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A
Sarça Virou Cinzas
(Da
crise do PT)
Há
várias semanas, uma crise sacode o PT – Partido dos
Trabalhadores, desde suas bases até os ocupantes do Planalto. As
causas aparentes ou alegadas – a corrupção de um assessor do
Chefe da Casa Civil, seguida do fechamento por uma Medida Provisória
das casas de bingo em todo o país permitiram à oposição posar
como defensores da moralidade e clamar da tribuna do Congresso a
instalação de duas CPIs.
As
raízes do mal estar que afeta amplas faixas do PT, inclusive seus
dirigentes, residem na estagnação da economia que teria
“crescido” apenas 0,2% no ano passado, primeiro da gestão Lula.
Apesar das promessas, nos discursos do Presidente, de um “espetáculo
de crescimento” em 2004, os primeiros dois meses não auguram as
mudanças substanciais na política econômica que seriam capazes de
aliviar as pressões e o clamor da população por mais empregos,
melhores salários e o controle efetivo da inflação. Continua a
sangria dos recursos do país com o pagamento das dívidas externa e
interna, enquanto prossegue a redução, já tornada crônica, da
massa salarial, agravada pelo corte dos gastos sociais, a fim de
assegurar o famigerado superávit fiscal.
Nas
suas viagens ao exterior, Lula faz discursos bombásticos, exortando
por uma partilha mais justa entre os países desenvolvidos e os
“emergentes”. Mas, no cenário nacional, o governo do PT segue a
política da ortodoxia financeira pautada pelo FMI – Fundo Monetário
Internacional. Os discursos da área econômica do governo,
insistindo sobre a necessidade de se controlar a inflação por meio
de altas taxas de juros para depois crescer, não convence mais
ninguém, a não ser o tal de “mercado” – as instituições
financeiras que lucram mais do que nunca, num mar de miséria.
O
governo parece apostar numa nova onda de liquidez e conseqüente
afluxo de capital internacional, atraído pelas altas taxas de juros
e os baixos salários da força de trabalho. Insensíveis ao clamor
de milhões de desempregados e subempregados, os novos donos do
poder se aliam às elites tradicionais na reprodução de uma política
econômica neoliberal, com conseqüências funestas no cenário
social. Na busca de uma saída ilusória pelo aumento das exportações
(soja, açúcar, frangos, carne etc) os governantes parecem ignorar
a opção pelo mercado interno e a mobilização de sua poupança,
capaz de assegurar à massa dos deserdados os direitos básicos,
econômicos e sociais, sobretudo empregos com salários decentes, em
vez de programas assistencialistas de “alívio da pobreza”.
Essa
política agrava a crise da “esquerda” brasileira e coloca na
ordem do dia a criação de novos movimentos sociais que lutem pela
superação da dominação de classes baseada na pseudodemocracia
representativa, historicamente controlada pelo grande capital, pela
tecnocracia civil e militar e pelos conglomerados da mídia.
Ao
limitar suas metas a taxas de crescimento do PIB, das exportações
e do saldo fiscal superavitário, sem vislumbrar a redistribuição
da renda e a inclusão de todos como cidadãos – sujeitos de sua
História –, o PT abre mão de sua responsabilidade histórica
como agente catalisador das transformações exigidas pela sociedade
brasileira. Essas foram relegadas ou abandonadas em nome de um
pragmatismo oportunista que relembra as práticas históricas de
cooptação e assimilação pelas elites dominantes.
O
que está sendo apontado pela oposição interna e externa ao PT? O
caso de Waldomiro Diniz teria revelado que as esperanças e
expectativas da população que apostara em mudanças foram despedaçadas.
A democracia do PT não estaria imune da corrupção, de nepotismo,
da especulação e do enriquecimento ilícito típicos das elites
tradicionais.
Estamos
apenas no início do ano de 2004 e a campanha eleitoral já está na
mídia e nas ruas. Os candidatos de todos os partidos necessitam,
para se eleger, de forte apoio financeiro que, invariavelmente, vem
dos grandes grupos econômico – financeiros: empreiteiras, bancos,
empresas e mídia que costumam apresentar suas “faturas” após o
veredicto das urnas. O atual esquema, solidamente entrincheirado na
legislação eleitoral e política, desvirtua e inviabiliza a
democracia representativa tal como funciona na maioria dos países
ocidentais.
Para
avançar na teoria e na prática de transformações sociais
torna-se imperativo a construção de novos modelos de organização
social para abrir espaço à participação popular permanente nos
processos decisórios.
Ironia
da História, até os chamados partidos da “esquerda”, quando
guinados ao governo, sucumbem ao autoritarismo e à centralização
imanentes ao exercício do poder. Todo poder tende a se burocratizar
num processo que substitui o carisma dos fundadores ou revolucionários
pelas normas e o controle da máquina administrativa e policial.
Assim foi com as várias denominações religiosas que surgiram nos
últimos dois mil anos e, também, com os regimes revolucionários
vitoriosos que nasceram de revoltas populares contra a opressão ao
longo do século XX.
