parte
substancial da atividade retórica do governo, o que constitui
obviamente uma grande perda de energia e um desvio do foco próprio
da governança atual. Mas também existe, hoje, uma grave dispersão
de esforços em diferentes áreas de atividade, mesmo quando elas não
são prioritárias para o aumento do bem estar do povo, em setores
concretos sob responsabilidade governamental.
O
exemplo mais conspícuo é, obviamente, o da chamada política
industrial, não porque ela esteja absolutamente errada, mas porque
ela é claramente não prioritária no rol imenso de problemas
graves que deve enfrentar o governo para melhorar a qualidade de
vida da maioria da população. Corretamente apresentada como sendo
“tecnológica” e de “comércio exterior”, essa política não
vai conseguir, concretamente: (a) aumentar a oferta de empregos, (b)
distribuir renda e (c) capacitar profissionalmente a mão-de-obra,
três objetivos que estariam, supostamente, no coração da política
social do governo (cujo foco não é, ou pelo menos não poderia
ser, a assistência a necessitados, assim preservados).
Infelizmente,
pode-se antecipar que essa política industrial vai: (a) criar
poucos empregos, (b) pode concentrar ainda mais ou, no máximo, ser
neutra em relação à iníqua distribuição de renda e (c) vai
formar poucos trabalhadores nas habilidades mínimas que se espera
de um país voltado para o incremento das oportunidades sociais via
aumento da produtividade dos recursos humanos (num sentido amplo, e
não apenas como foco setorial). A criação de mais uma agência pública
pode representar, por outro lado, mais um cartório de espera para
alguns esperançosos em dádivas públicas, o que continuará
influenciando negativamente o quadro de expectativas microeconômicas
em nosso País (em lugar do livre empreendedorismo, o possível leilão
de favores governamentais).
Ainda
que a política industrial possa oferecer, um dia, todas as virtudes
que se esperam dela, não me parece que ela venha a alterar,
dramaticamente, as condições sob as quais o Brasil já participa
da economia internacional, ou sequer arranhar as condições sob as
quais labuta a maioria dos trabalhadores, em grande medida à margem
do mercado formal de relações contratuais. Esse tipo de dispersão
e de perda de foco me parece grave, num governo que foi eleito para
cuidar dos trabalhadores e não dos patrões, que deveriam ser
deixados à sua própria sorte, e sobretudo com menos interferência
estatal.
Uma
tentativa de balanço: luzes e sombras
A
tentativa de mudar um pouco de tudo, no Brasil e no mundo, e que
parece estar no centro do ativismo governamental, aliás mais pelo
lado das intenções do que pelo das realizações, pode constituir
um entrave concreto ao exercício de uma boa governança em favor
dos mais pobres e dos absolutamente carentes. Como as expectativas
eram, de modo legítimo, muito grandes, o governo tem se esforçado
para corresponder a todas elas, dando a impressão de que vai
conseguir mudar tudo no curto espaço de quatro anos.
Entretanto,
mais de um quarto do tempo alocado a este governo já se passou e um
balanço (talvez impressionista) do quadro da governança poderia
ser assim apresentado:
1)
Um notável desempenho macroeconômico, que conseguiu
reverter um quadro dramático de deterioração dos indicadores
internos e externos com base no bom senso e também na certeza de
que o único caminho disponível é o que foi efetivamente seguido.
A construção da confiança só não foi total porque, no interior
do próprio governo e nas bases “naturais” de sustentação, a
demanda por magia continua alta e não coibida. Minha única
recomendação concreta, aqui, seria a persistência na via adotada
e um enquadramento de todo o governo com a política determinada
pela autoridade máxima, que neste caso é também a política de
maior racionalidade intrínseca.
2)
Um pífio desempenho administrativo, em talvez metade dos
ministérios, o que é amplamente reconhecido até dentro das hostes
governamentais. O inchaço da máquina e a seleção dos titulares
por critérios alheios a preocupações com o desempenho são os
responsáveis por esse quadro lamentável. Muitos observadores
recomendam o remanejamento da máquina e dos titulares, mas não nos
cabe formular sugestões sobre quais áreas devem ou precisam mudar.
Já ofereci a hipótese de que o governo tem excesso de “Antonio
Gramsci” (talvez mais Antonio do que Gramsci) e uma carência notável
de Peter Drucker (isto é, muita retórica e pouca administração
para resultados). Talvez uma boa consultoria externa, dessas
voltadas para organização e métodos para resultados, pudesse
ajudar um pouco na reorganização da máquina do governo.
3)
Um desempenho externo extremamente ativo e variado do
Brasil-Estado, com impacto notável nos meios de comunicação,
internos e externos, mas com resultados até aqui pelo menos
duvidosos do ponto de vista da solução dos problemas concretos, e
graves, do outro Brasil, o Brasil-Nação. Pode-se certamente
assegurar, por essa via, uma maior presença do Brasil no cenário
internacional, mas ela pode ser igualmente alcançada por uma
melhoria da nossa situação econômica e social, pela maior solidez
dos grandes equilíbrios macroeconômicos, pela confiança gerada
nos investidores internos e externos ou ainda por um diálogo aberto
com todo tipo de parceiro, sobretudo os mais relevantes. A segunda
via é certamente mais lenta, mas não se deve descurar o fato de
que um precoce engajamento em novas responsabilidades internacionais
gerará uma demanda por recursos escassos, em meios militares e/ou
cooperação técnica e financeira, que ainda fazem dramaticamente
falta no plano interno. Talvez atenção prioritária deva ser agora
dedicada ao plano interno, em especial em direção dos setores
carentes.
4)
Uma deterioração dramática do quadro político-institucional,
sobretudo no que se refere ao cumprimento da lei, ao respeito da
legalidade e à administração de conflitos sociais. O Estado, aos
olhos de muitos, não faz cumprir a lei, ou por falta de vontade ou
por falta de capacidade, ou por ambas, o que é, reconheçamos,
extremamente grave. Uma caracterização desse tipo, se
suficientemente embasada em fatos claramente delimitados, pode
prestar-se a uma acusação de crime de responsabilidade, contra
qualquer um dos agentes públicos, inclusive o mais alto. Uma
singela recomendação seria no sentido de uma revisão séria e
ponderada da situação do quadro jurídico-legal no País, visando
sobretudo seu estrito cumprimento pelo Estado. A experiência histórica
nos ensina que o mais rápido e seguro caminho para a desgovernança
prática começa pelo desrespeito à lei.
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