|
Por WALTER PRAXEDES
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e na Faculdade Nobel;
Doutor em Educação (FEUSP)
|
|
Oralidade
e cultura popular na escrita de José Saramago
Uma
das características mais marcantes da criação romanesca do
escritor português José Saramago é a reconstituição da
oralidade em sua escrita. Discuto, a seguir, as opiniões de alguns
estudiosos da obra saramaguiana a esse respeito. O objetivo é
enfatizar a relevância da cultura popular como fonte de inspiração
e reflexão.
Como
ponto de partida podemos tomar um raciocínio do próprio Saramago,
para quem as características de sua técnica narrativa
"...
provêm de um princípio básico segundo o qual todo o dito se
destina a ser ouvido. Quero com isso significar que é como narrador
oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim
escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o
narrador oral não usa pontuação, fala como se estivesse a compor
música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas,
altos e baixos, uns, breves ou longas, outras" (SARAMAGO,
Cadernos de Lanzarote, 1997: 223).
Para
Walter Benjamin (1983) a diferença entre as figuras do narrador e a
do romancista se deve, em grande medida, à dependência do gênero
romanesco em relação ao livro. Ao invés de ser um contador de
histórias presente, o romancista é alguém que pode estar distante
no espaço e no tempo e que realiza a sua expressão através da
reprodução técnica permitida pela indústria do livro.
Através
de seus romances Saramago assimila, em parte, as posições do
narrador e do romancista, derrubando a fronteira existente entre
ambas, através da recuperação da tradição oral, e também pelo
fato de assumir a posição de alguém que utiliza-se da imaginação
para reinterpretar a história portuguesa e interpretar a realidade
contemporânea para contar ao leitor a sua versão das mesmas,
realizando, assim, um diálogo reflexivo sobre a condição humana e
o "sentido da vida", na intenção da superação da solidão
do autor e do leitor.
O
romance Levantado do chão,
publicado em 1980, tem a especificidade de demarcar um ponto de
superação na expressão literária e romanesca de José Saramago.
Na obra, o autor consegue desenvolver uma forma de discurso que
reproduz a diversidade conflituosa da realidade retratada pela
narrativa em construção, através da incorporação da tradição
oral dos camponeses alentejanos. Em uma entrevista a Horácio Costa,
Saramago assim explica
esse momento de sua produção literária:
"Eu tinha
uma história para contar, a história dessa gente, de três gerações
de uma família de camponeses do Alentejo, com tudo: fome, o
desemprego, o latifúndio, a política, a igreja, tudo. Mas me
faltava alguma coisa, me faltava como contar isso... Então, o que
aconteceu? Na altura da página 24, 25, estava indo bem e por isso
eu não estava gostando. E sem perceber, sem parar para pensar,
comecei a escrever como todos os meus leitores hoje sabem que eu
escrevo, sem pontuação. Sem nenhuma, sem essa parafernália de
todos os sinais, de todos os sinais que vamos pondo aí... Então,
eu acho que isso aconteceu porque, sem que eu percebesse, é como
se, na hora de escrever, eu subitamente me encontrasse no lugar
deles, só que agora narrando a eles o que eles me haviam narrado.
Eu estava devolvendo pelo mesmo processo, pela oralidade, o que,
pela oralidade, eu havia recebido deles." (SARAMAGO, 1998:
22-23)
A
preocupação com a história e a identidade portuguesa, revelada em
seus romances, torna as narrativas criadas por Saramago um meio para
o encontro com personagens, homens e mulheres, com identidades específicas,
por certo, mas que já revelam as perspectivas e os valores que o
autor antevê como imprescindíveis para o futuro de sua sociedade.
