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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá, doutorando nem educação (FEUSP)
e membro do Núcleo de Estudos de Ideologia e Lutas Sociais
(NEILS-PUC/SP)
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A
força da tradição no mundo ao avesso
“Toute
hiérarchie sociale et toute ordre établi se volatilisent, tout ce
qui est sacré est profané et les hommes sont enfin contraints de
considérer d’un oeil froid leur position dans la vie, leurs
relations mutuelles”.
(Marx & Engels, 1998:77)
“É
preciso ver o homem moderno com suas múltiplas ocupações, vivendo
lá fora, devorado pela necessidade de conservar sua fortuna e
aumentá-la, a inteligência tomada por problemas sempre renovados,
a carne adormecida pela fadiga de sua batalha cotidiana, ele próprio
transformado em pura engrenagem na gigantesca máquina social em
plena atividade”. (Zola, 1999: 11)
A
modernidade anunciou o triunfo da Razão. Ela
representou a possibilidade de construção de um mundo novo,
de costas para o passado medieval, contra os valores morais e teológicos
predominantes na Idade Média. Em seu lugar, impôs a racionalização
do processo de produção, a impessoalidade nas relações, a dominação
das elites que buscaram moldar o mundo ao seu pensamento, através
da conquista de novos mercados, pela organização do comércio, a
produção fabril e a colonização.
O triunfo da Razão, idéia essencial da
modernidade, representou a substituição de Deus pela Ciência: as
crenças religiosas foram relegadas à vida privada. A Razão fez
tábula rasa da tradição secularmente fundada no predomínio
das idéias e dos valores cristãos-medievais que submetiam o
destino dos homens e, também, das formas de organizações sociais
e políticas fundadas na crença e no domínio dos costumes.
“Tudo que é sólido desmancha no ar”: eis a síntese
da modernidade. No lugar da segurança, da coesão social fundada na
moral cristã-medieval, dos espaços territoriais bem definidos, de
uma compreensão estática e perene do tempo, a força dos
sentimentos e dos vínculos pessoais etc., a modernidade impõe a
insegurança das incertezas, a crise dos parâmetros, a desarmonia.
Como escreveu Berman (1986:15), o homem moderno vive sob o
“redemoinho de permanente mudança e renovação, de luta e
contradição, de ambigüidade e angústia”.
Contudo, a modernidade apresentou-se como uma utopia
positiva que parecia dar novo alento à humanidade. Acoplada à
idéia de ordem e progresso, infundiu a ilusão de que os
homens finalmente caminhavam em direção à felicidade e à
liberdade. Não por acaso, cunhou-se o termo iluminismo. Os filósofos
das luzes iluminam as trevas da medievalidade; e confiam
exclusivamente na Razão.
Esta percepção positiva da modernidade não está isenta
de crítica. No seio do próprio iluminismo, Rousseau apontou os
limites do progresso e da ciência e observou o quanto vivemos sob
as aparências, numa sociedade essencialmente hipócrita e
corrompida:
“Que
cortejo de vícios não acompanham essa incerteza! Não mais
amizades sinceras e estima real, não mais confiança cimentada. As
suspeitas, os receios, os medos, a frieza, a reserva, o ódio, a
traição, esconder-se-ão todo o tempo sob esse véu uniforme e pérfido
da polidez, sob essa urbanidade tão exaltada que devemos às luzes
de nosso século”. (Rousseau, 1978: 336)
Nós, homens e mulheres frutos desta modernidade, vivemos
sob o signo de uma era onde, como na transição do homem cristão-medieval
ao homem econômico racionalista, permeia a transitoriedade,
o incerto, o fugidio, ou seja, a angústia da falta de perspectivas;
da insegurança com o amanhã; o medo diante da ciência, da sua
capacidade de criar novos Frankenstein e sua teimosia em desejar
substituir o criador; o ceticismo diante do progresso; a sensação
de que perdemos os valores fundamentais que dão coesão à vida em
sociedade; a impotência diante do Estado e dos processos políticos
etc.
A realidade social parece confirmar os piores prognósticos:
o “admirável mundo novo” de Aldous Huxley parece se
impor; ou, talvez o pior, confirma-se o imaginado por George Orwell
em sua obra 1984. Não necessariamente através da imposição
de um Estado Totalitário, mas pelo absolutismo de mercado
que controla todas as esferas da sociedade, impondo o pensamento
único e desenvolvendo formas de controle da privacidade, como
por exemplo, os mecanismos de rastreamento e definidores de perfis
de usuários utilizados por empresas comerciais via Internet.
