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Por MARIO MAESTRI
Programa de Pós-Graduação em História. Universidade de
Passo Fundo.
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O
Escravismo Colonial:
A
revolução Copernicana de Jacob Gorender
[
primeira parte: http://www.espacoacademico.com.br/035/35maestri.htm
]
Em
memória de Clóvis Moura.
IV.
O escravismo colonial – apogeu e crise
Os
importantes sucessos sociais, políticos, culturais e ideológicas
gerais ocorridos no Brasil e no mundo em fins da década de 1970
permitem compreensão mais precisa do sucesso científico e acadêmico
de O escravismo colonial, no momento de seu lançamento, e durante o
decênio seguinte, e a radical reversão de sua receptividade acadêmica,
nos anos 1990.
Em
1977-8, o Milagre Brasileiro pertencia ao passado e a sociedade
nacional ingressava na depressão econômica tendencial na qual
ainda se mantém. A violenta decadência das condições da vida da
população, devido à expropriação salarial – inflação e
arrocho –, determinada pelo pagamento incondicional da dívida
financeira, ensejava o renascimento do ativismo sindical, pondo fim
ao longo período depressivo que o movimento social ingressara em
1969.
Em
1979, duras mobilizações populares na cidade e no campo agitaram o
Brasil, assinalando objetivamente o caráter social e político
protagonista dos trabalhadores, negado pelo
nacional-desenvolvimentismo burguês do PCB, antes de 1964, e pelo
militarismo pequeno-burguês, nascido sobretudo nas filas comunistas
e entre os segmentos de classe média radicalizados, após 1967.
No
mundo das representações, O escravismo colonial
materializava as necessidades das mobilizações classistas
dos trabalhadores de interpretação radical da formação social
brasileira, a partir da ótica do mundo do trabalho, que superasse
as falsas visões do passado, nas quais se haviam apoiado as estratégias
populistas, direitistas e esquerdistas, derrotadas em meados dos
anos 1960 e no inícios de 1970.
O
forte avanço dos trabalhadores de fins de 1970 – greves operárias
e ocupações de latifúndios, com ápice em 1979; fundação do PT
anticapitalista, em fevereiro de 1980; fundação da CUT classista,
em agosto de 1983 – abria espaço social para o reconhecimento
acadêmico e científico de obras como O escravismo colonial, de
1978, que empreendiam e apoiavam leituras radicais da formação
social brasileira exigidas pelo desenvolvimento da luta social.
Hegemonia
conservadora
Entretanto,
a ofensiva do mundo do trabalho brasileiro, de fins dos anos 1970,
sofreu imediatas e múltiplas respostas, de todas as ordens, de
parte das forças sociais proprietárias ascendentes e descendentes,
que jamais deixaram de manter a hegemonia nacional e internacional.
Essas respostas abrangeram igualmente as expressões daquele impulso
social no mundo das representações.
Nessa
operação destacou-se vasto movimento de deslegitimação científica
e acadêmica de O escravismo colonial, inicialmente em forma
indireta e transversal, mais tarde em forma direta e frontal, que se
mobilizou para soldar a fratura causada pela aparição de obra que
colocava o trabalhador e a luta de classe no centro da interpretação
da formação social brasileira.
A
campanha processou-se sobretudo através de dois movimentos.
Enquanto procurava-se sistematicamente argumentação que
questionasse, nem que fosse no mundo das aparências, elementos
essenciais daquela interpretação, esforçava-se para manter à
margem do mundo acadêmico os defensores do novo revisionismo
historiográficos, em geral, e Jacob Gorender, em especial.
Quanto
ao segundo movimento, é exemplo paradigmático a trajetória
profissional do pensador marxista baiano, após o lançamento de sua
obra. Apesar da profunda erudição registrada em O escravismo
colonial, as portas da academia, espaço ideal para a atualização,
correção e ampliação daquela interpretação do passado
mantiveram-se fechadas para ele, sob a justificativa de não possuir
título universitário.
Nesse
sentido, o pensador radical foi indiscutivelmente punido por ter
preferido combater militarmente o nazi-fascismo, como pracinha, em
1942, e o capitalismo, como militante profissional, após 1945, e
ter-se, assim, descurado de formação superior formal e carreira
burocrática respeitadora das instituições e da simbologia do
poder.
Finalmente
doutor
Nos
anos seguintes à publicação de sua tese, para manter-se, Jacob
Gorender trabalhou na Abril Cultural, coordenando a coleção “Os
Economistas”, que apresentou mais de meia centena de autores e
vendeu, inicialmente, um milhão e meio de exemplares.
Nessa coleção, publicou uma “Introdução” e uma “Apresentação”
a dois volumes de obras de Marx. Em 1989, escreveu longa
“introdução” à Ideologia alemã, de Marx e Engels.
Apenas
em 7 de abril de 1994, dezesseis anos após a publicação de O
escravismo colonial, foi agraciado com o título de Doutor Honoris
Causa, pela Universidade Federal da Bahia, quando da reitoria do dr.
Luiz Felippe Perret Serpa, em obediência à resolução do Conselho
Universitário de 27 de outubro de 1992.
Em 1994-6, atuou como professor visitante no Instituto de Estudos
Avançados da USP, redigindo o ensaio “Globalização, tecnologia
e relações de trabalho”.
Em
29 de agosto de 1996, por proposta do Departamento de História da
USP, recebia o título de especialista de Notório Saber, pela
Congregação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,
da mesma universidade, o que lhe permitiu participar como examinador
de bancas de mestrado e doutorado. Em 1997, ministrou disciplina em
curso de pós-graduação do Departamento de História da mesma
instituição – “História e marxismo: a prova prática no século
XX (análise científica e aspirações utópicas).” Esse limitado
reconhecimento científico institucional muito honra as instituições
e os promotores que se desdobraram para efetivá-los.
A
exclusão acadêmica obrigou Jacob Gorender a empreender, em forma
quase isolada, sem apoio institucional, após suas atividades
profissionais, nos momentos roubados ao lazer, a resposta aos
variados questionamentos de sua interpretação do passado,
produzidos em geral por intelectuais dedicados profissionalmente à
produção intelectual, sustentados e apoiados por suas instituições,
por bolsistas, por seu orientandos, etc.
