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Por MATHEUS FELIPE DE CASTRO
Professor
de Direito Penal e Criminologia da Universidade Estadual de Maringá-PR,
e mestrando em Direito e Sistema de Justiça, pela Universidade
Federal de Santa Catarina.
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Brizola
versus Hobbes, ou do medo na cidade do Rio de Janeiro
“Nenhuma arte, nenhuma ciência está exposta a tão fundo
grau de desprezo como quando qualquer um pode julgar dominá-la”.
Quando G.W.F. Hegel pronunciou esta sentença, em seus “Princípios
da Filosofia do Direito”, na cidade de Berlim, em 25 de junho de
1820, nem de longe poderia prever a relação ambivalente de amor e
ódio que aconteceria, neste início de século, no país onde o
surrealismo é normal, entre o povo e os aparelhos da repressão
estatal. Refiro-me, é claro, ao Brasil, onde todos se arrogaram à
cátedra de professores eméritos de direito penal, criminologia ou
segurança pública. Todos os dias, pelas teletelas, assistimos a um
constante desfilar de novas teorias criminológicas, todas elas
proprietárias da verdade fundamental para conter a violência em
nosso país, que haveria tomado proporções dantescas. O país
estaria nas mãos do “narcotráfico” e os poderes constituídos,
reféns dos traficantes!
A política, que desde a Grécia de Platão e Aristóteles
era considerada o locus natural das transformações sociais,
visto que o homem, na sentença do estagirita seria um “politikow
zoon” (um animal político), somente alçando o caráter de ser
social na vida da polis, foi mediocrizada na modernidade pelo
pensamento liberal. O homem contemporâneo possui aversão à política,
prima pela liberdade abstrata, pelo individualismo, pelos valores do
capital e possui asco à vida pública.
Por outro lado, o direito penal foi se cristalizando como
instrumento simbólico de “transformação social”: os nossos
governantes acreditam fielmente que através da repressão penal
podem resolver problemas sociais secularmente enraizados em nossa
sociedade.
Foi assim que na noite de 12 de abril de 2004, assisti, com
um misto de perplexidade e preocupação, no “Jornal da Globo”,
apresentado pela jornalista Ana Paula Padrão, a proclamação do
“homo homini lupus” hobbesiano por autoridades cariocas e
federais, que encontraram a “pedra filosofal” para a contenção
da criminalidade e do medo na cidade do Rio de Janeiro: o
vice-governador e professor emérito de criminologia Luiz Paulo
Conde, proclamou abertamente, em cadeia de televisão, que planejava
construir em torno da Favela da Rocinha, um “muro da discórdia”
isolando-a de outras favelas da Zona Sul da cidade. Surpreso fiquei
somente pela idéia não haver sido professada pelo guru do
vice-governador, o eminente professor catedrático de políticas de
segurança pública Anthony Garotinho, que no topo de sua cultura
vem nos agraciando diariamente com lições mágicas e fórmulas
prontas para a contenção da violência.
“Se é muro, se é cerca, se é grade, se não é grade, se
é marco delimitatório. O que eu acho na minha opinião é que
temos que conter a expansão”. Esta foi a sentença proferida por
Conde. Desconhece o emérito professor que, no Brasil, um dia, houve
um sistema escravista que confinava seres humanos em senzalas fétidas,
enquanto suas vidas eram entregues ao trabalho e ao enriquecimento
material do senhor. Com a abolição da escravatura, que não
significou sobremaneira abolição das diferenças sociais entre
brancos e negros, as portas das senzalas foram abertas para que
aquele contingente de miseráveis, agora libertos fisicamente, se
aprisionassem em novas cadeias: na dialética da vida, a favela
substituiu a senzala e confinou a negritude em seus novos “marcos
delimitatórios”. Aqui, em baixo, no lado branco da cidade,
construíram-se presídios, caso algum incauto miserável, talvez
por falta de informação ou satânico desejo de usufruto das
benesses que o consumo oferece nos shoppings centers, resolvesse
aqui aportar, ocasionando a desarmonia na estética capitalista. Não
à toa se apregoa que na modernidade, não existem mais burgueses e
proletários, mas consumidores e não consumidores.
Da senzala à favela; da favela ao cárcere... todas faces da
mesmíssima moeda. Mas agora, a proposta do professor Conde nos trás
uma nova solução jamais imaginada: cercar a favela,
transformando-a em uma penitenciária de segurança máxima. Eureka!
Por que não? Por que não cercar a favela de uma vez
transformando-a em uma prisão, onde aqueles miseráveis abandonados
pelo Estado voltem ao estado de guerra de todos contra todos de
Hobbes? A lógica perversa do controle social seria deixar com que
os miseráveis se matem entre si.
Mas, transformar a Rocinha em uma penitenciária somente
seria o reflexo de uma sociedade que tem na repressão seu valor máximo.
O que realmente me assusta é a vontade de transformar a favela não
em um cárcere, mas em um campo de concentração! Aí eu estaria
diante de uma sociedade muito mais patológica! Se na primeira hipótese
eu me encontro diante de uma proposta autoritária, no segundo me
encontro diante de uma proposta totalitária! No campo de concentração,
tudo é permitido, porque o homem deixa sua humanidade do lado de
fora: “deixai, do lado de fora, toda a esperança você, que
entra” era a sentença escrita em letras de sangue nos umbrais do
inferno de Dante e que poderia estar inscrito em qualquer campo de
concentração ou penitenciária moderna.
