Por IVANA MARIA NICOLA LOPES

Professora adjunto da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Rio Grande do Sul, Brasil. Lotada no Departamento de Letras e Artes, leciona nos cursos de Artes Visuais, Biblioteconomia e História, em nível de graduação Professora do PPG - Mestrado em História da Literatura. Doutora em História da Arte, pela Universitat de Barcelona. Linha de pesquisa: a cidade e suas implicações tanto no imaginário dos indivíduos quanto nas suas possíveis relações sociais

 

 

QUO VADIS?...

 

RESUMO

O texto Quo Vadis?... busca fazer uma reflexão sobre a problemática urbana no mundo de hoje, que é aquela instaurada pelo medo e pela violência, o que acaba por ferir a todos nós, cotidianamente, e que, do mesmo modo, (inter)fere nas relações com o semelhante. Auto-retrato - Arnuf Raine (XXIII Bienal Internaiconal de São Paulo) A proposta, então, é a de recuperar e desbanalizar palavras e atos que foram relegados ao esquecimento, tais como: a tolerância às diferenças, a civilidade, a educação. Caso contrário, o risco de destruição é grande. Tanto para a vida da pólis (a comunidade, o coletivo) quanto para a vida do sujeito (o eu individual).

ABSTRACT

The text Quo Vadis?... aims a reflection on the urban problem, established by fear and violence, in the world of today. It terminates wounding we all, daily. In a similar way, it interferes in the relations with our fellowmen. The proposal, then, is to restore and to reveal the meaning of' words and acts that had been relegated to forgetfulness, such as the tolerance to differences, the civility, the politeness. On the other hand, the risk of destruction is great for the life of the polis (the community, the collective one) as for the life of the citizen (individual).

 

A questão que permeia o assunto aqui tratado não é nenhuma novidade, mas muito pelo contrário, é uma pergunta que, na atualidade, é por demais pertinente. Se não houver a pergunta, o questionamento, isso pode significar a morte individual e o isolamento dentro do coletivo maior. Aonde vais? pretende (re)ver até que ponto se pode estar engessado, na (con)vivência urbana, dentro do corpo maior que é o social.

O processo de aniquilamento pode ser irreversível, na medida em que já não há mais espaço para a dúvida: quando esta começa a rondar o pensamento, a palavra, o gesto ou a ação, é um sinal (mas não a garantia) de que algo se passa e que, a posteriori, pode ocorrer o início de um processo de metamorfose, de quebras das estruturas mentais, de parâmetros de condutas que introjetamos - muitas vezes - sem pensar muito sobre se eles convêm ao indivíduo e, também, para a convivência maior, a coletiva. As estruturas e/ou condutas, por vezes, estão demasiado arcaicas e fossilizadas e, por isso, é preciso a quebra, a reflexão, ocasionando - assim - uma outra maneira de sistematizar novas atitudes mais de acordo com este mundo que nos tocou viver. Mudar implica pensar, digerir; pensar implica ser, isto é, tornar-se sujeito, aquele que busca a mudança com a finalidade de ver a si próprio e a seus semelhantes, sob uma nova ótica: a de bem viver em comunidade e no mundo. E o caminho processual dessa mudança é árduo e trabalha - obrigatoriamente - com a desordem, o caos. Todos os processos que são revolucionários, as grandes e as pequenas revoluções - tanto as internas quanto as externas - mostram que, no cerne, a dúvida pairava. A ruptura, assim, se instala. Aqui cabe a(s) pergunta(s): se está virando um corpo amorfo, acomodado, insensível, morno, quase sem vontade, sem sonhos, sem desejos? Aonde vais?

O homem, sem perceber-se, corre o risco de desintegração, de morte - espécie de entorpecimento dos sentidos - acabando por ser apenas um corpo a mais, na coletividade. Corpos pequenos que estão contidos em outros corpos - que seriam os diferentes corpos (segmentos) sociais, tal como as mamuchkas, as bonecas de madeira do artesanato russo, pintadas à mão, que se encaixam, por tamanho, as menores dentro das maiores, sem interagir de fato. Nós também podemos ficar assim: inertes e imóveis. Bonecos, autômatos que pertencem a outros corpos.