Escravismo
Colonial: Questionamentos
Após
a publicação de O escravismo colonial, Jacob Gorender interveio
sobretudo com dois ensaios ––
na importante discussão ensejada por sua obra – “O conceito de
modo de produção e a pesquisa histórica”, de 1980, e
“Questionamentos sobre a teoria econômica do escravismo
colonial”, de 1983.
Em 1985, publicou uma quarta edição revista e ampliada de O
escravismo colonial.
Em
1990, em uma conjuntura política, cultural e ideológica
radicalmente adversa, escreveu o livro A escravidão reabilitada,
resposta exaustiva à criticaria organizada em
torno de O escravismo colonial. Em forma geral, essa produção
demarcou as diversas fases da poderosa operação revisionista
estabelecida em torno de sua tese.
Em
1980, o artigo “O conceito de modo de produção e a pesquisa histórica”
registrava o impacto de O escravismo colonial sobre a comunidade
intelectual. Na “Introdução”, José Roberto do Amaral Lapa
assinala que a coletânea pretendia retomar debate interrompido
havia “quinze anos”, reunindo os textos “mais
representativos” da “interpretação da realidade histórica
brasileira através do conceito de modo de produção”.
Portanto,
constituía tentativa de organização da polêmica entre interpretações
que utilizavam “conceito teórico marxista axial” em forma, no
“geral, discordante”, apesar de “substanciais aproximações”
em alguns casos. Pretendia-se que se desse no “universo
conceitual” do “modo de produção” e “formação social”,
correlacionado com “suas categorias básicas [...], relações de
produção, forças produtivas, classes sociais, luta de classes,
consciência de classe, etc.”
O
texto de Gorender abre o ensaio, seguido por ensaios de Antônio
Barros de Castro, Flamarion Cardoso, Werneck Sodré, Octávio Ianni,
Peter Eisenberg e Theo Santiago, apresentados em ordem alfabética.
O organizador lembra a ausência de autores essenciais para a polêmica
como Caio Prado, Celso Furtado, Fernando Novais, FHC, Florestan
Fernandes e José de Souza Martins, por motivos “perfeitamente
compreensíveis”.
Teoria
geral
Em
seu texto, Gorender empreende a defesa da proposta da construção
de uma teoria geral dos modos de produção singulares; reafirma as
categorias sociais como expressão da realidade empírica; assinala
a dominância da esfera econômica, necessariamente associada à
esfera extra-econômica; lembra a necessidade do desenvolvimento de
teoria da formação social, em geral, e da formação social
capitalista, em
especial.
Na
terceira parte do texto, retoma a defesa do caráter historicamente
novo do modo de produção escravista colonial, em relação à
produção escravista patriarcal da Antiguidade, ressaltando sua
dependência ao mercado externo não-escravista. Daí seu caráter
colonial, “na acepção econômica do termo”. Fenômeno do qual
não decorreria – como pretendiam as visões integracionistas,
entre elas a Teoria da Dependência – a determinação e integração
do modo de produção escravista colonial pelos modos de produção
dominantes mundialmente.
Dedica
a parte final do texto à proposta de um amplo processo de investigação,
geral e sistemático, exigido pela caracterização da gênese da
produção capitalista no Brasil, não a partir do feudalismo, mas
do escravismo colonial, sobretudo após a Abolição, com
particularidades no que se refere ao desenvolvimento de quatro
grandes regiões: São Paulo, Rio de Janeiro, Sul e Nordeste.
Avança
igualmente a proposta da não dominância imediata da produção
capitalista “no final e o escravismo e após a Abolição”,
devido à gênese e à expansão, de “formas camponesas pré-capitalista
combinadas à estrutura da plantagem e do latifúndio pecuária”.
Essa interpretação seria apresentada no ensaio “A gênese e
desenvolvimento do capitalismo no campo brasileiro”, transcrição
de conferência à 31 Reunião Anual da SBPC, em 13 de julho de
1979, em Fortaleza, que conheceu diversas edições.
Burguesia
conservadora
Da
transição da produção escravista colonial, portanto mercantil,
apoiada em formas alodiais da propriedade da terra, à produção
capitalista, Gorender deduz o caráter conservador da burguesia
nacional, que jamais encontrou “obstáculo para adquirir a
propriedade de terra e teve na especulação fundiária uma das suas
fontes de acumulação original do capital”. Lembra que ela não
aprofundou sua “contradição com os latifundiários”,
incorporando, ao contrário, “o latifúndio à estrutura do
capitalismo no Brasil, onerando”, assim, seu “desenvolvimento
[...] com o peso exorbitante do preço e da renda da terra [...]”.
Quanto
à dinâmica social e à transição intermodal, propõe que são
“as variações nas forças produtivas (na medida em que progridem
ou, mais raramente, na medida em que retrocedem) que estabelecem uma
não-correspondência com as relações de produção existente e
conduzem, no final de contas, à sua substituição por outras relações
de produção e ao surgimento de um novo modo de produção.”
Proposta
correta do ponto de vista da epistemologia marxista, na medida em
que se compreenda o impulso à variação ascendente das relações
sociais de produção, no contexto de forças produtivas
historicamente dadas, como determinação da solução da contradição
entre produtores diretos e controladores, detentores ou proprietários
dos meios de produção.
Como
em O escravismo colonial, nessa apresentação geral e na proposta
de investigação sistemática sobre a formação social brasileira
não há referência sistemática e explícita à luta de classes
como determinação principal do devir social. A abordagem mais
sistemática dessa questão pelo autor daria-se em resposta à acusação
de ignorar essa instância do devir histórico, . lançada por
autores em gerais defensores da indeterminação objetiva
da ação subjetiva das classes sociais.
Refutação
sistemática
Salgo
engano, no artigo “A economia política, o capitalismo e a
escravidão”, Antônio Barros de Castro apresentou a primeira
tentativa de refutação estrutural da proposta do modo de produção
escravista colonial, ao retomar a defesa da singularidade do
capitalismo como modo de produção capaz de ser apreendido sob a
forma de economia política, pois apenas nele a “lógica econômica”
determinaria o social.
