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Por EVA PAULINO BUENO
Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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O
Padre Antônio Vieira e a escravidão negra no Brasil
O Padre Antônio Vieira nasceu em
Portugal em 1608. É
considerado um dos homens mais extraordinários do século XVII, por
sua atuação política e religiosa no Brasil e em Portugal, e por
sua influência na vida cultural e literária em outros países.
Vieira veio ao Brasil aos sete anos de idade, e em 1623 entrou para
a Companhia de Jesus. Depois de ordenado, trabalhou em vários
lugares no Brasil, mas sua atuação mais conhecida desta época se
deve a seu trabalho com os escravos e índios do Amazonas, os quais
ele defendeu contra os colonizadores portugueses. Sua ardente oposição
ao comércio de índios culminou com sua expulsão (e a dos demais
Jesuítas) do Amazonas. Com a mudança política em Portugal depois
da Restauração em 1640, Vieira foi para a corte, onde se tornou
confessor do rei D. João IV, que o enviou como seu representante a
Roma e a Amsterdã. Mais tarde, ele também foi confessor da rainha
Christina da Suécia. Vieira fez a longa e difícil jornada marítima
entre Portugal e o Brasil várias vezes, e se tornou, ainda em vida,
uma figura célebre.
Entretanto, apesar de sua proximidade
aos poderosos de seu tempo, Vieira não conseguiu escapar de
perseguições que acometiam aos menos bem protegidos. Suas declarações
e seus sermões em defesa dos “Cristãos Novos” — Judeus forçados
a se converterem ao cristianismo — que formavam grande parte da
classe mercantil de Portugal, e suas críticas aos excessos da
Inquisição, terminaram por angariar a fúria da própria Inquisição.
Vieira foi preso, julgado e condenado, ficando na prisão em
Portugal por cinco anos. Mais tarde, quando voltou ao Brasil, Vieira
preparou seus sermões para publicação e se recolheu à Quinta do
Tanque, na Bahia, onde morreu em 1697.
A obra de Vieira se divide entre as
profecias (Histórias do futuro, Esperanças de
Portugal, e Clavis prophetarum), as Cartas (mais
de quinhentas, nas quais Vieira comenta os sucessos políticos da época,
especialmente o relacionamento entre Portugal e Holanda, a Inquisição,
os Cristãos Novos, e a situação do Brasil), e finalmente os Sermões,
pregados durante toda sua vida tanto em Portugal como no Brasil.
Os Sermões são considerados
obras primas do estilo de Vieira, o melhor exemplo do barroco
conceptista, no qual ele joga com idéias e conceitos, toma
liberdades e produz uma prosa elegantíssima, com períodos do mais
perfeito português, mesclando, aqui e ali, quando necessário, citações
da Bíblia em latim. Vieira pregou entre os índios, entre os colonos em vários
lugares do Brasil, entre os escravos e seus senhores, e entre os
nobres da corte de Portugal. Foi também devido a um desses sermões
que seu nome se introduziu na literatura do México. Um dos sermões
da série “Sermão do Mandato", pregado na Capela Real em
Lisboa em 1645, teve grande repercussão nos meios religiosos
portugueses e espanhóis, e atraiu a crítica de Sor Juana Inés de
la Cruz, que o contestou em 1690, em sua “Carta Atenagórica".
Neste sermão, que trata do tema do amor místico, Vieira sustenta
que “o morrer Cristo pelos homens não foi a maior fineza de seu
amor; maior fineza foi Cristo o ausentar-se, que o morrer.”
O Sermão que mais nos interessa
neste estudo é o “Sermão Décimo Quarto", pregado na Bahia,
à Irmandade dos pretos de um engenho no dia de São João
Evangelista, no ano de 1633. Antes, porém, de entrarmos na discussão
do Sermão, é conveniente rever alguns fatos da história da
escravidão negra no Brasil, porque esta revisão, ainda que breve,
tornará possível uma compreensão da posição de Vieira frente à
situação não só religiosa, mas também ideológica, dos negros
no corpo político do Brasil. Interessa indagar como a escravidão
negra durou tanto tempo, e qual a relação da igreja cristã—talvez
melhor dizermos a Católica--com o tráfico e com a manutenção de
escravos no Brasil. Esta é, naturalmente, uma indagação
importante para outras figuras religiosas da época, inclusive a do
frei Bartolomé de Las Casas, o dominicano que, no México, também
se opôs aos maltratos feitos contra os índios, e propôs como solução
o que se chamou “el undécimo remedio".
