|
Por MARIO MAESTRI
Programa de Pós-Graduação em História. Universidade de
Passo Fundo.
|
|
O
Escravismo Colonial:
A
revolução Copernicana de Jacob Gorender
Mário
Maestri
Em
memória de Clóvis Moura.
I.
Formação e Trajetória de um Militante Comunista
Jacob
Gorender nasceu em 20 de janeiro de 1923, em Salvador, onde viveu
sua infância nos cortiços habitados pela comunidade pobre daquela
cidade. Seu pai, Nathan Gorender, judeu ucraniano socialista e
anti-sionista, emigrara após as jornadas revolucionárias de 1905
para a Argentina, onde vivera por cinco anos. A seguir, talvez atraído
pela pequena comunidade judaica de Salvador, partiu para a Bahia,
onde viveu e trabalhou humildemente como vendedor a prestação.
Após
concluir os estudos primários na Escola Israelita Brasileira, de
1933 a 1940, Jacob Gorender prosseguiu os estudos ginasiais e o
preparatório no Ginásio da Bahia, escola pública de grande prestígio,
freqüentada habitualmente pelos filhos da elite baiana. Em 1941,
matriculou-se na Faculdade de Direito de Salvador, onde se manteve
até 1943.
Militante
da União de Estudantes da Bahia, em inícios de 1942, Gorender foi
cooptado para pequena célula universitária comunista fundada por Mário
Alves, seu companheiro na escola de Direito, que secundava no meio
estudantil a rearticulação do PCB na Bahia empreendida por
Giocondo Dias.
Os
jovens estudantes comunistas participaram ativamente da mobilização
pela entrada do Brasil na II Guerra, que cresceu fortemente com os
torpedeamentos de navios brasileiros. Seis décadas após os fatos,
Gorender lembra a emoção despertada pelos cadáveres de
passageiros que chegavam às costas baianas. Nestes anos, trabalhou
como foca nos jornais O Imparcial e O Estado da Bahia.
Em
1943, Gorender, Ariston Andrade e Mário Alves arrolaram-se na FEB,
em resposta ao desafio lançado pelo general Demerval Peixoto,
comandante da VI Região Militar, aos estudantes que exigiam nas
ruas a declaração de guerra. Mário Alves foi, porém, reprovado
no exame médico. Na viagem para o Sul, Gorender conheceu a bordo de
pequeno navio transporte a despreocupação acintosa dos oficiais
com os praças, obrigados literalmente a alimentar-se com carne
crua, motivo de uma quase revolta em alto mar, que Gorender
contornou ao obter melhoria no tratamento alimentar.
Partindo
para o front
Com
21 anos, em São Paulo e no Rio de Janeiro,
Gorender recebeu treinamento militar como membro do corpo de
comunicações, partindo a seguir para o porto de Nápoles, no sul
da Itália, onde chegou em setembro de 1944. No fronte de batalha,
participou dos ataques a Monte Castelo, no outono-inverno de 1944,
acompanhando a ofensiva aliada até o fim da guerra.
Gorender
lembra que, durante a campanha, não raro, era acordado, com seus
companheiros, à noite, sob o frio invernal, para empreender operações
em terra de ninguém, estendendo ou remendando cabos de comunicação
partidos. Estacionado em Pistóia, freqüentou a sede do Partido
Comunista Italiano, presenciando discurso de Palmiro Togliatti,
secretário-geral do PCI e homem de confiança de Stalin na Itália.
De
volta ao Brasil, na Bahia, retomou o curso universitário, que
abandonou muito logo para militar profissionalmente no PCB,
legalizado em 1945. Em fins de 1946, já no Rio de Janeiro,
ingressou na redação do diário comunista A Classe Operária e no
secretariado metropolitano do PCB.
A
Guerra Fria ensejou o abandono da política de colaboração do PCB
com as elites nacionais, por linha semi-insurrecional de confronto
direto com o Estado e com o governo conservador de Eurico Gaspar
Dutra [1946-50] – Manifesto de Prestes de agosto de 1950. A
orientação esquerdista prosseguiu, aos menos retoricamente, mesmo
após a vitória de Getúlio Vargas, em fins de 1950. Em
1951-3, Gorender transferiu-se para São Paulo, entrando no Comitê
Estadual do PCB, novamente na ilegalidade, desde maio de 1947.
De
volta ao Rio de Janeiro, em 53, participou da organização dos
“chamados cursos Stalin”, destinados a militantes e dirigentes
comunistas.
