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Por JUN IWATA
Jun
Iwata é um negociante japonês aposentado que morou no oeste
por muitos anos. Depois de se aposentar, ele decidiu retornar à
universidade, obteve um mestrado em American literatura, e está
atualmente cursando o doutorado no mesmo assunto. Ele leciona Inglês
Comercial na Mukogawa Women’s University, em Nishinomiya, Japão
VERSÃO
EM INGLÊS:
The Weight is Right to Fight
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O peso
certo para a luta
[Tradução
de Eva P. Bueno]
Como
o esporte nacional do Japão, a Grande Luta de Sumô tem sido
amada pelos japoneses por mais de mil anos. Então cada vez que nós
introduzimos a nossa forma de entretenimento e desempenho mais
japonesa, nós sempre nos referimos ao sumô juntamente com o teatro
kabuki. Estas duas formas são originárias do Japão, e ambas são
cheias de formalidades étnicas singularmente japonesas.
Muito
por acaso, recentemente eu li que Charles Chaplin assistiu os dois
tipos de performances quando ele visitou o Japão em 1932, como foi
descrito na sua “autobiografia” publicada em 1964. Chaplin
gostou muitíssimo do Japão, e também de kabuki, e parece que
preferiu o teatro à luta. Podemos compreender que o seu amor pelo
kabuki se deve ao fato que ele era um dos grandes atores e empresários
de teatro de seu tempo, e sua admiração é claramente expressa no
seu livro. Ele elogia o kabuki, comparando-o com a tragédia de
Romeu e Julieta, e até define esta forma de teatro como uma mistura
do antigo e do moderno.
Enquanto
isto, o sumô, muito mais claramente uma mistura do antigo e do
moderno do que o kabuki, recebe uma breve menção na sentença,
“o filho do primeiro ministro nos convidou para ver a luta de suomi
(sic).” Naquele mesmo dia, 15 de maio de 1932, os terroristas
militares atacaram e assassinaram o primeiro ministro do Japão,
Tuyosi Inukai, e este evento se transformou na principal causa da
entrada do Japão na guerra tempos depois. A primeira informação
sobre a morte do ministro foi trazida ao seu filho quando ele estava
assistindo as lutas de “suomi” com o Sr. Chaplin. Esta pode ter
sido a razão pela qual Chaplin não pôde concentrar-se na luta e não
menciona muito sobre o sumô. Se tal não fosse o caso, ele teria
apreciado a mesma beleza estilística que existe no kabuki, assim
como observado que algumas das lutas eram vencidas por pequenos
homens lutando contra uns homens enormes, situação bem parecida às
existentes em seus filmes.
Ao
contrário de outras lutas corporais, como o boxe, a luta livre, e
mesmo o judô, os quais mudaram suas regras e colocam os lutadores
em diferentes categorias dependendo do peso, o sumô conserva, desde
o começo de sua história, o regulamento que não separa os
lutadores por peso. E isto foi possível graças a apenas duas
regras básicas.
A
primeira delas foi estabelecida no ano 726 pelo imperador Shomu, o
Grande, que baniu ataques fatais tais como golpes com os nós dos
dedos, ou os chutes no corpo. Antes deste decreto formal, dizia-se
que a luta de sumô deveria continuar até que um dos lutadores
fosse morto ou fatalmente ferido. Com esta primeira e crítica mudança,
ficou estabelecido que a luta seria decidida quando um dos lutadores
tocassem o chão com qualquer outra parte do corpo que não fosse a
sola dos pés.
A
segunda foi a adoção do círculo onde ocorre a luta, algo iniciado
com o famoso guerreiro e líder Nobunaga Oda, no século 16, mais ou
menos 850 anos depois do estabelecimento da primeira regra
mencionada acima. E esta mudança, destinada a regulamentar a luta,
que até este tempo ocorria em um espaço não delimitado, a partir
de então passou a ocorrer dentro de um círculo de 3,9m de diâmetro,
colocado no topo de um monte quadrado, que recebeu o nome de Dohyo.
