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Deixa
a grana me levar
"A
receptividade das massas é muito limitada, sua inteligência não
vai muito longe, mas seu poder de esquecimento é enorme. Em virtude
destes fatos, toda a propaganda efetiva deve se limitar a uns poucos
pontos essenciais. Slogans devem ser repetidos até que o último
integrante da última parcela do público tenha absorvido a
mensagem" Adolf Hitler
Zeca
Pagodinho afirmava que existia apenas uma marca de cerveja que não
bebia de jeito nenhum. Meses depois surpreende a todos numa campanha
de lançamento da Nova Schin. Zeca pede para o país inteiro repetir
o refrão e experimentar a nova cerveja numa campanha memorável que
caiu no gosto popular. Na semana passada, Zeca reaparece em
comercial da arqui-rival dizendo que experimentou mas voltou para
seu amor verdadeiro, a Brahma.
Quando
soube que o pacto de não-agressão seria interrompido e a
propaganda anti-soviética seria restaurada, Paul Joseph Goebbels,
ministro da propaganda do III Reich, ficou furioso. Inicialmente,
ele tivera o trabalho de conduzir a opinião pública contra os
russos, depois no pacto de 1939 teve de fazer as massas esquecerem
tudo o que foi dito e incentivar a amizade com os irmãos do oeste.
Com a volta das hostilidades, Goebbels deveria, novamente, voltar
atrás sem que a população percebesse quem eram os inimigos de
ontem ou de amanhã. Nazistas e publicitários sabem que a massa só
quer ser feliz.
O
poder de esquecimento das pessoas foi muito bem retratado por George
Orwell em sua obra-prima. Na ficção do livro 1984, os cidadãos do
megabloco da Oceania (uma antevisão da Alca e o Reino Unido
dissidente da União Européia) ora eram inimigos da Eurásia ora da
Lestásia. Quem era amigo e quem é inimigo, neste nosso mundo que
mais parece ficção, também pouco importa desde que a população
sinta medo; a não ser que se acredite em fascilósofos com seus delírios
de antimídia esquerdista publicados na grande imprensa.
Tão
vergonhoso quanto o espaço dado aos fascilósofos é ver "notícias"
como a demonstração do estoque de Brahma na casa do cantor logo após
o escândalo. Quem são os acionistas e quem são os maiores
anunciantes?
Ainda
fresca na memória está a infame lista de Pelé. A desculpa é
parecida. Segundo o Rei, a lista foi enviada pronta e tal. Não há
desculpa para vender livros da Fifa nos países que atletas
inexpressivos foram incluídos, mesmo que isso custe a reputação.
Nestes lugares, as edições do livro vão ter um procura tal qual o
filme caça-níquel de Mel Gibson sobre a vida de Jesus.
Não
vale a pena citar se Cafu é melhor que Gérson ou um jogador
desconhecido é melhor que Nilton Santos, mas a bizarra escolha de
Pelé em selecionar apenas um jogador da seleção de 1970 e vários
da conquista do pentacampeonato. Não se tende a valorizar as
pessoas que conviveram com você ou o dinheiro fala mais alto?
Num
episódio dos Simpsons sobre a onda de futebol nos EUA, Pelé é
ridicularizado como um mercenário. Ele aparece para fazer um anúncio
em campo, carrega um saco de dinheiro e sai rindo de todos. Eu gosto
de levar vantagem em tudo, certo? Errado. A Lei do Gérson (o mesmo
da lista citada) ficou conhecida num comercial de cigarro há mais
de 20 anos, mas ela existe muito antes do descobrimento.
No
final das contas, quase todos sairão ganhando. Pelé ficará ainda
mais rico, as agências aumentarão seu poderio, a Ambev continuará
líder no mercado e a Schincariol ganhará a simpatia popular. A
Nova Schin sairá como a menina que era feia, ganhou auto-estima e
arranjou um namorado. Este a trocou pela menina mais rica, deixando
a vida o levar.
Antes
deste escândalo a Ambev jogou as suas fichas nos comerciais da
Antarctica contra a Nova Schin. Provavelmente, se esta guerra que só
favorece as agências de publicidade, não fosse feita, o efeito de
lançamento da Nova Schin estaria murchando. A guerra das cervejas só
aumentará as veiculações de anúncios e a sede do público por
novos "assaltos" onde quase os lutadores estão sóbrios.
E
por falar nisso, o que acontecerá com Zeca Pagodinho?
A
sua gravadora é a grande perdedora. A empresa investiu pesado na
carreira do pagodeiro com o intuito de acabar com o estigma de música
de suburbano. Ficará muito difícil convencer a classe média
brasileira a comprar um disco de alguém que trai contratos. O
brasileiro médio não gosta de vencedores. O brasileiro médio
gosta muito menos de pessoas sem palavra. Talvez por aí explique
porque muitos querem ir para os EUA mas mais de 80% da população
é antiamericana.
Zeca
tende a ir pelo mesmo caminho do pagodeiro Belo. Claro que não há
comparações na qualidade de ambos os artistas, mas dificilmente o
herói de Xerém não escutará nas ruas que é um mercenário,
vendido e traíra. Enquanto a vida leva Zeca, os publicitários
levarão suas vidas numa boa.
A
reputação de Zeca já mudou. Antes jornais e entrevistadores o
exibiam como um entendedor de cerveja, agora a mesma mão ataca com
piadas e insinuações de que o classificam como um bêbado,
malandro e irresponsável.
Zeca
se defende dizendo que qualquer um faria o que ele faz. Será? Tem
pessoas que o dinheiro não compra, para todas as outras existe o
cartão de crédito. Se todos no Brasil pensassem assim, estaríamos
hoje com o IDH de países africanos. O Brasil seria um grande
Burundi ou Suazilânida. Com todo o respeito a estes países, mas
com o potencial que o país tem, as qualidades geográficas e
culturais, resta-nos apenas ter um pouco de dignidade.
Se
alguém não gosta de um produto ou não o consome como pode deixar
sua própria carreira em risco sugerindo que as pessoas experimentem
o que nem você bebe. Zé Geraldo que está zerado, ensina: "a
falsa força de um cartão de crédito ao invés de um fio de
bigode”.
Quanto
vale a sua palavra? Quer pagar quanto?
E
assim caminha a brasilidade. Nosso presidente operário continua em
campanha. É muito provável que Lula só lembre de assumir o
governo quando acabar. O Brasil votou no Duda Mendonça e não
sabia, como diria a Xenia Antunes. E por falar em milhões, quantos
metalúrgicos aposentados você conhece que tem mais de um milhão
de reais declarados? Eu conheço apenas um.
São
por "ídolos" e músicas que enaltecem a apatia,
glorificam a pobreza e maltratam o nosso idioma como: "Deixa a
vida me levar, vida leva eu..." e "Eu só quero é ser
feliz. Andar tranqüilamente na favela que nasci..." é que os
netos dos netos de seus netos irão afirmar: o Brasil é o país do
futuro.
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