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Por
LUIS MILMAN
Doutor
em Filosofia pela UFRGS e professor da UFRGS
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Origem
dos movimentos islâmicos revolucionários
O
problema do islamismo radical apresenta aspectos históricos
multicausais e pouco se discute sobre suas características na mídia
brasileira. Desde o fim do Império Otomano, oficialmente extinto em
1924, o mundo árabe fragmentou-se em movimentos nacionais que
lutavam contra o controle imperialista franco-britânico na região.
A partir do final da década de 20, o sionismo foi considerado um
movimento intruso em meio às aspirações nacionalistas árabes. Na
medida em que o nazifascismo tornava-se uma poderosa força política
na Europa, grande parte das lideranças nacionalistas árabes dos
recém criados Síria, Transjordânia, Líbano, Iraque e Arábia
Saudita, assim como as lideranças palestinas, viam nos nazistas e
fascistas potenciais aliados contra o imperialismo anglo-francês,
que controlava a região até o início da II Guerra Mundial. Dessa
época até hoje, o rejeicionismo anti-israelense nesses países
prosperou em progressão geométrica, acirrado pela
criação do Estado de Israel, pelas derrotas militares que
os israelenses infringiram aos países árabes, depois de sua
independência, em 1948 e pela ocupação dos territórios
palestinos em 1967.
No
Ocidente, pouco se discute sobre as origens do islamismo radical e
seu nível de inserção na cultura dos países muçulmanos. Não se
trata de um fenômeno novo. O fundamentalismo político
desenvolveu-se desde 1928, com a criação da A Irmandade Muçulmana
(Al Ikhwan al-Muslimun) por Hasan Al Bana e meia dúzia
de estudantes, no Cairo. Seu arcabouço doutrinário pode ser
resumido em alguns pontos: rejeição ao colonialismo e aos valores
ocidentais, retorno à pureza do Islã, sacrifício extremo pela
causa, assistencialismo islâmico, tomada do poder político por
meios revolucionários, refundação do califado unificado no mundo
muçulmano, sob a autoridade exclusiva do Corão e abolição de
todas as instituições implantadas no mundo islâmico pelo
Ocidente, com a conseqüente extinção dos estados árabes tais
como existem, além da eliminação de Israel.
A
Irmandade Muçulmana (Al Ikhwan Al Muslimun), organização-mãe
de numerosos grupos terroristas islâmicos, foi formada em reação
à extinção do califado turco em 1924, decretada pelo reformador
Kemal Ataturk, como conseqüência do fim do Império Otomano após
I Guerra Mundial. Hassan
Al Banna, seu fundador, era um professor egípcio que, na época,
denunciava " a
doença que reduziu a ummah (comunidade muçulmana) ao seu
estado atual" , o que o motivou, juntamente com outros cinco
jovens – todos na faixa dos vinte anos – a criar a Irmandade.
Limitada
inicialmente à reforma moral e espiritual, a Irmandade
cresceu de modo impressionante e tornou-se a mais importante
organização político-integrista do mundo. Entre os anos 30 e 40,
contava com cerca de 500 mil membros no Egito, além de afiliados em
todo Oriente Médio. Esse crescimento ocorreu devido às circunstâncias
políticas do pós-guerra e aos seus métodos de organização.
Quando a II guerra terminou, a
Irmandade era uma força política expressiva no Egito e jogou
papel fundamental na luta contra a antiga ordem colonial dos britânicos
e franceses. Seu objetivo era libertar a pátria islâmica do
controle dos estrangeiros e infiéis (kafir) e estabelecer um
estado islâmico unificado.
Al-Banna
construíra uma organização forte e disposta a realizar essa meta,
com proto-estruturas de governo, unidades com funções específicas
(propaganda, relações com a imprensa, tradutores das várias línguas
do Oriente Médio) seções que controlavam distintos segmentos da
sociedade (camponeses, trabalhadores e profissionais liberais),
vínculos com o mundo islâmico, comitês especializados em
finanças e assuntos legais e redes assistencialistas, estruturadas
em torno de mesquitas e associações islâmicas de caridade.
