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Por RAYMUNDO DE LIMA
Psicanalista,
Professor do Departamento de Fundamentos da Educação (UEM) e
doutorando na Faculdade de Educação (USP)
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Amor
ou amizade?
Que papo é esse companheiro?!
Tempos
atrás, o programa “Namoro na TV”, Silvio Santos terminava com a
pergunta decisiva para o casal: “é namoro ou amizade?”. Caso o
desgraçado ou desgraçada não tivesse encontrado, naquela vez, a
sua “outra metade”,
dizia com visível frustração: “amizade!”. O público também
não escondia sua frustração com mais um “amizade”, que, no
final do programa invariavelmente ganhava maior número. Todos estávamos
desejosos de presenciarmos pelo menos um nascimento do amor entre
duas criaturas de Deus.
Na
antiguidade grega, Aristóteles [384-322 a.C.] já dizia que
o homem aspira duas grandes coisas: conhecimento e ser feliz. Os sábios
gregos, de Epicuro a Platão, acreditavam que felicidade era ter
amigos. Porém, depois do romantismo, passamos a acreditar que
“felicidade é ter encontrado um amor”. A maioria das estórias
contadas nos livros, filmes e novelas passam a idéia moral que
felicidade é ter encontrado o seu amor, o seu Eros. A
amizade já estava colocada no segundo plano das metas de existência.
Infelizmente, nos dias atuais, amizade ou Philia,
definitivamente deixou de vigorar como meta de felicidade para o ser
humano. Felicidade se tornou um conceito impossível, e a amizade é
uma palavra cujo significado é negativo, por vezes, usada para
indicar prestígio e favor, por exemplo, quando alguém nos diz:
“Fale com o doutor fulano de tal, meu amigo; ele vai revolver o
seu problema”.
Apesar
dessa conotação negativa, em verdade, parece que a amizade
continua sendo um “investimento lógico” mais
interessante do que o amor. Não porque a amizade preenche nosso
vazio existencial, mas porque ela pode tanto aliviar o sofrimento
como para compartilhar a alegria colhida no dia a dia. Cícero
[103-43 a.C] é continuador dessa tradição grega, quando diz que o
verdadeiro amigo eleva o moral do outro, insufla o otimismo e
pensamentos positivos,
como se fosse um moderno terapeuta. Por seu lado, o amor também não
nos preenche totalmente; seu efeito é de “um contentamento
descontente/ uma dor que desatina sem doer”, como disse Camões.
“O amor é sublime e miserável, heróico e estúpido, porém,
nunca justo” .
No fundo, o amor, é “uma grande desilusão do que se pensava
que era amor... e se perdeu”, disse Clarice Lispector.
Segundo
a psicanálise, nossos encontros amorosos e eróticos, no fundo, são
desencontros existenciais. O amor não passa de promessa de
felicidade.
Tal como os políticos que vivem fazendo promessas e não efetivam
as realizações necessárias. O amor quando entra na rotina diária
do casamento, pode virar indiferença ou mesmo desamor.
Nelson Rodrigues que ao que parece viveu bem com sua mulher, disse
que “o casamento é a tumba do amor!!!”.
Tentando
evitar a morte do amor, foi que o casal Sartre e Simone de Beauvoir
preferiu morar em casas separadas. Não sei se foi uma boa medida,
mas funcionou como marketing de uma possível boa relação pós-moderna.
As relações amorosas duram mais ou são mais felizes se os
parceiros driblam a rotina ou sabem viver criativamente a relação.
O escritor Fernando Sabino certa vez disse que vivia feliz no
casamento porque, ele e sua mulher, eram criativos na relação.
Uma
forma de amor
Para
o sociólogo italiano, Francesco Alberoni, “a amizade é uma forma
de amor”. Para Cícero, a amizade provém do amor.
Obviamente o autor não se refere ao amor “Eros”, mas o amor
“Philia” que rege a amizade. Ou seja, é Eros que une os amantes
quer sejam a relação hetero ou homossexuais, uma vez que o amor é
um encontro de almas, não de corpos ou de sexos.
Uma
forte característica da amizade é não deixar espaço para o ódio.
“Se odeio um amigo já não sou seu amigo, a amizade
terminou”, arremata Alberoni.
No
entanto, surge uma dúvida: será possível existir verdadeira
amizade [Philia] entre uma mulher e um homem que já estão
vinculados pelo amor de Eros? Quando o casal se ama é possível
existir uma amizade paralela? Será que a memória da história da
relação amorosa não atrapalha a “nova” forma de relação? O
chamado “companheirismo”, desejo sensato de todo casal que vive
junto, é a mesma coisa que amizade?