Nesses anos, trabalhou no diário comunista Imprensa Popular e
conviveu com a geração de ferro stalinista brasileira, na qual
destacavam-se Carlos Marighella, João Amazonas, Diógenes de Arruda
Câmara e Pedro Pomar, que se entregavam sem reservas e grandes
inquietações teórico-intelectuais à revolução, como lembraria
anos mais tarde.
Nova
política
Em
novembro de 1954, Gorender foi eleito membro suplente do comitê
central, no IV Congresso do PCB, realizado em São Paulo, que
reafirmou o caráter do Brasil como “país semicolonial e
semifeudal” e a “luta por um governo democrático e popular”
dirigido por “Frente Democrática de Liberação Nacional”.
Apesar da linha dura, o PCB apoio nas eleições de outubro de 1955
a aliança PDS-PTB que apresentou Juscelino Kubitschek e João
Goulart à presidência e vice-presidência [1956-61].
Em
1955, integrou a segunda turma brasileira a cursar a escola superior
de formação de quadros do PCURS, na antiga sede da Internacional
Comunista, a uns trinta quilômetros de Moscou. Apesar do seu baixo
nível teórico e cultural, o curso permitiria-lhe dominar o russo
e, mais tarde, traduzir ao português alguns clássicos do marxismo
stalinista. Durante a escola, iniciou seu relacionamento com a
companheira de toda a sua vida, uma das dez comunistas que seguiam a
escola. Idealina Fernandes era filha do operário eletricista Hermogênio
da Silva Fernandes, um dos fundadores do PCB, em 1922.
Em
Moscou, os comunistas brasileiros foram notificados parcialmente do
relatório de Kruschev sobre Stálin, que Gorender pode ler, na sua
totalidade, em edição reservada aos funcionários do PCURS. As
revelações de Kruschev lançaram o movimento comunista na confusão
e apressaram o retorno dos brasileiros de Moscou, em meados de 1957.
De
volta ao Brasil, no Rio de Janeiro, dirigiu a Imprensa Popular e, a
seguir, o semanário Voz Operária, onde haviam sido abertas colunas
de debates sobre a situação do PCB, algo inusitado até então. Em
1958, sob a inspiração de Prestes, Giocondo Dias reuniu pequeno
grupo de dirigentes – Alberto Passos Guimarães, Mário Alves, Armênio
Guedes, Jacob Gorender – para redigiram documento substitutivo à
orientação oficial, à margem do Comitê Central, onde tinham força
stalinistas como Amazonas, Pomar e Maurício Grabois.
Publicado
na Imprensa Popular – Manifesto
de Março – e a seguir como livreto, a declaração materializou a
definitiva substituição da política esquerdista que regera o
partido após sua ilegalização por proposta de direita de aliança
com a burguesia nacional e progressista. Por primeira vez,
propunha-se a possibilidade da conquista pacífica do poder,
materialização no Brasil da nova orientação mundial da
burocracia soviética de coexistência pacífica. O caráter da
revolução brasileira, dizia o documento, era antiimperialista e
antifeudal, nacional e democrático.
Burguesia
progressista
A
nova política estava sendo aplicada desde o apoio do PCB à
candidatura Juscelino Kubitschek. Apoio que, segundo Gorender, teria
tido importância talvez decisiva na eleição de JK, devido ao caráter
estreito de sua vitória. A nova guinada levou à saída de Grabois
e Amazonas da Comissão Executiva e o ingresso na mesma de Giocondo
Dias e Mário Alves.
Em
setembro de 1960, no V Congresso, realizado na Cinelândia, no Rio
de Janeiro, em semi-legalidade, Jacob Gorender, com 37 anos, foi
eleito membro pleno do Comitê Central do PCB e Mário Alves e
Carlos Marighella, designados para sua Comissão Executiva. O
encontro aprofundou a política de apoio à “burguesia
nacional”: “As tarefas fundamentais [...] são a conquista da
emancipação do país do domínio imperialista e a eliminação da
estrutura agrária atrasada [...] o estabelecimento de amplas
liberdades democráticas e a melhoria das condições de vida das
massas populares.”