Mas só podemos compreender melhor a situação desses homens se
tentarmos compreender o mundo e os tempos em que viveram.
1.
A história do Brasil está
indelevelmente misturada à história da escravidão. Embora
historiadores não concordem com a data exata da chegada dos
primeiros escravos, é possível dizer-se que nos seus quinhentos
anos de existência, o Brasil tem funcionado sem escravos por menos
de cento e cinqüenta anos. Nos restantes trezentos e cinqüenta, o
país se fez à custa do suor e do sangue dos negros que chegavam às
praias brasileiras, emergindo da travessia do Atlântico nos porões
dos navios negreiros, dos quais só sobreviviam os mais fortes. O
tratamento a que eles eram submetidos depois da chegada, ainda que
bastante documentado, pode ser visualizado e compreendido melhor se
lembrarmos que o Brasil dependeu da importação constante de
africanos até 1851 (data em que oficialmente o tráfego foi
terminado), porque a população escrava no Brasil jamais seguiu o
curso normal de reprodução e reposição de seus membros.
Na realidade, os castigos corporais, as péssimas condições
sanitárias, as longas horas de trabalho, e a alimentação
insuficiente, faziam com que o escravo brasileiro não durasse
muito. A perda dos
escravos fazia com que o tráfico negreiro, além de ser o “negócio
mais lucrativo debaixo do sol” (Conrad, 1984, 1), era também o
combustível que empurrava as fazendas, as usinas, as casas
particulares do Brasil. Naturalmente, estas condições não
diferiam em muito das condições dos outros escravos em outros países.
A posição da igreja foi, durante todo o período da
escravidão, na melhor das hipóteses contraditória, e, na pior,
interessada na sua continuação, já que ela beneficiava a classe
social da qual o clero se originava, a classe social que fazia doações
à igreja, e, de quebra, a escravidão garantia o fluxo contínuo de
“almas a serem salvas". Isso não significa que não houve
casos isolados de padres que falaram contra a escravidão e
denunciaram a crueldade dos donos. Uma prova da existência desses
religiosos dissidentes da ideologia escravagista da igreja vem de
uma carta escrita pelo governador da Bahia ao secretário português
para assuntos de além mar. Nessa carta, escrita em 1794, o autor
relata as atitudes de um monge italiano que viveu no Brasil 14 anos,
e que depois de algum tempo tornou pública sua opinião contra
todos os tipos de escravidão, sem levar em conta que a igreja
acreditava que há “escravidão justa”.Neste relato, o
governador conta que tal monge foi deportado, por ordem do
arcebispo, e que o capitão do navio tinha ordens de não deixá-lo
desembarcar sem permissão do governador.
Obviamente, a maneira mais fácil
para a igreja explicar para si mesma sua aceitação e incentivo da
escravidão estava baseada na possibilidade de “salvar os negros
do fogo do inferno”. Era de primordial importância para o projeto
ideológico (e os interesses econômicos) da igreja, que os negros
se transformassem em cristãos o mais rapidamente possível. Não
que isso lhes garantisse nenhuma regalia. Mas isso os transformava
em sujeitados a igreja (não em sujeitos da igreja).
Tal transformação era feita muito simplesmente através do batismo
em massa, em cuja aceitação ou rejeição os negros não
tinham nenhuma voz.
