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Equacionando
a questão do desemprego tecnológico
Talvez
o problema mais grave que se coloca no inicio do terceiro milênio
é a ameaça do chamado desemprego tecnológico, ou seja, o
desemprego gerado pela combinação da utilização em grande escala
da tecnologia de informática e telecomunicações aliada às novas
técnicas gerenciais como meio de aumentar a produtividade das
empresas com a conseqüente redução da necessidade mão-de-obra.
Os
estudiosos do problema costumam se dividir em dois grupos com opiniões
divergentes. De um lado existem os pessimistas ou “Profetas do
desemprego maciço” como os chamou Manoel Castells. Esses seriam
principalmente o grupo representado pelo “Clube de Roma” que
formula a questão da seguinte forma:
“Se
acontecer com o emprego industrial o mesmo que ocorreu com o rural,
não haverá empregos suficientes no setor de serviços para
substitui-los porque os próprios empregos desse setor estão sendo
rapidamente automatizados e eliminados” (CASTELLS,1999:320).
Essa
posição é muito bem expressa por Jeremy Rifkin: “O desemprego
global atingiu agora seu nível mais alto desde a grande depressão
da década de 1930, Mais de 800 milhões de seres humanos no mundo
estão desempregados ou subempregados” (RIFKIN,1996:XVII) e por
alguns outros autores. O único problema é que costumam fazer análises
um tanto superficiais da questão, se atendo ao relato de casos
isolados que consideram alarmantes e que demostrariam por si mesmos,
suas preocupações.
Essas
idéias costumam ser refutadas pelos otimistas, adeptos do que poderíamos
chamar de teoria clássica do “pós-industrialismo”, esse grupo
costuma colocar a questão da seguinte maneira:
“A
atividade econômica mudaria de produção de bens para prestação
de serviços. O fim do emprego rural seria seguido pelo declínio
irreversível do emprego industrial em benefício do emprego do
setor de serviços, que em última análise, constituiria a maioria
esmagadora das ofertas de emprego. Quanto mais avançada a economia,
mais seu mercado de trabalho e sua produção seriam concentrados em
serviços” (CASTELLS,1999:267).
E
concluindo:
“A
nova economia aumentaria a importância das profissões com grande
conteúdo de informação e conhecimentos em suas atividades. As
profissões administrativas, especializadas e técnicas cresceriam
mais rápido que qualquer outra e constituiriam o cerne da nova
estrutura social” (CASTELLS,1999:267).
Assim,
segundo o partido “otimista”, não há nada com o que nos
preocupar, após um período de ajustes, a eliminação de empregos
nos setores convencionais seria largamente compensada por uma grande
oferta de colocações. Essas no entanto, exigiriam alta qualificação
profissional. A solução portanto seria simples: Aumentar o nível
de escolaridade e a capacitação técnica da população.
Infelizmente
não é o que se observa no dia a dia e os números de todas as
economias demonstra que o partido “pessimista” tem razão. Falta
descobrir porque. O próprio Castells nos dá uma boa pista ao
tentar refutar em parte os “pessimistas”:
“De
acordo com esse raciocínio, talvez haja uma redução potencial do
emprego em conseqüência da difusão das novas tecnologias de
informação, apenas se:
A
expansão da demanda não contrabalança o aumento da produtividade
da mão-de-obra; e
Não
houver reação institucional a essa desproporção, reduzindo a
jornada de trabalho, não os empregos” (CASTELLS,1999:321).
Podemos
concluir portanto que mesmo os “otimistas” concordam que para
tudo dar certo é necessário evitar a combinação fatídica entre
estagnação da demanda e inércia institucional. Em outras
palavras, se não houver um “espetáculo do crescimento” em
termos globais e os governos não forem capazes de intervir para
reduzir as jornadas de trabalho, as conseqüências seriam as
descritas pelos “pessimistas”.
Vamos
analisar de início como cada país deverá agir para se inserir na
nova economia. O que fica claro a partir de discursos e escritos de
empresários e economistas é o seguinte:
-
É
necessário o aumento de produtividade mesmo a custa do aumento
do desemprego, isso porque:
-
O
superávit gerado poderá assim ser usado para criar novos
empregos.
Alem
do mais, alegam que a expansão do comércio global faria com que
essa competição entre nações não tivesse como resultado uma
“soma zero” ou seja, o aumento da riqueza global na realidade
faria com que o superávit obtido por cada país fosse maior a cada
ano de modo que todos ganhariam.
É
ai que está o problema de fato. Porque o que estamos observando é
o seguinte:
-
As
empresas tem se valido das novas tecnologias para transferir
empregos de seus países para outros onde a mão-de-obra é mais
barata.
-
O
superávit obtido é investido em cada vez mais tecnologias
substitutivas de mão-de-obra em seus próprios países.
-
Os
governos nacionais são cada vez mais impotentes para influir
sobre qualquer decisão importante que envolva a economia
global.
Ora,
uma das condições absolutamente necessárias ao aumento da demanda
é o aumento da renda das populações. Mas o quesito básico para a
inserção de qualquer país pobre na economia global acaba sendo o
de sua população permanecer pobre. Se os salários e benefícios
aumentarem, o país deixa de ser competitivo e sua população volta
imediatamente a “exclusão”.
Para
os países ricos sobra a opção de transferir seus cidadãos de
empregos com altos salários e benefícios para empregos
terceirizados, temporários, de meio período, por projeto ou
empregados “just-in-time”. Em todos os casos há redução de
salários e/ou benefícios. Então perguntamos: se a renda nos países
ricos deve cair e nos países pobres deve se manter baixa, de onde
virá o aumento da demanda? Apenas o consumo de luxo será capaz de
gerá-la?
Por
outro lado, toda a pressão política que vem sendo feita tanto em
países ricos como nos subdesenvolvidos, é no sentido de uma menor
interferência do estado na economia. Quanto “menos governo”
melhor. Por toda a parte se fala em desregulamentação, em
flexibilização das leis trabalhista, etc. De novo perguntamos: De
onde virá uma possível reação institucional capaz de reduzir as
jornadas de trabalho e não o emprego?
Com
essa formulação, podemos concluir citando Castells de novo:
“O
endurecimento da lógica capitalista desde os anos 80 promoveu a
polarização social apesar da valorização profissional. Essa tendência
não é irreversível; pode ser retificada por políticas
deliberadas com o objetivo de reequilibrar a estrutura social. Mas
deixados à vontade, as forças da concorrência desenfreada no
paradigma informacional levarão o emprego e a estrutura social a
dualização” (CASTELLS,1999:328/329).
Em
outras palavras, apesar de um aumento das exigências em termos de
educação e treinamento, a maioria dos profissionais apenas
conseguiram manter em parte sua renda. De outro lado, um pequeno
grupo passou a obter salários cada vez maiores e os empresários de
sucesso fizeram fortunas inimagináveis.
O
que Castells chama eufemisticamente de polarização social é o
recrudescimento das desigualdades e consequentemente dos conflitos
sociais de todo tipo. Resta saber o que ele entende por “políticas
deliberadas” para reequilibrar as sociedades. Quem as implementará?
Os governos e partidos políticos atuais? Será possível fazê-lo
por meios pacíficos e institucionais?
Essas
são de fato as perguntas mais importantes, de cuja capacidade de
resposta, dependerá o futuro das novas lideranças políticas e
sociais.
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