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Por JULIO CÉSAR DE TAVARES
Departamento Estudos Culturais e Mídia – IACS / UFF
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Atitude,
Crítica Social e Cultura Hip-Hop:
A
Face Afrodescendente dos Intelectuais Público Brasileiro
Foi em Nova York, Estados Unidos, há cerca de dez anos,
quando tive a oportunidade de conviver com jamaicanos,
portoriquenhos e capoeiristas brasileiros que produziram o break e o
HIP HOP, no final dos anos setenta que, então, descobri a origem da
força desta recente expressão da arte e cultura afrodiaspórica
contemporânea. Como resultado, no final dos anos 90, já me
encontrava transformado e contaminado o suficiente para apreciar a
nova lírica da resistência na diáspora africana, bem como
motivado para o entendimento da circulação daquela cultura no
plano mundial. Este aspecto vem provar que se pode aprofundar a consciência
nativa fora do seu próprio território e, desta forma, conhecer
melhor os aspectos específicos de nossa nacionalidade, cultura e
etnia, mesmo de fora de nosso próprio contexto nacional ou étnico.
Compartilhando esta linha de reflexão, o trabalho que aqui
apresento pretende trazer uma contribuição para a compreensão do
processo de visibilização do negro no cotidiano brasileiro,
ocorrido principalmente durante os últimos dez anos. Apoiado nas
evidências que nos apontam para a existência de um processo de
ampliação de uma esfera pública representativa dos
sujeitos subalternos na sociedade brasileira, gostaria aqui de
apontar alguns dos aspectos que podem ser sociologicamente
localizados nesta experiência estético-cultural que invade a cena
fonográfica contemporânea, orientando, por sua vez, a constituição
de uma esfera pública negra. Trata-se, portanto, de se
pensar - no calor da hora -, os efeitos de realidade produzidos pelo
discurso HIP HOP e como práticas comunicativas que se
transformam em formas de vida, isto é, tracos que reproduzem
determinados padrões emanados das experiências de confronto pelo
reconhecimento.
O Ato de Desagravo na Cidade de Deus
Foi na noite de 25 de dezembro de 2000. Chovia
torrencialmente. Sigo debaixo de chuva pela Linha Amarela, entre
dezoito e dezenove e trinta horas, rumo à Cidade de Deus. Chego
enfim ao campo de futebol mais importante da comunidade, na Praça
do Coroado, local designado para a grande performance da noite. O
palco estava tecnicamente impecável, decorado com um jogo microcromático
de luzes e as caixas emitiam som limpo e preciso com boa definição.
O local já encontrava-se tomado por milhares de pessoas que dali não
arredavam o pé, a despeito do mal tempo.
Por fim, o apresentador se aproxima do público e convida o
astro maior do evento. MV
Bill se aproxima, e com ele, chegam rolos de fumaça, de tom
esverdeado, amarelado, azul e branco que são liberados para se
enroscarem em outros tantos rolos até que se compusesse uma cena
nebulosa que envolve a estrela da noite.
Ao iniciar sua apresentação, Bill agradece ao público que
se amontoava desde cedo à sua espera, de forma a prestigiar o filho
pródigo que, por sua vez, presenteava a comunidade com um show
repleto de estrelas em plena noite de Natal, a data mais
representativa do calendário de nossa cultura.
Aproveitando a pausa após os aplausos, MVBill, o Mensageiro
da Verdade proferiu: “Sinto-me absolutamente em casa”, afirmou.
Em seguida, com uma batida que nos remeteria às batidas ijexá, o
percussionista inicia o show. Bill, então, começa a “traficar as
informações” de sua experiência de menino negro, nascido e
criado naquela comunidade pobre. Além de sua voz e corpo, chegam
também ao palco alguns aliados – célebres - do rapper: os
integrantes do grupo Cidade Negra, os astros da MPB Djavan, Caetano
Veloso, e muitos outros. A todos MVBill agradece a presença naquele
verdadeiramente significativo ato de desagravo. A esta altura
do evento, a platéia, aquecida pelo ritmo, já ultrapassava a casa
dos milhares, transbordando alegria, e com os braços erguidos, se
deixava embalar por aquela nostálgica melodia, que alimenta um novo
posicionamento e atitude face à violência cotidiana.