Aqui chegados, os negros que já
haviam sido batizados durante a travessia, ou antes do embarque nas
costas da África, eram imediatamente vendidos. Os demais também
eram vendidos, mas seus donos tinham que garantir que estes escravos
seriam batizados dentro de um ano. Joseph Conrad escreve que a lei
canônica também estipulava que os escravos deviam ser casados na
Igreja e, uma vez casados, marido e mulher não podiam ser honradamente
separados pelos donos. Naturalmente, o tamanho do Brasil, assim como
a falta de estradas e transporte, se aliavam a outros fatores para
impedir que os religiosos averiguassem a obediência a estas normas.
Como já dissemos, seria difícil para os religiosos denunciarem os
donos de escravos, já que eles — padres e donos de
escravos — vinham da mesma classe social, compartiam os mesmos
interesses pecuniários, e a mesma
moralidade. Além do mais, há que se salientar que as próprias
ordens religiosas no Brasil não só exploravam o trabalho escravo
dentro dos conventos, seminários e igrejas, mas também os vendiam
e leiloavam como se fossem objetos ou animais.
No entanto, apesar das terríveis
condições em que viviam, os escravos negros brasileiros resistiram
à escravidão desde o
princípio, escapando de seus donos e formando o que se chamou de
quilombos - uma rede de povoados habitados por escravos fugidos. O
mais famoso desses quilombos, Palmares, floresceu no sertão
pernambucano, e só foi destruído em 1694, com a captura e execução
de seu chefe máximo, Ganga Zumba.
Mas Palmares não foi o único quilombo; na realidade, os quilombos
existiram no Brasil até as vésperas do término oficial da
escravidão em 1888.
Quando Vieira proferiu o “Sermão Décimo
Quarto”, em 1633, já
notícias da existência de quilombos haviam se espalhado pelo país,
mas provavelmente ainda não tinham o peso quase mítico que mais
tarde obtiveram. É impossível, a esta altura do começo do século
XXI, saber se os escravos do específico engenho no qual o sermão
foi proferido estavam a par da rede de povoados que
abrigavam escravos fugidos. Mesmo que notícias sobre os
quilombos fossem de conhecimento corrente e publicadas em jornais,
os escravos de fazendas não sabiam ler. O que se sabe com segurança
é que Vieira proferiu este sermão em um engenho de açúcar, no
Nordeste brasileiro, portanto, provavelmente muito próximo a uma
das aldeias dos quilombolas. Esta posição geográfica é de grande
importância para compreender-se o eixo ideológico do sermão que,
como se sabe, foi ouvido por escravos e por seus donos, congregados
numa missa.
A presença desses dois grupos de ouvintes, claramente separados por
sua situação enquanto que unidos na fé cristã, informa a
vestimenta não só retórica e religiosa, mas também política e
estratégica de Vieira.
2
O “Sermão Décimo Quarto”
está dividido em nove partes, e cada uma, ao mesmo tempo que
tem seu próprio caráter e lógica, estabelece contactos com textos
religiosos e práticas da sociedade brasileira da época. A parte
“I” introduz a razão
do sermão no dia de São João Evangelista e faz a saudação
oficial à Virgem. Parte história religiosa e parte exortação dos
ouvintes à devoção do rosário, esta parte não toca no nome dos
“pretos” que estavam assistindo a missa junto com seus senhores.
Mas Vieira esclarece que os caminhos dos santos da igreja — São João
Evangelista, que renunciou ao matrimônio “por imitar a...
virginal pureza” da mãe de Jesus, e o patriarca São Domingos, a
quem apareceu a Virgem no dia de São João e lhe “mandou que
deixasse o sermão que tinha meditado... e pregasse do seu rosário”
– determinaram que este fosse um dos dias em que os sermões
surtiam mais efeito, “pela graça e virtude de quem o mandou
pregar” (286). Em outras palavras, Vieira estabelece, nesta
primeira parte, que este sermão vem das ordens mais
altas - diretamente da Virgem - e que seus efeitos não deixarão de
se fazer sentir na audiência.
