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Por VALÉRIA
LIMA GUIMARÃES Mestre
em História, professora universitária e da rede estadual de
ensino do Rio de Janeiro
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Duas
cervejas, o Pagodinho e o mundo a girar...
A
escola do mundo ao avesso é a mais democrática das instituições.
Não requer exame de admissão, não cobra matrícula e dita seus
cursos, gratuitamente, a todos e em todas as partes, assim na terra
como no céu: não é por nada que é filha do sistema que, pela
primeira vez na humanidade, conquistou o poder universal.
(Eduardo
Galeano)
Há
alguns dias o Brasil vem debatendo com interesse a “mudança” de
cerveja de Zeca Pagodinho. O caso ganhou as capas dos principais
jornais, a televisão virou um campo de batalha entre as duas
cervejarias e o resultado foi exatamente aquilo que o cantor sempre
disse detestar: a superexposição e a invasão da sua privacidade.
Até o apelido de “traíra” lhe foi dado. Além da batalha de
marketing, as duas empresas se preparam para enfrentar também uma
batalha nos tribunais, entulhando ainda mais as prateleiras da Justiça.
Vale tudo na guerra pelo consumidor. Vale inclusive, apelar para a
malandragem brasileira, o jeitinho de dar um jeitinho em tudo.
Na
primeira propaganda, Zeca Pagodinho não convenceu. Foram rápidas
as piadas circulando nas rodas de bate-papo ao vivo ou virtuais,
questionando a sua aprovação para a “nova” cerveja. Não
convenceu, mas muita gente resolveu, mesmo assim, seguir o seu
conselho e a cervejaria bateu recordes de venda.
Na
segunda, o artista aparece bem mais à vontade e num samba bem
irreverente, o malandro fala da volta para o seu verdadeiro amor,
depois de um deslize. “E quem já não viveu um amor de verão?”,
pergunta o sambista, recordista de vendas em todo o Brasil. A metáfora
da mulher-cerveja ainda é uma fórmula bastante eficiente da indústria
do marketing em nossa sociedade patriarcal.
Os
marqueteiros foram rápidos e bolaram diversos “direitos de
resposta”: página inteira nos jornais criticando a fusão da
AMBEV com uma cervejaria belga e as implicações para um país de
terceiro mundo na economia globalizada; uma nova propaganda acusando
o artista de mercenário e traidor, além das já citadas ações
judiciais.
Temos
realmente brilhantes mestres da propaganda, que justificam os muitos
prêmios internacionais. É chegada a hora da tréplica, com estréia
em horário nobre, nos intervalos da novela das oito (ou melhor, das
dez). A guerra das cervejas também se tornou uma novela de grande
audiência, por sinal. Na berlinda, o artista. A cervejaria foi às
ruas ouvir a voz de Deus. Os entrevistados dizem que não há mal
nenhum em “mudar de opinião”.
Muitos
dos grandes sambistas do passado não viveram para ver chegar o
tempo em que seriam disputados e muito bem recompensados para
declararem o seu amor pela (s) cerveja (s).
Ironicamente, uma garrafa de cerveja já foi pagamento para
quem vendesse suas belas composições, que mais tarde fariam
sucesso na voz de um grande cantor e jamais lhes renderiam um tostão
sequer para comprar uma “lourinha”.
Hoje,
a exploração do artista tem o perfil da economia globalizada, dos
grandes investimentos de capitais, da aplicação da “lei do Gérson”
até as suas últimas conseqüências. Em nossa sociedade de
consumo, o artista também é descartável (este por sua vez, tenta
também extrair vantagens da situação). É o que indica essa
batalha entre as cervejarias, que leva à exaustão o questionamento
da postura do cantor e procura isentar as duas empresas, respaldadas
pelas cláusulas contratuais.
Eduardo
Galeano já escreveu que o mundo ao avesso gratifica o avesso:
despreza a honestidade, castiga o trabalho, recompensa a falta de
escrúpulos e alimenta o canibalismo. Na batalha entre duas gigantes
do gênero de “primeira necessidade” do brasileiro, o
questionamento é feito sobre o caráter do artista que, com todo o
seu carisma e toda a parafernália da indústria do consumo, fez os
brasileiros utilizarem a velha e conhecida fórmula do jeitinho para
entenderem, perdoarem... e mudarem de cerveja, mas – seria trágico
se não fosse cômico – com
“moderação”, ensina.
No
fundo, no fundo, o que está em jogo não é exatamente a postura
antiética do cantor, tão comentada nos últimos dias. Desse
“recurso” (o jeitinho), muitas empresas e propagandas se valem
sempre que lhes convêm. Os possíveis prejuízos para as empresas são,
estes sim, a grande questão. Coube às agências de propaganda agir
rápido para converter a “polêmica” em vantagens financeiras
para todos os lados envolvidos – e personificar o problema na
figura do artista.
Agora
mesmo estréia uma propaganda de conhaque, um concorrente das “polêmicas”
cervejas, que brinca com o “episódio Luma de Oliveira”. Extrair
vantagem desses anti-valores são eles sim, o centro da verdadeira
polêmica.
Definitivamente,
o avesso é a norma. Mas, prefiro ainda a resposta de Galeano: “não
há desgraça sem graça, nem cara que não tenha sua coroa, nem
desalento que não busque seu alento. Nem tampouco há escola que não
encontre sua contra-escola.” E que vença a arte de Zeca
Pagodinho, um dos melhores cronistas da nossa cultura popular.
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