Apoiada
em apresentação superficial do feudalismo e do escravismo clássico,
a tese de Barros de Castro choca-se com as determinações econômicas
do escravismo colonial, analisadas com maior rigor, paradoxo
argumentativo evacuado com a proposta de que “o modernos
escravismo” teria “importantes traços em comum com o
capitalismo” e “o escravo” constituiria “antecipação do
moderno proletário”. Essa visão retrocedia, a retomar de certo
modo a visão da Escola Socilógica paulista de um “capitalismo
escravista” de um
“escravismo capitalista”.
Portanto,
o escravizador estaria “submetido a uma engrenagem econômica”,
enquanto o trabalhador escravizado não teria o “caráter social
efetivamente moldado pelo regime de produção”. Ou seja, para o
autor, as condições servis de existência não seriam
condicionadas pelas condições de produção. O que ensejaria que
pouco importasse ao cativo ser deslocado da cozinha da casa-grande
para o eito açucareiro!
Mero
“cativo”, o trabalhador escravizado seria ajustado, “bem ou
mal”, “ao aparelho de produção [...] por uma combinação mais
ou menos eficaz de violência, agrados, persuasão, etc.” Em
contexto de “classes explicitamente antagônicas”, sobretudo
“na passagem do século XVIII para o XIX”, quando a produção
assumiu orientação mercantil, as sociedades escravistas avançariam
a partir do confronto social explícito e da consciência dos
senhores do perigo das grandes massas servis.
O
escravo que negocia
Essa
leitura dualista e subjetivista propunha não assentar a devir histórico
da escravidão na oposição mas sobretudo na acomodação entre
senhores e cativos, já que a orientação social dependeria “da
intensidade, direção e êxito da resistência e/ou luta aberta dos
escravos, bem como das respostas encontradas pelos proprietários e
homens livres em geral, para assimilar, acomodar e abafar a presença
hostil e o potencial de rebeldia” servil.
Os
atos de “de rebeldia declarada e aberta” seriam “como o vapor
que escapa ruidosamente da maquina”, “índice de pressão” no
interior da sociedade escravista. Conscientes desse fato, os
senhores adaptariam-se “social, política e militarmente à convivência”
com os cativos, “buscando meios e medidas para atenuar a
combatividade, ou desviar” sua “agressividade”, ensejando que
“o regime social” tenha cedido aos cativos
“transformando-se sob o impacto de sua presença.”
Castro
conclui propondo investigações sobre fenômenos que não teriam
despertado “grande atenção” na historiografia brasileira, como
os registrados pela proposta do “Tratado de Paz”, dos cativos do
“Engenho Santana de Ilhéus”, em 1789 ,
a concessão sistemática de glebas servis no Brasil ,
o aproveitamento das “oportunidades mercantis” pelos
trabalhadores escravizados, etc., que constituiriam expressões das
lutas servis para “construir um espaço próprio” na escravidão.
Segundo
ele, a importância desses atos encontrariam-se no fato de que não
expressariam “apenas o esforço dos escravos no sentido de negar
as condições que os oprimem”, mas sobretudo o processo de
“acomodação” à escravidão que se mobilizaria pela conquista
por parte dos cativos do “reconhecimento da sua existência e
lugar na sociedade.”
Nos
anos seguintes, com maior ou menor sucesso, centenas de
historiadores esforçariam-se para seguir as recomendações de
Castro sobre a necessidade de assentar a interpretação do devir da
sociedade escravista na acomodação ao sistema escravista e não
nos ritmos e determinações da produção e da resistência servil.
A
brecha camponesa
Em
1983, Jacob Gorender apresentou resposta sistemática aos principais
“Questionamentos sobre a teoria econômica do escravismo
colonial”, em artigo publicado na Revista Estudos Econômicos, do
IPEA da USP. Mais uma vez, abria o dossier dedicado inteiramente à
escravidão, que contou com a presença de Flamarion Cardoso, Peter
Eisenberg, Manuel Correia de Andrade, entre outros especialista do
tema.
Esse
texto ensejaria debate historiográfico, articulado em torno da
“brecha camponesa” que, devido ao seu caráter paradigmático,
será analisado em forma mais sistemática.
Na parte três do ensaio – “Escravismo colonial e
economia camponesa” –, Gorender aborda esse fenômeno na
escravidão, apresentado em forma ampla por Flamarion, em 1979, em
capítulo do livro Agricultura, escravidão e capitalismo.
Em
“A brecha camponesa no sistema escravista”, Flamarion retomara a
proposta de Tadeusz Lepkowski da “economia independente de subsistência”
dos quilombos agrícolas e dos “pequenos lotes de terra concedidos
em usufruto, nas fazendas, aos escravos não-domésticos”, como
“atividades que, nas colônias escravistas, escapavam ao sistema
de plantation”.
Para
o autor, no caso do Brasil, aos quilombolas e cativos devia-se
agregar os “lavradores arrendatários das ‘fazendas
obrigadas’” dos engenhos e os “moradores” e os
“parceiros”. No século XVII, no caso das Antilhas, o mesmo
devia-se fazer com os “indentured servants” e “engagés”,
que obtinham nesgas de terras ao terminarem os contratos, mesmo que
a expansão da plantagem corroesse essa economia camponesa.
No
ensaio, apenas se refere à agricultura quilombola, centrando a
discussão no fenômeno do “protocampesinato escravo”, conceito
proposto por Sidney Mintz, de quem se dissocia no que se refere à
dissolução das categorias “escravo” e “modo de produção
escravista”, já que defende que o cativo poderia ser escravo e
camponês, ao viver, em forma alternada, as duas “relações de
produção”.
