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Por ROBINSON DOS SANTOS
Doutorando
em Filosofia na Universidade de Kassel – Alemanha, bolsista do
DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico)
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O
professor e a produção do conhecimento numa sociedade em
transformação
Considerações
Preliminares
O
tema proposto para esta reflexão gira em torno de uma questão
fundamental para a docência: que conhecimento deve ser desenvolvido
visando a formação de nossos alunos? Talvez, poderíamos perguntar
de outro modo: em que perspectiva deve situar-se o docente na lida
com o conhecimento, numa sociedade em que a mudança é a “única
característica permanente”? Ao falarmos em produção do
conhecimento estamos, desde já, nos referindo à pesquisa como seu
sinônimo. Como é possível perceber, estamos tocando em dois
pontos nevrálgicos da educação escolar ou acadêmica: ensino e
pesquisa. Nosso objetivo, com este ensaio, é reunir alguns
argumentos no intuito de contribuir para uma resposta, ao menos
parcial, às questões colocadas. Para tal, tomaremos como referências
alguns aspectos apontados pelo pensador francês Edgar Morin em A cabeça bem-feita e Os sete
saberes necessários à educação do futuro, além de outras
reflexões feitas por pensadores e educadores brasileiros, com as
quais tivemos contato em nossa experiência docente. Essa reflexão,
portanto, está apenas iniciando e, por isso, nossa advertência, em
não tomá-la como pronta ou definitiva. Permanece como desafio,
deste modo, a complementação, o aprofundamento e a continuidade do
diálogo sobre o tema. No aspecto metodológico, procuramos dispor
nossa argumentação em forma de teses, seguidas de comentários ou
esclarecimentos a respeito do seu enunciado.
Primeira
tese
O
professor, enquanto alguém comprometido com a difusão do
conhecimento, em todos os níveis do ensino, deve ser também um
produtor do mesmo.
No
âmbito acadêmico ou escolar, a atividade principal está orientada
para a socialização ou difusão do conhecimento, entretanto, isto
não esgota e nem retira da escola – ou dos profissionais que nela
atuam – a responsabilidade sobre a produção do conhecimento.
Nesse sentido, a academia não pode ser reduzida à condição
passiva de reles consumidora de algo que vem pré-estabelecido por
outra instância ou pela comunidade científica. Também não é
possível - ou pelo menos, não deve ser aceito - que se imponha uma
hierarquia na perspectiva do ensino superior (universidade) produzir
conhecimento e o ensino fundamental e médio ser simples receptor e
repassador. Isso implica em afirmar que quem lida com o conhecimento
(fruto de pesquisas), nos diferentes níveis do ensino, tem que ser,
necessariamente, um pesquisador. Ora, o professor é muito mais do
que um facilitador ou assistente; ele é o próprio conhecimento que
se mostra ao aluno. Esse compromisso é intransferível, insubstituível
e impossível de ser subestimado. Quando nos colocamos nesta
perspectiva, não estamos querendo defender uma postura comumente
denominada de “tradicional” na educação, isto é, aquela em
que o professor é a figura mais importante e o aluno é a “tábula
rasa” etc, etc. Pelo contrário, enfatizamos a enorme
responsabilidade que tem o docente, na perspectiva de que a
qualidade do processo educativo está essencialmente relacionada à
qualidade de formação do professor e à competência deste
profissional na sua relação com o conhecimento de que se professa
detentor. Não há como conceber, por exemplo, um professor que
somente exerça o ensino, embora isto possa acontecer com relativa
freqüência na escola e na universidade. Da mesma maneira, é muito
difícil acreditar que alguém somente pesquise sem socializar os
resultados de sua busca, apesar de, freqüentemente, ouvirmos comentários
ou críticas sobre o isolamento ou distanciamento de cientistas da
realidade. Acreditamos que há um nexo entre as duas esferas (ensino
e pesquisa) e é justamente aí que está situada a possibilidade da
produtividade do docente. O perfil professor-pequisador ou o
pesquisador-professor é o que concretiza esta produtividade, cada
vez mais necessária numa sociedade em transformação e cujo
ambiente se mostra nebuloso e incerto. Esta perspectiva aponta para
nossa segunda tese.
Segunda
tese
O
professor deve fazer da pesquisa um princípio educativo, aliando a
este a criatividade e a criticidade, visando atingir no educando a
autonomia intelectual.
Ao
colocarmos a pesquisa como condição (responsabilidade) indispensável
da prática docente, a conseqüência
decorrente é que a pesquisa, tanto para o docente quanto
para o discente, torna-se um princípio educativo referencial, uma
vez que o professor não educa apenas através de palavras, mas também
pela postura revelada em suas atitudes ou no conjunto de suas ações.
