Por SHEYLA COSTA RODRIGUES

Professora Assistente da Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Mestre em Educação e Doutoranda em Informática na Educação.  


VERSÃO PARA IMPRESSÃO - WORD [WINZIP]

 

Aprendizagem no contexto digital

 

O desenvolvimento tecnológico tem acarretado inúmeras transformações na sociedade contemporânea, especialmente nos últimos anos. A sociedade tem se beneficiado desse progresso usufruindo os recursos tecnológicos – telefone, televisão, terminais eletrônicos nos bancos e no comércio, Internet, tele-medicina, robótica... – muitas vezes sem ter consciência de seus usos e importância no seu cotidiano.

Diante deste cenário desafiador de novas maneiras de aprender e de ensinar imbricada nessa sociedade que também é virtual, na qual as dimensões tempo e espaço são percebidas como sendo mais flexíveis e mutáveis e onde a grande quantidade de informações é transmitida velozmente, a educação tem um papel desafiador de pensar novas práticas para atender essas demandas.

Mas, o que significa educar dentro deste novo contexto? Como ocorrem as aprendizagens? Que desafios são impostos a alunos e professores? Estes e muitos outros questionamentos estão presentes no ambiente educacional, evidenciando uma preocupação e um desejo por caminhos que possam apontar para a construção de conhecimentos que levem a aprendizagens mais significativas.

Estamos inseridos num contexto de convívio intenso com as tecnologias da comunicação e informação que vem gerando mudanças nos processos de comunicação e produção de conhecimentos, transformando a consciência individual e coletiva, na percepção do mundo, nos valores e nas formas de atuação social.  Entretanto, tais mudanças e transformações acontecem porque como seres vivos somos unidades autônomas e autopoiéticas (Maturana e Varella, 2001), por que estamos produzindo de modo contínuo a nós mesmos e, como tudo o que nós seres humanos fazemos, nós fazemos e nos constituímos na linguagem, o que implica dizer que o linguajar é o nosso modo de existir como seres humanos (Maturana, 2001).

O educar ocorre todo o tempo e de maneira recíproca, como uma transformação estrutural contingente com uma história no conviver, e o resultado disso é que as pessoas aprendem a viver de uma maneira que se configura de acordo com o conviver da comunidade em que vivem. Para Maturana (2002) a educação como sistema educacional configura um mundo, e os educandos confirmam em seu viver o mundo que viveram em sua educação.  Esse viver no mundo em que vivemos certamente é que impulsionam novas práticas e novas aprendizagens.

Por muito tempo as aprendizagens ocorreram essencialmente no contexto concreto, real e linear das salas de aulas, nas quais a figura e o papel do professor  assumiam a posição de destaque e de comando. Propor que aprendizagens ocorram em outros contextos que não sejam presenciais, implica propor aos autores dessas aprendizagens, sejam eles alunos ou professores, mudanças de paradigma e não simplesmente a troca do contexto presencial para o digital, o que representa rupturas descontínuas e revolucionárias nas concepções, valores, percepções e práticas compartilhadas por uma comunidade. Para Capra (2002) no novo paradigma a compreensão do processo de conhecimento, ou seja, a epistemologia, precisa ser explicitamente incluída na descrição dos fenômenos naturais e sociais.

Sendo assim, o ambiente digital como espaço de interação com diferentes formas de linguagem pode se configurar como local de aprendizagens importantes e diferenciadas na formação de professores, pela possibilidade de convivência com o outro. O produto das interações continuadas entre os professores e o meio digital sofre transformações e atuando como fontes de perturbações mútuas desencadeiam mudanças de estado acontecendo o que Maturana (2001, 2002) denomina acoplamentos estruturais.

Na perspectiva educacional a utilização das tecnologias como ferramenta didática, potencializadas pela interação em rede, possibilita que a prática educacional tenha uma proposta pedagógica mais ampla, responsável pela motivação e preparação dos professores, apoiando a educação formal partilhando, interagindo, produzindo e transformando os conhecimentos além de permitir a atualização de conhecimentos, a socialização de experiências e aprendizagem permanente através do desenvolvimento de trabalhos cooperativos não lineares, mas sim, estendidos em todas as direções como em uma rede. Um aprender que implica interagir, possibilitando que os ambientes de aprendizagem sejam mais poderosos quando a interação possibilita que cada sujeito seja um nó da rede e cada novo nó em constante extensão torne-se produtor ou emissor de informações novas, imprevisíveis, e reorganize por conta própria parte da conectividade global (Lévy, 2002).

Para Maturana (1993), a cooperação só acontece na aceitação do outro, na relação e no espaço em que os participantes surgem como legítimos na convivência, no qual os sujeitos que lá interagem possam transformando-se, realizando-se com um ser social usufruir, de si mesmo e do outro, respeitando o outro, consciente de pertencer a uma sociedade em um âmbito maior, que é o âmbito ecológico em que vivem.

Olhando a formação de professores a partir deste âmbito ecológico, podemos pensar em aprendizagem digital na perspectiva de rede. Para Capra (2002), onde quer que encontremos sistemas vivos podemos observar que estes estão arranjados à maneira de rede, o que nos impõe dizer que sempre que olhamos para a vida, olhamos para redes. Como uma comunidade que mantém uma rede ativa de comunicação e de auto-regulação os professores aprenderão como seus erros, que se espalharão pela rede e retornarão como fonte de realimentação. Dessa maneira, esses professores poderão corrigir seus próprios erros, regular e organizar a si mesmos.

Como os espaços de convivência potencializados por um ambiente virtual de aprendizagem são mais um campo de problema do que uma solução (Lévy, 1999), a rede digital pode oportunizar, através do trabalho colaborativo e cooperativo, um caminho significativo para a formação de alunos e professores que interagem nesse ambiente.

Aprender no contexto digital, inserido em uma cultura de rede na qual os sujeitos estão comprometidos com sua própria formação e a de seus parceiros, parece ser um dos desafios lançados à educação, pela possibilidade desses sujeitos aprenderem, transmitirem e produzirem conhecimentos de maneira cooperativa, em sua atividade cotidiana, usando o ciberespaço como ambiente de aprendizagem.

A criação de ambientes virtuais de aprendizagem que permitam a convivência, a interligação dos saberes, a troca de experiências pode ser um caminho na direção da formação de professores sustentada pela cooperação, possibilitando aos sujeitos um espaço para discussões, interações e comunicações de forma reflexiva. Esses novos espaços de experiência e de vivência certamente terão impacto no modo como aprendemos e como ensinamos.


Referências Bibliográficas:

CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 2002.

LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: 34, 1999.

_______. O universal sem totalidade, essência da cybercultura. Disponível em: http://empresa.portoweb.com.br/pierrelevy/ouniversalsem.hyml Acesso em: 12 nov. 2002.

MATURANA, H. As bases biológicas do aprendizado. Dois Pontos, v. 2, n. 16, p. 64-70, primavera -1993.

_______.  Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.

_______.  A ontologia da realidade.  7. ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.

MATURANA, H.; VARELA, F. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. 2. ed. São Paulo: Palas Athenas, 2001.

 

 
 

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2004 - Todos os direitos reservados