Um
só modelo
Inicialmente,
Flamarion propõe sua visão geral do fenômeno: o domínio das relações
escravistas sobre as “atividades camponesas” servis; o objetivo
escravista de “minimizar o custo de manutenção e reprodução da
força de trabalho” com a concessão; o recuo da agricultura autônoma
dos cativos nas “épocas de colheita e elaboração dos
produtos”; a importância “econômica e psicologiamente” para
o “escravo”; a compreensão do escravizador do caráter “revogável”
da parcela, “destinada a ligar” o cativo “à fazenda e evitar
a fuga”.
Após
reconhecer a existência “de um só modelo de sistema escravista
na América” e propor a abordagem do fenômeno a partir
“conjunto dos casos observados”, mesmo reconhecendo que ele “não
foi pesquisado igualmente a fundo em todas as regiões
escravistas”, propõe que “a atribuição aos escravos de
parcelas de terra e de tempo para cultivá-las” constituísse
“característica universal do escravismo americano” e que o
“acesso dos escravos aos meios de produção e ao tempo” tenha
tendido “a transformar-se em um direito de fato e, em certos
casos, fixados pela lei”.
Essa
última proposta apoiava-se substancialmente na concepção do caráter
contratual do “escravismo” onde, “como em qualquer regime econômico-social,
se estabelece entre a classe dominante e a classe explorada um
acordo contratual – legal ou consuetudinário – que garante para
a classe dominada, pelo menos de fato, certos direitos cuja infração
traz consigo o perigo de alguma forma de rebelião”.
As
decorrências da proposta de “brecha camponesa” na escravidão
americana eram claras. Propunha-se
a existência de relações de produção camponesas sistêmicas,
isto é, necessárias e universais, no interior do escravismo
colonial, determinando, corroendo e dissolvendo esse modo de produção.
A apresentação da documentação probatória das proposições
avançadas inicia-se com o pelo reconhecimento de que, no Brasil,
“a pouca atenção prestada [...] pelos historiadores à ‘brecha
camponesa’ pareceria indicar certo ceticismo relativo à sua
importância”.
Entretanto, apesar
disso, não se retém a possibilidade de a escassa “atenção”
nascer de escassa importância do fenômeno ou de suas decorrências
diretas e indiretas no escravismo brasileiro.
Ao
contrário, antepõe-se, simplesmente, crença otimista ao
“ceticismo” geral: “Acreditamos que, ao desenvolver-se, o
estudo [...] revelará o grande peso do que chamamos aqui a
‘brecha camponesa’ [...].”
Confiança desmentida pelos estudos historiográficos especializados
das duas últimas décadas que reafirmaram o caráter residual e não
estrutural do fenômeno no Brasil.
Documentação
sumária
A
sumária documentação probatória apresentada sobre o Brasil
reduz-se a pouco mais do que referências a Antonil, Benci, Vilhena
e a estudo de Stuart Schwartz, o mesmo ocorrendo para o sul dos USA,
onde se afirma que “estava bem assentado” o “hábito de
conceder aos escravos lotes de terra em usufruto e o tempo para
trabalhá-los” e que existiriam “alguns indícios de que a posse
sobre a parcela e a garantia do trabalho livre eram direitos
amplamente reconhecidos [...]”.
A
abordagem do fenômeno nas guianas francesa e inglesa e nas
Antilhas, feita a partir de informação relativamente mais rica,
assinala a existência de dois lotes servis, um perto da cabana, o
outro em geral em terreno montanhoso, mais afastado. Registra-se
igualmente o movimento dos cativos, em algumas regiões, quando da
abolição da escravatura, pela compra-aluguel dos lotes servis.
Referências esparsas são apresentadas para a Venezuela, Cuba,
Porto Rico, etc.
A
partir da comprovação da existência quanto muito lacunar e
desigual desse fenômeno na América escravista, conclui-se
afirmando a universalidade do fenômeno e, paradoxalmente,
desautorizando relativamente seu caráter sistêmico: “[...] em
todas as colônias ou regiões escravista – embora em proporção
variável –, muitos dos escravos dispunham de lotes em usufruto e
do tempo para cultivá-los [...]”.
Nas
páginas finais do ensaio, Flamarion apresenta otimista avaliação
de corte impressionista da produtividade da produção da
agricultura autônoma servil, sobre a qual não se tenta estimativa
concreta. Em “Saint-Domingue”, “na horta próxima” à
“cabana, plantavam árvores frutíferas e legumes, além de criar
galinhas e ocasionalmente também perus, porcos e cabras. Nos
terrenos comuns, plantavam bananas, milho, raízes (madioca,
batada-doce, inhame, etc.).”
A
avaliação positiva é estendida também ao seu caráter e
rentabilidade mercantil. Propõe-se que na Jamaica “os escravos
também cultivam, por sua conta, café, gengibre e alguns produtos
menores de exportação” que, na Venezuela, além de produtos de
subsistência, os cativos “preferiam” plantar “cacau”,
constituindo verdadeiras “pequenas fazendas – haciendillas –
dentro da fazenda maior”.
Pequenos
banqueiros
Na
“Guiana Francesa”, os cativos “monopolizavam quase totalmente o mercado interno de cassave
(preparação da mandiocas) e aves, tendo em seu poder grande parte
da moeda que circulava na colônia”. Na Jamaica, os cativos teriam
chegado a “possuir 20% da moeda em circulação, e a legar, em
seus testamentos informais, até duzentas libras esterlinas!”.
Após
reafirmar que “em
todas as colônias a inserção dos escravos nos circuitos mercantis
era semelhante”, propõe-se como “finalidade primordial” dessa
produção “obter suplementos de alimentação e vestimenta de
melhor qualidade (incluindo jóias [sic] e sapatos), tabaco e
bebidas”.
Uma
realidade que se estende ao Brasil, ao aceitar-se sem retenção a
proposta de Stuart Schwartz de que os trabalhadores escravizados do
engenho de Santana “eram capazes de produzir um excedente
comercializável” e “participar diretamente na economia de
mercado [sic] e acumular capital [sic]”!
Produção servil que eventualmente negaria a proposta
historiográfica da inexistência de um verdadeiro “mercado
interno” colonial apontando em direção do “desenvolvimento
industrial”!