Esta coerência repercutirá no aluno que, por sua vez, se
interpelará a respeito de querer ou não se tornar um sujeito crítico,
criativo e conquistar sua autonomia intelectual. À medida que o
professor insere estas marcas no seu trabalho, ele abre
possibilidades significativas para a superação de práticas
alienadas e alienantes como a pura cópia, a imitação cega e
submissa, enfim, a reles reprodução. Isso significa que o trabalho
docente em sala de aula deve ser realizado de tal modo que o
questionamento, a dúvida e a incerteza devem ser não só aceitos,
como também fomentados. Nos atrevemos a afirmar que, se de um lado,
nunca tivemos tanto conhecimento, tantas respostas prontas, fáceis
e acessíveis sobre as questões que nos afligem, de outro, nunca
tivemos tanta alienação, ingenuidade e apatia. Estabelecer a
pesquisa como princípio educativo significa privilegiar a construção
e re-construção do conhecimento como processo central do ato
educativo. Isso traz implicações e responsabilidades como: a) aguçar
a capacidade de questionamento do aluno; b) fazer com que o aluno
saiba identificar as fontes de informação e conhecimento que podem
ser utilizadas para levar o processo de pesquisa a bom termo
(bibliotecas, acervos culturais, museus, internet etc); c) estimular
a capacidade de seleção e manuseio das informações coletadas; d)
incentivar o trabalho com o uso da tecnologia disponível; e)
possibilitar o estabelecimento de uma postura de trabalho (habitus)
no tratamento metodológico das questões. Se observarmos, estes
pontos todos parecem estar implícitos já (desde sempre) naquilo
que se faz no cotidiano escolar. Infelizmente, apenas “parecem”
estar presentes mas, de fato, não estão. Urge, deste modo, a
reflexão sobre estes pontos para o estabelecimento de uma nova práxis
docente e discente.
Terceira
tese
O
professor deve ter uma postura filosófico-hermenêutica diante do
conhecimento, da cultura e
da sociedade.
Os
elementos a que nos referimos aqui, em relação à postura do
professor diante dos desafios da produção do conhecimento,
referem-se a dois pontos centrais:
o amor à sabedoria e
a capacidade de interpretação do conhecimento, tanto de sua área
de formação, quanto no sentido
amplo do conhecimento, além da capacidade de interpretação
da cultura e da sociedade da época em que ele vive. Isso significa
que a atualização, o interesse em decifrar os enigmas postos pelas
questões que se passam na sociedade e a vontade de saber mais por
amor ao conhecimento, devem se constituir em inspiração e
transpiração do professor. Este entusiasmo deve estar estampado no
rosto do docente. Do contrário, ele perde toda a legitimidade de
seu discurso. Assemelha-se ao pai que diz ao filho: “leia meu
filho!” ao passo em que
ele (o pai), permanece atirado sobre o sofá, literalmente grudado
na televisão. Neste caso, o ato desautoriza e desacredita
totalmente o discurso. Outro ponto ao qual o docente deve estar
atento, porque deve ser um amante e um entusiasta do conhecimento,
é que essa característica não pode cegá-lo ante as lacunas e
cegueiras do próprio conhecimento, como bem lembra Edgar Morin.
Esta atitude é necessária para que o professor não se torne um
sujeito dogmático ou um arauto do culto fanático e cego da ciência.
Quarta
tese
O
conhecimento produzido e difundido pelo professor deve ter um
compromisso com a melhoria da qualidade de vida da sociedade.
Ao
admitirmos que a dinâmica da sociedade implica em transformações
culturais, sociais, econômicas e políticas, é preciso que
consideremos os efeitos (positivos e negativos) destas transformações
e que os coloquemos em questão. O professor, na condição de intérprete
privilegiado (de certo modo), difusor e produtor do conhecimento é
chamado a tomar posição diante dos fatos. Isso quer dizer que sua
ação jamais será neutra no aspecto político. Por isso mesmo, seu
trabalho deve ter clareza quanto ao tipo de sociedade que ajuda a
construir, ao conjunto de valores que aspira. Além do aspecto político
do trabalho docente ser levado a sério, é preciso que ele esteja
comprometido com a decência e com a beleza (Paulo Freire diria
“boniteza”...), isto é, com a ética e com a estética. O
professor, nesta relação de amor com o conhecimento, continua
vivendo a condição humana e, portanto, vive a fragilidade, a
precariedade e precisa ser consciente disso. É preciso que ele viva
uma relação sadia com os seus semelhantes e com o mundo que o
rodeia. Esses aspectos, acreditamos, apontam para um compromisso do
professor com a melhoria da qualidade de vida da sociedade em que
vive. Poderíamos ter afirmado, simplesmente, compromisso com a
transformação.
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