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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá, doutorando nem educação (FEUSP)
e membro do Núcleo de Estudos de Ideologia e Lutas Sociais
(NEILS-PUC/SP)
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Ler
faz bem ou mal?
“Minha
vida tinha tomado o caminho errado, e meu contato com os homens não
era mais do que um monólogo interior. Havia descido tão baixo que,
se tivesse que escolher entre ficar apaixonado por uma mulher e ler
um bom livro, eu preferia o livro”.
(Nikos KASANTZAKIS, 1978: 97)
“Há
portanto, na biblioteca mesmo, livros que contêm mentiras...” (Umberto
ECO, 2003: 45)
“Esses
monges talvez leiam demais, e quando estão excitados revivem as visões
que tiveram nos livros”. (Id.,
117)
“Até
então pensara que todo livro falasse das coisas, humanas ou
divinas, que estão fora dos livros. Percebia agora que não raro os
livros falam dos livros, ou seja, é como se falassem entre si”. (id.,
277)
“Eu
amo (...) a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a
humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como
indivíduos”. (DOSTOIÉVSKI, 1970: 48)
“Chegamos
a tal ponto que a “vida viva” autêntica é considerada por nós
quase um trabalho, um emprego, e todos concordamos no íntimo que
seguir os livros é melhor”. (DOSTOIÉVSKI, 1992:
185)
Caro (a) leitor (a), para evitar qualquer mal-entendido,
confesso, de livre e espontânea vontade, que sou apaixonado pelos
livros, especialmente pela literatura. Sou daqueles que preferem
manusear os livros diretamente nas estantes da biblioteca à
consulta tranqüila e bem-acomodada diante do monitor do computador.
Sou daqueles que se deliciam em passar horas a visitar as livrarias
e folhear os livros; do tipo que passa horas em sebos, procurando
raridades e autores preferidos. Dessas visitas aos antigos e
sebosos, fico com os olhos lacrimejantes e vermelhos, o corpo
cansado e impregnado de pó. O esforço é imenso. Mas, suprema
alegria!, descubro um livro que vale a pena ler! Como é grato e nos
enche de contentamento descobrir, em meio aos milhares de
exemplares, um livro que nos chama a atenção, que nos convida à
leitura ou simplesmente contribui para o nosso engrandecimento
intelectual.
Sou apaixonado pela palavra e me deleito com a beleza e
criatividade manifesta na construção de uma frase e de uma descrição
bem elaborada. Forma e conteúdo amalgamam-se e nos remete para além
do nosso ser. Às vezes, no ato da leitura, detenho-me
com admiração diante das palavras esculpidas no papel. Sim,
trata-se mesmo de uma obra de arte! São palavras que marcam
profundamente o ser, que nos fazem refletir sobre a
beleza e a simplicidade do viver.
Mas não imagine o leitor que se trate de afetação ou
apego ao rebuscamento da linguagem. Com efeito, o embaraço lingüístico
é, em geral, um exercício de arrogância, de pose acadêmica,
relacionado à necessidade do intelectual em querer firmar-se pelo status.
É, usando um termo orwelliano, a soclíngua, um
sociologismo que apenas atesta falta de ininteligibilidade. Como
ensina Mills (1982: 235):
“Escrever
é pretender a atenção dos leitores. (...) Escrever é também
pretender para si um status pelo menos bastante para ser
lido. O jovem acadêmico participa muito de ambas as pretensões, e
porque sente que lhe falta uma posição pública, com freqüência
coloca o status acima da atenção do leitor a quem se
dirige. (...) O desejo do prestígio é uma das razões pelas quais
os acadêmicos escorregam, com tanta facilidade para o ininteligível”.
Também o velho acadêmico, por arrogância ou falta
de criatividade, procura impressionar pela erudição. É o discurso
professoral em ação. Este parte do pressuposto que quanto mais
incompreensível, mais inteligente parecerá. E, o pior, os
consumidores deste falatório sem sentido, pretensamente erudito e
filosófico, são seus cúmplices. É um discurso incompreensível
que se derrama na ignorância do outro e que parecerá mais
imponente na proporção em que reduz este à condição de asno ou
papagaio. Isso sem falar na mixórdia panfletária...
