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Lestalgia
(Ostalgie)*
O
ano é 1989 e o muro que divide Berlim em duas está prestes a cair.
A Alemanha Oriental vive dias de profunda mudança. Para uns está-se
no caminho certo, para outros nada de bom se advinha. Neste ambiente
de surpresas e inseguranças vive uma família que sente de forma
bastante intensa todos os acontecimentos. Alex Kerner (Daniel Brühl)
não tem grandes opiniões formadas sobre o momento histórico que
pouco parece representar para si, mas vê a sua vida alterar-se
devido ao incidente ocorrido com a sua mãe (Katrin Sass), uma
entusiasta do regime comunista que - ao testemunhar a prisão de
Alex em uma manifestação pró-abertura - sofre um ataque cardíaco
e entra em coma.
Quando
Christine acorda oito meses depois, o médico revela à família que
seu coração está fragilizado e que qualquer choque será fatal.
Então, como explicar à mãe que o muro de Berlim caiu enquanto ela
convalescia e que as duas Alemanhas foram unificadas sob um governo
capitalista? A solução encontrada por Alex é aparentemente
simples: Manter, pelo menos dentro do apartamento da família, a
Alemanha Oriental viva. Este é, em linhas gerais, o argumento de
"Adeus, Lênin!" (Good Bye, Lenin! - Alemanha, 2002), do
diretor Wolfgang Becker.
Considerado
o melhor filme europeu da temporada, "Adeus, Lênin" vem
colecionando prêmios e comentários elogiosos da crítica pelos países
onde vem sendo exibido. Dizer, portanto, que se trata de um grande
filme é cair no lugar-comum. É um filme que precisa ser visto por
várias razões. Vamos a algumas delas:
1.
O que se sucede ao despertar da infartada é uma seqüência de
cenas geniais quando a situação foge do controle. Um exemplo: o
noticiário insólito produzido por Alex e um amigo aspirante a
Stanley Kubrick que provoca - pelo menos quando Christine vê tevê
- a impressão da vitória da ideologia socialista. Ponto para
malabarismo de Becker e Bernd Lichtenberg, que assinam o roteiro.
2.
O filme não descamba para a comédia do riso fácil. Equilibra bem
o cômico e o dramático e é profundamente questionador sem ser
chato ou ingênuo.
3.
Um elenco bastante apropriado e uma das mais belas cenas do cinema
recente: a estátua de Lênin sendo transportada em um helicóptero.
Só ela já teria valido o ingresso.
4.
Ao me deparar pela primeira vez com o título do filme, não escapei
à sensação de que poderia se tratar de alguma versão cinematográfica
de alguma viúva do Fukuyama, algo meio triunfalista. Ledo engano: o
olhar de Becker sobre a utopia socialista é de uma honestidade
comovente.
Há
muitas outras razões, mas esta visão de Becker é uma questão
central para entender do que realmente trata o filme. “Adeus, Lênin!”
traz à luz uma outra visão do que realmente estava por trás da
chamada Cortina de Ferro. Uma visão que expressa, em certa medida,
algo que os alemães chamam hoje de "Ostalgie" (ost em
alemão é leste; em tradução duvidosa seria algo como "lestalgia",
nostalgia do leste comunista). Este sentimento é uma espécie de
banzo a acometer os que nasceram e cresceram do lado oriental do
muro e para quem a reunificação não trouxe exatamente a tranqüilidade
de um domingo de sol.
O
sentimento de insatisfação tem feito voltar ao cotidiano da
Alemanha atual marcas e produtos desaparecidos com a reunificação.
É o caso do ressurgimento de fábricas de produtos da era comunista
(como cosméticos, produtos de banho, produtos de limpeza e
alimentos), do lançaento de programas de TV com entrevistas com políticos
e atletas pré-queda e a proliferação entre os jovens de roupas
com temáticas pró-DDR (a Alemanha Oriental).
O
NY Times publicou na edição do último dia 13 reportagem que
oferece uma certa dimensão do que isso significa. O repórter
Richard Bernstein viajou para uma cidadezinha na fronteira entre a
Alemanha e a Polônia onde há um museu com todo tipo de badulaque
da indústria da finada a Alemanha Oriental. O Centro de Documentação
da Vida Cotidiana da Alemanha Oriental, de Eisenhüttenstadt, tem de
revistas a trabbants (aqueles carrinhos feios cuja compra poderia
demorar vários anos), de utensílios de cozinha a transistores de rádio.
Enfim, são quase 80 mil objetos reunidos numas poucas salas a que
se resume o museu, que atraiu no ano passado 10 mil visitantes.
Bernstein ajuda a montar o quebra-cabeças:
“Lestalgia”
(Ostalgie) é um sentimento complicado, composto de uma série
variada de ingredientes. Um deles é claramente a desilusão sentida
por muita gente nascida do leste com a reunificação do país,
ocorrida há 13 anos. Em lugares como Eisenhüttenstadt o desemprego
atinge uma de cada quatro pessoas em idade de trabalhar, os aluguéis
não são mais subsidiados pelo Estado e as visitas ao médico
custam dinheiro”.
“Adeus,
Lênin!” não é, portanto, um filme sobre 1989, é sobre hoje.
E
assim o enredo vai sendo costurado com jogos de passado e presente,
na forma deste persistente confronto entre o que éramos (os alemães
e todos nós) na incerteza de 89 e a lestalgia nossa de cada dia.
Becker não joga uma pá de cal sobre esperança, mas expõe, de uma
maneira muito particular, o quão raquítica é a ideologia hegemônica
da qual a humanidade é refém. E aí é que está certamente a
grande cartada de "Adeus, Lênin!": questionar esta
realidade com sutileza para retomar, a partir de cada um de seus
embasbacados espectadores, aquele desejo inexorável de viver
melhor.
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