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Por JOSÉ DE SOUZA MARTINS
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Ianni,
a poesia na sociologia
Octavio
Ianni falece no mesmo ano em que completaria meio século de vida
intelectual intensamente dedicada à Sociologia: formou-se em Ciências
Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, em
1954. O meio século do que foi em sua vida, e na vida de todos nós
que com ele convivemos, o meio século dos extremos: da euforia
desenvolvimentista da era JK aos tempos tenebrosos da ditadura
militar, de que ele foi uma das vítimas, aos tempos, enfim, de uma
era de esperança e, ao que parece, por uma sua entrevista recente,
de desilusões políticas.
Nesses
extremos, um primeiro trabalho de Octavio sobre o samba de terreiro
em Itu, sua amada terra caipira, foi o capítulo inicial de uma rica
preocupação com o negro, a cultura popular, o mundo caipira, o
homem simples, como ele o denominou num belo e definitivo ensaio. E
também com a alegria que atravessa desde sempre nossos dilemas e
nossas contradições para nos dizer que a vida é um pontilhado de
opostos, único jeito de construir o novo e o mundo novo. Esse
estudo é o prenúncio da obra de um homem permanentemente devotado
à compreensão sociológica das diferenças sociais, das injustiças
a elas associadas, das vacilações na busca de meios de superá-las.
Mas nunca a obra do ingênuo do palavrório radical, tão em moda e
tão inócuo, da crítica superficial e infundada.
Ao
contrário, Ianni foi um pensador sereno e sensato. Ele foi um artesão
do pensamento crítico no Brasil, autor de uma obra marcada de
iluminuras que anunciam a estética de cada texto que escrevia para
dizer-nos que o pensamento crítico não é uma farra do espírito e
do denuncismo barato e incompetente. Para ele, o pensamento crítico
é o pensamento responsável e fundamentado, acima das facções de
toda ordem, expressão da neutralidade ética, mas não da indiferença
social e política, produto da descoberta paciente, da indagação
organizada, da investigação científica cuidadosa e não raro
demorada. Lembro dele, meu professor no curso de graduação,
explicando-me em sua apertada sala lá da rua Maria Antônia, que na
sociologia a construção de uma interpretação dos dados de uma
pesquisa é como a elaboração de uma sinfonia: a partir da
descoberta do tema o sociólogo vai descobrindo desdobramentos, vai
compondo sua obra, sua interpretação, as conexões de sentido, a
explicação científica, o todo que se esconde atrás do factual, a
universalidade contida no singular, no discreto e até no minúsculo.
Ianni
nunca se propôs a ser um pai da pátria, de dedo em riste
discursando verdades incontestáveis, como se fosse dele o mandato
de apontar rumos e denunciar descaminhos. Mas nem por isso deixou de
expressar publicamente os resultados de suas observações, de
expor-se à contestação se necessário, de animar a controvérsia
e provocar a busca de clareza na construção de uma consciência
social e política do contemporâneo. Ele nunca se afastou de uma
referência clássica da sociologia, que foi uma das orientações
centrais da chamada “escola sociológica de São Paulo”, uma
expressão muito forte na obra de Florestan Fernandes: a sociologia
é a autoconsciência científica da sociedade, a definição
perfeita da missão social do sociólogo.
Não
é estranho, pois, que no outro extremo de sua vida esteja uma
entrevista de poucos dias antes de sua morte, publicada uma semana
depois de seu falecimento, contendo dura e objetiva análise do
momento político nacional e internacional, apontando não só
incoerências do partido governante e do próprio governante, mas
também desencontros entre a consciência política oficial e a
realidade social e política deste momento histórico. Ironia
oportuna da vida diante da óbvia tentativa de manipular a cena
funerária por parte do partido dominante, em face do distanciamento
que a própria vida acadêmica interpôs entre ele e seu colega e
amigo de muitos anos, Fernando Henrique Cardoso. Manipulação
injusta e descabida que já indica mais um empenho de envolvimento
dos mortos nas conveniências dos vivos, como se fez com Florestan
Fernandes e Milton Santos, fazendo-os autores do discurso que não
fizeram e adeptos de opções que quem os conheceu sabe que
provavelmente não fariam.
Entre
esses pontos demarcatórios da cronologia de uma vida intelectual
fecunda e exemplar, há os muitos episódios que para essa geração
fizeram entrecruzar-se a biografia e a História. É nesse embate
que o italianinho de Itu (designação depreciativa com que era
tratado pelas famílias tradicionais, quando criança, que o magoava
profundamente) supera a trama da subalternidade tecida para colher e
enredar o imigrante nas funções inferiores da economia. Da
adversidade dos que o destino previsível condenara a anularem-se no
trabalho dependente, nasce o intelectual, o cientista competente, o
autor de uma obra que é uma das mais lúcidas interpretações do
Brasil, uma expressão poderosa de nossa consciência social e política.
Mas
não se politize tudo nem se transforme Ianni num reles ideólogo de
partido, que ele não era e nunca se dispôs a ser. Em sua obra
havia uma lindíssima tensão entre os temas duros e politizáveis
da Sociologia – como a objetividade, as relações de classe, as
relações raciais, o Estado, o planejamento, o globalismo – e os
temas próprios do que se poderia definir como uma estética sociológica.
Nos indevidamente chamados de pequenos trabalhos, há poderosas
indicações de uma grande obra de autor sensível ao propriamente
poético da realidade social, da fala do homem simples, das expressões
estéticas da complicada e dramática sociedade contemporânea, como
no seminal “O jovem radical”, em “A mentalidade do homem
simples” ou em “A solidão do cidadão Kane”. Ianni permitiu e
quis que o belo e o poético contidos na vida social emergissem em
muitos momentos de sua obra, uma forma poderosa de crítica do homem
comum ao que acabou sendo a indigência das teses sobre a chamada
“exclusão social”, a louvação da pobreza como virtude, como
se o homem pobre fosse ao mesmo tempo um idiota cultural, dependente
dos mediadores que o calaram e capturaram sua palavra e seu direito
de palavra.
Na
obra de Ianni, o homem simples fala de vários modos. Não apenas a
fala simples, mas também o
refinamento poético de que os simples sabem revestir as suas poucas
palavras, forma de contestar na prática a retilínea opressão da
racionalidade que nos domina. Não há como sonhar sem ser poeta.
Mais do que ninguém na sociologia brasileira, Octavio compreendeu
com sociologia e poesia o silêncio dos banidos da cena histórica,
dos que foram roubados de muitos modos, não só pela burguesia e o
grande capital.
Octavio
encerrou o seu poema sinfônico poucos dias antes da morte com uma
conferência magistral sobre a arte na ciência, na mesma Faculdade
de Filosofia da USP em que estudou, em que ensinou e que o amou
apesar das amarguras de um destino comum descabidamente dilacerado
nos desencontros da História.
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