Essa
estrutura não era, entretanto, suficiente para levá-la ao poder
político no Egito. Inspirado nos "camisas negras" de
Mussolini organizou um braço paramilitar (cujo slogan era
"ação, obediência, silêncio, fé e luta").Na
realidade, contuituía um aparato secreto (al-jihaz al-sirri)
e uma agência de inteligência para coordenar ataques terroristas e
assassinatos.
Em
1948, depois de desempenhar papel central na mobilização de voluntários
para lutarem na guerra contra os sionistas na Palestina e, assim,
impedir a criação de um estado judeu, a Irmandade pensou
estar preparada para lançar um golpe de estado contra a monarquia
egípcia. Em 18 de dezembro de 1948, o Primeiro Ministro do rei
Farouk, Nuqrashi Pasha. estancou a tentativa. Menos de três semanas
depois, a Irmandade retaliou e assassinou Pasha. O governo,
por sua vez, desencadeou uma perseguição à Irmandade,
assassinando Al Banna e muitos de seus agentes em 12 de fevereiro de
1949.
Abalada
pelo golpe, a Irmandade mesmo assim estava longe de ser
destruída. Sob a liderança do ainda mais radical, Sayyid Qutb, ela
continuou a lutar pela tomada do poder e reorganizou-se no inicio
dos anos 50 , apoiando os Oficiais Livres liderados por Gamal Abdel
Nasser, Mohamed Naguid e Anuar El Sadat, no golpe que destituiu a
monarquia corrupta do Rei Farouk em 1952.
Não
se pode compreender a doutrina islâmico fundamentalista sem que se
mencione Sayyid Al- Qutb Ibrahim, o mais importante ideólogo da Irmandade
e do pan-islamismo, figura lendária no Oriente Médio, morto por
Nasser em 1966. Seu pensamento político literalista e revivalista
fundamenta-se na idéia de que os homens devem ser governados pelas
leis extraídas do Corão
(a Sharia), que provêm de Deus e não por suas próprias
leis. Sua obra foi traduzida para o farsi (persa) pelo próprio
Aiatolá Khomeini e suas idéias, desde a revolução islâmica de
1979, têm sido
colocadas em prática no Irã. A autoridade política, segundo essa
concepção integrista, deve ser exercida por conselhos de doutores
na Sharia.
Em
seu mais influente livro, Os Marcos (Maalim fil Tarik),
escrito em 1964, na prisão, Qutb explicita o seu conceito político
anti-ocidental mais conhecido: a jahilya, ou ignorância pagã
e rebelião contra Deus. Segundo ele, a "religião é realmente
a declaração universal da liberdade do homem
sobre a servidão imposta por outros homens e da servidão
aos seus próprios desejos, que é uma outra forma de servidão
humana; é uma declaração sendo a qual a soberania pertence a Deus
apenas e que somente Ele é o senhor de todos os mundos" Ainda
conforme Qutb: "todo sistema no qual as decisões finais estão
referidas as seres humanos e nos quais as fontes da autoridade são
humanas, deificam os seres humanos por designarem outros que não
Deus como soberanos sobre os homens. Essa declaração quer dizer
que a autoridade usurpada de Deus deve ser reconduzida a Ele e que
os usurpadores devem ser expulsos - aqueles que por si próprios
tramam leis para outros seguirem, assim elevando-se ao status de
senhores e reduzindo os outros ao status de escravos. Em suma,
proclamar a autoridade e a soberania de Deus significa eliminar todo
o domínio humano e anunciar a lei Daquele Que Sustenta o universo
sobre o mundo inteiro. Nos termos do Corão. (Qutb, 1964: cap 4)
Muitos simpatizantes da chamada, nos anos 60 e 70, posição não-alinhada,
desconhecem que a Irmandade foi aliada de Nasser e depois
destruída por ele, com o apoio da CIA e de agentes recrutados do
aparelho de inteligência política nazista. Nasser é geralmente
visto como uma figura histórica que resistiu aos interesses
imperialistas franceses, ingleses e americanos. Recentemente, no
entanto, foram divulgados fatos conhecidos apenas em ambientes acadêmicos
restritos, com pouca repercussão
na imprensa. Tais fatos revelam que a CIA cumpriu papel importante
no apoio ao movimento dos Oficiais Livres que derrubou Farouk.