Prefiro a literatura aos escritos sisudos, chatos e
ininteligíveis dos teóricos metidos a filósofos, sociólogos e
outros pertencentes à fauna das Ciências Humanas. Admiro,
sobretudo, a capacidade dos que escrevem de maneira bela e inteligível
sobre a complexidade da vida. Os que expressam as tragédias e
alegrias humanas, com as quais, em qualquer época e lugar, nos
identificamos. No fundo, mudam os tempos, os costumes e os governos,
mas, em essência, permanecemos os mesmos. Daí a admiração em
relação a estes autores que compreendem a alma humana. Seus
personagens nos dizem respeito; é da vida que eles nos falam.
A literatura arrebata o espírito e nos permite um
aprendizado prazeroso em todos os aspectos: histórico, político,
social, cultural etc. Como não se enredar com os escritos clássicos?
Seus personagens, contextos e descrições, nos fazem viajar no
tempo: a imaginação vagueia saborosamente nos recônditos do ser
humano e seus dilemas; em nossos devaneios, nos identificamos com os
seus personagens, suas misérias e alegrias.
Como não se emocionar com o sofrimento de Anna Karênina
(Tolstoi) e também com a sua coragem em enfrentar a hipócrita
sociedade da sua época? Como passar incólume diante dos
personagens de Dostoiévski, expressão dos dilemas humanos diante
do mal e do bem? Como não se admirar ante a ambição desmedida de
Luciano (Balzac) e Julien Sorel (Stendhal)? Como não se comover com
o trágico desenlace da trajetória de ascensão e queda deste filho
de camponês, que tão bem expressa as contradições sociais e os
preconceitos elitistas contra os que vêm de baixo – ou mesmo o
sentimento de desgarrado dos que ascendem socialmente, mas tem a
consciência das suas raízes sociais? Como não sentir admiração
ante a luta hercúlea de Gilliatt (Victor Hugo) contra a natureza
impetuosa e o preconceito? Que dizer então do relato sobre a viagem
de Dante Alighieri às profundezas do inferno? Não é admirável
tamanha imaginação para descrever o indescritível? E qual mente fértil
poderia nos remeter para o absurdo de Gregor Samsa, metamorfoseado
num inseto monstruoso, ou o processo contra K., senão a de um
escritor criativo como Franz Kafka? E, ainda, a simbiose entre política,
religião, história e mistério, no envolvente O Nome da Rosa,
de Umberto Eco? E Marguerite Duras, Milan Kundera e Vladimir Nabokov
não são exemplares na arte de descrever as complexas relações
homem-mulher em idades e situações tão díspares? E a capacidade
dos nossos autores maiores em contextualizar a realidade socioeconômica
do povo brasileiro e desvendar os liames que explicam o fosso
abismal entre a opulência da elite e a miséria da populaça? É
possível ler Machado de Assis e Lima Barreto, por exemplo, e não
se indignar com a nossa elite, os políticos e o bacharelismo
insolente?
Sou, portanto, insuspeito de não gostar dos livros, de não
querê-los bem ou de desestimular os leitores. Contudo, como o
personagem de Nikos Kazantzakis, não quero
tornar-me um “camundongo comedor de papiros” e sucumbir à realidade
dos livros. Receio que a vida, em toda a sua plenitude, com o belo e
o horripilante, o bem e o mal, o agradável e o execrável, as pequenas
alegrias e as enormes tristezas etc., se esvaeça e se restrinja ao
mundo imaginário e fantasmagórico dos personagens e situações
descritas nos livros:
“Eu
que tanto amava a vida, como me havia deixado petrificar por tanto
tempo numa confusão de livros e papéis enegrecidos! Nesse dia de
separação, meu amigo ajudou-me a ver claro. Senti-me aliviado.
