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Por
IVANA MARIA NICOLA LOPES Professora
adjunto da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG),
Rio Grande do Sul, Brasil. Lotada no Departamento de Letras e
Artes, leciona nos cursos de Artes Visuais, Biblioteconomia e História,
em nível de graduação Professora do PPG - Mestrado em História
da Literatura. Doutora em História da Arte, pela Universitat de
Barcelona. Linha de pesquisa: a cidade e suas implicações tanto
no imaginário dos indivíduos quanto nas suas possíveis relações
sociais
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QUO
VADIS?...
RESUMO
O
texto Quo Vadis?... busca fazer uma reflexão sobre a problemática
urbana no mundo de hoje, que é aquela instaurada pelo medo e pela
violência, o que acaba por ferir a todos nós, cotidianamente, e
que, do mesmo modo, (inter)fere nas relações com o semelhante.
A
proposta, então, é a de recuperar e desbanalizar palavras e atos
que foram relegados ao esquecimento, tais como: a tolerância às
diferenças, a civilidade, a educação.
Caso contrário, o risco de
destruição é grande. Tanto para a vida da pólis (a comunidade, o
coletivo) quanto para a vida do sujeito (o eu individual).
ABSTRACT
The
text Quo Vadis?... aims a reflection on the urban problem,
established by fear and violence, in the world of today. It
terminates wounding we all, daily. In a similar way, it interferes
in the relations with our fellowmen. The proposal, then, is to
restore and to reveal the meaning of' words and acts that had been
relegated to forgetfulness, such as the tolerance to differences,
the civility, the politeness. On the other hand, the risk of
destruction is great for the life of the polis (the community, the
collective one) as for the life of the citizen (individual).
A
questão que permeia o assunto aqui tratado não é nenhuma
novidade, mas muito pelo contrário, é uma pergunta que, na
atualidade, é por demais pertinente. Se não houver a pergunta, o
questionamento, isso pode significar a morte individual e o
isolamento dentro do coletivo maior. Aonde vais? pretende
(re)ver até que ponto se pode estar engessado, na (con)vivência
urbana, dentro do corpo maior que é o social.
O
processo de aniquilamento pode ser irreversível, na medida em que já
não há mais espaço para a dúvida: quando esta começa a rondar o
pensamento, a palavra, o gesto ou a ação, é um sinal (mas não a
garantia) de que algo se passa e que, a posteriori, pode ocorrer o
início de um processo de metamorfose, de quebras das estruturas
mentais, de parâmetros de condutas que introjetamos - muitas vezes
- sem pensar muito sobre se eles convêm ao indivíduo e, também,
para a convivência maior, a coletiva. As estruturas e/ou condutas,
por vezes, estão demasiado arcaicas e fossilizadas e, por isso, é
preciso a quebra, a reflexão, ocasionando - assim - uma outra
maneira de sistematizar novas atitudes mais de acordo com este mundo
que nos tocou viver. Mudar implica pensar, digerir; pensar implica
ser, isto é, tornar-se sujeito, aquele que busca a mudança
com a finalidade de ver a si próprio e a seus semelhantes, sob uma
nova ótica: a de bem viver em comunidade e no mundo. E o caminho
processual dessa mudança é árduo e trabalha - obrigatoriamente -
com a desordem, o caos. Todos os processos que são revolucionários,
as grandes e as pequenas revoluções - tanto as internas quanto as
externas - mostram que, no cerne, a dúvida pairava. A ruptura,
assim, se instala. Aqui cabe a(s) pergunta(s): se está virando um
corpo amorfo, acomodado, insensível, morno, quase sem vontade, sem
sonhos, sem desejos? Aonde vais?
O
homem, sem perceber-se, corre o risco de desintegração, de
morte - espécie de entorpecimento dos sentidos - acabando por ser
apenas um corpo a mais, na coletividade. Corpos pequenos que estão
contidos em outros corpos - que seriam os diferentes corpos
(segmentos) sociais, tal como as mamuchkas, as bonecas de
madeira do artesanato russo, pintadas à mão, que se encaixam, por
tamanho, as menores dentro das maiores, sem interagir de fato. Nós
também podemos ficar assim: inertes e imóveis. Bonecos, autômatos
que pertencem a outros corpos.