Na
“conclusão”, propõe-se retenção nas conclusões sobre o fenômeno
totalmente ausente no corpo do texto: em geral, as parcelas “não
chegavam a garantir a totalidade” da subsistência servil; muitas
vezes prevalecia “a forma extrema da lógica” plantacionista;
“nem todos os cativos se beneficiaram com o sistema”; nem todos
os cativos tinham energia ou disposição para empregar suas poucas
horas de repouso nessa atividade.
Crítica
metodológica
Inicialmente,
em “Questionamentos sobre a teoria econômica do escravismo
colonial”, Jacob Gorender propõe que Flamarion aborde aquela
questão “sem recorrer às categorias de formação social e de
modo de produção”. Ou seja, que assimile modos de produções
diversos, dominantes e dominados, coexistentes em uma mesma formação
social. Lembra que nas formações sociais escravistas da
Antiguidade e dos Tempos Modernos, ao lado do modo de produção
escravista dominante, subsistiram “variados tipos de atividade
camponesa”, “dependentes ou não”.
Assinala
que definira em O escravismo colonial a existência de “modo de
produção dos pequenos cultivadores não-escravistas”, “secundário
na formação social escravista”, “no qual se agrupavam os
sitiantes minifundiários, os posseiros e os agregados ou
moradores”. Esses trabalhadores ficariam excluídos “de todo”
na “consideração da chamada ‘brecha camponesa’”.
Quanto aos “lavradores, proprietários ou arrendatários, que se
incumbiam de plantar cana-de-açúcar para fornecê-la a engenhos
alheiros” “eram escravistas, e até grandes escravistas”,
“organicamente integrados no modo de produção escravista
colonial”.
Quanto
aos quilombos, assinala que se situavam “fora” do âmbito do
escravismo colonial, apesar de eventualmente manterem “vínculos
de intercâmbio” com ele. Não introduzindo “qualquer alteração
no modo de produção escravista colonial em si mesmo”, os
quilombos não eram, conseqüentemente, “argumento em favor da
suposta ‘brecha camponesa’.”
Portanto, “as formas camponesas não” reporesentariam
“brecha alguma no modo de produção escravista dominante, seja
patriarcal como colonial, uma vez que não faziam parte de sua
estrutura”.
Ao
contrário, “o cultivo autônomo de lotes de terra pelos escravos
dentro do âmbito da plantagem” constituía fenômeno da
“estrutura do modo de produção escravista colonial” sujeito à
necessária análise. Sobre essa realidade, Gorender afirma:
“Cardoso resume as referências da bibliografia secundária sobre
o assunto e conclui que se tratou de prática generalizada nas
diversas regiões do escravismo americano”, “com diferença de
amplitude para cada região”.
Para
Gorender, esse “cultivo de gêneros”, “atividades de
coletoras”, “criação de pequenos animais”, etc., para
auto-consumo” ou, eventualmente, para a venda, teriam sido
reduzidas nos USA. “pois as plantagens mantinham cultivos próprios
a fim de alimentar” os cativos, e “maior desenvolvimento” no
Caribe, onde se registraria “apreciável participação comercial
dos próprios escravos com a venda de seus produtos e um grau de
estabilidade no usufrutos dos lotes, que permitia mesmo legá-los”.
Debate
antigo
Gorender
lembra que ao contrário do proposto por Flamarion, vários
“historiadores e sociólogos abordaram, conquanto, em certos
casos, apenas de passagem” a questão. Assinala que tratara
igualmente em O escravismo colonial o fenômeno, a partir de uma
dezena de fontes primárias e quase o mesmo número de estudiosos.
Em
1978, naquela obra, refutara amplamente a tendência a universalizar
e a superestimar a produtividade das roças servis e, sobretudo, a
proposta de Passos Guimarães, dos anos 1960, em Quatro séculos de
latifúndio, do trabalhador escravizado ser em parte escravo e em
parte servo-camponês, devido ao controle de glebas servis. Aquele
autor defendera também a extensão da concessão de terras ao
cativo.
Gorender
resenha a seguir a visão apresentada em O escravismo colonial sobre
a questão. A prática teria sido transportada pelos portugueses da
ilha de São Tomé, nas costas da África, no século XV, para o
Brasil, sendo aplicado em forma “extremamente irregular na área
da produção açucareira”. Engenhos não concediam lotes e outros
avançavam no tempo livre dos cativos quando da safra, “quando as
jornadas de trabalho podiam prolongar-se até dezoito horas e os
dias de descanso eram muito espaçados”.
A
prática da plantação de gêneros alimentícios ou, até mesmo,
comerciáveis, em pequenas parcelas, nos “domingos e dias santos
de guarda”, teria sido maior nas plantagens de algodão e café,
possivelmente devido a menores exigências do “processo
produtivo” nessas explorações, em relação ao açúcar.
Sobretudo na cafeicultora, lembra estar documentado “a alimentação”
servil, “no fundamental, pelas plantações e criações dos próprios
fazendeiros”, contribuindo a exploração dominical de lotes com
“recursos acessórios” aos cativos.
Direito
ao descanso
Sobre
a origem última da prática, aceita que pode ter sido iniciativa
dos cativos, mas lembra que sua introdução constituiu um
retrocesso em relação à conquista da “dispensa do trabalho nos
dias feriados, durante o escravismo antigo”, “favorável ao
senhor, uma vez que obrigava o escravo a trabalhar mesmo no dia
consagrado ao descanso a fim de suprir uma parte do produto necessário
à auto-subsistência”, elevando o “grau de exploração do
trabalho escravo”.
Fenômeno
que determinava o entrosamento orgânico dessa prática “na
estrutura do modo de produção escravista colonial, não se
tratando de dois sistemas, porém de um único”. Uma integração
semelhante a existente no feudalismo entre o trabalho para o senhor,
na reserva senhorial, e do servo para si, na gleba que detinha. “A
concessão de um lote ao escravo não passou de uma forma variante,
inessencial e condicional, do segmento de economia natural, podendo
inexistir ou ocupando apenas uma parte desse segmento.”
