TEXTOS CLÁSSICOS

 

Por MARTIN LUTHER KING JR.


VERSÃO PARA IMPRESSÃO - WORD [WINZIP]


Prólogo, tradução e notas:

Alexander Martins Vianna

Departamento de História – FEUDUC/RJ

Doutorando em História pelo PPGHIS-UFRJ

 

Anti-sionismo é um anti-semitismo?

Prólogo:

Em agosto de 1967, foi publicada uma carta de Martin Luther King (1929-1968) – um dos principais líderes do movimento pelos direitos civis nos EUA – em que adverte a um amigo sobre o perigo de o anti-semitismo, ao vestir o disfarce do anti-sionismo, ser atualizado com novos ares de legitimidade na cena política dos EUA e do mundo. Seguindo uma retórica de púlpito batista, a carta de Luther King apresenta sua tese desde o início e, depois de desenvolver todos os pontos que a sustentam, retorna a ela no último parágrafo para conseguir o efeito de convencimento desejado. É marcante o jogo de palavras, a busca de boas rimas e sonoridade, como se sua carta fosse mais “para ser proferida” do que “lida”. No entanto, não foi possível preservar toda esta dimensão discursiva ao traduzi-la. Assim, optei por apresentar o original ao lado da tradução.

As advertências de Luther King tinham uma razão de ser: desde 1947, com a formação do Estado de Israel, associado com a discriminação e subordinação política e social dos palestinos, passou a ser recorrente confundir a identidade de um Estado (Israel) com um fato social e cultural mais abrangente – ser judeu. Ora, nem todos os judeus concordavam com a existência ou com as práticas do governo do Estado de Israel. Muitos sequer interpretavam que o “retorno à Terra Santa” significava algo concreto neste mundo. Além disso, durante a década de 1960, muitos judeus norte-americanos passaram a militar com líderes negros no “movimento pelos direitos civis”, sendo às vezes discriminados como “judeuzinhos amantes de negros”. Assim, não é sem razão que Luther King receasse uma nova onda anti-semita depois da Guerra dos Seis Dias. Esta guerra ocorreu entre 5 e 10 de junho de 1967 e foi o terceiro confronto militar entre Israel e Estados do Oriente Médio, quando o primeiro impôs rápida derrota ao Egito, Síria e Jordânia. Este evento foi precedido pelo Tratado de Defesa Conjunta (1966) entre Egito e Síria e pelo fechamento do Estreito de Tiran à passagem de embarcações israelenses, isolando o porto de Eilath. Depois da retirada das forças da ONU da Península do Sinai e da Faixa de Gaza e a sua substituição pelas forças armadas egípcias em maio de 1967, o governo de Israel alegou que seria atacado e precisaria proteger as suas fronteiras. Deste modo, desfechou fulminante ofensiva, ocupando aquelas porções asiáticas do território egípcio, além de ter tomado a Cisjordânia da Jordânia e as Colinas do Golã da Síria.

Deve-se considerar que algumas lideranças carismáticas do movimento pelos direitos civis nos EUA tinham uma visão ingênua do que chamavam de “drama do Terceiro Mundo”. Por isso, não surpreende que, em plena onda descolonizante da África, Luther King enxergasse “nossos irmãos africanos” buscando o seu “direito fundamental à soberania”, ou seja, valores da democracia liberal norte-americana e européia e, portanto, tivesse apenas uma “visão de cima” do verdadeiro drama de construir soberanias nacionais (e identidade nacional) num continente artificialmente retalhados pelo neocolonialismo. E mais ainda: nivelasse este “drama histórico” ao “drama milenar” do “povo judeu”, de forma que judeus e negros se vissem do “mesmo lado” – aquele dos discriminado, perseguidos e espoliados da História. Afinal, se nossos “irmãos africanos” lutavam por um direito fundamental, por que o “povo judeu” não poderia?

Tal  “visão de cima” tem menos a ver com uma real percepção de política externa no Oriente Médio ou na África do que com a necessidade de se manter a unidade entre as facções do movimento pelos direitos civis nos EUA num momento em que um evento internacional poderia fragmentá-las mais ainda em “rixas bairristas”. Superficialmente, podemos também perceber na carta de Luther King a lente “pan-africanista” de lideranças dos processos de independência que dividiam os mesmo valores e conceitos de seus antigos colonizadores no que tangia à percepção de soberania política, território, cidadania e potenciais projetos de modernização. Portanto, a sua carta, como um artefato político e cultural de uma época, deve ser referida criticamente e adequadamente ao seu contexto.