Analogias
à parte, é preciso que tanto o corpo coletivo quanto o individual
devam ter razões para ser, para existir e (con)viver de maneira
mais harmônica. Caso contrário, não teriam vida, seriam
–apenas- uma espécie de corpo desconexo, fragmentado, destatuado.
É preciso ter consciência – no sentido de discernimento e
compreensão - para pertencer a um corpo novo que se quer, cada vez
mais, fortalecido. O plural nós é composto de eus .Edgar
Morin (em entrevista para o programa Milênio, por cabo, 2001)
alerta sobre o problema cada vez mais perceptível neste início do
século XXI, que é a falta de consciência de viver em comunidade e
o egocentrismo que, tal como espécie de corrosivo, acaba por minar,
destruir e corroer as relações interpessoais.
O
corpo automatizado não responde às implicações que são aquelas
que advêm do estado de ser-no-mundo, portanto, o corpo
descamado acomoda-se, letargicamente,deixando-se anestesiar em relação
a tudo o que acontece à sua volta, no cotidiano. Entretanto, esse
letargo do qual se fala não significa que o indivíduo não aja;
ele sai, trabalha, produz mas não interage. É um ser anestesiado
que, para fugir da vida, refugia-se em seu casulo protetor contra a
dor, a violência, mas também do amor, da solidariedade. O que se
precisa, então, é da mudança, do deslocar, do descolar do casulo,
para que surja um corpo-carne: com suas particularidades, suas
idiossincrasias, mas ligado a outros corpos por um mesmo recheio: o
de buscar uma (con)vivência mais harmônica, sem tantas violências.
E
o corpo maior, o social, quem o faz carne? Todos nós, bem o
sabemos, contribuímos para formá-lo. No entanto, assim como nós
construímos, somos também construção. A questão é como pensar
o nós sem o fortalecimento do individual, da multidão de eus. É
importante, então, refletir sobre o que se quer, o que se sonha ...
Parece
que se está perdendo a capacidade de sonhar, de desejar e de criar
um mundo, um coletivo melhor, seguramente, com sujeitos que busquem
outra forma de vida mais digna, mais fraterna, menos solitária.
Concretizar o sonho, ir em sua busca. Esta é a saída. Muitas vezes
ele está presentificado no cotidiano. Como? poderíamos perguntar.
Em realidade, penso que se esbarra em vários fragmentos do sonho,
no dia-a-dia, mas não os percebemos, tal o véu que nos cobre.
Acontece que as possibilidades diárias do sonho e suas possíveis
experiências de concretização estão ao alcance de todos nós,
através de palavras e de ações que, esquecidas e eliminadas do
cotidiano, tornariam a vida urbana mais civilizada, mais humana.
Se
queremos mudar, comecemos então. Quantas situações rotineiras
ocorrem com cada um de nós que não podemos exercitar e aprender
... agindo. Ou sejamos lúcidos, ou seja, mais tolerantes e armados
de uma ardente paciência (Morin, 2002, p.181) apesar de toda
névoa existente, ou desistamos. Ao desistir não há mais espaço
para nada, apenas a morte. O fim do sonho, o fim do desejo, o fim da
utopia de crer em um mundo possível, melhor. A questão crucial
é:existe um cemitério onde enterramos nossas utopias? (Mercador,
1999, P.75).
Todos
dois corpos agonizam. Tanto o corpo isolado, do sujeito, quanto o
corpo coletivo, onde se está contido, o social. A necessidade de
mudar está cada vez mais clara, posto que o indivíduo, o ser
social toma-se cada vez mais cinza. A necessidade de uma ruptura
deve levar para uma nova maneira de viver civilizadamente. Hoje, se
está assistindo à nossa própria representação da morte – como
seres humanos – traduzida por uma queda vertiginosa do nosso modus
vivendi de um homem que se diz urbano e civilizado e que, no
entanto, assiste à sua própria derrocada de braços cruzados, com
olhar indiferente. O que fazer? Como bem disse Rodrigo de Zayas, trata-se
de ensinar a humanidade à humanidade. (Zayas, apud Morin, 2002,
p.15).