Corporeidade, Políticas e Subjetivização
Estas imagens descrevem o primeiro ato de desagravo para um
rapper. Realizado na própria comunidade, com a presença de
intelectuais, políticos e artistas, o objetivo do ato era repudiar
a acusação de que MV BILL estaria vinculado à violência e ao
crime organizado. A acusão foi apresentada por policiais e
advogados que alegavam estarem as letras de suas músicas celebrando
a violência e fazendo apologia ao tráfico de drogas, quando, na
verdade, estas eram proferidas como manifestação de indignação.
Muito mais que o desagravo e a solidariedade política de
intelectuais e artistas, o evento comprovava também que, através
do ritmo, permanecemos criando arenas políticas e cognitivas que
promovem a identidade étnica e social, da mesma maneira que o
futebol, o samba, a capoeira, ou, como se descobriu mais
recentemente, o jongo.
Retiradas do contexto em que foram elaboradas e do seu uso
ordinário, tais letras tornaram-se narrativa de um sujeito social
na primeira pessoa. Aqueles que acusavam Bill perdiam a dimensão
performática do rapper, cuja função estética é evocar para si
um processo que é coletivo e transformar em crônica autobiográfica
a lírica musical. Portanto, desatreladas das formas de vida a que
se vinculam e interpretadas como signos produtores de uma apologia
do crime e da violência, as palavras conotavam tais idéias pelo
fato de penetrarem o território das hegemonias mediáticas e
introduzirem neste espaço, até então proibido aos excluídos da
cidadania, uma nova cadeia de significantes. Linguagem que se
estabelece como resultado da atitude ética, ali mesmo, no palco,
iniciada, pronunciada e exposta ao público, com gestos largos através
do tórax despido, braços tatuados e músculos tonificados. Para além
da aparente exibição corporal, entretanto, estes mesmos gestos
podem também simbolizar uma atitude que dissemina políticas de
subjetivação localizadas no confronto com as formas de descolonização
e a afirmação dos múltiplos corpos, que configuram o desenho
arquetípico, por onde passa o corpo negro. E por onde emanam as crônicas,
as narrativas e relatos do cotidiano, deste mesmo corpo negro. Corpo
alvo, corpo território, corpo arquivo e o corpo arma.
Produzimos aqui um breve parênteses, para a definição dos
termos ora inseridos. Explico-os: Corpo alvo: corpo
culturalmente perseguido e transformado em objeto do desejo e da
criminalização. Corpo território: corpo sob o qual
incidiram séculos de discriminação, agora plataforma de uma
proposta, que pela via da rebeldia, anuncia mais uma forma que se
quer autêntica de transformação das marcas sociais de exclusão,
fato constante desse corpo negro, em toda a extensão da diáspora
africana. Corpo arquivo: corpo que guarda na sua implícita
memória fisiológica a força poética com gestos e posturas. Corpo
arma: corpo que amalgama a ruptura, a liberação e a esperança,
promovidas através da ambigüidade e da fala.
O etnógrafo nativo e a política do cotidiano
Partindo do lugar da experiência, a viagem que Bill nos propõe
é um relato consciente e experienciado em primeira mão das condições
sociais do seu respectivo contraponto étnico racial. Na sua condição
de participante dos próprios eventos que narra, Bill não
divorcia-se da sua função de observador do cotidiano, das
comunidades excluídas e agente direto dessa experiência.
Fato que assegura que Bill lance para toda a sociedade um
alerta com ritmo e poesia, a respeito do lado perverso e desigual de
nossa configuração social. Assim agindo, proporciona a emergência
de um rico arsenal de informações e emoções, equivalente à
experiência de um etnógrafo nativo que, sob a forma de crônica,
relata a violência cronificada nas vivências comunitárias, o
fazendo desde dentro para desde fora.
A narrativa aplicada de Bill nos permite olhar, de maneira
direta e objetiva, para a situação real das crianças e dos
adolescentes. E, porque não dizer, do futuro desse país. Em conseqüência,
seu recado apaga todo e qualquer romantismo, metafísico, que tente
explicar essa realidade repleta de violações dos direitos básicos
dos cidadãos. Como no filme “Cronicamente inviável”, o nosso
rapper aponta para a cadeia sistêmica dos comprometimentos com a
desgraça social que dissemina mazelas em todas as direções, mas
cujos resultados recaem sempre sobre os desprotegidos, negros e
pobres assentados no caldeirão que, há mais de quinhentos anos,
cultiva a perversa prática de banalizar as mazelas do real.