Com isto, outra regra básica foi estabelecida para a vitória ou
perda de uma luta, ou seja, a luta termina quando um lutador
consegue jogar seu oponente fora do pequeno círculo de tal maneira
que qualquer parte de seu corpo toque primeiro o chão fora do círculo
do rinque. Muito simples, novamente.
Porém,
estas duas simples regras provocaram grandes mudanças na luta de
sumô. Ao contrário da antiga luta até a morte, feita em campo
aberto, agora os lutadores de tamanho mediano ou mesmo pequeno
podiam freqüentemente ganhar lutas com o uso de técnicas que
levavam seus oponentes a tocar ou roçar a superfície do Dohyo, ou
a fazê-los saírem do
círculo primeiro. Assim, muitos golpes da luta foram desenvolvidos,
e inicialmente o número era 48 ou 72, mas atualmente são 300. Com
estes golpes, as lutas de sumô agora duram em média apenas de 10 a
15 segundos; o sumô se transformou na luta mais simples e mais rápida
do mundo. Então, como um desenvolvimento natural destas limitações,
a qualidade dos julgamentos também foram extremamente refinadas,
para refletir a exatidão da decisão. E deste este ponto de vista,
a história do sumô é tanto a história do cultivo de um certo número
de golpes/habilidades dentro das limitações da luta, assim como a
história do refinamento e da correção do julgamento da luta.
Por
estas razões, é bastante natural que 6 juízes assistem as lutas
de sumô acontecidas no pequeno rinque, para poderem dar um
julgamento exato e justo. Uma pequena mudança, ocorrida em 1955,
foi o aumento do tamanho do rinque de 3,9m a 4.5m. Em geral, o início
e o fim as lutas e dos rituais de sumô são anunciadas pelo juiz
chamado Gyoji, que se coloca no Dohyo. Mas se este juiz (o mais
venerável entre todos) tem alguma dúvida sobre quem ganhou a luta,
os outros 5 juízes colocados ao lado do rinque são chamados para o
centro do círculo imediatamente para discutir a questão. Se mesmo
assim eles não têm certeza, então o gravador de vídeo será
convidado a se juntar aos juízes. É realmente interessante que
este aparelho tão moderno foi adotado pela conservadora Associação
de Sumô em 1969, mais de 30 anos atrás. Esta foi a primeira das
artes marciais a adotar tal recurso. Nenhuma das outras ainda adota
formalmente o videotape como parte do aparato do julgamento das
lutas.
Um
detalhe interessante é que os dois juízes mais importantes levam
um punhal com eles para o Dohyo, e isto significa que se eles
fizessem um julgamento errado eles se matariam imediatamente, ali
mesmo. A decisão em uma luta de sumô é assim séria! Mas
recentemente um comentador de televisão perguntou a um dos juízes
mais importantes, “Você realmente se mata quando faz um
julgamento errado?” O juiz imediatamente respondeu, “Nunca!”
Aquela foi uma entrevista muito engraçada, e muitas pessoas ainda
fazem referências a ela.
É
verdade que estas regras sobre uma luta a ser decidida em um espaço
tão pequeno deu chances para que um lutador pequeno, mais leve, e
com mais golpes, derrotasse o lutador maior, mesmo um yokozuna, o
grande campeão. Mas, apesar de que tais vitórias aconteçam até
que com alguma freqüência, elas não acontecem com suficiente freqüência,
porque em todas as lutas de corpo-a-corpo, o peso do corpo do
lutador geralmente funciona mais do que as habilidades e
conhecimento de golpes. Por exemplo, nós sabemos empiricamente que
quando dois lutadores com o mesmo nível técnico se encontram, o
que for mais pesado provavelmente ganhará a luta. Ou quando o
lutador tiver aproximadamente 20 kg mais do que seu oponente, ele
ganhará quase todas as vezes, porque a diferença substancial do
peso certamente funciona neste caso. Devido a tudo isto, a busca de
possíveis lutadores pesados tem sido um esforço tradicional para
todos os treinadores de sumô no Japão.