Duas
palavras, ou melhor, dois verbos poderiam introduzir uma resposta
possível: acreditar e lutar, ou seja, crer na mudança sensível,
na idéia de que um mundo mais humanizado possa existir, posto que o
habitamos; e lutar (não apenas brancaleonicamente) para não virar
egocêntricos, individualistas ad extremum, centrados
totalmente no eu e/ou no grupo do eu, senhores de si e, a um só
tempo, escravos do absolutismo - imposto pela sua verdade ou suas
convicções - que rechaça e menospreza o seu semelhante. O
problema, como se pode perceber, reside no etnocentrismo cego e
surdo, acirrado, em tribos isoladas e seletas prontas para guerrear
com seus escudos simbólicos, polidos com o verniz da arrogância,
da violência - por vezes dissimulada - e das verdades fechadas,
absolutistas. Inúmeros Perseus que vêem nos demais, Medusas que
podem e devem ser exterminadas.
Sobre
as guerras cotidianas
Teixeira
Coelho (2000, p.7) diz que o século XX foi marcado por guerras
culturais intensas e diversificadas, cujo pano-de-fundo era
urdido com a questão religiosa e econômica, dois fios
poderosamente entrelaçados que, em geral, estavam entramados à
carnificina, ao derramamento de sangue. Porém, ao se reportar no
tempo, vê-se que inúmeras foram as guerras e lutas travadas com o
mesmo pano-de-fundo citados por Coelho, iguais àquelas do século
XX. Inclusive, o atentado de 11 de setembro de 2001 ao World Trade
Center, nos EUA é prova, também, de que elas continuam.
O
problema é que outras guerras culturais não tão próximas à
nossa época - como as Cruzadas- não têm proximidade, não possuem
cor nem cheiro: desbotaram. Como dizia a letra de uma canção do
compositor Belchior (1975), o passado é uma roupa que não nos
serve mais. O passado longínquo, acrescento. Aquele passado que
ainda está atrelado, que possui espectro, vozes, este incomoda. A
esta impregnância histórica soma-se o estado atual do corpo
social que está enfermo.
A
banalização da vida, o individualizante, o desprezo às diferenças,
a incivilidade - enfim - cresce em progressão mais do que geométrica
e não mais, apenas, nas grandes metrópoles, mas em qualquer parte
do planeta. A guerrilha urbana se faz presente: espécie de
terrorismo que assola todo e qualquer segmento do corpo social -
como
a família, a escola, as amizades, a comunidade, enfim - desde que as
bombas do desrespeito, das pequenas violências diárias,
cotidianas, estejam ativadas. A violência, hoje, devasta, tal como
a peste - na Idade Média - dizimava toda uma população. T. Coelho
(2000, p.11) quando fala da guerra cultural diz que:
(,..)
a guerra cultural cotidiana opõe todos a todos e é travada(...) não
raro, em nome de nada ... e da erosão por dentro das normas de
comportamento dos indivíduos, que os leva - que nos leva a todos,
neste momento - a conviver com o inaceitável, a tolerar ou a fingir
que se tolera aquilo que é totalmente inaceitável (...) nesta
guerra civil urbana não há defesa porque perigo vem de alguém
"igualzinho a você", vem de todos os lados e é exercido
contra sua pessoa física, contra seus valores tanto quanto contra
seus bens(...) uma guerra total.
Como
se pode perceber, o corpo maior estertora, pulverizando os indivíduos.
Os outros corpos também, esses, agonizam, também eles estão
doentes. Todos temos medo, vivemos amedrontados, fechados em condomínios,
em casas, observando o mundo através das nossas grades. A violência
extramuros é cada vez mais assustadora e isso nos leva a uma espécie
de casulo protetor, de cápsula, que acaba por interferir na vivência
diária. Não há, pois, muitas saídas intramuros, isto é, esse
encarceramento individual – gradualmente - aniquila o sujeito. A
violência, a intolerância acomodam-se, com tamanha rapidez, que
parece ser que nós, humanos, estamos nos distanciando – em
progressão geométrica – da idéia de homem, de cultura, de
civilidade, de comprometimento – não apenas conosco – com o
outro, o meu semelhante. Extramuros, intramuros: estamos todos
assistindo, nem sempre de camarote, à nossa própria morte ... em
vida.