Analogias à parte, é preciso que tanto o corpo coletivo quanto o individual devam ter razões para ser, para existir e (con)viver de maneira mais harmônica. Caso contrário, não teriam vida, seriam –apenas- uma espécie de corpo desconexo, fragmentado, destatuado. É preciso ter consciência – no sentido de discernimento e compreensão - para pertencer a um corpo novo que se quer, cada vez mais, fortalecido. O plural nós é composto de eus .Edgar Morin (em entrevista para o programa Milênio, por cabo, 2001) alerta sobre o problema cada vez mais perceptível neste início do século XXI, que é a falta de consciência de viver em comunidade e o egocentrismo que, tal como espécie de corrosivo, acaba por minar, destruir e corroer as relações interpessoais.

O corpo automatizado não responde às implicações que são aquelas que advêm do estado de ser-no-mundo, portanto, o corpo descamado acomoda-se, letargicamente,deixando-se anestesiar em relação a tudo o que acontece à sua volta, no cotidiano. Entretanto, esse letargo do qual se fala não significa que o indivíduo não aja; ele sai, trabalha, produz mas não interage. É um ser anestesiado que, para fugir da vida, refugia-se em seu casulo protetor contra a dor, a violência, mas também do amor, da solidariedade. O que se precisa, então, é da mudança, do deslocar, do descolar do casulo, para que surja um corpo-carne: com suas particularidades, suas idiossincrasias, mas ligado a outros corpos por um mesmo recheio: o de buscar uma (con)vivência mais harmônica, sem tantas violências.

E o corpo maior, o social, quem o faz carne? Todos nós, bem o sabemos, contribuímos para formá-lo. No entanto, assim como nós construímos, somos também construção. A questão é como pensar o nós sem o fortalecimento do individual, da multidão de eus. É importante, então, refletir sobre o que se quer, o que se sonha ...

Parece que se está perdendo a capacidade de sonhar, de desejar e de criar um mundo, um coletivo melhor, seguramente, com sujeitos que busquem outra forma de vida mais digna, mais fraterna, menos solitária. Concretizar o sonho, ir em sua busca. Esta é a saída. Muitas vezes ele está presentificado no cotidiano. Como? poderíamos perguntar. Em realidade, penso que se esbarra em vários fragmentos do sonho, no dia-a-dia, mas não os percebemos, tal o véu que nos cobre. Acontece que as possibilidades diárias do sonho e suas possíveis experiências de concretização estão ao alcance de todos nós, através de palavras e de ações que, esquecidas e eliminadas do cotidiano, tornariam a vida urbana mais civilizada, mais humana.

Se queremos mudar, comecemos então. Quantas situações rotineiras ocorrem com cada um de nós que não podemos exercitar e aprender ... agindo. Ou sejamos lúcidos, ou seja, mais tolerantes e armados de uma ardente paciência (Morin, 2002, p.181) apesar de toda névoa existente, ou desistamos. Ao desistir não há mais espaço para nada, apenas a morte. O fim do sonho, o fim do desejo, o fim da utopia de crer em um mundo possível, melhor. A questão crucial é:existe um cemitério onde enterramos nossas utopias? (Mercador, 1999, P.75).

Todos dois corpos agonizam. Tanto o corpo isolado, do sujeito, quanto o corpo coletivo, onde se está contido, o social. A necessidade de mudar está cada vez mais clara, posto que o indivíduo, o ser social toma-se cada vez mais cinza. A necessidade de uma ruptura deve levar para uma nova maneira de viver civilizadamente. Hoje, se está assistindo à nossa própria representação da morte – como seres humanos – traduzida por uma queda vertiginosa do nosso modus vivendi de um homem que se diz urbano e civilizado e que, no entanto, assiste à sua própria derrocada de braços cruzados, com olhar indiferente. O que fazer? Como bem disse Rodrigo de Zayas, trata-se de ensinar a humanidade à humanidade. (Zayas, apud Morin, 2002, p.15).

