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Por
JACQUES
GRUMAN
Diretor da ASA-
Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação,
do Rio de Janeiro.
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O
tal do anti-semitismo
Os
cerca de 400 delegados presentes ao encontro que celebrou em Nova
Iorque o nonagésimo aniversário da Liga Anti-Difamação da B`nai
B`rith, em fins de 2003, ouviram de Abraham Foxman, presidente da
instituição, um alerta de extrema gravidade. Segundo ele, as ameaças
à segurança do povo judeu são hoje “tão grandes -
se não maiores -
quanto as dos anos 30.” Assustou uma platéia composta, em sua
maioria, por pessoas idosas, que viveram os horrores do nazismo.
Foxman
não está sozinho nesta análise. Vários livros têm surgido,
especialmente nos Estados Unidos, apontando a vigência de uma espécie
de guerra contra os judeus. Phyllis Chesler, por exemplo, escreve em
The New Anti-Semitism (citado por Brian Klug no artigo “The
Myth of the New Anti-Semitism”, The Nation, 02/02/04): “Serei
clara: a guerra contra os judeus está sendo travada em muitas
frentes – militar, política, econômica, propagandística – e
em todos os continentes.” Estende esta ameaça para toda a
civilização ocidental. Avi Becker, secretário geral do Congresso
Judaico Mundial, já dissera, em 2002: “Estamos vivendo os piores
momentos de anti-semitismo na Europa desde o final da Segunda Guerra
Mundial.”
Também
no Brasil repercutem as advertências. Em carta recentemente enviada
ao jornal O Pasquim 21, o presidente da Federação Israelita
do Estado do Rio de Janeiro, Osias Wurman, refere-se a uma “onda
de anti-semitismo que temos presenciado em todo o mundo.”
Há,
realmente, uma ressurgência generalizada do ódio anti-semita? Em
caso positivo, que circunstâncias teriam levado a isso? Em caso
negativo, por que estaria semeada esta impressão em muitos
formadores de opinião?
Antes
de mergulhar nos temas, um esclarecimento. O anti-semitismo é velho
conhecido dos judeus e tem demonstrado enorme resistência ao longo
da História. Camaleônico, vestiu roupagens diferentes e mesmo
antagônicas. Seria tolice ignorar ou escamotear estas evidências.
É um inimigo ardiloso, que precisa ser enfrentado, no mínimo, com
inteligência política, persistência pedagógica e conhecimento
histórico. Neste artigo, entretanto, não se trata de reconhecer ou
rejeitar a existência do anti-semitismo, o que seria uma discussão
surrealista. Ele será focalizado como fenômeno social, com raízes
localizáveis, e não como uma fatalidade genética. Veremos, com
base em pesquisas e análises de diversas fontes, se está em curso
um surto agudo de perseguição aos judeus, diferente e/ou mais
intenso dos que aconteceram em outros períodos.
O
documento mais completo que já se produziu sobre o assunto veio à
luz em março de 2003 (
“Manifestations of Anti-Semitism in the European Union”, Viena).
Foi uma extensa pesquisa conduzida pelo Centro Europeu de Monitoração
do Racismo e da Xenofobia em quinze países, recolhendo dados
referentes ao primeiro semestre de 2002. As principais conclusões
foram as seguintes:
1.
Desde
a eclosão da chamada Intifada de al-Aksa, em outubro de 2000, houve
um incremento acentuado de incidentes anti-semitas em alguns países
europeus. Eles se intensificaram na esteira dos atentados de 11 de
setembro de 2001 nos Estados Unidos, após os quais espalhou-se também
uma histeria antiislâmica. Os pesquisadores ressaltaram a pouca
credibilidade estatística de muitas fontes de informação, na
medida em que, por exemplo, muitos casos de críticas legítimas e
respeitosas às políticas dos governos israelenses acabavam
rotuladas como anti-semitismo. Também não há, entre os países
pesquisados, uma definição homogênea de anti-semitismo, o que
dificulta uma análise criteriosa dos dados levantados.
2.