 

"Anti-Zionism = Anti-Semitism"

From Martin Luther King Jr., "Letter to an Anti-Zionist Friend", Saturday Review XLVII (Aug. 1967), p. 76.

Reprinted in Martin Luther King Jr., "This I Believe: Selections from the Writings of Dr. Martin Luther King Jr".

"...You declare, my friend, that you do not hate the Jews, you are merely 'anti-Zionist'. And I say, let the truth ring forth from the high mountain tops, let it echo through the valleys of God's green earth: When people criticize Zionism, they mean Jews – this is God's own truth. Antisemitism, the hatred of the Jewish people, has been and remains a blot on the soul of mankind. In this we are in full agreement. So know also this: anti-Zionist is inherently antisemitic, and ever will be so.

Why is this? You know that Zionism is nothing less than the dream and ideal of the Jewish people returning to live in their own land. The Jewish people, the Scriptures tell us, once enjoyed a flourishing Commonwealth in the Holy Land. From this they were expelled by the Roman tyrant, the same Romans who cruelly murdered Our Lord. Driven from their homeland, their nation in ashes, forced to wander the globe, the Jewish people time and again suffered the lash of whichever tyrant happened to rule over them.

The Negro people, my friend, know what it is to suffer the torment of tyranny under rulers not of our choosing. Our brothers in Africa have begged, pleaded, requested – DEMANDED the recognition and realization of our inborn right to live in peace under our own sovereignty in our own country. How easy it should be, for anyone who holds dear this inalienable right of all mankind, to understand and support the right of the Jewish People to live in their ancient Land of Israel. All men of good will exult in the fulfilment of God's promise, that his People should return in joy to rebuild their plundered land. This is Zionism, nothing more, nothing less.

And what is anti-Zionist? It is the denial to the Jewish people of a fundamental right that we justly claim for the people of Africa and freely accord all other nations of the Globe. It is discrimination against Jews, my friend, because they are Jews. In short, it is antisemitism.

The antisemite rejoices at any opportunity to vent his malice. The times have made it unpopular, in the West, to proclaim openly a hatred of the Jews. This being the case, the antisemite must constantly seek new forms and forums for his poison. How he must revel in the new masquerade! He does not hate the Jews, he is just 'anti-Zionist'!

My friend, I do not accuse you of deliberate antisemitism. I know you feel, as I do, a deep love of truth and justice and a revulsion for racism, prejudice, and discrimination. But I know you have been misled – as others have been – into thinking you can be 'anti-Zionist' and yet remain true to these heartfelt principles that you and I share. Let my words echo in the depths of your soul: When people criticize Zionism, they mean Jews – make no mistake about it."

 

“Anti-Sionismo = Anti-Semitismo”

De Martin Luther King Jr., “Carta para um amigo anti-sionista”, Saturday Review XLVII (Aug. 1967), p. 76.

Reimpresso em Martin Luther King Jr., “Eu acredito nisso: Seleções dos Escritos do Dr. Martin Luther King Jr.”

 

“...Meu amigo, você declara que não odeia os judeus, que é meramente ‘anti-sionista’. E eu digo: Deixe a verdade ultrapassar os altos cumes de montanha, deixe-a ecoar através dos vales da vicejante terra divina. Quando alguém critica o sionismo, quer dizer judeus – esta é a própria verdade divina. O anti-semitismo – o ódio contra pessoas judias – tem sido e permanece uma mácula no espírito da humanidade. Nesse sentido, tenha conhecimento disso: anti-sionismo é inerentemente anti-semita, e será sempre assim.

Por que isso? Você sabe que o sionismo não é nada mais do que o sonho e ideal de o povo judeu retornar a viver em sua própria terra. As Escrituras nos contam que o povo judeu só gozou de um florescente Estado na Terra Santa, da qual foram expulsos pelo tirano romano – os mesmos Romanos que assassinaram Nosso Senhor. Arrancado de seu lar, com sua nação em frangalhos, o povo judeus foi forçado a perambular pelo globo, constantemente sofrendo o castigo de qualquer tirano que por ventura estendesse sua autoridade sobre si.