Mesmo
aceitando que os cativos esforçavam-se para ampliar o “espaço de
autonomia que o usufruto do pequeno lote lhes concedia”, Gorender
ressalva o extremo grau de exploração do cativo na produção de açúcar,
na América escravista, com jornadas infernais de trabalho que
ensejavam uma “extrema estreiteza e a precariedade do cultivo autônomo
do escravo”.
Lembra
que o direito à formação de pecúlio pela trabalhador
escravizado, comum na Antiguidade européia, fora tardio e limitado
no escravismo brasileiro. Rejeitando as visões gentis da escravidão,
assinala que no escravismo americano "devia prevalecer, em
proporção esmagadora, a massa de escravos agrícolas condenada a
impiedosa exploração e sem outra perspectiva que não a morte na
escravidão”.
Quinta
edição
Como
assinalado, em 1985, nove anos após ter concluído a redação de
sua tese, Jacob Gorender revisou e ampliou, "em cerca de dez
por cento" o texto original quando da quarta edição de O
escravismo colonial, que se tornaria sua segunda e definitiva versão.
Em depoimento a José Tadeu Arantes, que o entrevistara, em 1978,
para o semanário Movimento, após o lançamento de O escravismo
colonial, assinalou que a revisão reafirmava a “estrutura” e as
“teses” essenciais da obra através de “fundamentação mais
profunda, mais flexível e mais ricas de várias” de suas
“teses”.
No
"Prefácio à quarta edição", enfatiza igualmente que as
"modificações introduzidas" mantinham e reforçavam
"em conjunto todas e cada uma das teses da primeira edição".
Os temas ampliados foram “trabalho escravo e alto custo de vigilância”,
“plantagem escravista e progresso técnico”, “características
do tráfico africano” “escravismo patriarcal e antigo”, “a
lei da população escrava”, “a alforria”, o “tratamento dos
escravos”, “lavradores e evolução da renda da terra”, “a
escravidão em Minas Gerais”, “escravidão e industrialização”,
“os pequenos escravistas”, a “escravidão no setor
cafeeiro”.
Na
entrevista, Gorender referiu-se à influência, “nos últimos
vintes anos”, “das correntes historiográficas norte-americanas
no Brasil”, com destaque para a interpretação neo-pratiarcalismo
representada pelo “ex-marxista” Eugene Genove que, inspirando-se
em “Gilberto Freyre”, apresentava “os escravos americanos como
a classe trabalhadora melhor tratada do mundo, do ponto de vista matéria,
em sua época”.
Nesse
cenário historiográfico nacional onde dominava a “revivescência
da influência de Gilberto Freyre”, sobretudo através da
historiografia norte-americana, propunha que não “seria de
estranhar que chegássemos ao centenário da Abolição” “com
uma reabilitação também do escravismo brasileiro”. Tese que
seria desenvolvida, em forma sistemática, em 1990, em A escravidão
reabilitada, que teve influência marcante na intervenção de
Gorender na discussão sobre o escravismo, como veremos
oportunamente.
A
brecha camponesa
Em
1987, Escravo ou camponês? O protocampesinato negro nas Américas,
Ciro Flamarion Cardoso retomou o debate sobre a proposta de brecha
camponesa, em resposta extremamente ácida à refutação de
Gorender, de quatro anos antes, em “Questionamentos sobre a teoria
econômica do escravismo colonial”. No livro, descreveu a crítica
como eivada de “erros” historiográfico e produto de “visão
monolítica” e “classificatória” da história, “à maneira
dos velhos manuais do marxismo”. Como assinalado, Gorender
traduzira manuais da Academia de Ciência da URSS nos anos 1960.
Escrito por um dos primeiros e mais brilhantes defensores da
categoria escravismo colonial, a resposta de Flamarion obteve grande
repercussão acadêmica.
O
breve ensaio Escravo ou camponês? divide-se em três partes. Na
primeira, desenvolve-se proposta de apresentação, explicação e
correção de sua leitura sobre o escravismo americano. Nas duas
seguintes, empreende-se defesa geral da proposta da brecha camponesa
como fenômeno “estrutural”, de orientação mercantil, no
Brasil e na América escravistas.
Para tal, apresentam-se incidências da “brecha camponesa” no
sul dos USA, no Caribe britânico, francês e espanhol, apoiado
sobretudo em relato de viajantes, tratadistas coloniais e trabalhos
historiográficos isolados, o que facilita a descrição de
paisagens otimistas sobre aquele fenômeno e as condições de existência
servil.
No
relativo à Carolina do Norte, Flamarion escreve: “Além do que
produzissem em suas parcelas, os escravos recebiam abundantes rações
de alimentos, provenientes da produção da própria plantations
pertencentes a Pettigrez: peixe, carne, arroz, milho, farinha de
trigo, eventualmente frutas.”
Sobre a Virgínia: “Muitos [...] evitavam tal trabalho extra e
viviam só das rações. Estas eram tão abundantes que os negros
negociavam com partes delas, comprando aos domingos, a brancos
pobres da redondeza, uísque que consumiam às escondidas [...].”
A
situação no sul algodoeiro seria a mesma: “[...] também lá os
negros eram bem alimentados, além de possuírem parcelas, galinhas
e chiqueiros, cujas produções vendiam (comprando, entre outras
coisas, farinha de trigo), além de venderam o produto da caça.”
No
mesmo sentido, supervaloriza-se a produtividade e a orientação
mercantil da “economia autônoma” dos trabalhadores
escravizados, sem apoio de documentação conclusiva: “O produzido
nas parcelas (às vezes incluindo algodão), criando animais e em
atividade extrativista, era, normalmente, vendido: com o dinheiro
obtido, os escravos compravam roupas, fumo tecidos e outros
objetivos (jóias [sic], brinquedos para as crianças, anzóis,
utensílios de cozinha, etc.).”
Lotes
minúsculos
Cenário
que contradita com o reconhecimento de que os lotes eventualmente
concedidos aos cativos eram minúsculos – “não eram grandes”
–, possuindo, habitualmente, no Caribe francês dois ares per
capita. Ou seja,
quarenta metros quadrados! No Caribe britânico, o terreninho podia
ser de 25 a 30 pés quadrados: uns oitenta metros quadrados!
