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Por ALEX
DOS SANTOS DA SILVEIRA Licenciado
em História pela FEUDUC (RJ); Pós-graduando em História do Século
XX (UCAM-RJ) &
ROSANGELA
D. W. GOMES DE LIMA Licenciada
em História pela FEUDUC (RJ); Pós-graduada em História da Ciência
(CEPEA-FEUDUC)
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Saúde
pública, atraso e reabilitação nacional:
República
Velha e depois...
A
abordagem sobre o movimento sanitarista tornou-se um importante
marco para as Ciências Sociais, pois nos faz refletir sobre o
“processo civilizador” de construção do Estado Nacional
Brasileiro e sua relação com os demais movimentos sociais. Neste
artigo, pretendemos discutir o papel da atuação do movimento médico-sanitarista
no processo de construção nacional, assim como os efeitos de suas
idéias na mudança da relação entre Estado e Sociedade, pois
entendemos que tal movimento representou um dos canais mais
importantes na República Velha para o projeto ideológico de
construção da nacionalidade (CASTRO SANTOS, 1985: p.194).
Na
Primeira República (1889-1930), surgiram vários movimentos de caráter
nacionalista, com intuito de encontrar caminhos para a recuperação
e/ou fundação da nacionalidade. Um deles foi a Liga Pró-Saneamento
do Brasil fundada em 1918, que contribuiu para a discussão dos
problemas nacionais e teve impactos significativos na sociedade
brasileira, pois pretendia alertar as elites políticas,
intelectuais e econômicas para a precariedade das condições sanitárias
e obter apoio para uma ação de saneamento do interior do país.
Pode-se afirmar que há dois períodos fundamentais para o movimento
sanitário: o primeiro é caracterizado pela fase urbana
(1903-1909), concentrado no Distrito Federal e nos portos; o
segundo, entre as décadas de 1910 e 1920, com ênfase de atuação
no espaço rural e nas áreas do interior do país. É a partir
deste segundo movimento que abordaremos o papel do movimento sanitário
na construção do Estado Brasileiro e a atuação do movimento
sanitário no campo político e social.
O
médico Miguel Pereira retratava o Brasil como um imenso hospital,
em que se poderia perceber a dramaticidade de um quadro social de pânico
dominado pelas doenças e pelo total abandono do interior do Brasil.
A confirmação deste quadro tornou-se o marco para as campanhas de
saneamento rural, pois demonstrava a gravidade dos efeitos dos elos
de “interdependência social, política e territorial gerado pela
doença e por suas conseqüências” (HOCHMAN, 1998: p.48). Tal
percepção é verificada no processo que é desencadeado nas décadas
de 1910 e de 1920 pelo movimento sanitário rural, como podemos
perceber nos escritos de Belisário Penna [1868-1939],
que viajou por várias regiões do interior brasileiro, tais como os
sertões da Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e o
Estado do Rio de Janeiro, e que, junto com Artur Neiva, verificou os
impactos sociais, psicológicos, culturais, políticos e econômicos
provocados pela doença e pela miséria. Sob o clima da I Guerra
Mundial (1914-1918), Belisário Penna atacou o descaso das elites
brasileiras para com a saúde pública, associando-a a uma questão
de segurança nacional:
“O
descaso pelos problemas de saúde pública manifesta-se na exigüidade
das verbas destinadas a esse fim, e até na ausência de tal verba
nos orçamentos de inúmeros municípios. São os chefes das
oligarquias que nos felicitam e que vão levando a nação, a passos
largos, para a perda da soberania”. (PENNA, 1918: p. 11)
Além
disso, tal como o poeta Olavo Bilac em sua campanha civilista em
1915, Belisário Penna foi uma voz a contrastar com a visão raciológica
da elite nacional, marcada fortemente por interpretações europocêntricas
sobre a transmissibilidade da doença e inferioridade racial:
“Não
que ele [sertanejo] assim seja [miserável e doente] por influência
da raça e do clima. Ele é, sobretudo, uma vítima indefesa da doença,
da ignorância e da deficiência ou do vício de alimentação.
Preserve-se das doenças, alimenta-se conveniente, dê-se-lhe instrução
e a produção de seu trabalho” (PENNA, 1918: p.14)
Segundo
Nísia Trindade Lima (1998: p.123), Belisário Penna demonstrou em
muitas cartas e outros documentos a sua insatisfação com a atuação
dos órgãos públicos. Essa insatisfação está associada às
dificuldades impostas pela constituição de 1891, que firmava a
descentralização política, fator prejudicial, segundo sua visão,
à unificação e coordenação dos serviços sanitários pelo
Governo Federal. A solução defendida por Belisário Penna estaria
na seguinte equação reformista: “Consciência sanitária + mudanças
políticas e constitucionais = política nacional de saúde pública”
(HOCHMAN, 1998: p.80). Assim, podemos observar que, em pleno
contexto de descentralização política da República Velha, é dos
discursos médico-sanitaristas que emergem as primeiras propostas
sistemáticas de busca da unidade nacional a partir da centralização
administrativa da medicina social, antecipando na área da saúde pública
aquilo que se tornaria a marca político-institucional do Estado
Novo. Para Belisário Penna, deveria haver uma transferência da
administração das relações de interdependência sanitária para
um organismo supralocal capaz de agir sobre todas as partes
envolvidas, legislando e implementando políticas públicas de caráter
compulsório (HOCHMAN, 1998: p.64).
