Por LAURO A. MONTECLARO CESAR JR.

Graduado em Engenharia Civil, Pós graduado em Administração de Empresas, Núcleo de Concentração  Análise de Sistemas, pela Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo - Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado - FACESP - FECAP. Gerente de informática da Santa Casa de Misericórdia de Pindamonhangaba. Consultor de informática da Federação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades Filantrópicas do Estado de São Paulo - FESEHF.

 

Equacionando a questão do desemprego tecnológico

 

Talvez o problema mais grave que se coloca no inicio do terceiro milênio é a ameaça do chamado desemprego tecnológico, ou seja, o desemprego gerado pela combinação da utilização em grande escala da tecnologia de informática e telecomunicações aliada às novas técnicas gerenciais como meio de aumentar a produtividade das empresas com a conseqüente redução da necessidade mão-de-obra.

Os estudiosos do problema costumam se dividir em dois grupos com opiniões divergentes. De um lado existem os pessimistas ou “Profetas do desemprego maciço” como os chamou Manoel Castells. Esses seriam principalmente o grupo representado pelo “Clube de Roma” que formula a questão da seguinte forma:

“Se acontecer com o emprego industrial o mesmo que ocorreu com o rural, não haverá empregos suficientes no setor de serviços para substitui-los porque os próprios empregos desse setor estão sendo rapidamente automatizados e eliminados” (CASTELLS,1999:320).

Essa posição é muito bem expressa por Jeremy Rifkin: “O desemprego global atingiu agora seu nível mais alto desde a grande depressão da década de 1930, Mais de 800 milhões de seres humanos no mundo estão desempregados ou subempregados” (RIFKIN,1996:XVII) e por alguns outros autores. O único problema é que costumam fazer análises um tanto superficiais da questão, se atendo ao relato de casos isolados que consideram alarmantes e que demostrariam por si mesmos, suas preocupações.

Essas idéias costumam ser refutadas pelos otimistas, adeptos do que poderíamos chamar de teoria clássica do “pós-industrialismo”, esse grupo costuma colocar a questão da seguinte maneira:

“A atividade econômica mudaria de produção de bens para prestação de serviços. O fim do emprego rural seria seguido pelo declínio irreversível do emprego industrial em benefício do emprego do setor de serviços, que em última análise, constituiria a maioria esmagadora das ofertas de emprego. Quanto mais avançada a economia, mais seu mercado de trabalho e sua produção seriam concentrados em serviços” (CASTELLS,1999:267).

E concluindo:

“A nova economia aumentaria a importância das profissões com grande conteúdo de informação e conhecimentos em suas atividades. As profissões administrativas, especializadas e técnicas cresceriam mais rápido que qualquer outra e constituiriam o cerne da nova estrutura social” (CASTELLS,1999:267).

Assim, segundo o partido “otimista”, não há nada com o que nos preocupar, após um período de ajustes, a eliminação de empregos nos setores convencionais seria largamente compensada por uma grande oferta de colocações. Essas no entanto, exigiriam alta qualificação profissional. A solução portanto seria simples: Aumentar o nível de escolaridade e a capacitação técnica da população.

Infelizmente não é o que se observa no dia a dia e os números de todas as economias demonstra que o partido “pessimista” tem razão. Falta descobrir porque. O próprio Castells nos dá uma boa pista ao tentar refutar em parte os “pessimistas”:

“De acordo com esse raciocínio, talvez haja uma redução potencial do emprego em conseqüência da difusão das novas tecnologias de informação, apenas se:

A expansão da demanda não contrabalança o aumento da produtividade da mão-de-obra; e

Não houver reação institucional a essa desproporção, reduzindo a jornada de trabalho, não os empregos” (CASTELLS,1999:321).

Podemos concluir portanto que mesmo os “otimistas” concordam que para tudo dar certo é necessário evitar a combinação fatídica entre estagnação da demanda e inércia institucional. Em outras palavras, se não houver um “espetáculo do crescimento” em termos globais e os governos não forem capazes de intervir para reduzir as jornadas de trabalho, as conseqüências seriam as descritas pelos “pessimistas”.