Com
a renúncia de Jânio e a posse de João Goulart [1961-64],
aprofundou-se radicalmente o atrelamento da direção do PCB,
comandada por Prestes, à política populista e à proposta de
modificação da Constituição, para a reeleição de Jango, em um
momento em que se precipitava a crise política e social. Ao contrário
do ocorrido durante o governo JK, era direto e freqüente o contato
da direção política do PCB, em geral, e de Prestes, em
particular, com João Goulart e com seu governo. Nesse contexto,
fortaleceu-se no PCB setor defendendo maior aprofundamento da luta
social e autonomia diante do bloco social dominante no governo.
Em
1962, na IV Conferência, Marighella, Mário Alves e Jover Telles,
da Comissão Executiva, criticam os “desvios de direita” da direção,
propondo a “substituição do [...] governo por outro nacionalista
e democrático, do qual estivessem excluídos os elementos
conciliadores”. Em 1959-61, a vitória da
revolução cubana galvanizou a esquerda revolucionária
latino-americana com sua proposta de conquista imediata do poder
através da formação do foco guerrilheiro.
No
mesmo ano, a modificação da designação de Partido Comunista do
Brasil para Partido Comunista Brasileiro, com o objetivo de
facilitar a legalização do PCB, ensejou que João Amazonas, Pedro
Pomar e Maurício Grabois comandassem fracionamento do partido e
fundação do Partido Comunista do Brasil.
Virada
à esquerda
Nesses
anos, o PCB era a única organização de esquerda com reais raízes
no movimento social. Num sentido sociológico geral, no contexto e
nos limites da cultura política stalinista, sua facção de
esquerda sofria a influência dos segmentos classistas da classe
trabalhadora em contradição com a política de colaboração de
classes da direção do PCB.
Em
janeiro de 1958, Jacob Gorender publicara os ensaios “Correntes
sociológicas no Brasil”, na revista Estudos Sociais; em janeiro
de 1960, “A questão Hegel”, na mesma revista e, em janeiro de
1963, “Contradições do desenvolvimento econômico no Brasil”,
na Revista Problema da Paz e do Socialismo.
Em 1961, traduziu, com Mário Alves, o Manual de economia política,
da Academia de Ciências da URSS e, no ano seguinte, Fundamentos do
marxismo-leninismo, obra coletiva de stalinistas soviéticos, ambos
publicados pela Editora Vitória, do PCB.
Em
1964, a grande desmoralização da direção do PCB, devido à vitória
do golpe militar, em 1 de abril, sem resistência, fortaleceu a
oposição de esquerda do PCB, na qual participavam Apolônio de
Carvalho, Carlos Marighella, Jacob Gorender, Joaquim Câmara
Ferreira, Manuel Jover Telles, Mário Alves, Miguel Batista do
Santos, entre outros. Porém, em 1965-6, a disputa pelo controle da
direção do partido seria vencida pelo grupo prestista.
A
oposição de esquerda foi expulsa do PCB, sem nem mesmo poder
defender suas posições no VI Congresso, em dezembro de 1967. A
direção comunista tomara a “decisão de proibir a participação
dos delegados e suplentes da oposição: Carlos Marighella, Mário
Alves, Manoel Jover Telles, Joaquim Câmara Ferreira, Apolônio de
Carvalho, Jacob Gorender e Miguel Batista dos Santos.”
A
política recessiva implementada pelo governo Castelo Branco ensejou
forte reação e rearticulação popular, sobretudo a partir de
1967, aprofundando a crise e o fracionamento do PCB em organizações,
em geral influenciadas pela vitória da Revolução Cubana e pela
revolução vietnamita.
Renovação
revolucionária
Em
abril de 1968, no Rio de Janeiro, o Partido Comunista Brasileiro
Revolucionário – PCBR – foi fundado, sob a direção de Mário
Alves, Apolônio de Carvalho, Jacob Gorender e outros comunistas de
esquerda. A nova organização propunha “renovação” revolucionária
do antigo PCB, como sugeria o nome que assumia.
Marighella e Câmara Ferreira, ao contrário, haviam fundado a ALN,
grupo guerrilheiro que se afastava de qualquer versão político-partidária
leninista e marxistas. Diversos comunistas abandonaram o PCB para
ingressar no PC do B., ou para fundar e participar em outras
organizações militaristas – VPR, Var Palmares, MR8, POC, etc.
O
PCBR constituiu organização híbrida, com alguma força no Rio de
Janeiro, Nordeste, Paraná e Espírito Santo. No plano político,
rejeitava a aliança com a burguesia, mas negava a luta direta pelo
socialismo. No plano tático-organizacional, defendia a luta social
e sindical, que fora desprestigiada pela derrota da esquerda diante
dos militares em 1964, associada à luta armada no campo, fortemente
prestigiada pela recente vitória cubana, em 1959-61, e pela luta
vietnamita, então em curso.