Enfim,
Belisário Penna pensava que deveria haver um convênio com a União,
que captaria recursos técnicos e financeiros de, no mínimo, um terço
do orçamento anual dos serviços de profilaxia a serem instalados,
além do ingresso de recursos técnicos, científicos e
organizacionais (HOCHMAN, 1998: p.173). No entanto, depois de toda a
atuação em prol da centralização da administração da saúde pública
e do apoio que dera à Revolução de 1930, Belisário Penna –
como chefe do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP) e do
Ministério da Educação e Saúde Pública(MESP) – apresentou uma
postura avessa à maneira que foi conduzida a reforma e a
racionalização no campo da saúde. Para Nísia Trindade Lima
(1998: pp.123-124), ele se demitiu de seu cargo por discordar das
deliberações para sua pasta. O seu forte nacionalismo e as tendências
autoritárias que o levaram a ingressar no integralismo podem ter
interferido em sua decisão. No entanto, outra coisa pode ser
considerada: o esboço do Ministério de Educação e Saúde Pública
(MESP) nos primeiros anos do regime Vargas reduziu a força simbólica
do movimento sanitário, descentrando-o como lugar de autoridade
especialista nos projetos de profilaxias sociais. Com tudo
isso, é possível perceber que, mesmo com as mudanças ocorridas na
instalação do Estado Novo, houve elementos de continuidade da
ideologia de construção do movimento sanitário da Primeira República
através das trajetórias individuais de alguns médicos
sanitaristas. Portanto, o processo de burocratização estado
novista não suprimiu propriamente o movimento sanitário, mas criou
um novo enquadramento político-institucional com o qual muitos médicos
sanitaristas passaram a dialogar para implementar seus ideais
nacionalista de transformação da sociedade (PAIVA, 2003).
Através
de suas agências estatais, o Estado Novo enraizaria a presença do
poder público em toda a extensão do território brasileiro. Uma
das agências que fez parte deste projeto foi justamente o Ministério
de Educação e Saúde Pública, criado em 1930 com intuito de
concretizar o ideal de reforma administrativa. O MESP agregou uma
estrutura dividida em quatro departamentos específicos: educação,
saúde pública, assistência social e cultura. Portanto, os princípios
médico-sanitaristas formariam apenas um conjunto na pasta
ministerial. Dos ministros que assumiram a direção do MESP,
Capanema teve mais destaque na construção e implementação das
reformas do MESP (1934-1945). Em
1937, foram instituídas as conferências nacionais de saúde (CNSS)
e criadas as delegacias federais.
Para
compreender as transformações vividas dentro do Estado Novo na área
da saúde pública e ao mesmo tempo seu impacto social, abordaremos
a trajetória de dois médicos sanitaristas que atuaram dentro e
fora do aparelho do Estado: Mário Magalhães (1905-1986),
nascido em Maceió, que cursou a faculdade de Medicina da Bahia
junto com sua prima, Nise da Silveira, com quem se casou; e Valério
Konder (1911-1968),
nascido em Santa Catarina, mas teve sua formação médica levada a
cabo na Faculdade de Medicina do Distrito Federal (RJ).
Durante
a faculdade de medicina, Mário Magalhães manteve contato com
estudantes de aspirações ideológicas socialista e de oposição
ao integralismo. Domiciliando no Rio de Janeiro com Nise, mostrou-se
ativo militante, fundando revistas e editoras, além de conhecerem a
elite intelectual do Rio de Janeiro (ESCOREL, 2000: p.44). Em
Manguinhos, concluiu sua formação e, por meio de concurso,
tornou-se sanitarista do Departamento Nacional de Saúde. Depois da
Revolução de 1930, Mário e Nise passaram pela perseguição da
ditadura Vargas. Em 1935, Mário ficou sem seu emprego público e,
junto com Nise, foram presos, vivendo os momentos do cárcere com
Graciliano Ramos. Com a abertura democrática do pós-1945, Mário pôde
manifestar com mais ressonância a sua indignação com a falta de
verbas e os baixos investimentos destinados ao setor de saúde pública,
agravados pela aprovação do plano SALTE em 1950, que concentrara
as verbas no setor dos transportes (ESCOREL, 2000: p.77). De certa
forma, o pensamento de Mário Magalhães influenciou as políticas
ministeriais na área de saúde pública. Na década de 1950, com a
expansão do debate cepalino a respeito do subdesenvolvimento da América
Latina, parecia haver uma confluência do pensamento sanitarista de
Mário Magalhães com os planos desenvolvimentistas federais da
Escola Superior de Guerra (ESG). Para Mário Magalhães, o problema
da saúde pública estava atrelado à ordem econômica. Em defesa
desse pensamento, exprimia o seu desprezo em relação ao SESP,
considerado, por ele, um órgão ineficiente e desperdiçador de
recursos, pois seu efeito tinha somente abrangência local. Entre
1955 e 1964, Mário Magalhães ministrou cursos de saúde pública
na Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL),
internacionalizando suas idéias, e no ISEB (Instituto Superior de
Estudos Brasileiros). Com a criação da Superintendência de
Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), que ocupou o lugar do Conselho
de Desenvolvimento do Nordeste em 1959, Mário foi convidado pelo
economista Celso Furtado – voz brasileira na CEPAL de maior ressonância
entre as décadas de 1950 e 1970 no debate sobre as razões do
subdesenvolvimento da América Latina – para ajudar na elaboração
dos projetos direcionados ao Norte e Nordeste brasileiros.