A atitude proposicional do rapper torna a sua função ainda
mais cruel, ao colaborar com a rede sistemática de desconstrução
do sonho do Brasil pacífico, do Brasil cordial, do Brasil
homogêneo e harmônico. O Brasil como uma só nação e um só
povo. O relato de Bill, pelo contrário, nos revela os outros possíveis
Brasis, o Brasil heterogêneo, permanentemente conflitivo, e, ainda,
cognitivamente escravocrata e colonial. Juntamente com outros
“rappers de raiz”, como os seus padrinhos, os Racionais MC e os
conterrâneos Nega Gizza, Marcelo D2, Preto Junior, e tantos outros,
Bill conduz-nos a testemunhar a história cotidiana das favelas do
Rio de Janeiro e da periferia de São Paulo. Oferecem-nos, deste
modo, uma substancial contribuição para que se vire a página
destes cinco séculos de escamoteamento e dissimulação dos
antagonismos e confrontos raciais. Com seu jeito intolerante com a
intolerância, Bill inclui, sem pedir licença, sem gentileza, mas
com firmeza e sinceridade, os excluídos na narrativa cotidiana da
história do Brasil. Todavia, para além das simbologias macro-sócio-culturais,
e das elisões e motivações localizadas na microfísica social, é
necessário que apontemos para uma outra questão embutida neste
mesmo pacote.
Música, linguagem e política
Em meio a esta conjuntura violenta e imprecisa na qual
vivemos, percebe-se um ethos de esperança que encontra forte
repercussão na cultura HIP HOP no Brasil. O estrondoso sucesso de
mercado e de política organizacional do movimento HIP HOP, deve ser
creditado à expressão globalizada da música negra,
atentando-se para o fato de que, no Brasil, sintomática e
singularmente, não se fala em música negra e sim em “black music”.
Semioticamente, podemos identificar este mecanismo como mais uma
armadilha que permite reter a força vigorosa que a idéia de ‘música
negra’ é capaz de brindar, pois, acredito que a expressão ‘música
negra’ funcionaria no contexto cultural brasileiro como um aríate,
uma arma de combate no campo estético e cognitivo. O emprego desta
expressão em inglês, ‘black music’, impediria a percepção do
efeito político conduzido pela expressão ‘música negra’.
Assim, no campo de produção de sentido, tal expressão
permaneceria, portanto, neutralizada na sua origem política mais
profunda que, no caso, remete ao confronto étnico no campo estético.
Cabe, ainda, ressaltar: é em contextos como estes que
percebemos com clareza a força política da língua. Diferentemente
da visão ordinária, na qual os estrangeirismos cumpririam um papel
de dominação da cultura exterior, em casos como estes, “black
music” contribui para amenizar o confronto cognitivo de uma
independência étnica na estética, e, agindo deste modo, a expressão
opera como uma espécie de blindagem cognitiva. Por blindagem
cognitiva compreendo os efeitos do secular processo de dissimular,
que os mecanismos de linguagem, isto é as metáfora e metonímias,
reproduzem no interior do nosso idioma, como um recurso que bloqueia
compartilhamento da memória e da experiência entre os processo de
reconhecimento e ou afirmação.
Este fato linguístico não é senão a manifestação
atualizada do mecanismo de denegação, apontado por Freud na
A Negação (Die Verneinung), em 1925. Conforme definicãom
psicanalítica,
negação, recusa ou denegação, constitui-se no processo pelo qual
o indivíduo, embora formulando um dos seus desejos, pensamentos ou
sentimentos, até aí, recalcado, continua a defender-se dele
negando que este lhe pertença. Enfim, trata-se da recusa da
percepção de um fato que se impõem no mundo exterior. E, é esta
recusa na pronúncia no dizer “música negra”, que, de
certo modo expressa este ato de fala, implicaria em uma atividade
cognitiva capaz de projetar, de algum modo, o sujeito em direção há
um outro tipo de atitude e comportamento. Enfim, a expressão
“black music” produz uma sonoridade exótica, porém não tão
forte quanto se a pronunciássemos em português música negra.