A partir da parte “II” o texto
introduz a presença dos “pretos”, os devotos do rosário de
Maria, e a sua colocação como filhos privilegiados da mãe de
Jesus. Inicialmente Vieira, na mais complexa lógica religiosa,
explica quantos filhos
a Virgem Maria teve. Jogando com as palavras Jesus e Cristo, ele
explica um nascimento que se multiplicou em três, todos ocorridos
ao pé da cruz: o primeiro nascimento foi de Jesus Cristo, que neste
momento de sua morte se confirmou como o salvador; o segundo, de São
João Batista, também aos pés da cruz, quando Jesus o entregou a
ela e disse que ele agora era seu filho. Cada um desses nascimentos
merece sua parte separada no sermão, e o conjunto funciona como uma
preparação para a quinta parte, na qual Vieira estabelece o
terceiro nascimento, o “dos pretos, devotos da mesma Senhora, os
quaes tambem são seus filhos, e também nascidos entre as dôres da
cruz” (296). Seguindo sua exposição, Vieira cita a autoridade do
Salmo III, em que a genealogia dos pretos não deixa nenhuma dúvida,
já que eles são nomeados por origem, “Memor ero Rahab, et
Babylonis scientyum me: Ecce alienigenae, et Tyrus, et populus
Aethiopum hi fuerunt illic.” Como o texto esclarece, os etíopes
— negros — são chamados
de povo, invocando multidão, grande quantidade de
pessoas, enquanto que os demais alienigenae são chamados
apenas pelo seu adjetivo. Não
satisfeito com sua própria disquisição da origem dos pretos como
filhos da cruz do Calvário, Vieira busca nas palavras de S. Thomaz,
Arcebispo de Valença, mais provas. Depois de citar um texto de S.
Thomaz, Vieira faz sua paráfrase:
Saibam pois os pretos, e não duvidem que a mesma Mãe de Deus é Mãe
sua: Sciant ergo ipsam matrem: e saibam que com ser uma
Senhora tão soberana, é Mãe tão amorosa, que assim pequenos como
são, os ama, e tem por filhos.
(297)
Convém lembrar que neste ponto a indústria
açucareira estava se estabelecendo como a força motriz
do Brasil, e que o tráfico de escravos era sentido como uma
necessidade vital para a continuação do progresso da colônia. Se
a quantidade de escravos, ou a certeza do grande número de escravos
em potencial fosse colocada em dúvida, o tráfico não poderia
continuar sendo visto como a realização histórica de profecias da
Bíblia (ou seja, o reconhecimento dos negros de sua condição de
filhos de Maria), e correria o risco de ser visto como a gradual
destruição de grandes contingentes de seres humanos. Embora os
devidos reparos devam ser feitos quanto a intenção de cada um,
esta ênfase na quantidade de negros disponíveis pode ser colocada
paralelamente aquela feita por outro escritor cristão no princípio
do século XIX, o qual afirmava que Deus evidentemente tinha
“criado do lado oposto do Brasil, no interior da África homens
deliberadamente feitos para servir neste” (citado em Conrad, 1984,
1). Como seres construídos para servir, para serem escravos, estes
filhos do Calvário, filhos das dores da cruz, não deveriam então
alegrar-se com seu sofrimento?
Obviamente, como este é um sermão
de Vieira, ele não deixaria tal sugestão flutuar no ar, sem
fundamentá-la. E a fundamentação vem, detalhada e cuidadosamente
elaborada. Usando o recurso de fazer perguntas à (suposta)
audiência, e respondendo-as ele mesmo com citações doutas
em latim, Vieira avança outro ponto importantíssimo
para a compreensão do continuado apoio da Igreja Católica
ao tráfico de escravos da África. O texto diz
que os negros “...