Documentos
"desclassificados" em 2001 pelo governo dos EUA, agora
acessíveis no Archives Library Information Center/ National
Archives and Records Administration.(NARA) revelam que tanto
Nasser como a Irmandade tiveram na CIA uma forte aliada. A CIA
recrutou vários membros do primeiro escalão da SS, trazidos para
ara o Egito por Farouk após II
Guerra, com a ajuda do xerife de Jerusalém e líder da Revolta Árabe
na Palestina (1936-39), Haj Amin El Husseini, que desde 1936
trabalhava com o apoio dos nazistas. Por meio de Reinhard Gehlen,
ex-chefe da Inteligência Militar Alemã no Frente Oriental durante
a 2ª Guerra (e, desde 1952, diretor da Agência Federal de Inteligência
da Alemanha Ocidental- AFI) e sua rede de espiões que atuava na
Europa, durante o auge da Guerra Fria -
formada por ex-agentes da Gestapo, ela apoiou Nasser no golpe
contra a monarquia de Farouk.
O
movimento liderado por Nasser derrubou Farouk, que abandonou o Egito
e foi substituído por seu filho Ahmad Fouad, cuja posição de
monarca tornou-se meramente decorativa, porque o país passou a ser
controlado pelos militares nacionalistas. Em 1953, Fouad foi
finalmente deposto, a monarquia extinta e criada a atual república,
com Mohamed Naguid colocado na presidência.
Os
alemães instalados no Egito por Farouk, colaboraram com os jovens
militares liderados por Nasser e com a Irmandade Muçulmana
para derrubar a monarquia e continuaram a exercer forte influência
no novo regime, sob monitoramento da CIA, que desde 1953 se
aproximara de Nasser, devido ao interesse dos EUA em manter o Egito
regime sob sua influência e afastar ingleses e franceses da região.
Naguid
foi deposto por Nasser em 1954 e a CIA ajudou a organizar o serviço
de inteligência e segurança externa de seu governo, numa operação
conduzida por Allen Dulles, seu diretor desde 1953. Dulles recorreu
ao General Gehlen para coordenar as ações no Egito. Gehlen
designou Otto Skorzeny para a tarefa. Ex-coronel da SS, Skorzeny era
um dos homens-chave da Rede Odessa - que obteve refúgio para
membros do 1º escalão nazista da Argentina e no Egito,
principalmente.
Skorzeny
tivera uma passagem pela Espanha de Franco, depois de fugir de um
campo de prisioneiros americano na Alemanha, em 1948, onde aguardava
por novo julgamento militar, pois havia sido absolvido de algumas
acusações de crimes de guerra, em 1947. Quando chamado por Gehlen,
em 1953, Skorzeny estava na Argentina, onde fazia parte do círculo
de assessores de Perón. Enviado ao Cairo, passou a assessorar
Nasser pessoalmente, juntamente com Miles Copeland, que reportava
diretamente a Dules. Ambos ajudaram a dizimar a Irmandade Muçulmana,
então liderada por Sayd Qutb,
que havia apoiado o golpe de Nasser contra Farouk, mas logo
passou a opor-se ao novo regime laico.
A
aliança dos EUA com Nasser perdurou até 1956, mas desde 54, ao
assumir o poder, o líder nacionalista passou a adotar posições
independentes, que o confrontaram com ingleses e franceses, ao mesmo
tempo que o distanciavam dos EUA e o
aproximavam estrategicamente da União Soviética, em busca
de apoio militar e financeiro. Em 1956, a tentativa de nacionalizar
o Canal de Suez deflagrou uma guerra com os israelenses, apoiados
por ingleses e franceses, que enfrentaram a oposição dos
americanos, até então mais interessados em manter relações próximas
com o Egito e exercerem alguma forma de controle sobre o canal.