O
caráter híbrido do PCBR contribuiu para que fosse rapidamente
destruído, já que mantinha a organização anterior, necessária
à intervenção no movimento de massas, sem assumir estrutura
organizacional rigidamente estanque dos grupos militaristas.
Em 12 de janeiro de 1970, iniciaram-se as quedas que
desorganizaram a direção histórica do PCBR. Mário Alves, secretário-geral
do PCBR, caiu no Rio de Janeiro, sendo executado após torturas
inomináveis.
No
dia 20, em São Paulo, depois de seis anos na clandestinidade, Jacob
Gorender era preso e igualmente torturado. Na ofensiva policial
foram detidos Apolônio de Carvalho e outros dirigentes da “velha
guarda”, ensejando que a nova direção aprofundasse a via
militarista definida na fundação do grupo.
Em abril de 1969, o PCBR iniciara operações de
“propaganda armada urbana”, sob a pressão de militância que
deixava a organização por grupos militaristas mais ativos.
Fora
da linha
Jacob
Gorender divergira da orientação guerrilheira, apoiada por Mário
Alves, mantendo-se à margem das ações armadas, apontando a
“hemorragia” em que vivia a esquerda armada, envolvida no ciclo
vicioso ações armadas-quedas que lhe esgotava as forças e os
quadros. Já então, dedicava-se à investigação sobre o caráter
da formação social brasileira e da revolução brasileira.
Na
prisão, Gorender apresentou, sob forma de curso, primeiro plano de
sua interpretação da formação social brasileira que defendia a
transição da sociedade brasileira, do escravismo ao capitalismo,
sem passagem pelo feudalismo. O que determinava a necessidade da
luta direta pelo socialismo, descartando conseqüentemente
a etapa antifeudal, apoiada na burguesia progressista,
defendida pela Declaração de Março, de 1958, que ajudara a
produzir.
Em
outubro de 1971, concluiu os dois anos de encarceramento a que fora
condenado. Fora da prisão, jamais voltou à militância revolucionária
orgânica, tendo se inscrito tardiamente no PT, em meados dos anos
1990, sem participar ativamente da sua vida interna ou de alguma de
suas tendências.
II.
O escravismo colonial – Uma Revolução Copernicana
Em
fins de 1971, em liberdade, Jacob Gorender manteve-se com o trabalho
de tradutor, dedicando-se na medida das possibilidades a sua
investigação sobre a formação social brasileira. Em 1974, aos 51
anos, com o apoio econômico de alguns amigos, entre eles José
Adolfo Granville e Jacques Breyton, francês e ex-resistente,
dedicou-se plenamente à redação de O escravismo colonial, que
completou dois anos mais tarde, em 1976, ainda em plena ditadura
militar [1964-85].
Em
1978, depois de demorado exame, O escravismo colonial era lançado
pela Editora Ática, de São Paulo. Para surpresa do autor e dos
editores, tamanho foi o sucesso da volumosa obra no mundo acadêmico
que a edição esgotou-se, meses após o lançamento, ensejando uma
segunda edição ainda no mesmo ano.
A
tese de mais de quinhentas páginas efetuava revolução copernicana
nas ciências sociais brasileiras. Efetivamente, ao apresentar
exaustivamente a defesa do caráter escravista colonial do passado
brasileira, superava a falsa polêmica passado feudal–passado
capitalista que dividira por décadas as ciências sociais e a
esquerda brasileira. Sobre essa questão haviam se centrado alguns
dos mais ásperos debates político-ideológicos no Brasil.
A
origem do impasse teórico era antiga e tinha raízes complexas. A
hegemonia stalinista sobre o marxismo e o movimento operário
ensejara que as sociedades extra-européias fossem necessariamente
enquadradas em um dos estágios da linha interpretativa marxiana do
desenvolvimento europeu – comunismo primitivo-escravismo clássico-feudalismo-capitalistamo-socialismo.
Em
1928, quando do VI Congresso da Internacional Comunista, esse
procedimento teórico dogmático transformou-se em política oficial
para o mundo colonial e semicolonial, sendo implementada no Brasil e
na América Latina pelo Bureau Sul-Americano da IC, sediado em
Montevidéu.
