Por JACQUELINE DE CÁSSIA PINHEIRO LIMA

Mestre em Historia Social da Cultura (PUC-RJ); Doutoranda em Sociologia (IUPERJ/UCAM)

 

 

Modernização e Higienismo Social:

Projetos de Habitações Populares em Recife e Rio de Janeiro durante o Estado Novo (1937-1945)

 

Este artigo pretende apresentar como se consolidou a ação social de remoção das favelas (Rio de Janeiro) e dos mocambos (Recife) durante o Estado Novo, atentando para o modo de como foram concebidas as alternativas de moradias para a população pobre e de como este trabalho de cunho assistencialista contribuiu para a consolidação das propostas políticas e sociais do Estado Novo. A modernização social de áreas consideradas carentes pela política assistencialista da ditadura varguista deve ser percebida dentro de um processo de quebra de identidade dos grupos sociais formados nas favelas e mocambos, posto que foram transferidos para Parques Proletários e Casas Operárias, que pressupunham um modelo comportamental em conformidade com os pressupostos higienistas do Ministério de Educação e Saúde. Portanto, associada à política social do Estado Novo em tais localidades estaria uma proposta de readaptação e reeducação dos moradores no sentido de formar o “cidadão do Estado Novo”.

Rio de Janeiro e Recife foram as cidades escolhidas por ocuparem lugar de destaque nas ações governamentais durante o Estado Novo. Recife, porque seu interventor deixa os Ministérios do Trabalho e da Justiça para tomar conta da cidade e erradicar os males que “atravancavam o progresso”. Rio de Janeiro, porque, como capital do país, assumia de primeiro o caráter modernizador que se pretendia para a nação. A cidade do Rio de Janeiro foi um espaço sempre dinâmico da política nacional. O progresso e a modernização desta cidade criaram um investimento na educação e na cultura que caracterizou o crescimento do Estado. São, portanto, duas cidades com características nacionais em suas problemáticas locais, possuindo elementos que as assemelham e as diferenciam. Neste sentido, duas pessoas merecem destaque: no Recife, o interventor Agamenon Magalhães, com suas políticas contra os mocambos; no Rio de Janeiro, a figura pouco conhecida do Dr. Vitor Tavares de Moura, que é convidado pelo interventor Henrique Dodsworth para trabalhar na remoção das favelas e criação dos Parques Proletários Provisórios. Deste modo, estes dois grandes centros que sofreram remodelação urbana durante o Estado Novo discutiam as características da população pobre assistida. Entre elas, estavam suas condições física, ética e moral que, segundo o Estado, deveria viver bem para responder aos anseios propostos pelo novo modelo de governo.

No caso do Rio de Janeiro, as doenças, a crise habitacional e a proliferação de idéias contra o sistema político eram responsáveis por essa mudança de olhares, já que representavam um mal que poderia não só pertencer aos habitantes das favelas, mas poderia se difundir por toda a população. Estes eram problemas que não mais eram particulares de um grupo isolado na multidão de uma grande metrópole. Passava a ser um problema coletivo. O Código de Obras da cidade do Rio de Janeiro do ano de 1938 não só proibia a continuação dos casebres, mas também sugeria a construção de habitações proletárias para exterminar com as favelas que incomodavam a cidade estética e sanitariamente. Em novembro de 1940, o então diretor do Albergue da Boa Vontade, Dr. Vitor Tavares de Moura, apresentou ao Secretário Geral de Saúde Pública um plano para estudar as favelas. Solução paliativa, já que de início a idéia de se construir parques proletários na cidade era num sentido provisório, mas que despertavam o interesse de Henrique Dodsworth. Desse plano nasce um relatório em que o Dr. Moura avaliou o conjunto do crescimento urbano e as favelas e iniciou a idéia dos parques proletários como solução para seus habitantes. A partir de então, as autoridades começam a olhar e a reconhecer as favelas.