Duas palavras, ou melhor, dois verbos poderiam introduzir uma resposta possível: acreditar e lutar, ou seja, crer na mudança sensível, na idéia de que um mundo mais humanizado possa existir, posto que o habitamos; e lutar (não apenas brancaleonicamente) para não virar egocêntricos, individualistas ad extremum, centrados totalmente no eu e/ou no grupo do eu, senhores de si e, a um só tempo, escravos do absolutismo - imposto pela sua verdade ou suas convicções - que rechaça e menospreza o seu semelhante. O problema, como se pode perceber, reside no etnocentrismo cego e surdo, acirrado, em tribos isoladas e seletas prontas para guerrear com seus escudos simbólicos, polidos com o verniz da arrogância, da violência - por vezes dissimulada - e das verdades fechadas, absolutistas. Inúmeros Perseus que vêem nos demais, Medusas que podem e devem ser exterminadas.

Sobre as guerras cotidianas

Teixeira Coelho (2000, p.7) diz que o século XX foi marcado por guerras culturais intensas e diversificadas, cujo pano-de-fundo era urdido com a questão religiosa e econômica, dois fios poderosamente entrelaçados que, em geral, estavam entramados à carnificina, ao derramamento de sangue. Porém, ao se reportar no tempo, vê-se que inúmeras foram as guerras e lutas travadas com o mesmo pano-de-fundo citados por Coelho, iguais àquelas do século XX. Inclusive, o atentado de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center, nos EUA é prova, também, de que elas continuam.

O problema é que outras guerras culturais não tão próximas à nossa época - como as Cruzadas- não têm proximidade, não possuem cor nem cheiro: desbotaram. Como dizia a letra de uma canção do compositor Belchior (1975), o passado é uma roupa que não nos serve mais. O passado longínquo, acrescento. Aquele passado que ainda está atrelado, que possui espectro, vozes, este incomoda. A esta impregnância histórica soma-se o estado atual do corpo social que está enfermo.

A banalização da vida, o individualizante, o desprezo às diferenças, a incivilidade - enfim - cresce em progressão mais do que geométrica e não mais, apenas, nas grandes metrópoles, mas em qualquer parte do planeta. A guerrilha urbana se faz presente: espécie de terrorismo que assola todo e qualquer segmento do corpo social - como a família, a escola, as amizades, a comunidade, enfim - desde que as bombas do desrespeito, das pequenas violências diárias, cotidianas, estejam ativadas. A violência, hoje, devasta, tal como a peste - na Idade Média - dizimava toda uma população. T. Coelho (2000, p.11) quando fala da guerra cultural diz que:

(,..) a guerra cultural cotidiana opõe todos a todos e é travada(...) não raro, em nome de nada ... e da erosão por dentro das normas de comportamento dos indivíduos, que os leva - que nos leva a todos, neste momento - a conviver com o inaceitável, a tolerar ou a fingir que se tolera aquilo que é totalmente inaceitável (...) nesta guerra civil urbana não há defesa porque perigo vem de alguém "igualzinho a você", vem de todos os lados e é exercido contra sua pessoa física, contra seus valores tanto quanto contra seus bens(...) uma guerra total.

Como se pode perceber, o corpo maior estertora, pulverizando os indivíduos. Os outros corpos também, esses, agonizam, também eles estão doentes. Todos temos medo, vivemos amedrontados, fechados em condomínios, em casas, observando o mundo através das nossas grades. A violência extramuros é cada vez mais assustadora e isso nos leva a uma espécie de casulo protetor, de cápsula, que acaba por interferir na vivência diária. Não há, pois, muitas saídas intramuros, isto é, esse encarceramento individual – gradualmente - aniquila o sujeito. A violência, a intolerância acomodam-se, com tamanha rapidez, que parece ser que nós, humanos, estamos nos distanciando – em progressão geométrica – da idéia de homem, de cultura, de civilidade, de comprometimento – não apenas conosco – com o outro, o meu semelhante. Extramuros, intramuros: estamos todos assistindo, nem sempre de camarote, à nossa própria morte ... em vida.

A violência e o sectarismo ressecam a alma, engendrando pequenos monstros que – muitas vezes – passam despercebidos na multidão. É cada vez mais palpável e assustador o distanciamento da idéia do homem/coletividade/educação: de comprometimento com outro. É preciso, pois, trazer à tona o que está à deriva: as palavras e os atos que foram sendo descartados ou banalizados do convívio social com o passo do tempo.