É
historicamente impróprio considerar a recente escalada de
incidentes anti-semitas como a pior desde o fim da Segunda Guerra
Mundial. Anthony Lerman, ex-diretor executivo do Institute for
Jewish Policy Research, de Londres, pondera que “é um erro pensar
que um aumento de incidentes implica necessariamente numa piora
geral do clima de anti-semitismo”. Os pesquisadores alertam que
se, além do número de incidentes, outros indicadores forem
considerados, como atitudes antijudaicas, sucesso eleitoral de
grupos de extrema-direita, discriminação social e legal dos judeus
etc., o resultado não indica um aumento geral do anti-semitismo e,
além disso, mostra claras diferenças entre países pesquisados.
3.
O
clímax dos incidentes aconteceu entre o fim de março e meados de
maio de 2002, paralelo a uma violenta escalada no conflito
palestino-israelense. Nos meses posteriores, com poucas exceções,
houve um declínio acentuado, aproximando-se dos índices médios
observados nos países europeus em outros períodos.
4.
Na
França, Bélgica, Holanda e Inglaterra
os ataques contra judeus e instituições judaicas foram mais
graves. Alemanha, Espanha, Áustria, Itália, Grécia, Dinamarca, Suécia,
Portugal, Irlanda, Luxemburgo e Finlândia registraram números
muito menores. Não existiu, portanto, uma onda, no sentido do
encadeamento crescente e contagioso de eventos.
5.
Poucas
vezes os agressores são identificados. Quando isso ocorreu com
algum grau de exatidão, verificou-se que as agressões foram
cometidas por militantes da extrema-direita e muçulmanos radicais,
a maioria de origem árabe, que, ironicamente, são vítimas
potenciais da nunca eliminada xenofobia européia. Na França, por
exemplo, depois de interrogar 42 suspeitos (jovens imigrantes do
norte da África e da região do Magreb), a polícia concluiu que
eles eram “predominantemente delinqüentes sem ideologia,
motivados por uma hostilidade difusa contra Israel, exacerbada pela
representação do conflito do Oriente Médio na mídia (...),
conflito que eles percebem como uma reprodução do quadro de exclusão
e fracasso do qual são vítimas”.
6.
Houve
casos em que as posições da extrema-esquerda se aproximaram das da
extrema-direita. Isso foi particularmente visível em manifestações
pró-palestinas e antiglobalização, quando caricaturas
anti-semitas acabavam se confundindo com slogans antiisraelenses.
Eis aqui um elemento fundamental: a presença do fator político
(ligado à questão do Oriente Médio) como detonador de ranços
preconceituosos, que generalizam “culpas” e desconhecem a
variedade de posições políticas dos judeus, dentro e fora de
Israel.
7.
Com
muito poucas exceções, a chamada grande imprensa européia não
veiculou material anti-semita. Este ficou confinado aos pasquins da
extrema-direita e a páginas racistas da Internet. Alguns meios de
comunicação ligados às comunidades árabe e muçulmana têm
conclamado à luta não apenas contra Israel mas também contra
todos os judeus. É importante destacar que isso é repudiado pelas
lideranças institucionais destes grupos. Na França, onde a população
muçulmana totaliza 5 milhões de pessoas, os principais líderes
comunitários advertiram contra a estigmatização do povo judeu,
condenaram os ataques contra judeus e pediram moderação nas
manifestações de solidariedade aos palestinos. Naser Khader,
membro do parlamento dinamarquês, Hanna Ziadeh, presidente do
Conselho de Integração de Copenhagen, e
Mahmoud Issa, historiador, todos palestinos residentes na
Dinamarca, escreveram uma carta aberta no diário Politiken,
apelando a seus companheiros palestinos para que não deixassem que
“suas críticas justas ao governo israelense se transformem em ódio
a todos os judeus”. Enfatizaram que “nossa batalha é política
e nada tem a ver com religião e etnicidade”. O artigo foi
impresso em dinamarquês e árabe.
8.