Diplomacia
soviética
Essa
leitura não constituía erro ou desvio de aplicação de método
marxista. Era orientação política da burocracia soviética que
impulsionava a pacificação do movimento social dos países do
Terceiro Mundo, submetendo-o às burguesias nacionais e às
necessidades conjunturais da diplomacia do Estado soviético.
Expressava também segmento sociais proprietários, das classes médias,
da burocracia sindical e de segmentos operárias interessados nessa
colaboração.
A
definição do caráter colonial, semi-colonial, feudal e
semi-feudal das nações de capitalismo atrasado justificava a política
de aliança e de submissão programática dos trabalhadores as suas
burguesias nacionais, em frente antiimperialista e anti-latifundiária
que excluía a luta anti-capitalista. Apenas vencida a etapa democrática
da revolução, seria empreendida, algum dia, agora sob a direção
operária, a luta pela superação socialista do capitalismo.
No
Brasil, para corroborar essa visão, a intelectualidade orgânica
comunista interpretou a luta social no passado brasileiro a partir
do confronto entre o camponês pobre sem terra e o latifundiário
semi-feudal. O intelectual e militante comunista Alberto Passos
Guimarães criou arbitrariamente sociedade camponesa desde o início
da colonização, formatando literalmente o passado e a história
nacionais às necessidades dessa interpretação.
Em
seu livro Quatro séculos de latifúndio, de grande repercussão,
comunista propunha: “Jamais, ao longo de toda a história da
sociedade brasileira, esteve ausente, por um instante sequer, o
inconciliável antagonismo entre a classe dos latifundiários e a
classe camponesa, tal como igualmente sucedeu em qualquer tempo e em
qualquer parte do mundo.”
Em
1º de abril de 1964, a política de aliança antiimperialista e
anti-latifundiária mostrou sua inconseqüência objetiva quando,
sem qualquer prurido, a burguesia nacional, democrática e
progressista integrou a vanguarda social do movimento militar que
impôs seus interesses estratégicos de super-exploração e destruição
de conquistas históricas do mundo do trabalho, em associação com
o imperialismo, com o capital financeiro e com o latifúndio.
Esquerda
marxista
Grupos
marxistas revolucionários frágeis – Organização Revolucionária
Marxista-Política Operária, pequenos grupos trotskistas, etc. –,
em oposição ao projeto nacional-desenvolvimentista, propunham
programa socialista para a revolução brasileira. Porém, deduziam
a correta caracterização capitalista do Brasil da constatação
sumária de determinações gerais da ordem mundial e da sociedade
brasileira. Evacuava-se a questão do caráter da antiga formação
social com definição sumária do domínio de relações
capitalistas desde a Colônia.
Em
“Programa Socialista para o Brasil”, de 1967, a OMR-POLOP
deduziu o caráter socialista da revolução no Brasil da situação
mundial da luta de classes, pautada pela contradição entre o
capital imperialista e a revolução socialista, que definia em fase
sua conclusiva. “Vivemos na época do confronto final entre o
velho regime capitalista e as forças que lutam pelo socialismo
[...].”
Mesmo
nos “países subdesenvolvidos”, “parte do mercado capitalista
mundial”, “onde não” estavam “suficientemente amadurecida a
contradição” capital-trabalho, impunha-se a luta socialista,
devido à contradição maior e estarem essas regiões
impossibilitadas “de repetir o processo de desenvolvimento
trilhado pelas nações capitalistas avançadas”.
Portanto,
pouca importância tinham as “diferenciações sensíveis”
existentes entre nações americanas que “passaram por fases de
industrialização, possuindo um proletariado desenvolvido” e os
“países que continuam a viver praticamente da monocultura de
produtos tropicais”. A dominação imperialista determinava para
todos a luta anti-capitalista direta.
O
Brasil era definido como “país capitalista industrial”, de
“desenvolvimento, bloqueado”, “em processo de integração com
o sistema imperialista”, com contradições com a “exploração
latifundiária do campo”, às quais se havia “acomodado”, já
que o latifúndio “nada” tinha de “feudal”, já que “desde
o período colonial” fornecia basicamente “artigos para o
mercado”, a fim de obter “lucro”.
