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Por JOÃO DOS SANTOS FILHO
Professor
da Universidade Estadual de Maringá-UEM. Coordenador e professor
do curso de turismo da Faculdade Nobel. Professor da Universidade
Norte do Paraná (UNOPAR). Aluno especial do doutorado da
Universidade de São Paulo (USP) na Escola de Comunicação e
Artes (ECA)
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EMBRATUR,
da euforia ao esquecimento: o retorno às raízes quando serviu à
Ditadura Militar
Não
estamos em uma ditadura militar, mas servimos a quem?
A Embratur foi criada pelo decreto-lei nº 55, de 18 de
novembro de 1966, dois anos após o golpe militar de 1964, que
destruiu as liberdades democráticas do povo brasileiro, impondo um
modo de ser militarizado, descartando qualquer possibilidade de
ultrapassar a visão centrada no senso-comum. A anormalidade
institucional e política, imposta pelo capital, tinha por objetivo
estancar a participação popular e impor as rédeas de controle dos
gendarmes norte-americanos no seio da sociedade brasileira.
Foi no interior dessa conjuntura que surgiu a Embratur,
portanto, sua função estava além da busca de um ordenamento legal
para a formulação de uma política nacional para o turismo.
Na verdade, os militares, nesse momento, entendiam ser a Embratur o
instrumento ideal para combater a idéia de ditadura assassina que
os setores da sociedade nacional e internacional denunciavam.
Isso fica evidente na história nacional, quando, segundo
documentos oficiais, o governo de Castelo Branco, que acabara de
assumir o comando da ditadura militar, prende
mais de cinco mil pessoas, além da fuga de brasileiros para o
exterior ser uma realidade:
Entre
1964 e 1966 passaram pelas embaixadas latino-americanas do Rio de
Janeiro e pela embaixada da Iugoslávia, a única que funcionava em
Brasília, cerca de quinhentos asilados políticos. Montevidéu e
Buenos Aires receberam alguns milhares de brasileiros fugidos pela
fronteira, entre os quais o presidente João Goulart e Leonel
Brizola.
A tortura e o medo fazem do Brasil uma nação de fugas
espetaculares por meio das embaixadas estrangeiras. Cerca de
2.000 mil funcionários públicos são demitidos ou aposentados
compulsoriamente, políticos são afastados e impedidos de exercer
suas atividades públicas.
Oficiais das forças armadas nacionalistas são punidos e
colocados na reserva, todas as garantias constitucionais são
suspensas e os inquéritos policial-militares (IPMS) devoravam as
esperanças da volta do estado de direito de mais de 2.000 pessoas.
Os expurgos ocorreram em todas as áreas da sociedade, na
educação, na saúde, na economia, na cultura, na política e
principalmente no interior do movimento estudantil, segundo a
ditadura há a presença de subversivos, que são objetos de
perseguição e a caça pelo comando militar.
A pressão da sociedade civil contra o golpe militar era
constante e tenaz, casos como Zuzu Angel e seu filho trouxeram
fissuras aos donos do poder. Apesar da existência dos atos
institucionais e do aparato de apoio logístico dos órgãos de
repressão, corações e mentes levantaram-se pela luta entorno da
democracia.
No exílio, os brasileiros atuaram
junto aos movimentos ligados aos direitos humanos. Com a
colaboração dos partidos de esquerda, armam varias centrais de
comunicação e difusão, com o objetivo de veicular os horrores da
ditadura por meio de notícias do Brasil, referentes a fontes
oficiais e até clandestinas. A abrangência e o impacto dessa difusão
em larga escala provocaram no interior do aparelho de Estado,
grandes ondas de repressão junto aos estudantes, intelectuais, políticos
de esquerda e da população em geral.
Como um trabalho de denúncia, os exilados brasileiros
conseguiram movimentar uma parte significativa da opinião pública
mundial contra as atrocidades provocadas pelo governo militar,
criando, em diversos países, tablóides, revistas e jornais:
A
imprensa no exílio foi editada em diferentes países: Argélia,
Chile, França, Suécia, Itália, Suíça, Dinamarca, Noruega,
Alemanha ocidental, Alemanha oriental, Portugal, Inglaterra, México,
Costa Rica, Argentina. Mas foi, sem dúvida, em Santiago e Paris que
a imprensa concentrou-se. Nas duas capitais do exílio brasileiro,
apareceram não só o maior número de periódicos, mas também os
mais expressivos e os de maior duração.
É nesse momento que os militares, junto a homens de
confiança, tabulam a necessidade de criar um órgão nacional que
seja responsável por fazer a contra -propaganda no exterior sobre
as maravilhas do Brasil. O instrumento capaz de passar a idéia de
país dos trópicos e núcleo mundial do pecado capital será a
Empresa brasileira de turismo.
Surge a Embratur cuja função era ordenar uma política
nacional de turismo, conforme relato do seu primeiro presidente,
Joaquim Xavier da Silveira, um dos diretores da Associação
Comercial do Rio de Janeiro, demonstração o poder do Rio como força
do turismo nacional e da
tônica do padrão dado à divulgação do Brasil: mar, sol,
mulheres douradas da praia de Ipanema, com seu biquíni padrão de
exportação:
f)
finalmente, hipótese indispensável a ser fixada, a divulgação e
promoção do Brasil no exterior. A tarefa é de toda a máquina
governamental tantos nas áreas estaduais como na federal. Cumpre
ser organizado um verdadeiro pool, capaz de lançar a imagem
do Brasil como país a ser visitado e conhecido.
