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Por RUDÁ RICCI
Sociólogo,
Doutor em Ciências Sociais, Professor da PUC-Minas e do Mestrado
em Educação da UNINCOR
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Governo
Popular ou Popularidade do Governo
Citar
a palavra povo parece pieguismo nos dias atuais. Principalmente se
conhecemos as análises de Ernesto Laclau. Na edição de julho de
2003 da revista Margens (editada simultaneamente em Belo Horizonte,
Buenos Aires, Mar del Plata e Salvador), Laclau nos ensina que o líder
populista possui necessariamente um discurso emocional,
anti-institucional, que agrega as inúmeras demandas de tantos
agrupamentos sociais que se sentem excluídos em determinada
sociedade.
Ocorre
que, no Brasil dos dias atuais, em que nosso Presidente da República
é um operário, o tema da fidelidade ao povo parece mais relevante
que nunca. Afinal, por quais motivos um líder operário produz políticas
públicas tão conservadoras ou populistas? Os mais engajados num
projeto de esquerda para o país sentem-se incomodados e atônitos.
Laclau,
novamente, nos auxilia teoricamente. No ensaio citado acima, o autor
constrói uma sinuosa engenharia política. Sugere que os indivíduos
não se constituem em totalidades coerentes, mas meras identidades
que se desdobram em inúmeras posições – e desejos, podemos
agregar – localizadas no sujeito. Daí nasceria a dúvida de
Laclau a respeito da possibilidade de se construir espaços comunitários
baseados numa certa completude, justamente porque os interesses e
vontades não são inteiramente autodeterminados. Em outras
palavras, os indivíduos que compõem a teia comunitária são múltiplos,
deslocando permanentemente os acordos entre sujeitos.
Numa
escala a mais da organização política é possível, então,
desconfiar da complexa trama que marca a constituição de uma
demanda social em luta política. A articulação política entre
demandas comunitárias parece fadada à instabilidade, porque nasce
desta pluralidade e mobilidade de desejos individuais, de interpretações
diferenciadas de cada demanda a partir dos interesses e intenções
individuais.
Este
particularismo só pode ser rompido por dois movimentos ardilosos. O
primeiro movimento é marcado pelo que Laclau denomina de “lógica
da diferença”: as exigências comunitárias, diferentes entre si,
somam-se a partir de um sentimento de injustiça, compartilhando a
insatisfação por não serem atendidos, não serem respeitados em
seus direitos. Deste sentimento pode surgir o sujeito
popular (Laclau o distingue do sujeito democrático). Sua
legitimidade funda-se na pluralidade de exigências comunitárias não
satisfeitas e na inabilidade do sistema institucional absorvê-las.
Obviamente que o discurso do líder ou sujeito popular possuirá um
caráter nitidamente anti-institucional. Diz o autor que “não há
populismo sem a constituição discursiva de um inimigo”.
Finalmente,
chegamos a duas possibilidades: ou uma demanda comunitária começa
a funcionar como uma referência geral às outras demandas,
constituindo um discurso hegemônico, ou a unidade popular forja-se
a partir de um discurso de significado tendencialmente vazio, como
no caso do conceito de pobreza, que cria identidade entre os que se
sentem injustiçados, mas não define nenhuma proposta para sua
superação.
Esta
trama teórica e política não explicaria a origem dos dilemas
atuais do governo Lula?
Talvez,
por aí, poderíamos compreender a leitura da conjuntura que este
governo exibe, claramente marcada pelo “realismo político”: a
política do possível, seja lá o que isto signifique.
O
suporte teórico sugerido por Laclau indicaria que a figura de Lula
teria sido construída no campo político a partir de um referencial
emocional, anti-institucional, cuja intenção explícita
articulava-se ao redor de um discurso pouco concreto: a conquista da
dignidade do povo brasileiro. Ocorre que, na medida em que este
discurso é alçado ao poder central do país, revela-se pouco
articulado em seu interior, não se estrutura num programa de mudança
do país, torna-se refém de um desejo genérico, bem intencionado.
Por aí, entenderíamos os motivos deste governo ter popularidade
(os índices de popularidade da figura de Lula não foram abalados
por nenhuma crise que afetou seu governo), mas estar totalmente
desprovido de um projeto político de caráter popular. O dilema
entre ser um governo popular e ser um governo com popularidade
parece, inclusive, resolvido no interior do governo.