Então,
juntamente com o estrenuoso esforço de conseguir tantos candidatos
ao sumô quando possível, os treinadores desenvolveram também o
conhecimento da dieta que faz os atletas ganharem peso. Esta é a
conhecida comida de sumô, chamada “Chanko-Nabe” — uma mistura
de peixe e galinha e vários vegetais. Quando o Chanko é preparado,
tantos tipos de comida quando possível — menos carne de quadrúpedes
— é colocada nesta “sopa”. Você sabe por que os quadrúpedes
não fazem parte desta dieta? Porque os quadrúpedes são a imagem
do lutador de sumô quando ele toca o chão com as mãos. Então
esta escolha não é mais do que uma maneira de evitar a imagem
tabu. Mas com o tempo se viu também que esta foi uma escolha muito
sábia, se bem que não intencional.
Ao
mesmo tempo, as maneiras mais apropriadas e efetivas para a completa
apreciação do Chanko foram estabelecidas há muito tempo. A
maneira de ganhar peso está circunscrita ao costume simples e firme
de duas refeições ao dia. Diz-se que os lutadores de sumô
consomem mais de 8.000 calorias por dia com o Chanko, mas isto não
é demais? Certamente não. Os lutadores de sumô levantam às 5 ou
6 da manhã todos os dias, começam seu treinamento imediatamente, e
continuam até o meio dia. Então eles comem a primeira refeição
de Chanko. A razão para esta regra é que se os lutadores comerem
qualquer coisa antes de treinarem, as horas extremamente duras e
longas de treinamento os fariam vomitar tudo o que comeram. Depois
desta refeição tão tarde e tão pesada, eles tiram uma soneca e
descansam até a próxima refeição ali pelas 6 da tarde. Depois do
jantar eles mais uma vez ficam sem ter nada que fazer, e vão dormir
muito cedo, por volta das 9 ou dez da noite. Assim, eles mantêm uma
vida bem regular, consumindo as 8.000 calorias que eles comeram num
dia treinando duro no outro dia de manhã. O resto dos nutrientes e
calorias que eles comem são destinados a aumentar os seus músculos
e peso, não meramente a gordura, mas uma nutrição que lhes dará
o físico apropriado para a luta de sumô.
Com
esta dieta consistindo de cada vez mais eficientes elementos
nutritivos, todos os lutadores de sumô acabaram ficando mais
pesados e mais grandes, e agora são 1,5 maiores e mais pesados que
eram há 50 anos atrás. Embora pareça irônico, quando todos os
lutadores de sumô começaram a se tornar maiores e mais pesados, os
treinadores de sumô notaram a sua crescente necessidade de
gerenciar melhor suas academias para sobreviver. O que os
treinadores tinham que fazer? Engordar outros lutadores de sumô
mais rápido que outras academias ou trazer lutadores enormes do
estrangeiro. Qual seria mais efetivo e rápido? Assim, desta
maneira, começou a importação de lutadores de sumô do ocidente,
da mesma maneira que uma vez tinham adotado a idéia ocidental de
utilizar um aparato mecânico para ajudar a decisão dos juízes.
Assim, uma outra mudança espetacular ou um passo além tinha sido
dado no mundo do sumô.
Tudo
começou com a chegada de Takamiyama do Havaí no ano de 1964, e
este foi um incidente que marcou época na história do sumô depois
de mais de 400 anos depois da invenção do Dohyo. Então
rapidamente, depois do sucesso de Takamiyama, outros lutadores extra
pesados vieram juntar-se ao sumô do Japão. Estes são Tonishiki,
Akebono, e Musashi-maru. É verdade que estes homens trouxeram
grandiosidade, assim como o seu peso, às competições de sumô. Nós
adoramos suas agressivas lutas contra os formidáveis irmãos na
categoria de yokozuna, Takanohana e Wakanohana, ambos japoneses.
Mais incríveis ainda eram as lutas entre Konishiki e Maino-Umi, o
mais pesado e o mais leve, 280 kg contra 95 kg, ou até menos! O que
Chaplin teria dito, se ele tivesse visto esta engraçada luta no
rinque? Especialmente quando o menor ganhou com sua habilidade! E
tal vitória aconteceu várias vezes, para a delícia da audiência.