Em 1941, Dr. Moura entrega o relatório de estudos do problema das favelas feito por uma comissão composta por dois engenheiros que estudaram os terrenos e os tipos de habitação e dois médicos: o próprio Dr. Moura, que dirigiu inquéritos e propôs algumas medidas, e outro que manteve relações com o Serviço de Estado da Secretaria e recuperação social dos favelados. Este relatório evidencia sugestões que Vitor Tavares de Moura chama de “preventivas” e “realizadoras”. Entre as medidas preventivas, estavam soluções reeducadoras e controladoras, como por exemplo: “o controle de entrada no Rio de indivíduos de baixa condição social” e “promover forte campanha de reeducação social entre os moradores das favelas, de modo a corrigir hábitos pessoais de uns e incentivar a escolha de melhor moradia”. Já a ação realizadora pressupunha casas provisórias, para as quais seriam transferidos os antigos moradores dos casebres (BURGOS, 1988:66-67). As suas sugestões foram logo acatadas pelos IAPs e por Dodsworth, além de fazerem um enorme sucesso com a Imprensa que apoiava as decisões de Getúlio Vargas. Em 1942, numa conferência feita na Academia Carioca de Letras, Vitor Tavares de Moura diz:

“...esperamos que dentro de mais dois meses duas favelas, das mais feias do Rio, as do Largo da Memória, e aquela que o carioca apelidou, pitorescamente, de Cidade Maravilhosa, e que vai da margem da Lagoa Rodrigo de Freitas ao leito da linha do bonde do Leblon, não mais estejam manchando a nossa cidade.” (MOURA, 1943:263)

Quanto a Recife, como aponta José Tavares Correia de Lira (1998), a palavra mocambo há muito sofre significações diversas. Já foi associada à sua etimologia uma ligação com os quilombos, como mostra Gilberto Freyre (1937:20), e daí uma associação a local de esconderijo e resistência dos escravos e local destinado aos negros, aos marginalizados socialmente e, portanto, à insalubridade e ao atraso cultural, sendo inclusive, comparados às favelas, como se fossem puras sobrevivências africanas dos Quilombos de Palmares (LIRA, 1999:63). Na década de 1920, os mocambos eram entendidos, segundo Lira, tanto como sinônimo da diversidade da arquitetura e da cultura popular do Nordeste brasileiro, quanto como “habitação miserável”, sinônimo de cortiço. De acordo com o autor, já em 1919 a cidade de Recife foi interditada no que competia à construção de mocambos no centro da cidade e, já no fim da década de 1930, definia-se um regulamento para a sua construção, delimitando ainda mais suas fronteiras. Com a chegada do Estado Novo, Recife sofre uma reforma urbana e os mocambos são condenados, sendo muitos deles destruídos por intermédio de um grupo liderado pelo interventor pernambucano, Agamenon Magalhães, que consistia na Liga Social Contra o Mocambo, como veremos mais tarde:

“A partir de 1937, quando Agamenon Magalhães (1893-1952) é colocado na cabeça do estado de Pernambuco por Getúlio Vargas, tais orientações se concretizam em uma política inédita de alojamento. Organiza-se imediatamente uma ‘Cruzada social contra o mocambo’.” (LIRA, 1999:94)

Em “O Urbanismo e seu Outro”, Lira escreve:

“Quanto aos setores populares, o caso pernambucano é exemplar. Além de fazer desaparecer o mocambo da paisagem recifense, era preciso deslocar o ‘mucambeiro para trabalhar em colônias agrícolas’, afinal a ‘integridade higiênica’ da cidade estava ameaçada.” (LIRA, 199: 64)

Para José Tavares Correia de Lira (1994), durante um certo período da história a casa sofre uma certa conotação de poder e bem-estar. Torna-se, portanto, marca de uma identidade. E é nessa perspectiva que na década de 1930 as habitações populares, em especial os mocambos, são discutidos por vários grupos de políticos e intelectuais. Assim sendo, proponho alguns argumentos específicos:

