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Bibliotecas
cheias e sociedade carente
Ao
final de cada semestre centenas e centenas de estudantes passam pelo
“doloroso” e dispendioso processo de elaboração dos seus
trabalhos de conclusão de curso. Sob o pretexto de capacitar o
futuro profissional para a pesquisa no seu campo de atuação, estes
trabalhos avolumam as prateleiras das bibliotecas universitárias,
mantêm professores orientadores e um mercado recheado de
profissionais de editoração eletrônica.
Esta
pseuda ação didática, que culmina no trabalho final para a graduação,
acompanha os acadêmicos durante todo a sua trajetória universitária,
pois os docentes solicitam textos e mais textos como requisitos à
aprovação em suas disciplinas. Aos estudantes resta uma cansativa
busca de teorias
apresentadas conforme normas da ABNT. E isto repete-se a cada matéria
cursada. Ao final do semestre estes trabalhos juntam-se a coleção
de “teorias repetidas” que
o aluno encadernou nos semestres anteriores.
Neste
processo, o ensino superior restringe-se a capacitar o aluno a mera
produção de trabalhos.
Os assuntos que poderiam ser alvo de debates em sala de aula, ganham
apenas um estudo sobre o que já se falou a respeito dele.
Seria
louvável essa exigência para a conclusão do curso se tais
trabalhos realmente revertessem em algum benefício para a
sociedade. Isto sim, deveria ser o objetivo principal da averiguação
da competência do aluno em relação aos conteúdos que lhe foram
repassados nos bancos universitários.
A
exemplo dos privilegiados estudiosos da Grécia Antiga, a sociedade
deveria receber um efetivo retorno do seu investimento na educação.
Naquela civilização as teorias dos intelectuais buscavam não só
o engrandecimento da cultura de seu povo, mas também recebiam a prática
de pensamentos que colaborassem na organização social.
No
sistema educacional vigente a “formatura” é vista pela grande
maioria dos estudantes como um “alívio”. É o fim de uma
tortura financeira para os mais carentes ou um passaporte (para os
ingênuos mais abastados) para o mercado de trabalho.
Há,
ainda, os que acabam por se tornarem “estudantes profissionais”
. Estes passam pelo trabalho de conclusão e buscam as oportunidades
nos mestrados, e após, nos doutorados. Obviamente que entre estes
estarão, na sua quase totalidade, os que tiveram o acesso a um
ensino mais aprimorado e dispuseram de tempo para pesquisas, pois as
seleções para os cursos de pós-graduação exigem um currículo
acadêmico de produções inatingíveis por estudantes que passaram
seus dias trabalhando para custear os seus estudos. Claro que
encontraremos algumas raras exceções, porém a um preço de esforço
e determinação quase sobre-humano.
E
o desperdício continua... Quantas dissertações e teses conhecemos
que realmente contribuíram para alguma melhoria na nossa cidade,
estado, país...? Mas alguém pagou por isto. Fomos nós. Os nossos
impostos também servem para custear o ensino público superior.
Quantas pessoas talentosas conhecemos que, se tivessem a
oportunidade de se aproximar desse universo cultural desenvolveriam
trabalhos para a sociedade? No entanto os pretendentes a bolsas
deste tipo de ensino, na grande maioria, cumprem a sua jornada acadêmica,
e após, beneficiam-se individualmente disto. Talvez não por
vontade própria, mas por falta de exigência do próprio sistema de
ensino.
Os
pesquisadores que ajudamos a formar encontram as melhores ofertas de
trabalho no exterior. E, como ele se vê em um mercado de mão-única
– as empresas exigem o máximo e oferecem o mínimo – busca
oportunidades que lhe retribuam o quanto estudou. E lá se vai o
nosso pesquisador e todo o investimento que fizemos nele... Mas a
sua tese ficou por aqui: devidamente teorizada, digitada,
encadernada em alguma prateleira de biblioteca universitária.