A
evolução social e política nos últimos séculos apontam para o
despertar da consciência política individual e coletiva, para
reivindicar a soberania historicamente apropriada pelas elites e
para exercer o poder mediante decisões coletivas em todos os níveis
da sociedade. Suas raízes se encontram nos inúmeros movimentos e
organizações populares que, construindo redes virtuais e
convergindo para um sistema de governança dinâmico e complexo,
apelam e proclamam para a autogestão, a autonomia cultural e política
e a interdependência. Trata-se de um processo longo e penoso de
educação e capacitação da população para que assuma seu papel
numa democracia participativa. Inevitavelmente, durante um longo período,
haverá a necessidade de convivência com um sistema de poder dual
– as formas tradicionais do exercício de poder, fiscalizado e
controlado pelas representações da sociedade civil, e as formas
emergentes de organização social que se estruturam com base na
democracia direta e participativa.
Eis
o desafio que se coloca perante o Partido dos Trabalhadores:
tornar-se o elemento catalisador de um processo histórico que
despontou esporadicamente ao longo do século XX – a construção
de uma sociedade capaz de se autogovernar e onde todos realizam seu
potencial para se tornarem sujeitos de seu destino. As formas
concretas desse novo poder popular estão surgindo em todos os
lugares e sociedades, como tão bem ilustrou o Fórum Social
Mundial, em suas sucessivas edições de 2001 até 2004. São as
cooperativas e consórcios, locais e regionais, e associações de
cidadãos participando efetivamente dos debates sobre a causa pública,
num espírito de solidariedade e respeito mútuo, que garantem o
funcionamento de uma verdadeira sociedade democrática.
A
lenda da sarça ardente
Então,
multiplicaram-se as vozes daqueles que disseram que os dias das
trevas já duraram bastante, que se havia esperado demais para que a
promessa da felicidade se tornasse realidade e o anúncio da luz –
verdade.
E,
eles disseram: ”... vamos, construiremos nossas casas ao redor da
sarça que arde desde a eternidade. Os dias das trevas terminarão,
pois a sarça continuará em chamas e nunca será reduzida a
cinzas”.
Assim
falaram os mais corajosos entre eles; aqueles nos quais o futuro
pulsiona como a criança ainda não nascida vive no seio de sua mãe;
aqueles que não perguntam ao oráculo “o que vamos fazer”?
Encontraram
obstáculos e hostilidade em todos os lugares. Entretanto, foram
muitos os que seguiram na escalada íngreme e rochosa que conduziu
à sarça ardente. E, instalaram-se perto dela para viver no seu
calor e sua luz.
Ora,
aconteceu que seus ramos carbonizaram e caíram. As próprias raízes
queimaram e viraram cinzas. De novo, as trevas expandiram-se e fazia
frio.
E
vozes se levantaram e diziam: “vejam como nossa esperança foi
enganada. Não haverá culpa? Procuremos a quem ela cabe”!
Então,
os novos senhores mandaram matar a todos que assim falaram e
declararam: “Quem se levantar para afirmar que a sarça queimou,
sofrerá uma morte ignominiosa. Somente o inimigo não enxerga a
luminosidade da sarça, somente o inimigo sente frio em vez de seu
calor”.
Assim,
os novos senhores proclamaram, em pé sobre as cinzas e envolvidos
por uma grande claridade espalhada pelas tochas nas mãos dos novos
escravos.
Mesmo
assim, alguns se levantaram, e o futuro vivia neles como a criança
que ainda não nasceu vive no seio de sua mãe e disseram: “A sarça
apagou porque de novo existem entre nós senhores e escravos, mesmo
que nós os chamemos por outros nomes. Porque existe entre nos a
mentira, a corrupção, a humilhação e a sede de poder. Venham,
vamos procurar alhures e recomeçar pelo começo”.
Entretanto,
os novos senhores mandaram os escravos que cantassem, em todos os
lugares e todas as horas, em louvor da sarça ardente. Assim,
ouviu-se seu salmodiar nas trevas: “Para nós, a luz brilha mais
do que nunca”. Eles tremeram de frio, mas seu canto ressoava
“... o fogo eterno da sarça nos aquece”.
E
os capangas dos novos senhores colocaram se a caminho para aniquilar
todos que diziam a verdade, para afogar na vergonha os nomes
daqueles que falaram em recomeçar. Mataram muitos, sem, contudo,
destruir a esperança que é antiga como a tristeza e nova como a
aurora que ainda não raiou.
“Existe
uma outra sarça, precisamos procura-la”, anunciaram as vozes
secretas daqueles que têm em seu encalço os capangas dos senhores
antigos e novos.
“Precisamos
recomeçar, mesmo que tenhamos de plantar de novo a sarça”.
“Benditos
sejam aqueles que assim falam! Que as pedras no caminho não sejam
duras demais para seus pés e que sua coragem não seja menor do que
nosso sofrimento”.
Assim
falou o estrangeiro antes de nos deixar, mais uma vez. Tentamos
olvida-lo, ele e o gosto amargo de sua esperança. Estávamos
cansados do eterno recomeço.
Prólogo do livro “E a sarça
virou cinzas” de Manès Sperber, Éditions Calman-Levy, Paris,
1949, traduzido do francês pelo autor
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