Passado
capitalista
O
corte integracionista da análise da OMR-PO não deixava espaço
para reflexões sobre a formação social brasileira, no passado e,
portanto, suas tendências dominantes no presente. No documento há
referências à “herança colonial” e registro que, “pelo
menos a partir de 1930”, a burguesia não era mais “classe
marginalizada do poder”. Era sumária a abordagem do golpe de
1964, “decorrência necessária da crise do regime burguês-latifundiário”,
certamente porque a luta socialista e armada independia deste e de
outros sucesso contingentes.
Nesses
anos, para a quase totalidade dos militantes revolucionários, a
história do Brasil iniciava praticamente com a Revolução de 1930,
já que apenas então se podia constatar intervenção nacional,
ainda que frágil, da classe operária do Brasil. Evacuavam-se os
períodos coloniais, imperiais e a República Velha como questões
teóricas, solucionando-se assim a impossibilidade de análise
daqueles séculos com categorias próprias à produção
capitalista.
Em
contexto de grande pragmatismo, empirismo e propagandismo,
militantes das organizações brasileiras com programa socialista ou
de libertação nacional, em geral muito jovens, estudavam e
discutiam com dedicação as experiências soviética, cubana,
chinesa, vietnamita, etc., despreocupados com a história e a
realidade brasileiras. Boa parte dessa militância permaneceu à
margem da discussão que se estabeleceu, em 1978, em torno de O
escravismo colonial, inconsciente de seu sentido e decorrências
profundas.
Em
O escravismo colonial, Gorender superava a tradicional apresentação
cronológica de cunho historicista do passado do Brasil
para definir em forma categorial-sistemática sua estrutura
escravista colonial. Ou seja, empreendia estudo “estrutural”
daquela realidade, para penetrar “as aparências fenomenais e
revelar” sua “estrutura essencial”. Isto é, seus elementos e
conexões internos e o movimento de suas contradições.
Ao
aplicar criativamente o método marxista ao passado brasileiro,
Gorender demarcava igualmente a necessidade de investigação
exaustiva que realizasse a exegese de seu caráter singular e,
portanto, dos ritmos objetivos de seu desenvolvimento, a partir das
suas contradições objetivas internas. Propunha, assim, superação
epistemológica radical da interpretação da formação social
brasileira.
Contradições
interna
Por
primeira vez, empreendia-se em forma sistemática a interpretação
do passado pré-Abolição a partir de suas contradições
fundamentais, a oposição entre o trabalhador escravizado e o
escravizador. Até então, as mais elaboradas interpretações
apontavam como demiurgos sociais o senhor-de-engenho – na leitura
de Gilberto Freyre, de 1933
– e o empresário capitalista do café, do oeste paulista. Essa última
interpretação, da Escola Paulista de Sociologia, de 1950-60,
propunha o despotismo da escravidão, uma forma de “capitalismo
incompleto”, e a impotência histórica do trabalhador
escravizado.
Fernando
Henrique Cardoso sintetiza a visão da impotência servil: “A
liberdade desejada e impossível apresentava-se, pois, como mera
necessidade subjetiva de afirmação, que não encontrava condições
para realizar-se concretamente. [...] houve fugas, manumissões e
reações. [...]. A liberdade assim conseguida ou outorgada não
implicava em nenhum momento, porém, modificações na estrutura básica
que definia as relações entre senhores e escravos [...].”
Um
dos pontos altos da interpretação de Gorender era a apresentação
do trabalhador escravizado como “agente subjetivo do processo de
trabalho”, e não como “máquinas” ou “outro bem de
capital”, ao igual do formulado por autores com Caio Prado,
Werneck Sodré, Henrique Cardoso e Ciro Flamarion. Porém, esse último
autor, ao contrário dos analistas anteriores, propôs em forma
clara a dominância no Brasil de modo de produção escravista
colonial e jamais desconsiderou o caráter subjetivo do agir servil.
O
caminho para a interpretação radical e sistemática do passado
brasileiro de Gorender não se dera em espaço vazio. Ele fora
aberto por movimentos teóricos em desenvolvimento no plano nacional
e internacional, anteriores e contemporâneos àquela investigação.
No Brasil, interpretações historicistas ou sistemáticas sumárias
defendiam a existência de sistema escravista e a oposição entre o
senhor e o cativo como a contradição fundamental na pré-Abolição,
com destaque para os trabalhos de Bejamin Péret, de 1956 ,
de Clóvis Moura , de 1959, J. Stanley
Stein ,
de 1961, de Emilia
Viotti da Costa, de 1966 ,
de Décio Freitas, de 1973 .