1.    Algumas cidades, neste período, decidiram eliminar os focos de insalubridade que iam contra a expectativa de progresso do Brasil. No caso específico do Rio de Janeiro, tais reformas eram uma reedição do que acontecera no início do século na prefeitura de Pereira Passos. Era, então, o mesmo lugar mais uma vez modificado, com a mesma intenção: saneamento e embelezamento. Além disso, o Estado tomou uma preocupação ética, na qual pensar o favelado e o mocambeiro como cidadãos que deveriam participar do projeto do Estado Novo era reintegrá-los à sociedade de modo que somassem forças e não deixassem de ser encarados como um grupo à margem. Reeducá-los e doutriná-los, como pensavam os políticos da época, era condição sine qua non. Nesse sentido, Recife estabeleceu uma política de exclusão do centro da cidade de tudo aquilo que fosse contra o projeto estético de moderna metrópole que seu interventor, Agamenon Magalhães, decidiu criar. Assim também, o Rio de Janeiro, na pessoa do Interventor Henrique Dodsworth, acionou uma política de remoção de favelas e criação de parques proletários como tentativa de solucionar o problema.

2.    O segundo argumento está relacionado ao estudo não apenas dos administradores da cidade, mas do médico Vitor Tavares de Moura, que vem assumir importantes cargos administrativos e proporcionar idéias confiadas até mesmo pelo Presidente da República, como a criação dos parques proletários para solucionar o problema habitacional das favelas. Personalidade importante no esquema de “desintoxicação” da sociedade, Tavares de Moura pensou diretamente na população pobre da cidade e para tanto trabalhou na cena política da cidade do Rio de Janeiro, transformando-se num importante ator social.

3.   Outro argumento diz respeito exatamente à forma como se concretizou a ação do Estado nos problemas sociais. A sua preocupação em desenhar o novo perfil do cidadão brasileiro, chamando-o para si e, por outro lado, a resposta deste novo homem na velha sociedade. Assim, as seguintes questões parecem importantes: Como se deu esta troca? Como o favelado e o mocambeiro se encaixaram no novo modelo que lhes foi proposto? Houve uma quebra de identidade?

4.    O último argumento trata da importância de observar o papel da Imprensa e sua influência nas manifestações contra ou a favor das habitações populares em questão. Como tais iniciativas eram tratadas e consolidadas a partir da Imprensa?

Portanto, durante o período do Estado Novo houve uma importante transformação social e política no papel das instituições governamentais no âmbito das políticas públicas. Penso que esta transformação nas relações entre o Estado e a sociedade possa ser melhor compreendida, como propõe Gilberto Hochman (1998), pelo aumento da consciência de “interdependência social” provocada pelo risco de proliferação de enfermidades. No entanto, não se deve ignorar que a remoção de favelas e mocambos significou também a quebra de identidades grupais e o reenquadramento social e simbólico de seus habitantes em Parques Proletários e Casas Operárias. Tal como se deu, tratou-se de um processo fáustico-interventor de desenraizamento cultural baseados na noção funcional de readaptação e reeducação de seus moradores para tornarem-se “trabalhadores-cidadão”, ideal tão afeito à atenuação das lutas de classe que o trabalhismo varguista pressupunha.

 

 

Referências Bibliográficas:

BURGOS, Marcelo Baumann. “Dos Parques Proletários ao Favela-Bairro – as políticas  públicas nas favelas do Rio de Janeiro”. In ZALUAR, Alba e ALVITO, Marcos. Um Século de Favela. Rio de Janeiro: FGV, 1988. pp.25-60.

FREYRE, Gilberto. Mucambos do Nordeste: Algumas notas sobre o typo de casa Popular mais primitiva do Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1937.

__________. Sobrados e Mocambos. Rio de Janeiro: Record, 2000.

HOCHMAN, Gilberto. A Era do Saneamento: As Bases da política de saúde pública no Brasil. São Paulo: HUCITEC, 1998.

LIRA, José Tavares Correia de. “A Romantização e a erradicação do mocambo, ou de como a casa popular ganha nome: Recife, década de 1930”. In Espaço & Debates. São Paulo: Editora 37, 1994. pp.47-60.

__________. “Mots Cachés: les lieux du mocambo à Recife”. In Genèse: Sciences sociales et histoire, n.: 33. Paris: 1998. pp.77-106.

__________. “O Urbanismo e o seu Outro: Raça, Cultura e Cidade no Brasil (1920-1945)”. In Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, nº1. Maio, 1999. pp.47-78.

MOURA, Vitor Tavares. “Favelas do Distrito Federal”. In Aspectos do Distrito Federal. Rio de Janeiro: Sauer, 1943.

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