Haveria,
ainda, uma outra possibilidade de interpretação histórica para as
dificuldades do governo Lula construir e implementar um projeto
popular de mudança do país. A geração que tomou posse dos mais
altos cargos do Executivo Federal, principalmente aquelas lideranças
que se engajaram no embate direto contra o regime militar, é
marcada por uma cultura política generosa, altruísta, portadora de
intenções utópicas. Contudo, a derrota no campo de batalha, o exílio,
a perseguição a que foram submetidos, também marcou-a. O
resultado é sempre uma postura pendular ou híbrida entre o
engajamento pela mudança e a cautela excessiva. Por este motivo,
este governo respeita seus inimigos além do que poderia ser
considerado razoável. E seus históricos aliados, em função do
medo, amargam a espera ou o ostracismo.
Qualquer
dessas duas possibilidades de interpretação deságuam num
sentimento de imobilismo ou impotência para aqueles que dedicaram a
vida à justiça social e à mudança do país. Afinal, tantos anos
de sacrifício e risco não poderiam parir um programa tão acanhado
como o Fome Zero, ou o duro controle monetário, ou ainda os acordos
com caciques regionais (apresentados ao público como mostras de
habilidade e prudência do governo federal). É pouco, convenhamos.
Mas
é ainda mais angustiante os pífios resultados das ações sociais
do governo. Recentemente, fomos informados que o SIAFI (sistema de
acompanhamento da execução orçamentária do governo federal)
registra apenas um novo emprego criado a partir do programa federal
Primeiro Emprego.
O
que estaria faltando? Obviamente que coragem e desprendimento. A
coragem, acredito, surgirá com uma prestação de contas dos atuais
Donos do Governo com seus momentos de derrota no passado. Mas o
desprendimento parece mais urgente e revela algo mais grave do
momento político que vivemos. Há poucos dias, o ministro Tarso
Genro afirmou que o programa Brasil Alfabetizado, elaborado por
Cristovam Buarque, propunha uma meta absolutamente utópica. Este
programa objetivava alfabetizar 20 milhões de pessoas até 2006.
Somente em 2004, seriam 6 milhões de alfabetizados. Genro informa
que apenas metade de algumas turmas, que envolveram
3 milhões de beneficiários em 2003, conseguiram se
alfabetizar.
Paulo
Freire já havia ensinado esta lição quando afirmava que não
acreditava em programas de alfabetização de massas. Dizia que,
para ser libertador, tais programas alimentavam-se de momentos históricos
de luta pela cidadania, onde o alfabetizando tinha clara consciência
sobre a utilidade e o momento libertador que era a alfabetização.
Citava os movimentos de libertação da África. Em suas próprias
palavras:
Eu
não creio em programas de alfabetização de adultos que sejam
simplesmente organizados por alguns educadores em algum lugar e
depois oferecidos para analfabetos em todo país. Isso não
funciona. (...) Os programas de alfabetização de adultos são
eficientes em sociedades em que o sofrimento e a mudança têm
criado uma motivação especial nas pessoas para ler e escrever.
(...) A revolução na Nicarágua foi o último exemplo disso. (...)
As pessoas [citando os negros norte-americanos do sul do país
que se alfabetizavam nas Escolas de Cidadania, no período de luta
contra o apartheid, nos
anos 50) queriam e precisavam
aprender a ler e a escrever, justamente a fim de ter mais
possibilidade de serem elas mesmas. (...) Podemos, então, ver uma
coincidência: de um lado, pessoas necessitando (...). Pois, naquele
momento, para aquelas pessoas, ler e escrever era realmente um
instrumento importante e também um sinal de respeito, de
auto-respeito. (FREIRE, Paulo & HORTON, Myles. O Caminho se faz caminhando. Petrópolis: Vozes, 2003, páginas 94 e
95).
Não
teria faltado no lançamento do programa federal de alfabetização
de adultos este clima de mudança social, o desejo de conquistar a
auto-estima que envolveria a população que se considera
marginalizada socialmente em nosso país? E, se faltou este ambiente
político-social, qual seria o motivo, já que o presidente eleito,
que forjou tal programa, é um operário que chegou ao poder com a
promessa de mudança e justiça social?
Em
síntese, o governo com grande popularidade parece não conseguir
construir um programa popular, de mudança. Não consegue envolver e
entusiasmar, nem mesmo motivar, sua base social mais preciosa. Daí
a denúncia da falência precoce do programa de alfabetização.
Mas,
o problema político parece ainda mais grave. Se a lição de Paulo
Freire é tão antiga, o que faria um ministro de esquerda propor
tal ambição descabida? Teria sido a pressa por resultados? E,
mais: o que faria seu sucessor censurá-lo publicamente?
Consultando
meus cabelos brancos, imagino que seja a falta de desprendimento. A
luta política interna. Se minha percepção está correta, mesmo
sendo um problema que não atinja a grande massa dos brasileiros, ao
menos atinge duramente aqueles que se filiam às intenções e
trajetória da esquerda brasileira.
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