As
velhas relações carnais entre Israel e EUA respingam sobre os
judeus em todas as partes. O ódio à política imperial
praticada pelo presidente George W. Bush acaba resvalando
para seus aliados israelenses e, por caminhos enviesados, para os
judeus. Acrescento: a luta antiimperialista arrasta setores
equivocados da esquerda a uma generalização descabida. Estes
setores desprezam o fato de que muitos judeus e organizações
judaicas se colocam abertamente contra as políticas de governos
israelenses e eventualmente até contra os fundamentos do Estado
judeu. Com isso, perdem a oportunidade de ampliar as alianças
contra os verdadeiros inimigos, quais sejam, a exploração
capitalista em todas as suas dimensões, o preconceito e o
colonialismo.
9.
As
populações judaicas são vistas como intimamente associadas ao
Estado de Israel e à sua política. Assim, estes judeus acabam se
tornando reféns involuntários das decisões e atitudes dos
governos israelenses. Os números da tabela abaixo, referentes à
proporção dos entrevistados que duvidam da lealdade dos judeus a
seus países, são esclarecedores.
(%
dos que concordam com a declaração)
|
Declaração
|
Bélgica
|
Dinamarca
|
França
|
Alemanha
|
Holanda
|
|
Os judeus são mais leais a Israel do que ao país onde
moram
|
50
|
45
|
42
|
55
|
48
|
|
Inglaterra
|
Espanha
|
Itália
|
Áustria
|
|
34
|
72
|
58
|
54
|
De
todas estas informações, pode-se concluir claramente que não
está havendo uma escalada generalizada de incidentes anti-semitas
na Europa. Houve, num curto intervalo e em dimensões variadas,
um recrudescimento de atos contra judeus, paralelo à agudização
do confronto armado entre israelenses e palestinos. Assim, em vez do
tradicional leitmotiv anti-semita (conspiração judaica para
dominar o mundo, sovinice, culpa de deicídio etc.), aparece um
elemento político externo a países onde os judeus estão social,
econômica e culturalmente integrados. Nas palavras de Henri
Wajnblum, ex-presidente da União dos Judeus Progressistas, da Bélgica:
“É certamente verdade que observamos um aumento de incidentes
anti-semitas no passado recente: grafitagens, depredações, que são
preocupantes. É, entretanto, errado falar de uma onda de
anti-semitismo varrendo a Europa. O que estamos vendo é o
crescimento da hostilidade contra Israel, particularmente entre os
imigrantes árabes solidários aos palestinos. É a política
israelense no Oriente Médio que está provocando, em grande medida,
este incêndio e, neste sentido, o governo de Ariel Sharon tem parte
da responsabilidade (...). O senhor Sharon quer mais judeus em
Israel, ele quer tomar a dianteira na questão demográfica. Acaba
explorando, ao menos em parte, os temores dos judeus europeus para
persuadi-los a emigrar.”(“Viewpoints: Anti-Semitism and Europe”,
www.bbc.co.uk , 03/12/03)
A
hostilidade contra o Estado de Israel é necessariamente uma
manifestação de anti-semitismo? A resposta é um redondo não. Dou
a palavra ao professor de Ciência Política da Universidade
Hebraica de Jerusalém Yaron Ezrahi: “A direita em Israel descreve
qualquer crítica ao país como uma forma de anti-semitismo. É
muito conveniente para o atual governo –
o mais direitista da História israelense e encabeçado por
um primeiro-ministro que não tomou a menor iniciativa diplomática
em favor do processo de paz – acusar tudo de anti-semitismo(...).
Quando Itzhak Rabin liderou o processo de paz, o comportamento
popular na Europa foi extremamente positivo. Era muito raro ouvir
falar de incidentes anti-semitas naquele período.” (do site da
BBC citado no parágrafo anterior)
O
sionismo não é um mandamento divino. Trata-se de uma doutrina política
e como tal deve ser tratado, analisado, apoiado ou rejeitado. Sua
versão moderna surgiu no século 19, em resposta ao anti-semitismo
dos nacionalismos europeus. Assim, como bem lembra Uri Avnery no
boletim do movimento pacifista Gush Shalom de 22/11/03, o
preconceito antijudaico está em sua certidão de nascimento e sem
ele é muito provável que não existisse o Estado de Israel. Avnery
descarta a continuidade histórica do desejo da volta a Sion,
lembrando que essa vontade sempre ficou circunscrita às orações.
