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Por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda
no Institut Catholique de Paris e Université Marne-la-Vallée
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O
“Outro” no mercado de trabalho francês
Hoje,
na França, apesar de inúmeros discursos sobre a igualdade e de
manifestações e criação de associações em defesa da discriminação,
ainda nos deparamos com essa “diferenciação” social quando
fala-se de trabalho. Negros, árabes e judeus têm muito maior
dificuldade para encontrar empregos e quando encontram, normalmente,
ganham menos do que os “legítimos europeus”.
Quanto
às mulheres, segundo um estudo feito pela ANPE
– Association Nationale pour l’Emploi (Associação Nacional
para Emprego – equivalente ao SINE no Brasil), na Região de “Ile-de-France” (onde está situada Paris), excepcionalmente, elas
são menos atingidas pelo desemprego (298.000 mulheres contra
320.000 homens).
Na
área do comércio – criadoras e diretoras de empresas, segundo um
estudo recente do tribunal de comércio de Paris, o “segundo
sexo” ocupa 30% dos cargos, saem em menor número das escolas
superiores, porém, mais apreciadas que o “sexo forte”.
Existem
leis de igualdade que raramente são aplicadas, é preciso que sejam
colocadas em obra e em pleno vigor, para permitir à economia de
beneficiar de todas as forças vivas, sem distinção de gênero e
raça.
Segundo
Simone de Beauvoir “‘O
eterno feminino’ é o homólogo da ‘alma negra’ e do ‘caráter
judeu’.”[i].
Poderíamos dizer que há uma identificação entre os
“discriminados” incluindo árabes e todas as “outras” raças
que fazem o papel de “Outro” por imensa dificuldade de
fazerem-se “Sujeito”. Há, portanto, certa divergência entre
uns e outros.
O
judeu, para o anti-semita, é mais considerado como inimigo que como
inferior e não se reconhece nenhum lugar como seu, sendo assim,
deseja-se, preferencialmente, vencê-lo, abatê-lo, anulá-lo; suas
divergências têm mais afinidades com as dos árabes que com as das
mulheres e dos negros, entretanto, os árabes são tidos como mais
violentos.
Por
sua vez, as mulheres e os negros têm suas reivindicações mais
afins. Ambos querem emancipar-se de alguém, pois ocupam, de certa
forma, o lugar de escravos, ainda que aparentemente sejam livres. Os
brancos e os homens não almejam exterminá-los mas coloca-los em
seu “devido lugar”. Ou seja: “o negro para o trabalho pesado,
a mulher para o trabalho doméstico e a procriação”.
Observa-se
que em termos de gênero, a França obteve maiores conquistas do que
no Brasil. Já não podemos dizer o mesmo quanto à raça, apesar de
que deve ser considerado o maior percentual de estrangeiros em
grandes cidades francesas do que em solo brasileiro.
Ainda
assim, apesar da condição estar evoluindo, essas pessoas continuam
a ser tratadas como deficientes. Julga-se ao primeiro olhar,
despreza-se ao primeiro contato, escolhe-se instigado pelos
preconceitos e pela aparência, deixando-se de lado a competência.
As
teorias são razoáveis, as intenções são boas. Faltam meios
concretos para que se chegue à igualdade, faltam condições
aliadas às vontades das classes reivindicadoras. Falta uma tomada
de consciência geral de que uma sociedade mais igualitária pode
ser bem mais produtiva e capacitar melhores condições de vida.
Deve-se
acabar com a hierarquia gerada pela característica das sociedades
humanas que utilizam categorias binárias dualistas herdadas,
provavelmente, de nossos ancestrais Homo
sapiens, que foram obrigados a dar sentido ao que eles viam:
corpos, estações, animais, alto/baixo, seco/molhado,
ativo/passivo, valorizando mais ou menos cada coisa.
Essa
hierarquia foi inculcada na humanidade ocasionando a vontade de
estar no topo. O sentimento de ameaça diante da “maioria
oprimida” impede melhores investimentos sociais. É preciso
extinguir esse temor de destituição do poder, da virilidade, das
diferenças [ii],
e que esse combate legítimo, travado pelos “desiguais” possa
conduzir à uma conscientização das vantagens que existe quando
fala-se de igual para igual.
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