Leyla Perrone-Moisés (1998: 101-108) interpreta que
"... o
aspecto ao mesmo tempo artificioso e natural do português de
Saramago resulta de uma engenhosa aliança do erudito com o popular,
do livresco com a oralidade. Sua prosa incorpora uma rica tradição
literária, de Fernão Lopes a Vieira, Camilo Castelo Branco, Eça
de Queirós e Pessoa, aí presentes num intertexto que não é
apenas alusivo ou citacional, mas que age num nível mais difícil
de captar, o da arquitetura sintática, da prosódia, das técnicas
narrativas e descritivas. A essa tradição, Saramago trouxe sua
nota pessoal que, na superfície do texto, consiste na supressão da
maior parte dos sinais convencionais de pontuação, marcadores de
pausas ou de entoação. Esse modo de escrever, segundo ele, lhe
ocorreu de repente após a 20ª página de "Levantado do Chão"
(1980) e tornou-se desde então sua marca registrada. A supressão
total ou parcial de pontuação, largamente praticada desde o início
do século pelos prosadores de vanguarda (em Portugal por Almada
Negreiros), não tem, em Saramago, um intuito puramente
experimental, mas decorre do caráter oral de sua prosa, mais
proferida do que escrita, e proferida com larguíssimo fôlego. Essa
prática só funciona plenamente porque Saramago tem o domínio
absoluto da lógica discursiva, do ritmo da frase e da respiração
do falante, de modo que seu leitor jamais se extravia nos segmentos
do discurso ou confunde os interlocutores de um diálogo."
Um
dos sujeitos recriados por Saramago na forma de personagem de ficção
é Antonio Mau-Tempo, membro da terceira geração da família
camponesa, aqui lembrado justamente porque na narrativa "...será
grande contador de histórias, vistas e inventadas, vividas e
imaginadas, e terá a arte suprema de apagar as fronteiras entre
umas e outras..." (Levantado
do chão: 124). Saramago alimenta sua pesquisa com as histórias
contadas pelos camponeses e as recria
dando a voz a Antonio Mau-Tempo, que vai juntando mais e mais
histórias em seus relatos, pois, afinal, como numa boa conversa
"...a gente começa a contar um caso, mas metem-se outros
adiante..." (Levantado do chão: 130). Na voz de Antonio Mau-Tempo as histórias
acabam sempre com um julgamento dos fatos relatados. As contravenções
praticadas pelo bandido José Gato e seu grupo sempre acabavam com
uma boa justificativa: "... ao José Gato conheci-o sempre como
um homem que se meteu naquela vida porque não ganhava para
comer"; e
seguidas, ainda, de um julgamento moral de suas ações: "...
Tinha boas coisas o José Gato, essa justiça deve de se lhe fazer.
Nunca roubou nada aos pobres, a orientação dele era só roubar
onde o havia, aos ricos, como dizem que fazia o José do
Telhado" (Levantado do chão:
133); ou ainda numa absolvição de Antonio Mau-Tempo ao
contraventor, em tom fatalista: "...o José Gato era um maltês
sério. Acho que foi sempre um homem muito só, esta é a minha idéia"
(Levantado do chão: 135).
No
romance seguinte, Memorial do
convento, José Saramago volta a apresentar um contador de histórias,
Manuel Milho, trabalhador na construção do Convento de Mafra e
amigo de Baltasar Sete-Sóis, um dos protagonistas da narrativa. Em
volta de uma fogueira, antes de dormir, sentavam-se os amigos para
ouvir a história contada por Manuel Milho por etapas, deixando o melhor da história
sempre para o dia seguinte, acirrando, assim,
a curiosidade dos ouvintes que resistiam contra a postergação
do fim da narrativa: "...
O José Pequeno protestou, Nunca se ouviu história assim, em
bocadinhos, e Manuel Milho emendou, Cada dia é um bocado de história,
ninguém a pode contar toda...
(Memorial do convento: 253). A história de Manuel Milho acaba
com uma lição moral que ensina aos ouvintes o exemplo daqueles que
perseguiram tenazmente as suas vontades.
Como
nos ensina Segolin (1999: 274) "... a obra de Saramago nos
evoca ainda o velho contador de histórias, ao pé da fogueira
ritual ou da lareira doméstica, ... a tecer com a voz e o corpo
enredos fantásticos sobre seres não menos fantásticos ou a
transformar, com a magia do verbo e da voz, as miudezas e os
pequenos gestos do cotidiano em momentos epifânicos reveladores,
pondo a nu heroísmos e fantasmas insuspeitados e recônditos no âmago
do ser humano, deflagrando sonhos, pondo em cena nosso teatro
interior, estimulando-nos a trazer à luz os anjos e demônios que
nos habitam".