Neste caso, este ato linguístico implicaria na explicitação de um
gesto que, conseqüentemente seria capaz de promover um encaixamento
da ação da consciência da diversidade social através de seu viés
étnico e racial no próprio ato de fala. Este mecanismo, denegação,
é o obstáculo ontológico tanto na identificação como na análise
da cultura e/ou ideologia racial brasileira.
Observa-se que a consciência desta ausência de
reconhecimento do encontro da estética com a etnicidade é
percebida por alguns rappers, como é o caso de MV Bill e cantores e
compositores da MPB, como é o caso de Sandra Sá, que insiste na sua
denominação para a MPB, que, segundo ela, deveria ser denominada
de Música Preta Brasileira. Este fato revigora
o significado e a consciência do movimento HIP HOP, o que, por sua
vez, colabora para a construção de uma nova paisagem social do
Brasil, e para aceleração dos combates pelos direitos civis e da
consciência cidadã, que como última manifestação, apresenta a
ampliação da discussão sobre a ação afirmativa no campo da
estética.
Resulta, pois, que o movimento HIP HOP é um movimento político
social de ampla envergadura e reflexo na juventude, arregimentando
uma considerável parcela da população jovem da periferia nos anos
90, principalmente em São Paulo, e alcançando agora, neste início
de século, o Rio de Janeiro, num nível mais maduro, com fortíssimo
enraizamento e crescimento da relevância de seu discurso nos
debates públicos sobre as responsabilidades sociais. O que também
se verifica, com níveis distintos de vigor e força, em outras
grandes metrópoles, tais como Brasília, Belo Horizonte, etc. Com a
Conferência de Durban, ocorrida na África do Sul em 2001,
promovida pela Organização das Nações Unidas, para discutir o
racismo, a xenofobia e outras formas de intolerância, a referida
tomada de atitude é reforçada, porque assinala a recente onda
de negritude na política brasileira.
Certamente que esta nova variável irá implicar numa mudança
na natureza do movimento. Se antes tínhamos uma dinâmica marcada
pela força arte musical para a construção de um estilo de vida,
agora, um novo pólo que deriva desse estilo de vida é acrescentado
e se dirige para a formação de uma nova consciência social. A
legião de aliados constituída pelo movimento HIP-HOP tem garantido
que suas estrelas não sejam cooptadas pelo Estado, o que,
historicamente, há que se assinalar, constitui-se numa forte tendência
no Brasil, tanto entre políticos e quanto entre representantes de
grupos sociais, com especial ênfase entre aqueles que derivam dos
grupos minoritários e etnias subalternas, ou mesmo daqueles originários
de comunidades, mesmo quando adquirindo inúmeros apoios financeiros
de organuzações não-governamentais. Sem, portanto, naufragarem
nas tradições da cooptação, esses jovens, rapazes e moças,
adquiriram a reputação de tornarem-se completamente independentes,
sem necessitarem da atenção da publicidade veiculada pela mídia
oficial. Os Racionais MC, por exemplo, vendem seus trabalhos, da
mesma forma que muitos outros grupos, sem contar com nenhuma política
institucional de marketing ou política oficial.
As periferias, as favelas, os guetos e lugares onde residem
as classe humildes, os trabalhadores, negros e mestiços, configuram
a origem do HIP-HOP no Rio, bem como em todo o mundo. Nestes territórios
existe uma heterogeneidade muito grande de credos e crenças, e esta
multidiversidade é um traço dos rappers, o que reforça a postura
das narrativas destes sujeitos sociais, que inclui as mais diversas
formas de (auto)representação, como cristãos, materialistas,
evangélicos, socialistas, anarquistas, bandidos e prostitutas. Daí,
que, a performance como a que está estabelecida, é rigidamente
centrada em uma atitude de crítica social, com uma postura gestual
e atividade cinética, que institui uma nova ordem cívica, uma nova
forma de representação da população negra, e um novo
relacionamento racial no Brasil.