Meu amigo, o povo negro sabe o que é sofrer o tormento da tirania de governantes que não são de nossa escolha. Nossos irmãos na África têm esmolado, suplicado, requerido e pedido o reconhecimento e realização de nosso direito natural de viver em paz sob nossa própria soberania em nosso país[1]. Para qualquer um que se agarrasse a este inalienável direito de toda a humanidade, seria tão fácil entender e apoiar o direito de o povo judeu viver em sua antiga Terra de Israel. Todo homem de boa vontade exulta no cumprimento da promessa de Deus de que seu povo deveria retornar e gozar da reconstrução de sua espoliada terra[2]. Isto é o sionismo, sem nada mais, nem nada menos.

E o que é anti-sionismo? É a negação ao povo judeu de um direito fundamental que nós justamente clamamos para o povo africano e com o qual todas as nações do globo concordam. Meu amigo, trata-se de discriminação contra os judeus por eles serem judeus. Em suma, é anti-semitismo.

O anti-semita regozija-se com toda a oportunidade de espalhar sua malícia. No Ocidente, os tempos têm tornado impopular proclamar abertamente o ódio aos judeus[3]. Sendo este o caso, o anti-semita busca constantemente novas formas e fóruns para seu veneno. Como ele deve deleitar-se em novo disfarce!...Ele não odeia judeus, ele é ‘anti-sionista’!...

Meu amigo, não acuso você de deliberado anti-semitismo. Sei que você sente, como eu, um profundo amor pela verdade e justiça, e uma repulsa contra racismo, preconceito e discriminação. No entanto, sei que você, como tantos outros, tem sido mal conduzido a pensar que pode ser ‘anti-sionista’ e ainda permanecer fiel a estes sinceros princípios que dividimos. Deixe ecoar minhas palavras na profundeza de seu espírito: Quando alguém critica o sionismo, quer dizer judeus – não se engane quanto a isso”.


[1]Luther King funde aqui a luta pela descolonização da África e as dificuldades abertas pelo sistema eleitoral norte-americano, principalmente nos estados do sul, para a participação da população negra como eleitores e candidatos.

[2]Luther King retira do sionismo o seu conteúdo político e histórico, colocando no nível das coisas reveladas por Deus. No entanto, a visão de “povo escolhido”, por definição, implica num exclusivo. Nesse sentido, qual o lugar da população negra nesse sistema?

[3]Sob os efeitos midiáticos dos Julgamentos de Nuremberg, quando se tornou público para o mundo o genocídio em massa organizado pelo projeto estético de Estado do Fascismo Alemão, os julgamentos e preconceitos anti-semitas perderam espaço na cena pública. Em 1951, Hannah Arendt publicou “Sobre a Origem do Totalitarismo” e, em 1963, publicou “Eichmann em Jerusalém”. No entanto, para além da sofisticação analítica de Hannah Arendt, houve uma forte tendência no pós-II Guerra Mundial de constituir entre os judeus uma “identidade de vítima”, que inclusive esteve presente como justificativa para a estratégica criação do Estado de Israel. Em termos político, isso desdobrou-se numa prospeção perigosa: constituir uma identidade nacional centrada num “trauma fundador pós-dispórico” que acabou por fazer com que a história dos judeus fosse contada como se houvesse uma transtemporal unidade cultural e identitária de “povo escolhido e perseguido” que necessariamente deveria desembocar na existência histórica do Estado de Israel – ponto final para todo o sofrimento. Para saber como este mecanismo interfere na cena política e ajuda a atenuar perigosamente a especificidade histórica da lógica de genocídio numa sociedade de massa, ver: TODOROV, Tzvetan. Em face ao Extremo. Papirus: São Paulo, 1995; TODOROV, Tzvetan. O Homem Desenraizado. Rio de Janeiro: Record, 1999; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. “Clausuras Contemporâneas: Individuação, Regressão e Terror”. In Escritos sobre História e Educação: Homenagem a Maria Yedda Linhares. Rio de Janeiro: Mauad, 2001. pp.73-85

   

 

 

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