Conhecendo agora minha desgraça, poderia talvez vencê-la com mais
facilidade. Ela não era mais esparsa e incorpórea; tinha agora um
nome, havia tomado corpo e ficou fácil para mim lutar contra
ela”. (Kazantzakis, 1978: 06)
Nesta perspectiva, há a tentação de fugir da realidade e
substituir o concreto pela abstração da linguagem, dos conceitos e
noções. Este tipo de leitor prende-se ao mundo das idéias. Seu
espírito é arrebatado à concretitude da vida. Com afirma Léon,
em Madame Bovary:
“É
que não se pensa em nada (...), e as horas passam. Sem se sair do
lugar, passeia-se por países imaginários, e o pensamento, enlaçando-se
com a ficção, demora-se em pormenores, segue o contorno das
aventuras. A gente roça pelos personagens e até parece que se
palpita sob os seus trajes”. (Flaubert, 2003: 102-103)
E então esquecemos de nós próprios e mergulhamos no
mundo dos livros. Quando emergirmos ainda nos vemos atados à ficção.
Sorte de quem percebe o risco do delírio causado pelo excesso de
leituras ou tem um amigo que lhe adverte do mal que padece. Na pior
das hipóteses, quando o leitor desgarrou-se da realidade mundana
para viver no mundo dos livros, devemos procurar compreender
sua insanidade e agirmos ao modo de Sancho Pança. Com efeito, os
fissurados em livros revivem o personagem clássico criado por
Miguel de Cervantes: Dom Quixote. Este, de tanto ler, enlouqueceu:
“Em
suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que passava as noites de
claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco
dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que
chegou a perder o juízo. Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que
achava nos livros, assim de encantamentos, como pendências,
batalhas, desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e
disparates impossíveis; e assentou-se-lhe de tal modo na imaginação
ser verdade toda aquela máquina de sonhadas invenções que lia,
que para ele não havia história mais certa no mundo”.
(Cervantes, 1978: 30)
Se rirmos com as peripécias do Cavaleiro da Triste
Figura, em seu mundo fantasioso e suas batalhas contra os
moinhos de ventos e criaturas que só existem em sua cabeça, nos
irritamos e tendemos a nos afastar dos que agem como o Dom Quixote.
O personagem da vida real, o Dom Quixote contemporâneo, nos
enlouquece de tanto falar sobre livros e teorias. Seus assuntos
giram em torno de um mundo deslocado da realidade, e esta só se
apresenta para ele através dos livros. Tal qual o fanático
religioso, político ou futebolístico, ele tem dificuldade de se
relacionar com indivíduos que não comunguem da sua compulsão,
que, em sua visão, não se encontrem preparados para conversar
sobre os temas que ele considera importantes. No limite, ele chega a
desprezar os que não lêem livros, ou os seus livros, e não os
considera inteligentes o suficiente para entabular um diálogo
proveitoso. Seu mundo restringe-se aos livros e aos que compartilham
da sua mania de conversar sobre os livros. Ele não percebe o quanto
é vítima da bolha protetora que construiu ao seu redor. E se os
outros se afastam por não suportarem a sua chatice, os seus
“papos cabeça”, ele se fecha ainda mais em seu círculo imaginário.
Para ele, os outros são alienados que só sabem falar sobre a
pequenez da vida humana. Em seu delírio, os homens e mulheres,
mortais e simples, não merecem a sua palavra. Não porque ele,
necessariamente, tenha preconceitos, mas sim porque, do alto da sua
inteligência, ancorada nas leituras, lhe parece que o outro nunca o
compreenderá e, portanto, não vale a pena gastar o seu precioso
tempo com este.
O leitor obsessivo sacraliza os livros, transforma-os em
seu código de conduta, seu assunto permanente, faz desta relação
uma espécie de culto ao erudito. Mesmo quando parece dialogar sobre
as coisas mundanas, na verdade ele estabelece um monólogo cujo
referencial não é o outro, mas as suas leituras. Ao seu
interlocutor resta aceitar seu dissertar ou correr o risco de
confrontá-lo com o silêncio ou a objeção. Esta, desde que
inserida nos termos do discurso livresco, pode ser aceita. Mas não
se tente, em hipótese alguma, arrancá-lo dos seus devaneios, das
suas abstrações conceituais, que lhe parecem tão importantes...