A emergência das “correntes” colaboram para a expansão
da cultura HIP HOP e promovem uma profunda interferência na consciência
da juventude, à medida que estimula a solidariedade, a auto-confiança
e a disseminação da consciência racial e social. Conseqüentemente,
tais “correntes” - formas de associações comunitárias dos
rappers - desempenham uma função de disseminação de uma pedagogia
política, conforme Houston Baker
demonstrou ao analisar a explosão HIP HOP nos Estados Unidos, no início
dos anos 90. Os resultados dessa pedagogia política podem ser
observados nos três aspectos que marcam os desdobramentos mais
atuais do movimento: inicialmente, a profissionalização e o
espírito empreendedor que têm sido cultivados no interior
do movimento; em segundo lugar, o reforço da dádiva como
moeda de interação social, ou seja, o trabalho voluntário
e a solidariedade que se constituem em pontos de força e de
honra na organização do movimento, e, em terceiro, a adoção e
ampliação de uma mídia alternativa, como rádios piratas,
sites na internet, programas de televisão, programas de rádio,
etc. Estas redes de práticas e discursos se entrelaçam e se
condensam no que viemos
a chamar aqui de esfera pública negra.
Gostaria de comentar cada um desses aspectos, a começar pela
profissionalização e empreendedorismo. Sandra Costa, em recente
tese de mestrado em Antropologia, “Bricoleur de Rua: Um estudo
antropológico da cultura hip-hop carioca”, defendida em 2002,
no Museu Nacional, Rio de Janeiro, focaliza em seu trabalho
exatamente esse aspecto. Diz ela: “a profissionalização dos
rappers se constitui em um novo grupo de referência para um grupo
específico de jovens, especialmente aqueles que são negros e
pobres, embora este fato não elimine a idéia de jovens de classe média
tomarem decisão de também seguirem a mesma carreira. Como
resultado, é possível afirmar que novas carreiras para os jovens
oriundos das comunidades, estarão emergindo e se alargando a partir
da explosão do HIP HOP. E, conseqüentemente também, alargando os
sonhos e outras possibilidades, que transcendem os estreitos limites
colocados anteriormente pelo futebol, como alvos do sucesso.”
Este modelo de posicionamento afirma-se, cabe frisar, como
uma inferência para modelizar uma juventude que, no caso do Brasil,
derruba o paradigma da cordialidade ao ser intolerante, isto é, ao
colocar-se como não-cordial com a dissimulação. Ruma em
direção à auto-sustentabilidade e procura fazer de maneira
independente o seu próprio futuro. Este fato torna-se um projeto
horizontalmente constituído, atingindo amplas camadas da população
urbana de classe média, cujos recentes efeitos sobre a parcela da
juventude aí localizada podem ser sentidos quando esta se mostra
abdusida pelo sentimento de um necessário posicionamento crítico,
cujo produto cultural é capaz de evocar e disseminar. Neste
contexto, um exemplo entre muitos é a CUFA (Central Única
das Favelas), que configurou-se como uma organização paradigmática
na difusão da cultura HIP HOP. O seu papel tem sido sobretudo, o de
incentivar a formação de “correntes”, MCs, grafiteiros, sob
orientação da filosofia que estimula o desenvolvimento artístico
e as atividades culturais da comunidade.
A dádiva, como afirmei acima, é o outro aspecto importante
neste contexto proporcionado pelos rappers. A contribuição voluntária,
a idéia de difusão do projeto HIP HOP, entre outras manifestações
culturais negras, em favelas, através, por exemplo, de ONGs como o
Grupo Cultural Afro Reggae, e entidades paralelas como a CUFA, fez
com que se constituísse um verdadeiro suporte de longa duração
para o lançamento desses programas. A participação dos
adolecentes nesse tipo de projeto, implica numa doação à essa
comunidade de tempo de trabalho livre, tempo de trabalho voluntário.
As diversas formas de dádiva que têm no trabalho voluntário sua
versão mais explícita, se transforma numa moeda fundamental nas
trocas dentro da comunidade HIP HOP.
Nas mídias alternativas, por sua vez, também podemos ver,
principalmente hoje, o surgimento de vários sites HIP HOP, além
das rádios comunitárias piratas que se desenvolvem em várias
comunidades. E não necessariamente apenas em comunidades, da forma
como definida em termos sociológicos. Num sentido mais amplo, no
que diz respeito à utilização de instrumentos de comunicação
por grupos específicos, um bom exemplo é o que envolve a criação
da Rádio Revolução, concebida e colocada em funcionamento no
interior do Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de
Janeiro.