A
limitada extensão de terra e de tempo livre que gozavam os cativos
delimitavam materialmente a produção possível dessas glebas. O
que recomenda retenção no que se refere a generalizações de
casos exemplares de cativos, para que não distorçam a descrição
essencial do fenômeno em discussão.
Em
Escravo ou camponês?, citam-se trabalhadores escravizados que
legaram “até duzentas libras esterlinas!” e reafirma-se que
“graças às suas atividades comerciais, [...] chegaram a possuir
20% da moeda em circulação”. Afirma-se que “os negros
exerciam, em Saint-Domingue, um grau considerável de poder econômico”.
A sugestão de altíssima produtividade dessas parcelas é reiterada
em afirmações como: “Num caso, um hectare e meio de terra,
cultivado por três homens e três mulheres, rendia, em média,
vinte francos por dia! O ganho médio anual que se podia esperar de
um lote individual era estimado variavelmente entre 200 e 800
francos.”
A
apresentação otimista da produção possível dos micro-lotes, nas
escassas horas de trabalho permitidas, é viabilizada comumente por
descrições impressionistas produzidas com a aglutinação de atividades de diversas micro-glebas, através
do uso de vírgula substituta da preposição aditiva “e”, ali
onde devia de rigor usar-se a conjunção alternativa “ou”.
“Os cativos plantavam em seus lotes mandioca, bananas, batatas,
inhames, legumes diversos, árvores frutíferas. Criavam galinha,
coelhos, porcos, ovelhas, às vezes mesmo vacas e cavalos [...].
Também praticavam o artesanato, cortavam madeira e fabricavam carvão,
coletando forragem para vender, pescavam, etc.”
Paradoxalmente,
após as longas apresentações otimistas, lembra-se que “Tomich
chama a atenção, sensatamente, para o perigo do exagero: eram
poucos os escravos realmente prósperos; havia muitos vivendo na penúria
mais extrema; existiam, ainda, aqueles que recusavam a continuar
trabalhando nas horas e dias livres, ou não agüentando fazê-lo,
preferindo receber rações dos senhores.”
Sem
avançar
A
réplica de Flamarion limita-se a reafirmação e radicalização do
proposto, sem refutação dos questionamentos metodológicos
apresentados por Gorender. Não há também ampliação sistemática
do material empírico apresentado. Boa parte da documentação na
qual se apoiara fora já utilizada e citada por Jacob Gorender em
Escravismo colonial. No relativo ao Brasil, os poucos casos
registrados de concessão de nesgas de terras referem-se sobretudo
à economia açucareira e a propriedades rurais de ordens
religiosas.
Mais
comumente, eles reafirmam o caráter aleatório e não sistêmico da
prática. Em 1700, Benci registra que “alguns senhores” davam
“um dia” aos cativos para produzirem mantimentos. Em 1711,
Antonil afirmava também que “alguns senhores” costumavam
conceder “um dia em cada semana para plantarem para si”. No
final do século 18, Vilhena reafirma o caráter não sistêmico da
prática e, em meados do século seguinte, em Vassouras, fazendeiros
“recomendavam” a sua adoção como forma de diminuir a resistência
servil.
No
relativo ao Brasil não se empreende a super-estimação da
produtividade dessas parcelas realizada para os Estados Unidos e o
Caribe. Entretanto, como assinalado, aceita-se acriticamente a
proposta de Schwartz de que os cativos do engenho de Santana “eram
capazes de produzir um excedente comercializável” e “participar
diretamente na economia de mercado [sic] e acumular capital
[sic]”!
Proposta
que não compreende a economia servil como miserável poupança
monetária, capaz, no melhor dos casos, de, após décadas,
viabilizar a alforria de um produtor envelhecido, como registra ad
nausean a documentação, mas sugere, ao contrário, uma dinâmica
economia que ensejaria verdadeiro “mercado interno” e apontaria,
quem sabe, em direção do “desenvolvimento industrial”, através
da produção de “capital”, como já assinalado!
Em
alguns casos, ao contrário do defendido, a documentação
apresentada aponta para a prática extraordinária daquele hábito.
Como é o caso do estudo da escravidão em Goiás, em que Eurípides
Funes encontrou registro documental de roças de cativos em menos de
dez por cento das propriedades registradas! Ou seja: mais de noventa
por cento poderiam não conhecer esse fenômeno.
Generalização
do singular
Portanto,
baseado em documentação lacunar que não raro infirma o proposto,
sem discutir as refutações metodológicas apresentadas, propõe-se
que o fenômeno teria se convertido “em costume cada vez mais
arraigado e difundido”, “indispensável” ao escravismo
brasileiro. Em inversão arbitrária da realidade objetiva,
afirma-se terem sido “casos individuais” e “conjunturas variáveis”
aqueles nos quais “certos senhores puderam preferir e impor o
sistema de rações”!
Flamarion
e, salvo engano, nenhum autor que defendeu na época a alta
produtividade, o caráter mercantil e a generalização da brecha
camponesa no Brasil tentou responder sistematicamente as questões
incontornáveis decorrentes da proposição. Entre elas, por que os
escravizadores não distribuíram as terras entre os trabalhadores
escravizados e limitaram-se à cobrança de renda, repetindo nas Américas
a transição do escravismo ao feudalismo, através do colonato, já
que eram tão elevada a produção desses “pedacinhos de terra”
explorados com instrumentos rústicos e escasso gasto de tempo?
Transição
reforçada pelo fato de que essas práticas contribuiriam para a paz
na senzala, reduziriam os gastos marginais de segurança, poriam fim
à hemorragia de recursos exigida
pela renovação das escravarias dizimadas na produção, através
do tráfico. Como se sabe, o camponês, com alguma terra e
autonomia, pare filhos como coelhos! Finalmente, se, nas últimas décadas
da escravidão, a concessão de parcelas de terras e a consolidação
do controle servil sobre ela cresceu – e não diminuiu –, por
que não se conheceu no Brasil mobilização multitudinária por seu
controle, no contexto da luta abolicionista, como em regiões da América
escravista onde o fenômeno assumiu importância?