como todos os christãos, posto que fôssem gentios, e sejam
escravos, pela fé e pelo batismo estão incorporados em
Christo, e são membros de Christo” (300). Aqui se explicam tanto
o projeto colonizador das Américas como
a retirada de africanos de suas terras para uma vida de
escravidão no outro continente: estes filhos de Deus, mesmos os
“aligenígenas” e os escravos, tinham o direito de serem
cristãos. Como fazê-los cristãos sem trazê-los para o consórcio
com os brancos cristãos? Naturalmente, dentro de tal lógica, os
negros e os gentios não passavam de seres sem cultura, sem religião,
que deviam ser submetidos a fim de que pudessem
nascer - ou renascer - como cristãos. Outro caveat: só pode
subir ao céu quem desceu do céu. Em outras palavras, só pode ser
salvo quem já estava salvo desde o princípio. Isto é:
somente Jesus,
que desceu do céu e era o filho de Deus desde o princípio, poderia
subir ao céu. Desta forma, a única maneira para qualquer pessoa
subir ao céu seria se a pessoa se perdesse em Jesus Cristo. For a
disso, nenhuma salvação é possível. E, finalmente, a terceira
condição para a salvação diz que para que as duas primeiras se
fizessem possíveis para os homens, Jesus Cristo teria que morrer na
cruz, “Oportet exaltari Filium hominis.”
Neste ponto, é bom lembrar a composição
da audiência da primeira vez em que foi proferido este sermão. Na
parte VI, Vieira chama a atenção para o dia e lugar específico em
que se encontram: um engenho, em dia de São João Evangelista, também
dia do Rosário. Este preâmbulo justifica o assunto do sermão, e
louva aos homenageados, os negros que são devotos do Rosário. Mas
o sermão não foi proferido somente para os negros, mas também
para seus donos e senhores (talvez feitores e algozes, torturadores
e violadores). Assim que Vieira termina de louvar aos negros por sua
alta missão como cristãos que serão salvos, ele diz, claramente,
que a primeira obrigação que eles têm é de
dar
infinitas graças a Deus por vos ter dado conhecimento de si, e por
vos ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e vós vivêis
como gentios; e vos ter trazido a esta, onde instruídos na fé,
vivaes como christãos, e vos salveis. (303)
A honra de serem cristãos fica, então,
imediatamente ligada ao processo da escravidão. Sem uma, a outra
seria impossível. A terra dos escravos, a África, é representada
não como o lugar em que os negros eram livres e podiam cultivar
suas terras, professar suas próprias crenças. A África se torna
toda num continente onde o que os
negros podiam esperar era somente a perdição.
Mas, Vieira insiste, essas palavras não
são suas. Tudo o que ele diz vem da autoridade máxima, da Bíblia,
e ele cita a profecia,
continuação do sermão, de que “Virá tempo, diz David, em que
os Ethyopes (que sois vós) deixada a gentilidade e a idolatria, se
hão-de ajoelhar diante do verdadeiro Deus”
e “não baterão as palmas como costumam, mas fazendo oração,
levantarão as mãos ao mesmo Deus” (303). Neste momento, como já
havia feito no “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal
contra as de Hollanda,” Vieira
dá aos seus compatriotas portugueses o lugar lugar mais importante
nos desígnios de Deus, dizendo que as duas profecias
Cumpriram-se especialmente depois que os portuguezes conquistaram
a Ethyopia occidental, e estão se cumprindo hoje mais e melhor que
em nenhuma outra parte do mundo n’esta da America, aonde trazidos
os mesmos Ethyopes em tão innumeravel numero, todos com os joelhos
em terra, e com as mãos levantadas ao céo, crêem, confessam, e
adoram no Rosario da da Senhora todos os mysterios da Encarnação,
Morte e Resurreição do Creador e Redemptor do mundo… (303).
Então, neste argumento, o que os
portugueses fizeram não só já estava previsto na Bíblia, mas
também participava de uma necessária melhoria especialmente para
os negros. Que importava se, durante a travessia do Atlântico
muitos haviam morrido de fome, de doenças contagiosas, de torturas
infligidas pelos marinheiros portugueses? Que diferença fazia, para
o grande plano cristão, que muitos morriam de tristeza assim que
chegavam ao Brasil? Quem deveria se preocupar se para muitos dos
presentes a este sermão
a vida de escravo era um constante martírio, tanto físico como
espiritual? Estes
negros que aqui estavam, Vieira repete,
deviam lembrar-se sempre que a própria
mãe de Jesus Cristo os havia escolhido especialmente
por filhos, e que isso que “pode parecer desterro, captiveiro, e
desgraça... não é senão milagre, e grande milagre” (305).