Muitos dos que amam excessivamente os livros sofrem muito
se os separam deles – quem sabe até mais do que se os afastam dos
amigos ou familiares. Em seu êxtase, os livros se tornam o mais
importante, o essencial, e as relações humanas reais seus apêndices:
“Deixa-nos
sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremos confusos, vamos
perder-nos; não saberemos a quem aderir, a quem nos ater, o que
amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar. Para nós, é
pesado, até, ser gente, gente com corpo e sangue autênticos, próprios;
temos vergonha disso, consideramos tal fato um opróbrio e
procuramos ser homens gerais que nunca existiram. Somos natimortos,
já que não nascemos de pais vivos, e isto nos agrada cada vez
mais. Em breve, inventaremos algum modo de nascer de uma idéia”.(DOSTOIÉVSKI,
1992: 185-186)
O homem do livro, tal qual o Cavaleiro Andante,
vive as aventuras imaginárias e é nestas que busca argumentos para
se contrapor ao real; suas batalhas são fictícias. A vida real lhe
aparece enquanto uma teoria a ser desvendada, um argumento a ser
abstratamente construído e expresso em palavras. Sua loucura é
racionalizada, pois que se fundamenta na realidade dos livros. Porém,
ao contrário do personagem de Cervantes, seu mundo se restringe ao
seu escritório e à sua relação amorosa com os livros. Dom
Quixote abandonou a casa e os livros e foi viver a sua fantasia em
andanças pelo mundo real. Em suas aventuras, ele se mostra mais
virtuoso do que o melhor leitor isolado em sua torre de marfim. A
este é fácil o combate, pois lhe parece que do seu escritório, à
frente dos seus livros e do teclado do computador, ele derrotará
todos os que ousam se insurgir contra as suas verdades. Eis uma
enorme diferença: ainda que louco Dom Quixote correu riscos reais
para defender a sua loucura. Simbolicamente, ele expressa a luta dos
que combatem, sob o risco da própria vida, os moinhos de ventos,
isto é, realidades que estão diante dos nossos olhos e poucos
conseguem enxergá-las. O Dom Quixote contemporâneo é um chato,
comprometido apenas com idéias abstratas, quando muito efetivadas
em debates inférteis e insuportáveis, sem qualquer vínculo com a
realidade mundana.
O Dom Quixote moderno adora dançar o “balé dos
conceitos”.
Seu gozo consiste em falar, falar e falar... Ele se realiza em
conversas literárias. Ele acredita que a obra literária é
incondicionada, “que existe em si e por si, agindo sobre nós graças
a uma força própria que dispensa explicações”. Elitista em sua
formação e estrutura de pensamento, ele imagina que o escritor clássico
é uma espécie de gênio da humanidade, cuja originalidade decorre
de uma “virtude criadora” e “misteriosamente pessoal”.
(Candido, 2000: 67) Ele romantiza a literatura, desvincula-a do
contexto histórico, das condições que influenciam mutuamente
escritor e leitor. No fundo, ele se imagina um gênio em potencial.
Ler é essencial, prazeroso e nos faz bem. Porém, pode
fazer muito mal. Depende da nossa capacidade de interagir com a
realidade que nos cerca, de não nos deixarmos cair na tentação
elitista e desconsiderar o mundo e a cultura não erudita. Afinal,
por mais que nos envolvamos com a literatura, o real é mais cruel
do que as crueldades encontradas nos livros; e a miséria humana não
se restringe às palavras e conceitos. Triste do leitor que se deixa
extasiar a ponto de, como Dom Quixote, se transplantar para um mundo
abstrato e imaginário. Triste de quem prefere lidar com as palavras
a lidar com os homens e mulheres que pronunciam as palavras –
ainda que estas não sejam agradáveis aos seus ouvidos. Afinal,
como diria o filósofo Zorba, de que nos serve todos os
livros se permanecemos sem respostas para os dilemas mais simples
que dizem respeito à vida e à morte?
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