A Embratur, buscando sua função inicial de porta voz do
governo brasileiro, elabora e divulga um marketing oficialista,
mostrando a idéia de um Brasil multirracial de tonalidade pacífica,
democrático e ordeiro para o mundo. Apela para uma propaganda de
exploração do erotismo e da beleza da mulher brasileira, bem como
trabalha o lado do exótico e da diversidade cultural, demonstrando
uma convivência social cuja existência é mais produto de romances
e novelas que da realidade histórica do país.
O objetivo era tornar a Embratur instrumento capaz de
veicular para o mundo a propaganda política oficial de apoio à
ditadura militar, divulgando a imagem da nova democracia brasileira
em oposição a denúncias contra as ações do governo militar.
Entretanto, quando lemos e refletimos sobre a história nacional,
percebemos que esta razão principal e verdadeira se transforma em
um dos motivos que levaram o governo a criar a Embratur como órgão
de primeiro escalão.
A estratégica consistiu em montar uma propaganda política
oficial que seria veiculada por meio de um órgão de turismo, em
que as belezas do Brasil serviriam para ocultar o que de fato estava
ocorrendo no país. Com um apelo voltado à plástica da mulher
brasileira, ao carnaval e à hospitalidade do povo em bem receber o
turista estrangeiro, criaram-se instrumentos que exploravam o lúdico
das pessoas, transmitindo uma mensagem de otimismo e ufanismo
nacionalistas.
Segundo os militares eram comuns e extremamente maléficas
as propagandas e a campanha antipatriótica que se alastravam dentro
e fora do território brasileiro. A fala dos generais, em vários de
seus discursos, expressa de forma virulenta o combate contra os
denominados “maus brasileiros”, com os seguintes comentários:
“Há
uma frente de informação que difama nosso país e mantém em nossa
terra repórteres que mentem lá fora, apresentando um quadro
brasileiro inteiramente falsificado, inteiramente pejorativo. Nada
de importante acontece no país sem a ação dos comunistas. Há uma
poeira vermelha nos olhos do povo e de grande parte das autoridades
brasileiras”.
A idéia de que havia uma orquestração contra o governo
militar dentro e fora do país, reforçou a intenção de criar um
órgão que veiculasse os princípios do nacionalismo verde-amarelo,
em contraponto ao perigo vermelho. Estes foram transmitidos via
futebol, carnaval, sol, praia e mulheres, por isso, as propagandas
elaboradas pela Embratur, desde sua fundação, primam pela
despolitização, destacando o erotismo da mulher brasileira, e a
alegria maquiada pelo carnaval de um povo.
Como órgão possuidor de um glamour próprio criado
e cultivado pelos políticos que ocuparam sua presidência, a
Embratur funcionou como canal atuando e induzindo a mídia nacional
e internacional sobre como enxergar o Brasil. Tudo isto tornou-a uma
das entidades públicas mais disputadas no interior do cenário
nacional. Políticos e partidos receberam o setor de turismo como
resultado de barganha política e não com a proposta de desenvolver
uma política nacional para de turismo.
A Embratur sempre foi objeto de partilha política pelo
Estado, no qual foram triturados vários nomes, uns optaram por
viajar ao bel prazer ou utilizaram esse cargo público como ponte
para alçar vôos maiores, outros para badalar a vida na coluna
social ou ainda editando erros grosseiros na política nacional de
turismo, como exemplo cita-se o Plano Nacional de Municipalização
- PNMT.
Hoje, infelizmente, o turismo serve para acomodar o apoio
político ao governo Lula, excelente para nós petistas, mas um
desastre para o turismo brasileiro. Senhor Presidente, como sempre,
dirijo-me a Vossa Excelência, apesar de nunca ter recebido uma
resposta às minhas indagações, mas continuo persistente, pois
entendemos que este governo é do povo, estas são as raízes deste
partido e de Vossa excelência.
O desastre foi transformar a Embratur em um gigantesco Convention
Bureau e estimular de forma irresponsável, todo o território
nacional na lógica de que o turismo prioritário é o receptivo.
Esta irresponsabilidade faz com que comunidades de expressão turística,
mas com uma tímida infra-estrutura para o turismo receptivo,
desenvolvam imensas bravatas em torno da luta para a criação dos
Convention.
Divulgar o Brasil no exterior é ótimo, mas não apenas
querendo transformar “a mercadoria Brasil” em algo que se
pechincha, em que a marca ainda é a sedução de nossas mulheres, o
sol de nossas praias, o carnaval de nossa plástica. Somos tão
inconseqüentes que não nos envergonhamos de ser vistos como rota
do turismo sexual. Será que um dia teremos uma verdadeira política
nacional de turismo? Será que a Embratur continuará a ser usada
pela ditadura e pela democracia para interesses próprios?
Basta de pessoas erradas em lugares certos!
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