O totalitarismo possui esta característica fundamental, onde
o campo de concentração é a sua imagem: o homem deixa de ser um
fim em si mesmo e passa a ser um meio para a busca de outros fins. O
Estado absorve o ser humano, e o indivíduo somente passa a ter
sentido se visto a partir da ótica e do bem do Estado. O fascismo
toma conta do Brasil e os nossos governantes perderam todas as rédeas
éticas no trato da coisa pública.
Acredito que esta seja a maior característica de nossa época:
vivemos em um Estado totalitário oculto, dissimulado, por assim
dizer. Quando George Orwell escreveu seu 1984, tentando descrever um
Estado onde o ser humano nada representava, inspirou-se nos regimes
totalitários europeus, mas não podia imaginar que as características
máximas de sua descrição não se cristalizariam em Estados
militarizados como o nazista, mas sim dentro de regimes intitulados
democráticos, na modernidade. A alienação, a indiferença, a
coisificação do ser humano, a banalização da injustiça, a
repressão como método eficaz da política, a submissão do indivíduo
ao Estado... tudo isto vemos hoje ocorrer, dentro de democracias
vazias e inoperantes que antes representam uma farsa.
Clausewitz, famoso estrategista militar, certa vez afirmara
que “guerra é a política continuada por outros meios”. Michel
Foucault, posteriormente, inverteria este aforisma afirmando que a
“política é a guerra continuada por outros meios”. Eu,
humildemente diria – ou constataria – que o direito penal é a
política da guerra continuada por outros meios. A imagem bélica
toma conta de nossa sociedade, aquilo que Nilo Batista chamou de política
criminal com derramamento de sangue...
Mas como não poderia deixar de ser, após a primeira lição
de criminologia daquela noite, veio a segunda: em tom solene e
austero, o Ministro da (in) Justiça Márcio Thomaz Bastos declarava
que “se as circunstâncias concretas indicarem, o Governo Federal
lançará mão das forças armadas”. Como dizia o velho Marx, a
história sempre se repete duas vezes: a primeira como tragédia e a
segunda como farsa. Farsa qualificada inclusive, que ameaça lançar
mão de um recurso que já fora utilizado, no passado, por um déspota
“esclarecido”, que certa vez governara estas plagas. O que
admira é que a esquerda brasileira, agora no poder, lance mão do
mesmo discurso repressivo dos seus antigos opositores, o que Vera
Malaguti Batista chamou de o discurso da “Esquerda Punitiva”.
Como se não soubessem nossos governantes que os verdadeiros
traficantes usam ternos, gravatas e não moram nos morros do Rio de
Janeiro. Muitas vezes detém altos cargos públicos e eletivos.
Comandam o crime organizado que conta com apoio de setores podres do
Ministério Público e do Judiciário brasileiro, para não dizer da
polícia. Nossos governantes sempre atacam os efeitos e fecham seus
olhos para as causas da criminalidade. Mas isto possui um valor simbólico
e instrumental: nossos governantes não querem realizar as modificações
sociais e estruturais que o país necessita. Então, transferem as
suas responsabilidades
pelo atraso cultural, pela fome, pela miséria, pelo desemprego,
enfim, por todos os fatores de destruição dos laços de
solidariedade social e da dignidade do ser humano, visto como um fim
em si mesmo e que são as verdadeiras causas da violência e da
criminalidade, para as mãos das vítimas do sistema. É a lógica
do capitalismo tardio, a lógica de culpar o próprio indivíduo
pelo seu atraso, pela miséria, pela violência social.
Quando Leonel Brizola foi governador do Rio de Janeiro,
proibiu a polícia de subir os morros cariocas. Desejava dar um
recado à sociedade: se a dignidade do cidadão é respeitada na
zona sul, nos bairros nobres da cidade, deverá ser respeitada também
no barraco, porque no interior de sua casa, seja no condomínio
fechado, seja na favela, todo homem é rei. Mas foi mal
interpretado, porque neste país a dimensão da dignidade ainda não
foi estendida para os miseráveis. No Brasil, defensor dos direitos
humanos é cúmplice do tráfico!
Enfim, para o nosso deleite, e para fechar a noite com chave
de ouro, surgiu a imagem do emérito cientista político Arnaldo
Jabor, que ao final de seu discurso proclamou as Forças Armadas,
caso o Ministro da Justiça realmente determinasse a invasão dos
morros, a serem tão eficientes como foram contra os guerrilheiros
do Araguaia, na década de 70, em pleno regime militar. A juventude
nunca poderá se esquecer que os militantes do PCdoB que pegaram em
armas contra o regime militar e fundaram aquele movimento, quase no
final do séc. XX, foram mortos, com raras exceções, tiveram suas
cabeças cortadas e dependuradas em postes nos caminhos das cidades
vizinhas, como exemplo para qualquer um que se atrevesse a
questionar o poder da ditadura brasileira. Mas, salve Jabor: na
modernidade, o Direito Penal se transformou no Direito Penal do
espetáculo. A mídia nos prestigia com um banquete de sangue e
crime. Os noticiários não veiculam imagens ligadas à esfera pública,
ocultando os fatos políticos do cidadão comum. Imagens de roubos,
homicídios, seqüestros e tráfico de drogas, constituem o cardápio
diário do terror: o pânico social se alastra, quebrando os laços
de solidariedade das classes trabalhadoras, fomentando o
individualismo, mormente porque o estigma do criminoso traz consigo
o significado do perigo e do medo, identificado com os não-consumidores.
Os espetáculos de suplício das penas infamantes da Idade Média,
com seus cadáveres dependurados em postes e corpos esquartejados, não
são mais realizados em praça pública diante de espectadores atônitos:
agora, nós os vemos pela TV, que nos agracia com um banquete de
sangue, crime, terror e medo, diariamente... na hora do almoço!
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