Há, portanto, uma rede radiofônica que constitui grande
parte dessa mídia alternativa; sendo este mais um aspecto a também
convergir na constituição de uma esfera pública conforme afirmara
anteriormente Jurgen Habermas,
para quem, aliás, tal esfera é definida a partir das classes hegemônicas,
sob o foco da burguesia. Todavia, é possível também se pensar a
constituição de laços de solidariedade e laços de exposição e
de produção de imagem social entre as camadas subalternas. Sejam
as formas de troca e intercâmbio de informação nas esquinas e nos
bares, sejam as reuniões em clubes, ou ainda, os encontros performáticos
do HIP HOP e toda essa parafernália tecnológica que se dissemina
junto com a explosão deste movimento.
Tudo isso poderia, portanto, ser considerado como parte da
constituição de uma esfera pública, ainda que subalterna, mas que
assegura a construção da visibilidade desse grupo racializado e
absolutamente ocultado durante séculos da nossa história como ator
efetivo de processos sociais. E, contemporaneamente, mais ainda, os
negros protagonizam o combate à uma determinada hegemonia racial.
Observando sociologicamente o movimento HIP-HOP e avançando para além
de sua aparência, podemos intuir que o mesmo se constitui em um
projeto político cultural que dissemina no campo das práticas
cotidianas, das atitudes do dia-a-dia, uma série de transformações
que podem subverter a microfísica social. Ao subverter os aspectos
até então imperceptíveis da socialidade cotidiana, como a postura
passiva e cordial dos negros, considerada principalmente pela classe
média e as camadas dominantes como um atributo da polidez negra, a
poética da conduta hip-hop passou a promover o que os próprios
membros do movimento denominam de revolução silenciosa, uma
transformação a partir dos gestos e atitudes cotidianas na construção
de um novo modo de apresentação do sujeito racializado e, conseqüentemente,
de um horizonte existencial de efetivo reconhecimento das diferenças.
Mas este projeto, como já vimos, não estaciona no grupo
racializado, isto é, entre os negros. O que extraordinário é que
o referido projeto está sendo capaz de, particularmente circular
pela juventude das classes médias urbanas e se transformar em crítica
ao consumo e ao individualismo contemporâneos. Torna-se uma das
postulações correntes da crítica da cultura contemporânea, em
especial as postulações de políticas subjetivas de invisibilização
e des-reconhecimento do negro. É, portanto, desta auto-poética
hip-hop que devemos partir para compreender o processo sistêmico de
evocação de mudanças que estão ocorrendo junto à juventude e,
em especial, junto a uma parcela da juventude pertencente às
camadas subalternas da população, que se insurge, vigorosa mas
pacificamente, através de uma brutal “revolução silenciosa” e
molecular, embalada, na verdade, pela lírica incessante do movimento
e da força do ritmo e da poesia, que, conjugados, assinalam a mais
representativa dentre as múltiplas experiências da diáspora
africana.
Com os últimos avanços do movimento, em especial, após os
efeitos da quarta versão do Prêmio Hutus e a Semana Hutus,
realizado no Rio de Janeiro, de 31 de outubro a 9 de novembro, que,
de fato, tornou-se uma festa dos afro descendentes e da diáspora
africana, e que aponta para a ampliação do hip-hop, caberia diante
deste pananorama uma pergunta: estariam os atores deste movimento em
condições de sustentar a ideologia da anti-subalternidade racial e
a crítica social que o hip-hop tem erguido internacionalmente, face
à explosão de uma industria cultural e midiática no Brasil, cada
vez mais ávida em submeter a cultura hip-hop à dinâmica de um
mercado consumidor que compreende milhões de negros? Estariam estes
jovens rappers, djs, b-boys, grafiteiros e produtores negros
preparados para enfrentar os conglomerados milionários que já
ameacam surgir para transformar a versão brasileira da globalizacão
hip-hop em mais uma grife da juventude e, consequentemente,
esvaizada daqurele sentido político e ideológico, conforme o
famoso DJ Big Boy, fêz com o Black Soul, no Rio, durante os anos
70? E, ainda: estariam
realmente prontos para realizarem o sonho de fazer com que o
dinheiro conquistado pelos atores e ativistas culturais negros
circule e permaneça na comunidade negra? As respostas à estas
questões nos ajudarão a compreender a nova conjuntura
psico-cognitiva que se constituí no imaginário nacional
brasileiro, nesta fase pós-ditadura do mito da democracia racial.
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