O
terapeuta F. Gikovate tenta responder. Diz que o prazer da companhia
dos amigos é tão importante quanto o que existe nas relações
chamadas amorosas. A confiança recíproca e a cumplicidade costumam
ser até maiores do que as alianças encontradas entre os que se
amam. Enquanto o amor erótico entre adultos é “evolução” do
processo infantil dos tempos que amávamos nossa mãe, o nosso
primeiríssimo amor, a amizade é um tipo de aliança muito mais
sofisticada porque não busca a fusão narcisista e delirante com o
outro. Porque é da natureza do amor erótico a fagocitação simbólica
do outro, que às vezes sufoca com a rotina do cotidiano e termina
matando o amor. Infelizmente, fica sem respostas, as outras
perguntas.
Fazer
Um e fazer Dois?
No
amor existe de fato o desejo de incorporação do outro. Isto
é, de dois fazer-se Um. No Banquete,
Platão nos faz Aristófanes contar sobre o mito da androgenia.
Conclui que o amor nada mais é do que o reencontro das duas antigas
metades em novo e definitivo Um. Insinuou, porém, que
tal reajuntamento nunca é perfeito, sempre será marcado
pela cicatriz e pelo estranhamento.
Ora,
muito mais sensata que o amor, a amizade não pretende fazer
fusão narcisista, mas sim uma aproximação de criaturas que
reconhecem o desejo e a diferença de ambos no ponto de intersecção
da relação. Ou seja, a amizade aspira ser somente Dois,
o amor aspira delirantemente ser Um, de alma e corpo.
Uma
das pistas para saber se estamos construindo uma amizade é o desejo
de encontrar o amigo para conversar. Existe na
amizade, a paciência de escutar o outro com sua
verdade ou sua mentira, com seu discernimento ou sua loucura, seu
bom humor ou sua chatice, enfim, o seu modo próprio de ser e ver o
mundo e a vida. E, obviamente, se eu e o outro somos tolerantes
tanto em escutar como em falar de nossa subjetividade, temos uma boa
chance de sustentarmos uma sólida amizade.
Os
amigos devem ser tolerantes. Ao contrário das pessoas briguentas,
rabugentas, nojentas, asquerosas, chatas, do contra, não conseguem
sustentar um tempo mínimo de amizade, porque não sabem conviver
com o outro e sua diferença. Quem gosta de mandar, explorar,
pregar, ensinar e até orientar o outro, poder manter tais relações
enquanto desiguais,
e, isso impede a ligação em termos de verdadeira amizade. Também
aquele que está satisfeito em ser apenas “colega” de trabalho,
não sabe ou não deseja ter amigos. Não obstante, reforçando o já
dito, alguém que possui a capacidade para o diálogo, a tolerância,
o bom senso, o senso de respeito ao outro como ele é, a serenidade,
demonstra ter Sabedoria para bem viver a existência consigo
mesmo e com o próximo.
Quem
para ser amigo?
Perguntado
sobre quem devemos procurar para amigo, Sócrates, respondeu:
“Aquele, penso, que tenha as qualidades contrárias: senhor dos
apetites sensuais, fiel a seus julgamentos, condescendente nos negócios,
que não fique atrás dos que o beneficiem, pronto a servir quem o
sirva”.
Na
Antiguidade grega, Sócrates [469-399 a.C] e Epicuro [341-270
a.C], foram os que mais colocaram seu saber filosófico
no sentido de ter amigos. Muitas vezes, Sócrates disse que
colecionava amizades, e, exatamente por isso, sua vida tinha
sentido. Também Cícero, na velhice, recordava das amizades que
teve, cujo efeito era o “sentimento de ter vivido uma vida
feliz”. Infelizmente, os filósofos de hoje, sobretudo os
especialistas formados nas frias “ralações” acadêmicas, são
ignorantes quanto a exortar o valor da amizade e fornecer
instrumentos mais atualizados para desenvolvermos amizades, num
mundo cada vez mais solitário e perigoso. O individualismo e a
pressa de nossa época boicotam, por exemplo, compreender um amigo
no seu descontrole ou no seu destempero. E sabemos que é nos
momentos críticos que são testados os laços de amizade.
Tal
como o psicoterapeuta F. Gikovate, também penso que a amizade é um
processo de adultização do que chamamos amor. No início,
provavelmente demandamos mais amor do que amizade. Depois, com o
avanço da idade e a conquista da Sabedoria, passamos a preferir
mais a amizade – inclusive daquelas que eroticamente desejamos -
que o efêmero, incompleto e incerto amor...
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