No
cenário internacional, desempenhou papel essencial na interpretação
de Gorender o renascimento da discussão sobre a pluralidade de
modos de produção das formações sociais não européias,
ensejado pela fragilização da hegemonia mundial do stalinismo.
Essa discussão centrou-se inicialmente na proposta de Marx e Engels
de “modo de produção asiático”, com exploração classista e
sem apropriação privada dos meios de produção. Quando
do lançamento de O escravismo colonial, havia muito que se
consolidara no Brasil a discussão sobre a diversidade de modos de
produção na história e na América Latina.
Economia
política da escravidão
Em
sentido mais específico, no contexto da discussão das razões da
guerra de Secessão, Eugene
D. Genovese apresentou estudo sobre o escravismo no sul dos USA onde
defendeu a análise dessa realidade social a partir de suas dinâmicas,
estruturas e contradições internas.
Nesse
trabalho germinal, apontou a existência no sul dos USA de sistema
social escravista que subordinava as outras forma de trabalho,
destacando seu caráter necessariamente colonial. Com pertinência,
ressaltou a impropriedade de definir como capitalista qualquer
sociedades dominadas por relações mercantis.
O
historiador norte-americano jamais propôs a existência de modo de
produção escravista colonial no sul dos USA e vacilou entre
interpretação materialista e idealista da realidade. No momento em
que defendia que o mundo escravista possuía sua lógica, moral e
ideologia próprias, deduzia mais de uma vez a dinâmica essencial
dessa sociedade da visão aristocrática dos escravizadores.
Na
introdução de seu magistral trabalho, propunha: "Tenho consciência
que, em fim de contas, os verdadeiros problemas são de ordem ideológica
e psicológica. Não se morre por nenhum interesse material,
suponde-se que algum o mereça, o que não é evidente.”
A
seguir, o historiador abandonaria grande parte das propostas
revolucionárias que enunciara em Economia política da escravidão.
Porém, elas foram retomadas ou estavam sendo desenvolvidas por
outros estudiosos, com destaque para o historiador Ciro Flamarion
Cardoso, já citado, que publicou em 1973 dois artigos germinais
sobre as formações sociais escravistas americanas, escritos no
contexto do desenvolvimento de sua tese de doutoramento sobre a
Guiana Francesa, redigida na França, em 1967-71.
III.
Leis Tendenciais da Produção Escravista Colonial
Em
O escravismo colonial, Jacob Gorender empreende crítica
categorial-sistemática da produção escravista americana
considerada como modo de produção historicamente novo, devido ao
seu caráter dominantemente mercantil, que extremou qualitativamente
determinações secundária ou pouco desenvolvidas da produção
patriarcal e pequeno-mercantil do escravismo greco-romano.
Gorender
propõe que a escravidão colonial tenha determinado essencialmente
todas as sociedades americanas onde assumiu papel dominante.
Portanto, a fundamentação de sua investigação no caso brasileiro
deve-se também ao fato de ter sido ali que a produção escravista
colonial alcançou o mais acabado desenvolvimento – longevidade,
espaço geográfico, variedade de produtos, número de cativos
importados, influência na formação social, etc.
Ao
empreender a análise crítica da literatura teórica e da
historiografia sobre o Brasil escravista, através de rigorosa
aplicação do método marxista, associa criativamente os níveis
histórico, lógico e metodológico de análise. Utiliza como
paradigma a apresentação das leis tendenciais da produção
capitalista, em O capital, por Carl Marx, sem se negar a refutar
referências marxianas ao escravismo moderno consideradas incorretas
ou pouco desenvolvidas.
Em
capítulo dedicado a “reflexões metodológicas”, Gorender
inicia sua tese dissociando-se da leitura althusseriana da história
e do marxismo, então em voga.
Dedica a “Primeira Parte” à definição do escravismo colonial
como categoria historicamente nova, no contexto da impulsão do
mercado internacional e dos avanços materiais da época –
transporte, moendas, etc. A
seguir, apresenta as “categorias fundamentais” desse modo de
produção, destacando a “categoria escravidão” e a “forma
plantagem de organização da produção escravista”.
Na
“Segunda Parte”, aborda a gênese histórica da formação
escravista luso-brasileira, através da crítica do espaço sócio-geográfico
português, nativo e colonial. Portanto, trata-se de processo de
exposição que violenta conscientemente a ordem de investigação
para empreender apresentação que parta do geral, para o
particular, do concreto, para o abstrato.