O
nosso país necessita de soluções para todas as áreas: social,
financeira, política... Não seria mais inteligente aproveitar o
potencial dos nossos pesquisadores? Os projetos acadêmicos não
poderiam ser feitos a partir de propostas da própria sociedade?
Afinal, é ela que sabe as áreas de maior carência de estudos “in
loco” .
As
teorias educacionais defendem que o conhecimento é constituído na
e pela interação do sujeito-objeto, via mediação social. Ou
seja, o indivíduo deve interagir com o que estuda para obter um
real desenvolvimento.
Tal
conclusão só vem a corroborar a importância de aproximarmos
nossos estudantes de projetos que possam ter resultados realmente
mensuráveis. Desta forma, além de estarmos colaborando para o
crescimento dos próprios pesquisadores, estaremos retornando à
sociedade um conhecimento que ela ajudou a construir.
Esse
verdadeiro “exército” de
acadêmicos deveriam ser agrupados, em disposição nacional ou
estadual, para pesquisas correlatas
aos seus estudos que efetivamente viessem a contribuir para os
problemas da sociedade. Se a união faz a força porque insistimos
em fragmentar? Quem ganha com isso? Talvez a resposta esteja em
dirigentes que buscam a manutenção de um sistema arcaico e carente
de reestudo. Os debates sobre o ensino estão aí para comprovar
isso e “pipocam” por todo o país. De Piaget a Gardner teóricos
são estudados para se obter o melhor método para formar o indivíduo
e a sua consciência crítica. Mas como estamos aproveitando essas
teorias? Formamos indivíduos capazes e reflexivos - ou ao menos
acreditamos formar – e, após, ignoramos o seu potencial. A
sociedade brasileira não pode se dar a esse luxo.
E
ainda corremos o risco de transformar essa dinâmina em um círculo
vicioso: formamos educadores que também têm que desenvolver
trabalhos exigidos para o permanente aperfeiçoamento imposto pelas
instituições de ensino. Estes mesmos educadores serão
orientadores dos trabalhos dos futuros docentes. A prática da
pesquisa torna-se o cumprimento de um requisito, sem a preocupação
da efetiva utilidade dela para a sociedade. E aí formou-se o círculo: o orientador conceitua a pesquisa, o aluno é
aprovado e multiplica essa cultura aos seus futuros orientandos.
É
evidente a importância das pesquisas no contexto universitário
para a construção e atualização do conhecimento, mas também é
mister posicionar a pesquisa e a construção do saber diante dos
desafios que se apresentam na realidade atual. Todos estamos cientes
da necessidade de conhecermos experiências anteriores para
elaborarmos de maneira mais eficiente o nosso presente.
Nortearmo-nos por ações, estudos e análises evitará que
incorramos nos erros cometidos por nossos antecessores. No entanto,
o que acontece atualmente é a mera representação textual dessas
experiências. Este é um fator que urge de inclusão nos debates
educacionais.
Que
bom seria se nesses debates a educação fosse vista como algo
importante a qualquer ser humano e não como artigo de luxo. Que bom
seria se estudantes que lutam tanto para a sua graduação tivessem
o seu diploma valorizado. Que bom seria se todos fossem conscientes
da importância do acesso à pesquisa, mas com resultados práticos.
Caso contrário, estamos fadados a um ensino em massa, formador de
meros repetidores sem o exercício do pensar. Uma civilização que
não incorpora o conhecimento dos seus estudiosos poderá se deparar
com um desenvolvimento estagnado. Conhecimento não exteriorizado
torna-se inútil.
No
entanto, se esse for o motivo pelo qual insistimos neste sistema de
ensino, seria mais honesto assumirmos a política das castas. Ao
menos não estaríamos distribuindo a ilusão de que, algum dia, com
muito esforço, poderíamos nos tornar algo melhor e maior do que
somos, morreríamos na mesma condição em que nascemos.
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