Valério
Konder (1911-1968) foi filiado ao Partido Comunista, além de se
pronunciar publicamente, em 1935, a favor da Aliança Nacional
Libertadora, motivo pelo qual foi perseguido pela ditadura de
Vargas. Várias vezes foi preso e afastado de sua função pública
no DASP (Departamento Administrativo de Saúde Pública). No
entanto, a difícil situação internacional provocada pela II
Guerra Mundial (1939-1945), sob o impacto da lógica aliancista das
frentes nacionais antifascistas, fez com que Vargas atenuasse as
perseguições aos membros do Partido Comunista. Assim, Valério
Konder pôde voltar à sua antiga função, realizando vários
trabalhos ligados à saúde – sobretudo na preservação da saúde
infantil em Natal e no combate à malária em Natal e na Amazônia,
onde fora delegado na 2ª Região Federal de Saúde com sede em Belém,
que agregava a região do Acre (ESCOREL, 2000: p.67-68).
Valério Konder tornou-se reconhecido nacionalmente e
internacionalmente como um excelente profissional de comprometimento
humanitário que muito contribui para o desenvolvimento das políticas
pública de saúde no país durante o governo Vargas. O empenho que
tivera nas atividades que realizou esboça o conteúdo do ideal
mudança social que projetava na saúde pública. Ele foi também um
dos acionistas do Jornal Diretrizes. O grupo que fez parte do jornal
formou um pólo de discussão das mazelas nacionais – quase todos
eram militantes comunistas (PAIVA, 2003). O interesse de Valério
Konder pela saúde pública estava justamente associado ao fato de
ser encarada por ele como uma medicina socialmente engajada, como
afirmou o seu filho Leandro Konder (ESCOREL, 2000: p.67).
Portanto,
entre as várias visões da questão social no Brasil, o movimento médico-sanitarista
durante a República Velha e depois foi portador de utopias sociais
distintas de reabilitação nacional, criando um foco alternativo de
visão em nítido contraste com aquela até então corrente
entre as elites nacionais – ou seja, uma difusa percepção
do “mal do atraso nacional” como um “mal da raça e da
miscigenação”. Deste modo, o movimento médico-sanitarista
antecipou em larga medida as idéias e percepções de reformas políticas,
institucionais e sociais que, no pós-II Guerra Mundial, seriam
difundidas sob o signo de “Estado de Bem-Estar Social”.
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Referências
Bibliográficas:
ESCOREL,
Sarah. Saúde pública: Utopia de Brasil. Rio de Janeiro:
Relume-Dumará, 2000.
HOCHMAN,
Gilberto. A Era do Saneamento: As bases da política de Saúde Púbica
no Brasil. São Paulo: Editora Hucitec,1998.
HOCHMAN,
Gilberto; FONSECA, Cristina M.O.. “Repensando o Estado Novo: O que
há de novo? – Políticas de Saúde Pública e Previdência,
1937-45. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
HOCHMAN,
Gilberto; LIMA, Nísia Trindade. “Condenado pela Raça, absolvido
pela Medicina: O Brasil descoberto pelo Movimento Sanitarista da
Primeira República”. In MAIO, Marcos Chor(org.), Raça, Ciência
e Sociedade. Rio de Janeiro: FIOCRUZ/CCEB, 1996.
LIMA,
Nísia Trindade. Um sertão chamado Brasil: Intelectuais e
representação geográfica da identidade nacional. Rio de
Janeiro: Editora Revan, 1998.
PAIVA,
Carlos Henrique Assunção. “A saúde pública em tempos de
burocratização: o caso do médico Noel Nutels”. In História,
Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 10(3): 2003(set-dez).
PENNA,
Belisário. Defesa sanitária do Brasil. Rio de Janeiro: Typ
- Revista dos Tribunaes, 1922.
PENNA,
Belisário. Saneamento do Brasil. Rio de Janeiro: Revista dos
Tribunais, 1918.
SANTOS,
Castro Santos. “O pensamento sanitarista na primeira República:
Uma ideologia de construção da nacionalidade”. In Dados,
vol.28, n°. 2. Rio de Janeiro: 1985. pp.193-210.
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