A
decisão de Nasser distanciou-o dos EUA depois da Guerra de Suez,
devido à aliança de Washington com Israel e o Egito tornou-se
definitivamente aliado dos soviéticos. Nasser
manteve, no entanto, seus colaboradores e assessores alemães.
O Egito passou a ser o principal reduto de oficiais da SS graduados,
que foram integrados aos seus serviços de informação, à sua polícia
política e ao seu sistema de propaganda.
Além
de Skorzeni, entre os mais conhecidos, fixaram-se no Egito os
generais da SS Oskar Dillewanger, chefe da Brigada Penal das SS,
Heinrich Siliman, chefe da Gestapo no Ulm, Joachim Daumling, que
chefiou a Gestapo en Dusseldorf e depois na Croácia, Alois Moser,
que atuou na Ucrânia, o general de exército
Wilhelm Fahrmbacher, incorporado ao estado-maior egípcio,
Johannes Von Leers, do Ministério da Propaganda de Goebels e que,
depois de fugir para a Argentina, após a deposição de Perón, em
1954, transferiu-se para o Cairo, onde converteu-se ao islamismo e
chefiou a Agência de Propaganda de Nasser. Skorzeny morreu milionário
em Madrid, em 1975.
Qutb
e a Irmandade Muçulmana, afastados por Nasser de qualquer
influência no novo regime que ajudaram a implantar, aderiram à
luta armada para derrubá-lo. Em fevereiro de 1954, a Irmandade
foi tornada ilegal e em outubro do mesmo ano seus membros tentaram
assassinar Nasser.
4
mil militantes da Irmandade foram presos e executados.
Milhares fugiram para a Síria, Arábia Saudita, Jordânia e Líbano.
Qutb, seu principal líder, foi sentenciado a dez anos de prisão.
Ao ser libertado, planejou novo
atentado contra Nasser em 1965. Em 1966, depois de julgado,
foi condenado e enforcado.
Integrista
radical e antidemocrático, Qutb escreveu, entre outros, o ensaio Ma'arakutuna
Ma'a al–Yahud (Nossa Luta com os Judeus- 1950), de grande
penetração no mundo islâmico de hoje, no qual sustenta que a luta
entre o Islã e os judeus é decisiva e definitiva e que os judeus não
ficarão satisfeitos até que o Islã seja destruído..
A
Irmandade, no Egito, é dirigida atualmente por Muhammad
al-Mahmud al-Hudeibi, de forma politicamente moderada. Atua
fortemente também na Jordânia, Síria, Paquistão, Sudão, Arábia
Saudita, Argélia, Marrocos, Tunísia, em países europeus e nos
territórios ocupados palestinos. A Irmandade não apoiou
oficialmente a 1ª Intifada, por exemplo, mas é a célula mater do Hamas
e da Jihad Islâmica, cujos membros assassinaram, em 1981, o
presidente Anuar El Sadat e tentaram derrubar o regime, numa nova
revolta armada sufocada pelo exército egípcio, sob a liderança de
Osni Mubarak. Sua doutrina, no entanto, não se alterou e se expande
pelas comunidades muçulmanas pelo mundo.
A
Irmandade é a matriz dos grupos islâmicos radicais
fundamentalistas palestinos. A Jihad continua atuando na
clandestinidade no Egito e abertamente nos territórios palestinos
sob ocupação israelense. O Hamas e a hoje pulverizada e
globalizada Al Qaida
( A Base) são movimentos que seguem à risca as diretrizes de
Qutb. Osama Bin Laden foi discípulo do palestino Abdullah Zallam,
ideólogo da Irmandade e professor
na Universidade Abd Al Aziz, em Jedah, Arábia
Saudita. Em Jedah, Bin Laden associou-se ao médico egípcio Aymann
Al Zawahiri, membro da Irmandade desde os 13 anos e
o segundo em comando da Al-Qaida. Na visão de grande parte
dos muçulmanos, os dois representam a autêntica resistência islâmica
aos valores do Ocidente, tal como defendida por Al Bana e Qutb, os
primeiros a denunciarem Israel
como representante do imperialismo ocidental na região e a se
insurgirem contra regimes alinhados às potências estrangeiras.
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