Vamos analisar de início como cada país deverá agir para se inserir na nova economia. O que fica claro a partir de discursos e escritos de empresários e economistas é o seguinte:

  • É necessário o aumento de produtividade mesmo a custa do aumento do desemprego, isso porque:

  • O superávit gerado poderá assim ser usado para criar novos empregos. 

Alem do mais, alegam que a expansão do comércio global faria com que essa competição entre nações não tivesse como resultado uma “soma zero” ou seja, o aumento da riqueza global na realidade faria com que o superávit obtido por cada país fosse maior a cada ano de modo que todos ganhariam.

É ai que está o problema de fato. Porque o que estamos observando é o seguinte:

  • As empresas tem se valido das novas tecnologias para transferir empregos de seus países para outros onde a mão-de-obra é mais barata.

  • O superávit obtido é investido em cada vez mais tecnologias substitutivas de mão-de-obra em seus próprios países. 

  • Os governos nacionais são cada vez mais impotentes para influir sobre qualquer decisão importante que envolva a economia global.

Ora, uma das condições absolutamente necessárias ao aumento da demanda é o aumento da renda das populações. Mas o quesito básico para a inserção de qualquer país pobre na economia global acaba sendo o de sua população permanecer pobre. Se os salários e benefícios aumentarem, o país deixa de ser competitivo e sua população volta imediatamente a “exclusão”.

Para os países ricos sobra a opção de transferir seus cidadãos de empregos com altos salários e benefícios para empregos terceirizados, temporários, de meio período, por projeto ou empregados “just-in-time”. Em todos os casos há redução de salários e/ou benefícios. Então perguntamos: se a renda nos países ricos deve cair e nos países pobres deve se manter baixa, de onde virá o aumento da demanda? Apenas o consumo de luxo será capaz de gerá-la?

Por outro lado, toda a pressão política que vem sendo feita tanto em países ricos como nos subdesenvolvidos, é no sentido de uma menor interferência do estado na economia. Quanto “menos governo” melhor. Por toda a parte se fala em desregulamentação, em flexibilização das leis trabalhista, etc. De novo perguntamos: De onde virá uma possível reação institucional capaz de reduzir as jornadas de trabalho e não o emprego?

Com essa formulação, podemos concluir citando Castells de novo:

“O endurecimento da lógica capitalista desde os anos 80 promoveu a polarização social apesar da valorização profissional. Essa tendência não é irreversível; pode ser retificada por políticas deliberadas com o objetivo de reequilibrar a estrutura social. Mas deixados à vontade, as forças da concorrência desenfreada no paradigma informacional levarão o emprego e a estrutura social a dualização” (CASTELLS,1999:328/329).

Em outras palavras, apesar de um aumento das exigências em termos de educação e treinamento, a maioria dos profissionais apenas conseguiram manter em parte sua renda. De outro lado, um pequeno grupo passou a obter salários cada vez maiores e os empresários de sucesso fizeram fortunas inimagináveis.

O que Castells chama eufemisticamente de polarização social é o recrudescimento das desigualdades e consequentemente dos conflitos sociais de todo tipo. Resta saber o que ele entende por “políticas deliberadas” para reequilibrar as sociedades. Quem as implementará? Os governos e partidos políticos atuais? Será possível fazê-lo por meios pacíficos e institucionais?

Essas são de fato as perguntas mais importantes, de cuja capacidade de resposta, dependerá o futuro das novas lideranças políticas e sociais.

 

 

Bibliografia:

Castells, Manuel, A Era da Informação, Vol.1 - A Sociedade em Rede, São Paulo, Paz e Terra, 1999 (7ª edição).

Rifkin, Jeremy, O Fim dos Empregos, São Paulo, Makron Books,1996.

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