Dá um exemplo clássico: ao serem expulsos da Espanha, há cerca de
500 anos, a grande maioria dos judeus procurou refúgio em países
do império otomano, onde foram bem recebidos. Só uns poucos
rabinos se dirigiram à então Palestina. Isaac Deutscher (O
Judeu Não-Judeu e Outros Ensaios, Civilização Brasileira)
observou que a maioria dos judeus europeus foi hostil ao sionismo até
a Segunda Guerra Mundial. Cairíamos, aí, numa situação esquizofrênica
se igualássemos anti-semitismo a anti-sionismo: a maior parte do
povo judeu teria sido anti-semita. Por fim, creio ser absolutamente
legítimo questionar a viabilidade de um Estado democrático fundado
numa supremacia demográfico-étnica perpétua.
Muitas
lideranças comunitárias judaicas, e o Brasil não é exceção,
tratam de montar blindagens em torno de Israel, evitando qualquer
tipo de crítica e criando uma imagem idealizada do país. Ajudam a
satanizar inimigos, reais ou imaginários, e comportam-se como
ministros da propaganda de todos os governos israelenses, com os
quais mantêm relações privilegiadas e aos quais atribuem todas as
virtudes. Constatando este tipo de afinidade incondicional, o público
tem a impressão de que as comunidades judaicas são
indiferenciadas, abrindo caminho para distorções graves e
preconceitos. A falta de isenção torna essas lideranças,
ironicamente, cúmplices indiretas da animosidade anti-semita.
Alguém
há de perguntar onde está a idealização. Vou me ater a um
exemplo: a tão difundida idéia de que Israel é a única sociedade
democrática do Oriente Médio. Democrática para quem, cara-pálida?
Não para os árabes israelenses, um milhão e 300 mil,
discriminados em quase todos os aspectos da cidadania: dotação orçamentária
inferior à da população judaica (implicando em pior atendimento
nas áreas de habitação, educação, saúde e cultura), restrições
severas ao direito de adquirir terras e morar em locais de livre
escolha e banimento de todas as esferas administrativas (ver
editorial do jornal Haaretz de 18/12/03). Também não para
os 3 milhões e 500 mil palestinos
que vivem sob brutal ocupação militar e cujas condições de vida
são catastróficas. O que dizer da situação dos quase 400 mil
trabalhadores estrangeiros, muitos deles clandestinos, que são
extorquidos por patrões inescrupulosos e vivem a permanente
insegurança da deportação? Resumo da ópera: direitos apenas para
a população comprovadamente judaica, ou seja, aquela que teve o nihil
obstat do establishment religioso. Em nosso ishuv o
assunto é sonegado e o debate em torno dele simplesmente inexiste.
A
miopia patrioteira leva a erros monumentais. Entre nós, um caso
tristemente conhecido foi o do escritor Luiz Fernando Veríssimo.
Este doce gaúcho ousou criticar o governo Sharon, na mesma linha
elegante que usa em seus textos. Foi o suficiente para ser taxado de
anti-semita por judeus raivosos. Respondeu numa crônica admirável
(“Heranças dilapidadas”, O Globo, 06/4/03), acusando
seus detratores de desonestidade intelectual, opondo-a à boa tradição
humanista de uma parte do povo judeu. Felizmente, Veríssimo não
foi na onda dos provocadores.
Estamos
longe do isolamento e da indiferença que facilitaram, nos anos
1930, o trabalho sujo dos nazistas. Também não há hordas
destruindo propriedades e vidas judaicas na proporção que pregam,
oportunisticamente, os alarmistas. A violência deve ser enfrentada
se e onde ocorrer, mas suas causas imediatas devem ser identificadas
para que a estratégia de combate seja eficiente. Hoje, o foco do
mal-estar antijudaico está no Oriente Médio e é claramente político.
Quanto mais se caminhar na direção de uma solução justa para o
conflito palestino-árabe-israelense, menor será a fogueira
anti-semita.
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