Através
desta reprodução da oralidade na escrita, torna-se possível uma
comunicação entre autor e leitor, pois o narrador emite um
discurso problematizador da realidade histórica, no qual o elemento
contraditório é intrínseco à própria representação do real
que é afirmada e em seguida analisada e criticada. A narrativa
desenvolve-se como uma forma de comunicação do pensamento em
movimento contínuo tentando dar conta do movimento da realidade,
através de sucessivas superações, que possibilitam uma nova síntese.
Pode-se afirmar, por isso, acompanhando uma reflexão de João
Alexandre Barbosa (1998), que "...o romance de Saramago é uma
prolongada discussão acerca das relações possíveis entre a
representação da realidade pela linguagem da narrativa e as inserções
operadas pela imaginação ficcional". O próprio Saramago, na
posição de narrador do
Memorial do convento, explica sua opção pela recuperação da
imaginação na escrita: "...fingindo, passam então as histórias
a ser mais verdadeiras que os casos verdadeiros que elas
contam..." (Memorial do
convento: 134).
A
oralidade torna possível, segundo Calvino (1990: 51) "...a
dilatação do tempo pela proliferação de uma história em outra,
que é uma característica da novelística oriental. Sheherazade,
conta uma história na qual se conta uma história na qual se
conta uma história, e assim por diante". O narrador de Levantado do chão não esconde do leitor a utilização desse artifício,
como fica evidente na seguinte digressão:
"A gente vai
falando para passar o tempo, ou para não deixar que ele passe, é
um modo de pôr-lhe a mão no peito e dizer, ou suplicar, Não andes,
não te movas, se dás esse passo pisas-me, que mal é que eu te
fiz. É também como baixar-me, pôr a mão na terra e dizer-lhe, Pára,
não gires, ainda quero ver o sol". (Levantado do chão:
166-167)
Por
tudo isso podemos concluir que a narrativa saramaguiana reafirma a
importância da voz dos
excluídos e marginalizados para o entendimento humano. Porém,
muito mais do que um mero recurso estilístico, trata-se de um
projeto bem sucedido de recuperação da cultura popular na
literatura e de demonstração de que entre ambas não pode ser
estabelecida uma barreira.
|
|

|
|
Referências
BARBOSA,
João Alexandre. "Até aos limites da realidade". In:
Suplemento Mais!. Jornal Folha
de São Paulo, 6/12/98.
BENJAMIN,
Walter. "O narrador". In: Textos
escolhidos. Coleção Os Pensadores. São Paulo, Abril Cultural,
1983.
CALVINO,
Italo. Seis propostas para o
próximo milênio. São Paulo, Companhia das letras, 1990.
JÚDICE,
Nuno. "José Saramago: O romance no lugar de todas as
rupturas". In:
Atelier du Roman, n.º 13,
Paris. 1987-1989. Artigo divulgado na página do Instituto
Camões na Internet
PERRONE-MOISÉS,
Leyla. "As artimages de Saramago". Jornal Folha
de São Paulo, 6/12/98.
SEGOLIN,
Fernando. "O evangelho às avessas de Saramago ou divino
demasiado humano ou o Deus que não sabe o que faz". In:
BERRINI, Beatriz (org.). José
Saramago uma homenagem. São Paulo, Educ/Fapesp, 1999.
SARAMAGO,
José. Levantado do chão.
Rio de Janeiro, São Paulo, Editora Record, Editora Bertrand Brasil,
1996.
______. Memorial do convento. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997.
______. Cadernos
de Lanzarote.
São Paulo, Cia das Letras, 1997.
______.
Entrevista a Horácio Costa. In: Cult - Revista
Brasileira de Literatura - Ano 2 - n. 17, São Paulo, 1998.
|
|