Leis
tendenciais
A
longa “Terceira Parte” é dedicada à discussão das leis “monomodais”,
exclusivas do modo de produção escravista colonial, em oposição
às leis “plurimodais”, comum a diversos modos de produção. As
leis específicas do escravismo colonial seriam: lei da renda monetária;
lei da inversão inicial da aquisição do trabalhador escravizado;
leis da rigidez da mão de obra escravizada; lei da correlação
entre economia mercantil e economia natural na plantagem escravista
e lei da população escravizada.
Nas
quarta, quinta e sexta partes e em adendo final, discute
respectivamente o “regime territorial e renda da terra”, as
“formas particulares de escravidão”, a “circulação e
reprodução” no escravismo moderno e “as fazendas escravistas
do oeste de São Paulo”. A definição do caráter escravista da
cafeicultura do Oeste paulista constitui refutação da proposta do
caráter empresarial capitalista dos cafeicultores dessa região
apresentados, como vimos, como demiurgos da revolução burguesa no
Brasil.
Apesar
do caráter multifacetado da produção escravista colonial, para
Gorender, seu pólo dominante encontrava-se na grande plantação
escravista – plantagem –, cujas características descreve em
forma minuciosa, assim como as particularidades e as forças
produtivas que a sustentaram. Nesse processo, destaca a coexistência
estrutural na plantagem de correlação dialética entre esfera de
produção, natural e subordinada, e outra, mercantil e dominante.
Era
antiga na historiografia da escravidão a discussão sobre o caráter
benigno ou despótico do escravismo americano. Durante decênios, a
interpretação patricarcalista de Gilberto Freyre, que retomava
interpretações das próprias classes escravistas, fora visão
historiográfica semi-oficial no Brasil, tendo sido o brilhante sociólogo
agraciado pelo Estado com fundação para melhor desenvolver e
perpetrar sua visão pacificadora e consoladora do passado e do
presente brasileiros.
Jacob
Gorender apresenta solução teórica estrutural para essa questão,
ao lembrar que as características patriarcais, consideradas por
Freyre como a essência do escravismo luso-brasileiro e brasileiro
eram, ao contrário, secundárias, já que se originam sobretudo na
esfera natural de produção, sempre subordinada aos ritmos e
sentidos da esfera mercantil, comandada essa última pelas inexoráveis
exigências e determinações da produção para o mercado mundial.
O
geral e o particular
Essa
compreensão de Gorender ressaltava a imperiosa necessidade da análise
dos fenômenos sociais e históricos no contexto da totalidade das
estruturas e formações sociais em que se apresentam, para que se
desvelem corretamente seus nexos e determinações gerais e
essenciais, não generalizando o particular ou particularizando o
geral.
O
escravismo colonial não constituía monografia acadêmica isolada,
parte de divisão e especialização erudita do saber que se frustra
ou se realiza, ao suprir, mais ou menos plenamente, as exigências
de plano semi-anárquico de desenvolvimento do conhecimento
determinado pelas necessidades
dos interesses sociais hegemônicos. Plano em geral exterior
ao processo de produção do investigador e, não raro, à sua
consciência.
A
inquirição sociológica de Gorender, em O escravismo colonial,
desenvolvia-se “na perspectiva do marxismo crítico e dialético”
que considera, no contexto de sua “autonomia relativa”, “o
trabalho intelectual” como “dimensão das lutas políticas e
ideológicas que perpassam a sociedade capitalista”.
Estritamente,
tratava-se de investigação com o objetivo de estabelecer bases
metodológicas sólidas para a interpretação da moderna formação
social brasileira, para poder transformá-la em sentido revolucionário.
Essa reflexão teve seguimento sobretudo em dois outros estudos,
desenvolvidos sob forma de ensaios – Gênese e desenvolvimento do
capitalismo no campo brasileiro e a Burguesia brasileira.
Portanto, a reflexão desenvolvida organizava-se segundo a 11ª
Tese de Marx, sobre Feuerbach, de 1845, de “interpretar” o mundo
social para “transformá-lo”.
Num
sentido mais amplo, ao empreender economia política do modo de
produção escravista colonial, Gorender contribuía para a construção
de economia política dos modos de produção pré-capitalistas,
capitalistas e pós-capitalistas, ao lado de obras como a Nova
economia, do economista soviético trotskista E. Preobrazhensy, de
Mulheres, celeiros & capitais, de Claude Meillassaux, entre
outras.
|
|

|