A argumentação do sermão, deste
ponto em diante da parte VI, envereda por caminhos ainda mais bíblicos,
tentando explicar a arbitrariedade divina, a preferência dos pais
divinos por um filho e não o outro. Esaú e Jacó são trazidos à
cena, explicando que um é amado, porque é amável, e o outro não
é amado, porque não é amável. O ponto aqui é claro: é possível
para um pai amar a um filho mais que ao outro, por nenhuma razão
aparente. Esta retórica serviria para calar aqueles que talvez
quisessem refutar este amor de Deus em face dos tratamentos bárbaros
que os donos cristãos destes mesmos escravos lhes infligiam. Por
fim, Vieira repete que os escravos devem sentir-se privilegiados por
terem sido escolhidos para serem cristãos. Infelizes são aqueles
que permanecem na África, adorando seus falsos deuses, longe do
cristianismo, sem a possibilidade da salvação.
Mas, como Vieira rapidamente
esclarece, ser cristão exige certos sacrifícios. Já que, como ele
havia explicado, o terem sido trazidos da África não foi sacrifício,
mas uma grande honra, os negros não devem usar seus trabalhos
como desculpa para não seguirem suas obrigações de cristãos
e de devotos de Nossa Senhora. É interessante, neste momento, como
Vieira mostra estar consciente do dia a dia dos escravos, porque ele
descreve detalhadamente seus trabalhos nas caldeiras do engenho e
nos cômodos das casas. Embora o fim último seja para descartar o trabalho
como insuficiente razão para não rezar o rosário várias vezes
por dia, Vieira usa a oportunidade para dizer aos donos que eles
também eram responsáveis pela devoção de seus escravos. O que não
deixa de soar incrível, para um leitor de nosso tempo, é que
Vieira presenciou, em pessoa, o trabalho dos escravos. Ele viu e
testemunhou seu sofrimento em primeira mão. Mas tudo isso ainda não
lhe pareceu suficiente sequer para explicar ou justificar ou perdoar
a um escravo que não cumprisse suas obrigações “de cristão”
como se ele tivesse tempo e lazer para fazer suas orações várias
vezes ao dia. Isso se confirma no mesmo parágrafo onde, talvez pra evitar
que os donos dos escravos pensassem que ele os estava censurando,
Vieira volta às citações íblicas para esclarecer que os negros
eram, “filiis Coré” — filhos do Calvário. Esta parte da gênese
dos negros, que já havia sido explicada no início do sermão,
agora vai ser expandida dessa maneira: “id est, imitatoribus in
loco Calvariae crucifixi”
(309). Vieira expande: “Não ha trabalho, nem genero de
vida no mundo mais parecido á Cruz e Paixão de Christo, que o
vosso em um d’estes engenhos” (309). E, se por acaso alguém
pensar em usar esta situação como alavanca para conseguir um
melhor tratamento, Vieira arremata: “Bemaventurados vós se
soubereis conhecer a fortuna do vosso estado, e com a conformidade e
imitação de tão alta e divina similhança aproveitar e santificar
o trabalho!” (309).
Parece-me óbvio que a intenção de
Vieira, com esta última parte do parágrafo, torna-se não só
clara mas documentada. Como imitadores do crucificado no Calvário,
aos negros só lhes resta o papel de crucificados, torturados, vítimas
inocentes, e silenciosas. Aliás,
seguindo o fio do pensamento de Vieira, o papel de crucificados não
lhes deveria ser pesado, nem difícil, nem doloroso, mas deveriam
ser felizes e agradecidos aos donos que lhes propiciavam tal ventura
e possibilidade de alcançar a vida eterna.