Entretanto,
depois da aposentadoria daqueles três enormes lutadores, Konishiki,
Akebono e Musashi-maru, parece que mais uma vez a idéia de que deve
haver um peso certo para a luta está revivendo, especialmente
levando-se em consideração que o espaço do Dohyo permanece
relativamente bastante limitado. Provavelmente como resultado destas
coisas todas, agora só temos um único yokozuna com um tamanho
menos que o standard, mas com uma variedade de habilidades. O único
grande campeão yokozuna no Japão agora veio da Mongólia, e
demonstrou suas consideráveis habilidades técnicas na excursão do
Grande Torneio de Sumô que teve lugar em Seul este fevereiro
passado, pela primeira vez na longa história do sumô.
O
governo coreano proibiu a entrada de qualquer manifestação da
cultura japonesa na Coréia por mais de meio século depois da
Segunda Guerra Mundial. Então, não se pode negar a pitada de
ironia neste importante evento histórico, quando o povo coreano
recebeu e aplaudiu o sumô e a beleza dos seus rituais e
formalidades, mas o nosso único grande campeão é um estrangeiro,
o qual, por sinal, se portou com muita honra e dignidade durante o
evento.
Ao
manter suas regras e formalidades estritamente por um lado, enquanto
por outro lado adotando significantes inovações e mudanças
revolucionárias tão rápidas e oportunas, as lutas de sumô
japonesas têm vivido sua longa história até agora. Entretanto,
neste momento estão começando disputas e discussões sobre dois
pontos que podem afetar em muito o futuro do nosso sumô.
A
primeira é o persistente favoritismo pelos lutadores japoneses por
parte do “Conselho de Yokozunas” (que tem a maior autoridade em
aceitar ou rejeitar um novo grande campeão yokozuna), o qual é
influenciado por jornalista extremamente conservador e senil. Quando
Konishiki se tornou forte o suficiente para ser nomeado grande campeão,
começou uma onda de crítica por parte do conselho dizendo que ele
não tinha o “espírito do sumô”, nem decência mental,
atributos considerados indispensáveis
para o honorável status de yokozuna. Com o seu caráter alegre, e
com suas altas qualidades de dançarino, talvez o enorme Konishiki
era ocidental demais para o gosto do conselho? Assim como nos dramas
de Shakespeare, o conselho parecia estar insistindo em pegar o corpo
dos estrangeiros, mas nada do seu sangue. E mais uma vez o mesmo
aconteceu com Asashoriyo, o mongol que agora é grande campeão.
Quando ele cometeu alguns erros em sua vida pública e privada, ele
foi terrivelmente criticado pelo conselho, que inclusive chegou a
sugerir que se retirasse seu título, mais uma vez em nome da decência
e do espírito exigidos de um yokozuna. O que muitos de nós
japoneses suspeitamos é que estas encrencas começadas pelo
conselho simplesmente refletem o estado do declínio (e esperamos
que não a “queda” total ainda) da Pax-Japonica no mundo do sumô,
e o fim do tempo em que somente podem existir yokozunas japoneses.
Outra
é a desesperada luta da Associação de Sumô do Japão contra a
participação de mulheres em quaisquer rituais feitos no Dohyo.
Todos os pedidos feitos no passado por mulheres para uma maior
participação foram negados totalmente, como uma transgressão à
autêntica tradição do sumô. Por exemplo, a governadora da
prefeitura de Osaka, uma grande admiradora de sumô, tem lutado
contra esta tradição já por muitos anos, mas sem resultado. E
neste mesmo assunto, convém frisar que o teatro kabuki também só
admite atores homens, e tudo relacionado a ele tem sido da
exclusividade masculina por várias centenas de anos. Por que é que
no Japão toda manifestação cultural tradicional tem que ser tão
obstinadamente dominada por homens, e como esta cultura vai poder
sobreviver com esta mentalidade no futuro?
O
que Charlie Chaplin diria disto, ele, cujo herói começava sempre
uma nova vida, de mãos dadas com sua amada, olhando pra frente,
juntos. O que ele pensaria desta teima das autoridades do sumô de
ignorar que as mulheres existem, e que os estrangeiros estão aqui
para ficar? Estas são perguntas irrelevantes?
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