A
violência e o sectarismo ressecam a alma, engendrando pequenos
monstros que – muitas vezes – passam despercebidos na multidão.
É cada vez mais palpável e assustador o distanciamento da idéia
do homem/coletividade/educação: de comprometimento com outro. É
preciso, pois, trazer à tona o que está à deriva: as palavras e
os atos que foram sendo descartados ou banalizados do convívio
social com o passo do tempo.
A
barbárie – atualmente – é a palavra de ordem social. E não se
trata apenas daquela econômica. Como diz E. Morin (2002), o ato de
puro barbarismo está no próprio meio, nas relações humanas com
os mais próximos, o igualzinho a você, que se referia T.
Coelho (op. cit.).
É
preciso mudar. Quem sabe, assim, se possa (trans)formar o acervo
individual construir,
livre de estereotipações, uma ponte que leve ao contato com o
semelhante. É mais do que evidente que o caos interno é produto do
caos maior, o social. A visão é especular: um caos reflete-se no
outro (mas vai além do mito de Narciso) e vice-versa. Não é
uma rua de mão única... A caoticidade da urbe, portanto, está
formada, pois sem a multidão de eus que compõem os nós
que, por sua vez, compõem a trama, não haverá cidade. Ou seja:
haveria apenas uma cidade-fantasma. Morta.
É
mais do que necessário reverter à ordem imposta e, também, rever
os próprios valores. O mundo pede uma reflexão, posto que o indivíduo
deveria ser ético: um ser ético-social.
Não
se pode perder o compromisso (=ética) com o outro. Não se pode
perder a civilidade, o respeito ao semelhante e a diferença. A
civilidade possui relação direta com a solidariedade e é,
justamente com o individualismo exacerbado, que se acaba por
desintegrar a idéia de coletivo. Este une, solidariza, nos
civiliza, pois. É um exercício constante de aprendizado.
Educação
de si. Educação de todos nós. A educação, em sua gênese,
significa tirar para fora. Acrescento: colocar-se, expor-se.
No entanto, a educação voltada para a simples idéia da repetição
de conhecimento estimula a competitividade negativa, exagerada,
verdadeiro salve-se quem puder (ou souber). Muitas vezes aquele que
aparenta uma sapiência irretocável esconde-se de todo possível
confronto, crise ou conflito que possa vir a ocorrer quando nos
despimos frente ao outro das máscaras que usamos. Ao fazer isto,
perde-se oportunidades de crescimento e de mudanças. Não podemos
virar camaleões. Como bem diz Eduardo Galeano (1975, p.176), tempo
dos camaleões:(...) considera-se culto quem oculta, rende-se culto
à cultura do disfarce (...) dupla linguagem, dupla moral: uma moral
para dizer, outra moral para fazer.
Deve-se
dar corpo às palavras, o que significa vesti-las com nossas ações
cotidianas, visando à civilidade, ao respeito, aquele outro
desconhecido, mas que é semelhante. Sem moralidade, sem duplas
faces. É necessário, então, exercitar o discurso com a práxis
vivencial, urbana. Caso contrário, a separação entre o que se
é – ou o que se pode vir-a-ser – e a moral do disfarce pode
ocasionar um ser antagônico, desparticularizado, pois o disfarce
pode ser permanente. O que causaria a dicotomização entre a
maneira como experienciamos o mundo e o discurso, no caso teórico,
que fazemos dele.
Se
quisermos, realmente, mudar é preciso que vejamos com outros olhos
àqueles que nos cercam, mesclando a razão e a emoção. A
sensibilidade deve estar presente em nossa vida na urbe. A esse
respeito, há um provérbio chinês – sob forma de graffiti - que
foi muito usado, em maio de 68, e que é por demais pertinente ao
que se quer dizer: a inteligência caminha mais que o coração
mas não vai tão longe. Assim que necessitamos, desejamos e
sonhamos colocar a inteligência para trabalhar a nosso favor em
beneficio de todos; necessitamos e desejamos sentir,
emocionarmo-nos. Só assim o conhecimento adquirido, mais as experiências
particularizadas, não se tomam obsoletas, solidificadas. O
conhecimento e as experiências precisam de ar. O ar de um tempo que
se quer novo. Aquele que desejamos. A utopia transformada,
finalmente, em realidade.
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