Que influência o conhecimento da
existência dos quilombos que estavam começando a se formar na zona
açucareira teria nos escravos deste engenho onde o sermão foi
primeiramente proferido? Vieira, como homem branco, e especialmente
como homem branco da mesma classe social de onde vinham os senhores
de engenho, certamente sabia da existência dos fugitivos e
quilombolas. Ele, como pregador, sabia muito bem do poder da
palavra, e não podia arriscar que os escravos fossem
“seduzidos” pela
promessa de liberdade, ou de uma vida melhor nos quilombos, se acaso
notícia da sua existência chegasse até os engenhos. Seu sermão
dizia aos negros que eles só tinham uma opção de felicidade e de
vida eterna, e esta era de cumprir seu papel de filhos de Coré — filhos
do Calvário, imitadores de Cristo na hora da sua tortura e da sua
morte. A doçura, o enobrecimento da realização deste papel e
desta profecia devia subjugar qualquer outro prazer, qualquer outra
alegria porque, se o Cristo “se gosava muito que o
crucificassem” (313), como poderiam os negros rejeitar tão alto
chamado? Para eles, a paciência no sofrimento, a aceitação na
tortura, e o agradecimento na morte estavam escritos muito antes
deles terem vindo ao mundo, e portanto, não haveria nenhuma outra
maneira de salvação. Vieira chega a tal ponto na sua exaltação
da sorte e felicidade dos negros escravos que, depois de uma descrição
realista dos trabalhos e horrores das caldeiras de um engenho,
insinua que ele os inveja: “n’essa triste servidão de miseravel
escravo tereis o que eu desejava sendo rei” (318), e arremata que
“mais inveja devem ter vossos senhores ás vossas penas, do que vós
aos seus gostos, a que servis com tanto trabalho” (320).
3
Em seu livro as Américas e a
civilização, publicado em 1969, o sociólogo Darcy Ribeiro
sustenta que o Brasil, em seus inícios, não era uma nação, mas
um entreposto de comércio, e “os interesses das castas dominantes
queriam que ela continuasse desta maneira, latifundiária e
escravocrata, e mais tarde latifundiária e ‘livre,’ mas sempre
latifundiária e oligárquica” (208). Naturalmente, para que os
interesses destas castas dominantes se tornassem realidade em face
da maioria de subjugados, vários elementos teriam que entrar em
jogo. Um deles, o mais óbvio, foi o uso de força. De que outra
maneira podemos compreender que navios inteiros de homens e mulheres
fortes se deixassem dominar pelos portugueses que os arrebatavam ou
compravam na África e os traziam para as terras do Brasil? Este comércio
durou pelo menos duzentos e cinqüenta anos. Diferentemente dos
Estados Unidos, por exemplo, a importação de africanos foi
constante no Brasil até depois de meados do século XIX, e o
contingente humano negro em muito ultrapassava o dos brancos.
Mas o uso da força bruta, além de
dispendioso, podia representar a perda da mercadoria — ou seja, a
morte dos negros. Darcy
Ribeiro escreve que aproximadamente cem milhões de africanos foram
trazidos para a América em quatrocentos anos, e mesmo levando-se em
conta que a metade deles foram mortos durante a travessia (182),
podemos afirmar que, em todos os momentos da história do Brasil
precedendo a imigração massiva de europeus
e asiáticos (especialmente japoneses) no fim do século XIX
e começo do século XX, a população negra se constituía na
maioria absoluta da população brasileira. Além da força bruta, a
dominação dos negros — tantos os escravos como os libertos — se
fez através da ideologia.
A igreja católica, como muitos já
disseram, se encontrou na ponta de lança dessa ideologia. Não é
de se admirar, por exemplo, que somente no dia 5 de maio de 1888 - oito dias antes da assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel
— o
Papa Leo III tornou pública uma carta dando apoio à causa da
libertação dos escravos do Brasil. Sobre este ponto, o
abolicionista Joaquim Nabuco escreveu que a deserção do clero
brasileiro de seu papel de defensor dos oprimidos tinha sido uma
vergonha. Nabuco continua que o clero jamais tomou o lado dos
escravos, e jamais usou a força da religião para aliviar o
sofrimento dos negros (citado em Conrad, 1984, 153).