A barbárie – atualmente – é a palavra de ordem social. E não se trata apenas daquela econômica. Como diz E. Morin (2002), o ato de puro barbarismo está no próprio meio, nas relações humanas com os mais próximos, o igualzinho a você, que se referia T. Coelho (op. cit.).

É preciso mudar. Quem sabe, assim, se possa (trans)formar o acervo individual  construir, livre de estereotipações, uma ponte que leve ao contato com o semelhante. É mais do que evidente que o caos interno é produto do caos maior, o social. A visão é especular: um caos reflete-se no outro (mas vai além do mito de Narciso) e vice-versa. Não é uma rua de mão única... A caoticidade da urbe, portanto, está formada, pois sem a multidão de eus que compõem os nós que, por sua vez, compõem a trama, não haverá cidade. Ou seja: haveria apenas uma cidade-fantasma. Morta.

É mais do que necessário reverter à ordem imposta e, também, rever os próprios valores. O mundo pede uma reflexão, posto que o indivíduo deveria ser ético: um ser ético-social.

Não se pode perder o compromisso (=ética) com o outro. Não se pode perder a civilidade, o respeito ao semelhante e a diferença. A civilidade possui relação direta com a solidariedade e é, justamente com o individualismo exacerbado, que se acaba por desintegrar a idéia de coletivo. Este une, solidariza, nos civiliza, pois. É um exercício constante de aprendizado.

Educação de si. Educação de todos nós. A educação, em sua gênese, significa tirar para fora. Acrescento: colocar-se, expor-se. No entanto, a educação voltada para a simples idéia da repetição de conhecimento estimula a competitividade negativa, exagerada, verdadeiro salve-se quem puder (ou souber). Muitas vezes aquele que aparenta uma sapiência irretocável esconde-se de todo possível confronto, crise ou conflito que possa vir a ocorrer quando nos despimos frente ao outro das máscaras que usamos. Ao fazer isto, perde-se oportunidades de crescimento e de mudanças. Não podemos virar camaleões. Como bem diz Eduardo Galeano (1975, p.176), tempo dos camaleões:(...) considera-se culto quem oculta, rende-se culto à cultura do disfarce (...) dupla linguagem, dupla moral: uma moral para dizer, outra moral para fazer.

Deve-se dar corpo às palavras, o que significa vesti-las com nossas ações cotidianas, visando à civilidade, ao respeito, aquele outro desconhecido, mas que é semelhante. Sem moralidade, sem duplas faces. É necessário, então, exercitar o discurso com a práxis vivencial, urbana. Caso contrário, a separação entre o que se é – ou o que se pode vir-a-ser – e a moral do disfarce pode ocasionar um ser antagônico, desparticularizado, pois o disfarce pode ser permanente. O que causaria a dicotomização entre a maneira como experienciamos o mundo e o discurso, no caso teórico, que fazemos dele.

Se quisermos, realmente, mudar é preciso que vejamos com outros olhos àqueles que nos cercam, mesclando a razão e a emoção. A sensibilidade deve estar presente em nossa vida na urbe. A esse respeito, há um provérbio chinês – sob forma de graffiti - que foi muito usado, em maio de 68, e que é por demais pertinente ao que se quer dizer: a inteligência caminha mais que o coração mas não vai tão longe. Assim que necessitamos, desejamos e sonhamos colocar a inteligência para trabalhar a nosso favor em beneficio de todos; necessitamos e desejamos sentir, emocionarmo-nos. Só assim o conhecimento adquirido, mais as experiências particularizadas, não se tomam obsoletas, solidificadas. O conhecimento e as experiências precisam de ar. O ar de um tempo que se quer novo. Aquele que desejamos. A utopia transformada, finalmente, em realidade.

   

 

BIBLIOGRAFIA:

COELHO, T. Guerras culturais. São Paulo: Iluminuras, 2002.

GALEANO, E. O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 1995.

MERCADOR, T. Revista Palavras, Ano I, Nº 2, maio 1999, Belo Horizonte.

MORIN, E. O método 5 a humanidade da humanidade. Porto Alegre: Sulina, 2002.

MORIN, E. Terra-Pátria. 3a.ed. Porto Alegre: Sulina, 2002.

SILVA, J. (org). O pensamento do fim do século. Porto Alegre: L&PM, 1993.

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