Ou
seja. Por que os cativos abandonaram as fazendas em que viviam, com
tanta facilidade, procurando comumente a liberdade nas cidades ou
relações assalariadas em outras propriedades, não empreendendo
resistência aberta ou velada pelo controle das hortas que, segundo
se propõe, explorariam multitudinariamente, com tanta felicidade?
Nos
últimos quinze anos, as investigações sobre o escravismo colonial
no Brasil terminaram solucionando pela negativa as questões em
discussão. Hoje, não há mais dúvidas sobre o caráter não sistêmico
da concessão de hortas
aos cativos, o limite da produtividade dessa produção e sua
orientação dominante para a satisfação das necessidades de
subsistência dos produtores. Em geral como propusera Jacob
Gorender, em 1978, em O escravismo colonial: “No regime
escravista, a economia própria do escravo nunca representou peça
indispensável, sempre foi acessória e condicional.”
Ninguém
é inocente
Como
sugere o título, A escravidão reabilitada, de 1990, constituiu duríssima
resposta às críticas contra a interpretação escravista colonial
do passado brasileiro que alcançavam então verdadeiro apogeu,
caracterizadas explicitamente como “reabilitação” da escravidão
e refinamento das teses patriarcalistas de Gilberto Freyre.
Partindo
do princípio que o “trabalho historiográfico nunca é
inocente”, o autor apontou as raízes ideológico-sociais
profundas das obras que analisa, caracterizando o forte viés
social-democrata do revisionismo historiográfico sobre a escravidão
então em curso: “[...] se foi possível e viável a conciliação
de classes entre senhores e escravos [...] muito mais possível e viável,
vem a ser a conciliação entre capitalista e assalariados.”
Quando
da edição de A escravidão reabilitada, em 1990, vivíamos a ápice
da vitória histórica da contra-revolução mundial, da dissolução
da URSS e dos estados operários degenerados do Leste europeu e da
vaga neoliberal que varreria conquistas históricas do mundo do
trabalho em todo o mundo, através de avassalador movimento de
privatizações, destruição de conquistas sociais, dissolução de
partidos e organizações operárias, etc.
A
crítica de A escravidão reabilitada, apresentada sem nuanças
formais em momento em que se aprofundava abismalmente o domínio das
forças sociais nacionais e internacionais que apoiavam as tendências
irracionalistas nas ciências sociais, ensejou a formação de ampla
e sólida frente de oposição acadêmica contra o autor e sua
interpretação, num momento em que se vivia refluxo quantitativo e
qualitativo das pesquisas historiográficas nacionais sobre sobre o
mundo social, em geral, e sobre
a escravidão, em particular.
A
“resenha” de Sidney Chalhoub A escravidão reabilitada é
exemplo paradigmático desse movimento. O autor procura depurar o
debate sobre o escravismo de qualquer sentido político e ideológico,
tornando-o mero tema acadêmico, despido de transcendência
epistemológica e social. Nesse sentido, registra não compreender
“o porquê” da “historia da escravidão” ser para Gorender
“uma questão e importância tão transcendental”.
Complô
escravista
Na
resenha, Gorender é acusado da mesma “monomania classificatória”
do “médico alienista, de Machado de Assis
“que com suas experiências científicas lançou o terror
entre os habitantes da vila de Itaguaí”. Apenas no presente caso,
as vítimas seriam os “historiadores que se atreveram a escrever
sobre a história da escravidão e da abolição”, contra os quais
o autor utilizaria o mesmo método “abrangente e aterrador” do
alenista-alienado.
A
escravidão reabilitada seria produto da mente de um autor que se
tomava por “vítima de um complô urdido nas hostes revisionistas”.
Segundo o autor, Gorender não teria autoridade científica e ética,
já que “nunca” teria feito “uma pesquisa histórica
prolongada nos arquivos da escravidão brasileira – limitou-se, até
hoje, a ler alguns documentos [sic] impressos e livros de
viajantes”. Seguindo no mesmo sentido, Gorender é acusado de
fundamental “seus procedimento de crítica historiográfica no
truque e na pilhagem.”
Praticamente
limitando sua referência ao livro resenhado ao “sic” posposto
após o título, Chalhoub conclui o arrazoado retomando a crítica
de Gorender defender em O escravismo colonial a visão do
“escravo-coisa” – “representação acadêmica segundo a qual
os escravos só conseguiam pensar o mundo, e atuar sobre ele, a
partir dos significados sociais impostos pelos senhores” –,
deixando-se assim “seduzir” “completamente pela lógica dos
escravocratas”. Ou seja, além de maluco, seria negreiro!
No
longo e árido contexto social caracterizado pelas propostas de fim
da história, encerraram-se praticamente as discussões sobre a
multiplicidade de modos de produção, já que a própria proposta
de compreensão tendencial do passado foi anatemizada como, no mínimo,
visão ideológica de prática historiográfica dirigida para campos
mais gentis e menos conflitivos, como a história da vida privada,
da cultural, das mentalidades, dos sentimentos, dos costumes, dos hábitos,
etc., sobretudo das elites do passado e do presente.
Na
década seguinte, reduzido a um mero campo de estudo dos fenômenos
singulares da formação social brasileira, desconectado de
interpretação totalizante dos fenômenos em discussão, a
historiografia da escravidão dedicou-se sobremaneira à análise
das propostas dos pactos e consensos entre cativos e seus
escravizadores e da defesa da existência sistemática da família
escravizada no Brasil, as últimas estratégia de reconstituição
do consenso estrutural da escravidão proposto pelos escravistas,
quando da escravidão, e pelos intelectuais orgânicos das elites
brasileiras, após a Abolição.
Nos
anos noventa, comumente, as bibliografias de dissertações e teses
sobre a escravidão brasileira não mais arrolaram O escravismo
colonial, numa prepotente tentativa de comprovação da superação
final da fratura ocorrida no mundo sas representações dominantes
ocorrida no já distante ano de 1978.
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