Vivemos num mundo De pernas pro ar. Neste mundo ao
avesso, milhares e milhões são excluídos dos direitos e das
condições básicas de sobrevivência. Esta realidade é
petrificada no instantâneo virtual da mídia; o real é banalizado,
transformado em números estatísticos, objeto de estudo e fonte
para angariar recursos financeiros pelos que vivem dos intermináveis
projetos sobre os miseráveis.
No mundo De pernas pro ar, a necessidade é irmã do
medo e o próximo é o inimigo real ou virtual. Como afirma Galeano
(1999:07-08):
“Quem
não é prisioneiro da necessidade é prisioneiro do medo: uns não
dormem por causa da ânsia de ter o que não têm, outros não
dormem por causa do pânico de perder o que têm. O mundo ao avesso
nos adestra para ver o próximo como uma ameaça e não como uma
promessa, nos reduz à solidão e nos consola com drogas químicas e
amigos cibernéticos”.
No mundo novo fictício de Aldous Huxley, a
estabilidade social é sustentada pela estratificação social e o
condicionamento programado em laboratórios – cada um no seu lugar
– e pelo uso de uma substância denominada Soma, garantia
da solidez emocional e antídoto à doença que acomete os críticos,
aqueles que teimam em contestar o pensamento e a ordem absolutos. As
drogas do mundo real não são apenas aquelas que tornam os
narcotraficantes os poderosos de nossa época, senhores que
controlam políticos, policiais, juízes e populações. Não! As
drogas modernas assumem ares de inocência: apresentam-nas sob a
embalagem religiosa; sob a ingênua programação televisiva;
sob o rótulo propagandístico que estimula o consumismo, o ter
e o individualismo; sob o refúgio da virtualidade dos chats
e da overdose de informações e do lixo que transita on-line
pela Web.
Os indivíduos buscam a felicidade sob o abrigo do
pscicologismo da indústria de auto-ajuda, no consumismo, no
misticismo e no intimismo. A realidade social não lhes diz
respeito; treinam a insensibilidade e fogem, como o diabo foge da
cruz, de qualquer compromisso coletivo com as transformações
necessárias para humanizar o mundo real. Vivem nas nuvens!
Na idade média a ideologia dominante pregava o
conformismo: as esperanças dos pobres se centravam no idílico paraíso
pós-morte. Em nossa época, democratizou-se o conformismo e a busca
da salvação individual: pobres, empresários, madames e senhores
da classe média viram as costas ao mundo real – esta triste
realidade! – e disputam em igualdade de condições um lugar no céu.
Os que se enriquecem e vivem da fé alheia agradecem.
Uns e outros apaziguam as consciências através do
assistencialismo, da esmola e do altruísmo religioso. Como o homem
do século XIX, assustado diante da sociedade industrial, há o
retorno e o apego desesperado às tradições. Os interesses e as
contradições sociais e individuais dão lugar à conciliação, à
harmonia, à irmandade. Há algo de positivo nisto: o resgate da
humanidade, dos valores humanitários. Mas, seria demais rigoroso
observar em tudo isto o reino da hipocrisia?
O refúgio nas tradições tem as suas vantagens. Em
primeiro lugar, é o tipo de atitude social e individual que foge ao
controle da Razão instrumental e do Estado. Depois, malgrado
todos os elementos hipócritas, não há como não se emocionar com
a pureza dos sentimentos resguardados nos melhores corações, em
especial dentre as crianças. É lícito reconhecer que em meio à
ideologia do mercado que transforma momentos de confraternização
em mera troca de mercadorias, mercantilizando os próprios
sentimentos e as relações afetivas, sobrevivem verdadeiras
manifestações de solidariedade que fogem à lógica mercantil.
Por fim, também devemos reconhecer que a Razão
triunfante da modernidade não conseguiu – felizmente! – por
termo a todas as tradições, o que significa a possibilidade de
mantermos um elo com o passado, aprender com este e resguardar
aquilo que ainda nos dá o status de humanos e não de autômatos
obedientes aos ditames da lógica do mercado. A sobrevivência da
tradição nos ajuda a contrapor nossa subjetividade à
racionalidade cega e objetiva, contribuindo para a crítica racional
a um mundo desencantado com sua própria realidade.
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