Por LEONARDO SILVINO

Publicitário e Editor do

 

Deixa a grana me levar

 

"A receptividade das massas é muito limitada, sua inteligência não vai muito longe, mas seu poder de esquecimento é enorme. Em virtude destes fatos, toda a propaganda efetiva deve se limitar a uns poucos pontos essenciais. Slogans devem ser repetidos até que o último integrante da última parcela do público tenha absorvido a mensagem" Adolf Hitler

 

Zeca Pagodinho afirmava que existia apenas uma marca de cerveja que não bebia de jeito nenhum. Meses depois surpreende a todos numa campanha de lançamento da Nova Schin. Zeca pede para o país inteiro repetir o refrão e experimentar a nova cerveja numa campanha memorável que caiu no gosto popular. Na semana passada, Zeca reaparece em comercial da arqui-rival dizendo que experimentou mas voltou para seu amor verdadeiro, a Brahma.

Quando soube que o pacto de não-agressão seria interrompido e a propaganda anti-soviética seria restaurada, Paul Joseph Goebbels, ministro da propaganda do III Reich, ficou furioso. Inicialmente, ele tivera o trabalho de conduzir a opinião pública contra os russos, depois no pacto de 1939 teve de fazer as massas esquecerem tudo o que foi dito e incentivar a amizade com os irmãos do oeste. Com a volta das hostilidades, Goebbels deveria, novamente, voltar atrás sem que a população percebesse quem eram os inimigos de ontem ou de amanhã. Nazistas e publicitários sabem que a massa só quer ser feliz.

O poder de esquecimento das pessoas foi muito bem retratado por George Orwell em sua obra-prima. Na ficção do livro 1984, os cidadãos do megabloco da Oceania (uma antevisão da Alca e o Reino Unido dissidente da União Européia) ora eram inimigos da Eurásia ora da Lestásia. Quem era amigo e quem é inimigo, neste nosso mundo que mais parece ficção, também pouco importa desde que a população sinta medo; a não ser que se acredite em fascilósofos com seus delírios de antimídia esquerdista publicados na grande imprensa.

Tão vergonhoso quanto o espaço dado aos fascilósofos é ver "notícias" como a demonstração do estoque de Brahma na casa do cantor logo após o escândalo. Quem são os acionistas e quem são os maiores anunciantes?

Ainda fresca na memória está a infame lista de Pelé. A desculpa é parecida. Segundo o Rei, a lista foi enviada pronta e tal. Não há desculpa para vender livros da Fifa nos países que atletas inexpressivos foram incluídos, mesmo que isso custe a reputação. Nestes lugares, as edições do livro vão ter um procura tal qual o filme caça-níquel de Mel Gibson sobre a vida de Jesus.

Não vale a pena citar se Cafu é melhor que Gérson ou um jogador desconhecido é melhor que Nilton Santos, mas a bizarra escolha de Pelé em selecionar apenas um jogador da seleção de 1970 e vários da conquista do pentacampeonato. Não se tende a valorizar as pessoas que conviveram com você ou o dinheiro fala mais alto?

Num episódio dos Simpsons sobre a onda de futebol nos EUA, Pelé é ridicularizado como um mercenário. Ele aparece para fazer um anúncio em campo, carrega um saco de dinheiro e sai rindo de todos. Eu gosto de levar vantagem em tudo, certo? Errado. A Lei do Gérson (o mesmo da lista citada) ficou conhecida num comercial de cigarro há mais de 20 anos, mas ela existe muito antes do descobrimento.

No final das contas, quase todos sairão ganhando. Pelé ficará ainda mais rico, as agências aumentarão seu poderio, a Ambev continuará líder no mercado e a Schincariol ganhará a simpatia popular. A Nova Schin sairá como a menina que era feia, ganhou auto-estima e arranjou um namorado. Este a trocou pela menina mais rica, deixando a vida o levar.

Antes deste escândalo a Ambev jogou as suas fichas nos comerciais da Antarctica contra a Nova Schin. Provavelmente, se esta guerra que só favorece as agências de publicidade, não fosse feita, o efeito de lançamento da Nova Schin estaria murchando. A guerra das cervejas só aumentará as veiculações de anúncios e a sede do público por novos "assaltos" onde quase os lutadores estão sóbrios.

E por falar nisso, o que acontecerá com Zeca Pagodinho?

A sua gravadora é a grande perdedora. A empresa investiu pesado na carreira do pagodeiro com o intuito de acabar com o estigma de música de suburbano. Ficará muito difícil convencer a classe média brasileira a comprar um disco de alguém que trai contratos. O brasileiro médio não gosta de vencedores. O brasileiro médio gosta muito menos de pessoas sem palavra. Talvez por aí explique porque muitos querem ir para os EUA mas mais de 80% da população é antiamericana.

Zeca tende a ir pelo mesmo caminho do pagodeiro Belo. Claro que não há comparações na qualidade de ambos os artistas, mas dificilmente o herói de Xerém não escutará nas ruas que é um mercenário, vendido e traíra. Enquanto a vida leva Zeca, os publicitários levarão suas vidas numa boa.

A reputação de Zeca já mudou. Antes jornais e entrevistadores o exibiam como um entendedor de cerveja, agora a mesma mão ataca com piadas e insinuações de que o classificam como um bêbado, malandro e irresponsável.

Zeca se defende dizendo que qualquer um faria o que ele faz. Será? Tem pessoas que o dinheiro não compra, para todas as outras existe o cartão de crédito. Se todos no Brasil pensassem assim, estaríamos hoje com o IDH de países africanos. O Brasil seria um grande Burundi ou Suazilânida. Com todo o respeito a estes países, mas com o potencial que o país tem, as qualidades geográficas e culturais, resta-nos apenas ter um pouco de dignidade.

Se alguém não gosta de um produto ou não o consome como pode deixar sua própria carreira em risco sugerindo que as pessoas experimentem o que nem você bebe. Zé Geraldo que está zerado, ensina: "a falsa força de um cartão de crédito ao invés de um fio de bigode”.

Quanto vale a sua palavra? Quer pagar quanto?

E assim caminha a brasilidade. Nosso presidente operário continua em campanha. É muito provável que Lula só lembre de assumir o governo quando acabar. O Brasil votou no Duda Mendonça e não sabia, como diria a Xenia Antunes. E por falar em milhões, quantos metalúrgicos aposentados você conhece que tem mais de um milhão de reais declarados? Eu conheço apenas um.

São por "ídolos" e músicas que enaltecem a apatia, glorificam a pobreza e maltratam o nosso idioma como: "Deixa a vida me levar, vida leva eu..." e "Eu só quero é ser feliz. Andar tranqüilamente na favela que nasci..." é que os netos dos netos de seus netos irão afirmar: o Brasil é o país do futuro.

 

 
* Publicado em duplipensar.net

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