Neste ponto, é possível discordar
de Nabuco, se levarmos em consideração o sermão de Vieira que
vimos analisando. Quando Vieira conclama os escravos a não só
aceitarem, mas a ficarem felizes com sua cruz, que está fazendo ele
senão aliviando o sofrimento dos negros? Ademais, quando Vieira
coloca os escravos como filhos diletos de Maria, aqueles que foram
predestinados a serem filhos do Calvário, não está ele dando a
eles um projeto de vida, um plano de salvação, e um significado
para sua existência?
Levando-se em consideração um tempo
e uma sociedade em que o escravo negro era visto como, e chamado de,
“peça,” a argumentação de Vieira obviamente pode ser
considerada arrojada, audaciosa, porque ele sustentou a igualdade
dos negros como filhos de Deus. O que Vieira não fez, e poderia ter
feito, neste sermão — e isto o teria transformado não só em
visionário, mas em santo — foi argumentar pela liberdade dos
negros. Aqui, ele jamais coloca
em discussão a moralidade da retirada dos negros de suas terras;
ele não levanta dúvidas quanto ao batismo em massa de pessoas que
não sabiam o que isso significava. O que o sermão de Vieira busca,
como última instância, é convencer os escravos de que seu papel
está determinado — já havia sido determinado antes deles
nascerem — e que, em se tornando obedientes e trabalhadores,
agradecidos e religiosos, eles estavam preenchendo um papel maior
que eles, e se estavam projetando num tempo além do seu, um tempo bíblico.
Qual maior arma do que essa? Com a transformação dos negros
em pessoas que acreditavam que o seu maior triunfo residia em vencer
o seu desejo de fugir dos brancos que os
usavam como bestas de carga, a força bruta se fazia
desnecessária.
Seria o caso crucificarmos Vieira
pelo que ele disse neste sermão? Afinal, como homem do século
XVII, ele estava completamente informado pela ideologia que mantinha
que a igreja era infalível, e, como padre, estava convencido que a
vivência das verdades bíblicas era o mais alto chamado a que uma
pessoa civilizada podia aspirar.
Como a igreja católica era a única reconhecida como tal,
então não havia nenhuma alternativa para qualquer pessoa que
quisesse aproximar-se de Deus senão através da obediência aos
preceitos da igreja. Não é à-toa que a língua portuguesa tem a
palavra “sandeu,” que vem de “Sem Deus,” e significa
“louco”. A loucura, então, não era opor-se às evidentes
crueldades, aos assassinatos de negros em praça pública, mortos
debaixo de chicotadas; a sandice não era atacar os donos de
escravos que se serviam de suas escravas, até mesmo das impúberes,
até mesmo daquelas que eram suas próprias filhas, para saciar seus
desejos. Não. A loucura, para homens como Vieira, era não obedecer
aos mandatos da igreja, e aos preceitos da Bíblia.
Mas resta fazer uma outra pergunta,
esta dirigida aos brasileiros do século XXI, quando a maioria já
descartou a crença surda e cega nas “verdades”
supostamente ditadas através de um livro - a Bíblia - que nós
não escrevemos, é como ainda admitimos que os negros brasileiros
continuem ocupando os lugares mais baixos na escala social. Como é
que podemos aceitar que os negros brasileiros ainda têm que sofrer
humilhações e discriminações diárias por serem negros?
Como é que, num país de maioria negra e mulata, os ideais de beleza continuam sendo louros, a maioria dos políticos são
brancos, as melhores posições dentro das empresas são sempre
ocupadas por brancos, e a mortalidade infantil entre a população
negra é mais alta? Sim,
é fácil julgar a Vieira e condená-lo por este sermão e por sua
posição dentro de uma instituição que vendeu indulgências e
escravos, protegeu os ricos e açoitou os pobres. Agora, o que não
é tão fácil é admitirmos que nós brasileiros do século XXI,
por atos e omissões, ainda professamos a crença de que os negros são
filhos do Calvário, e que seu lote em vida é sofrer em silêncio.
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